13 de Março de 2010

Coleção Mestres do Pensar



A editora Loyola nos tem brindado com algumas boas novidades de filosofia. Vale a pena divulgar a sua coleção de bolso "Mestres do Pensar", que já foi lançada a algum tempo. Os autores são filósofos de competência reconhecida e, com exceção do livro de Hare sobre Platão, todos os livros foram traduzidos da coleção “Very Short Introductions”, da editora Oxford. Eu só tive um pequeno problema: pura e simplesmente não encontrei a coleção “Mestres do Pensar” no site da editora Loyola. Como o leitor pode reparar, o título que aparece no site é outro: Mestres do Pensamento. Até agora estou sem compreender o motivo dessa troca de nomes, vai entender.

12 de Março de 2010

Música

Eis alguns dos problemas filosóficos da música.

10 de Março de 2010

W. V. O. Quine

Não há qualquer outro sentido mais profundo de “realidade” do que o sentido em que pertence à própria ciência procurar a essência da realidade, com o seu método hipotético-dedutivo de conceptualização e experimentação, método que se corrige a si mesmo.

9 de Março de 2010

Filosofia do direito em português



A maioria das editoras brasileiras tem o péssimo hábito de divulgar mal os seus livros: a publicidade na área é amadora, os catálogos das editoras geralmente são desatualizados e só sabemos das novidades quando nós mesmos procuramos nas livrarias ou somos informados por alguém que conhecemos. O meu objetivo aqui é informar que uma bibliografia básica de qualidade inteiramente em português já está disponível para os interessados em filosofia do direito:

Valor Respeito E Apego
Joseph Raz

Razão Prática e Normas
Joseph Raz

Problemas de Filosofia do Direito
Richard A. Posner

Filosofia - Moral e Política: Liberdade, Direitos, Igualdade e Justiça Social
Paul Smith

Lei Natural E Direitos Naturais
John Finnis

O Conceito De Direito
L.A.Hart

Ensaio sobre Teoria do Direito e Filosofia
L.A.Hart

Direito, Liberdade, Moralidade
L. A. Hart

H. L. A. Hart
Neil MacCormick

Retórica e o Estado de Direito
Neil MacCormick

Argumentação Jurídica e Teoria do Direito
Neil MacCormick

Filosofia e Teoria do Direito
Martin Golding

Uma breve história da justiça distributiva
Samuel Fleischacker

Uma introdução aos direitos
William Edmundson

Justiça como equidade – um reformulação
John Rawls

O Direito dos Povos
John Rawls

Uma teoria da justiça
John Rawls

Justiça e Democracia
John Rawls

As Teorias da Justiça Depois de Rawls
Roberto Gargarella

Liberalismo e os limites da justiça
Michael Sandel

O Mito da Propriedade
Liam Murphy e Thomas Nagel

Os Elementos Da Justiça
David Schimidtz

O Direito da Liberdade, a leitura moral da constituição norte-americana
Ronald Dworkin

Uma questão de princípio
Ronald Dworkin

O Império do Direito
Ronald Dworkin

Levando os direitos a sério
Ronald Dworkin

A Virtude Soberana - A Teoria E A Prática Da Igualdade
Ronald Dworkin

Anarquia, Estado e Utopia
Robert Nozick

Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial
Louis P. Pojman

Esferas da Justiça - Uma Defesa do Pluralismo e da Igualdade
Michael Walzer


A editora Elsevier lançará ainda este ano os livros:

Ronald Dworkin, de Stephen Guest

A Moralidade da Liberdade, de Joseph Raz

O feminismo de Mill


Acabo de publicar uma recensão de Fernanda Belo Gontijo do livro A Sujeição das Mulheres, de J. S. Mill (Almedina).

Kenny na Gradiva

A Gradiva acaba de anunciar a publicação em Abril, Junho, Setembro e Novembro dos quatro volumes da Nova História da Filosofia Ocidental, de Sir Anthony Kenny. Originalmente publicada na Oxford University Press, e com edição brasileira pela Loyola, trata-se da mais importante história da filosofia publicada nos últimos vinte anos pelo menos. Actualizada, rigorosa, de leitura agradável, é uma obra obrigatória para professores, estudantes e qualquer pessoa interessada na história da filosofia. E é bonita só de folhear graças à riqueza das ilustrações.

Uma das importantes inovações desta obra é que cada volume está dividido em duas partes. Na primeira, apresenta-se uma narrativa cronológica das ideias dos principais filósofos da época respectiva, integrando-os no seu contexto histórico, social, político e económico. Na segunda, Kenny aprofunda os problemas, teorias e argumentos discutidos na época, tema por tema: com capítulos dedicados à ética, Deus, ciência, metafísica, linguagem, etc.

Não se espere encontrar nesta obra o género de lugares-comuns infelizmente endémicos nas zonas mais carentes da cultura académica e popular: as tolices da caverna de Platão ou da água de Tales ou a suposta viagem transcontinental do “mito à razão” e outras caricaturas ridículas que transformam a filosofia em telenovela. Aqui, encontramos história filosófica da filosofia e não conversa de café disfarçada de erudição.

Sir Anthony Kenny (n. 1931) é um dos mais respeitados filósofos e historiadores da filosofia. Professor de Filosofia no Balliol College de Oxford, foi seu Presidente durante doze anos. Presidiu igualmente à Academia Britânica. Actualmente, é Presidente da Fundação Rhodes de Oxford. É autor, entre outras obras, de Action, Emotions and the Will (1963), Descartes (1968), The Five Ways (1969), Wittgenstein (1973), Will, Freedom and Power (1975), The Aristotelian Ethics (1978), Freewill and Responsibility (1978), Aristotle's Theory of the Will (1979), Aquinas (1980), Thomas More (1983), The Legacy of Wittgenstein (1984), The Logic of Deterrence (1985), The Metaphysics of Mind (1989), Aristotle on Perfect Life (1992), What is Faith? (1992), Aquinas on Mind (1993) e Frege (1995). Dele está publicada em Portugal uma excelente história da filosofia mais condensada, ideal para o ensino secundário: História Concisa da Filosofia Ocidental (Temas & Debates).

Uma Pequena História do Mundo

Ernst Gombrich é conhecido sobretudo como historiador da arte. Mas é um historiador da arte que revela um tipo de preocupações fora do comum entre os historiadores. O seu livro Arte e Ilusão aventura-se mesmo por domínios da psicologia e da filosofia da arte, onde consegue revelar uma solidez inesperada. A filosofia da arte de Goodman, por exemplo, foi notoriamente influenciada por Arte e Ilusão
Fiquei com bastante curiosidade quando, no Verão passado, me deparei numa livraria com um pequeno livro de bolso das Edições Tinta da China intitulado Uma Pequena História do Mundo, de Gombrich, destinado a jovens adolescentes. Decidi comprar. Bastou-me começar a ler o primeiro dos 40 curtos capítulos do livro para já não conseguir parar. 

Gombrich escreve de uma forma tão clara e acessível sobre a história do mundo (sim, começa antes  mesmo de haver pessoas) que faz lembrar Sagan acerca da ciência. Nesta história não nos deparamos com uma sucessão de factos e datas apresentados de forma dogmática. Pelo contrário, além de poupar o leitor a esse exercício, Gombrich explica como se chegou a saber o que refere e, em muitos casos, antecipa as dúvidas que o jovem leitor naturalmente poderia colocar, dando-lhe mesmo razão. E está lá tudo o que foi realmente importante, descrito de uma forma iluminante e informativa. 

Um dos melhores livros que li ultimamente, apesar de não ter sido escrito para adultos. Um livro fascinante.   

8 de Março de 2010

R. G. Collingwood

Como outros revolucionários, agradeço a Deus pelos reaccionários. Eles clarificam a questão.

7 de Março de 2010

Thomas Nagel

Uma hipótese científica pode ser falsa e sem sustentação indiciária. Isso é uma razão suficientemente boa para não a ensinar na escola às crianças. Não é necessário argumentar que não é ciência, nem que nem sequer é ciência irremediavelmente má.

O direito de defender o criacionismo



Levei um susto ao ser informado que Thomas Nagel, filósofo respeitado e influente, tenha escolhido o livro criacionista Signature in the Cell: DNA and the evidence for Intelligent Design, de Stephen C. Meyer, como um dos melhores livros do ano. O livro é repleto de especulação religiosa contrária ao evolucionismo e (como acontece com os outros livros desse gênero) sequer é mencionado na literatura científica relevante.

Fui procurar mais informações e descobri que Nagel tem defendido recentemente ("Public Education and Intelligent Design", Philosophy & Public Affairs 2008) que o criacionismo não é pseudociência, mas má ciência. E como toda má ciência ainda é um tipo de ciência, argumenta Nagel, as decisões jurídicas de proibir o ensino do criacionismo são incorretas. Eu discordo deste argumento. Como qualquer pessoa que se deu ao trabalho de discutir calmamente com um criacionista sabe, as hipóteses criacionistas são imunes ao processo normal de justificação crítica e argumentada e, portanto, não podem ser consideradas como ciência.

O argumento de Nagel a favor do ensino do criacionismo não me convenceu e sua a escolha do livro criacionista me deixou surpreso. Mas o que me deixou ainda mais surpreso foi a reação fanática de alguns ateus, como Brian Leiter, frente a escolha de Nagel. A reação extremada de Leiter e outros é uma clara tentativa de silenciar Thomas Nagel, o que é inaceitável. Nagel tem o direito de defender o que bem entender, incluindo o criacionismo, por mais infundado que este seja.

Fiquei com a impressão de que Leiter é daqueles ateus militantes que assumem o evolucionismo como uma espécie de hino de guerra aos religiosos, pressupondo erradamente, como os próprios criacionistas, que o evolucionismo e o ateísmo são indissociáveis. A defesa fanática do ensino do criacionismo é uma opção tão prejudicial quanto a defesa fanática do evolucionismo. E ambas contribuem para uma vulgarização extremada do debate público entre criacionistas e evolucionistas, impossibilitando qualquer discussão que não seja pura propaganda ideológica.

Theodore Dalrymple

Theodore Dalrymple já foi comparado a George Orwell, e não é apenas por usar um pseudónimo literário; no entanto, não se situa à esquerda, politicamente, mas antes à direita. Mas encontra-se nele, de facto, algo da mesma lucidez de Orwell: inteligência penetrante e uma insistência em ver a realidade sem as distorções das ideias feitas, das ideologias partilhadas e do que se considera que é bonito pensar hoje em dia, ambos servidos por uma prosa quase tão magistral quanto a de Orwell.

"Thank You For Not Expressing Yourself" acaba de ser publicado e é sobre este fenómeno inacreditável que se encontra nos comentários da Internet: a falta de civilidade, simpatia e sensatez. Tudo começa com o que aconteceu recentemente a Dawkins, que pretendeu eliminar o imenso ruído (comentários irrelevantes e sem relação com o conteúdo que supostamente estaria a ser comentado) dos comentários do seu site; a reacção não se fez esperar, e todos os nomes feios lhe chamaram. E a primeira ideia é logo falar de censura -- um completo absurdo, como nota o doutor Theodor, porque a censura é impedir alguém de ser publicado; não é censura recusar-se a publicar o que alguém escreve. Ou seja, não é censura eu impedir neste site, como Dawkins, os comentários irrelevantes ou tolos ou insultuosos, porque não estou a impedir essas pessoas de publicar precisamente essas coisas, mas noutro lado qualquer que não aqui. Censura seria eu impedi-las de publicar essas coisas, não aqui, mas em absoluto.

O fenómeno da irrelevância e da falta de civilidade nos comentários da Internet é muito interessante, e o doutor Theodore faz dele uma análise que subscrevo. Acrescento apenas que estaríamos a recusar ver a realidade caso se considerasse que é o meio que faz as pessoas agirem como brutos não o sendo todavia; pelo contrário, a vantagem do meio é mostrar à humanidade o que a humanidade realmente é: um grupo de pessoas totalmente reféns dos brutos que entram a matar e eliminam a possibilidade da discussão racional de ideias, de alternativas, de propostas. Na verdade, eliminam a possibilidade de qualquer outro género de sociedade excepto uma sociedade de brutos, que é a única que conseguem conceber. O curioso disto, como nota o doutor Theodor, é que muitos destes brutos são professores universitários (escondidos pelo habitual anonimato da Internet).

6 de Março de 2010

Heidegger e o nazismo

Heidegger era nazi. Contudo, muitos admiradores do filósofo consideram que esse é apenas um aspecto da sua biografia, mas não da sua filosofia. Outros, contudo, consideram que a filosofia de Heidegger é intrinsecamente nazi, não sendo a experiência de ler o Mein Kampf muito diferente da de ler Sein und Zeit. É isto mesmo que defende Emmanuel Faye, professor de filosofia na Universidade de Rouen.

4 de Março de 2010

Arte e instinto

O Aires Almeida já tinha aqui falado que esta seria uma leitura a fazer em 2009. Agora podemos fazê-la em língua portuguesa. Arte e Instinto de Denis Dutton. A edição é da Temas & Debates, 2010. Fica convidado o Aires para expor com maior precisão o conteúdo desta obra.

Filosofia e ciência

Quando dou aulas de filosofia existe sempre um problema que incomoda os meus alunos e que gostava de discutir com os nossos leitores. Será que a ciência resolve os problemas que os filósofos colocam ao longo de tantos séculos? Se a resposta for afirmativa então segue-se outra questão: e será possível fazer ciência sem fazer filosofia ao mesmo tempo? Se a resposta continuar afirmativa, então qual é o ponto exacto que nos faz compreender quando se está a fazer filosofia e quando se está a fazer ciência?

3 de Março de 2010

Wook com menos 20%

A livraria online portuguesa Wook faz hoje e amanhã apenas um desconto excepcional de 20% em todos os livros, excepto escolares.

2 de Março de 2010

Cambridge Companion to Atheism

A edição portuguesa de Cambridge Companion to Atheism, org. por Michael Martin, já tem capa e é bonita. Com tradução minha, este volume tem artigos, entre outros autores, de William Lane Craig, Keith Parsons, Evan Fales, Daniel C. Dennett, David O. Brink, Quentin Smith e Patrick Grimm. Editada pela 70, estará à venda em Portugal em finais de Abril. Um capítulo está disponível na Crítica: "Teorias Antropológicas da Religião", de Stewart E. Guthrie.

Weinberg, a ciência e os seus críticos

Acabo de publicar uma recensão de Pedro Pereira Romano do livro Facing Up, de Steven Weinberg.

Vale a pena fazer um comentário à parte final da recensão, na qual o Pedro refere a posição algo crítica de Weinberg perante a filosofia. Isto é algo que já li noutro livro do autor. Em pratos limpos, a crítica parece tola, porque é algo como "não tem aplicação prática, logo não interessa". Um pouco como dizer que tal como a biologia é inútil porque seria largamente irrelevante para um pastor, assim também a filosofia seria inútil porque é largamente irrelevante para um cientista.

Há um sentido em que Weinberg tem razão, e outro em que não o tem.

O sentido em que não tem razão é óbvio: a filosofia, tal como outras áreas da investigação, não são importantes por causa do seu carácter prático ou por permitir fazer melhor ciência ou pontes ou curar doenças, mas apenas porque são as nossas melhores tentativas para enfrentar problemas que nos interessam. E não interessa se não conseguimos resolvê-los realmente, porque seria tolo parar de tentar -- pois aí é que não conseguiríamos mesmo resolvê-los.

Mas há um sentido em que tem razão: é uma crítica à ideia de que primeiro devemos fazer uma reflexão aturada sobre os nossos métodos para, depois de os estabelecer, os aplicar para fazer a investigação propriamente dita. Isto é uma tolice porque só descobrimos os métodos à medida que investigamos as coisas; e muitas vezes nem sequer compreendemos bem os métodos que usamos e que têm funcionado adequadamente. Neste sentido é uma palermice declarar que antes de alguém investigar algo sobre átomos ou o Big Bang ou a tuberculose ou as vacas, tem de vir o filósofo, na sua tarefa de metodólogo, estabelecer primeiro os métodos.

E isto é tão tolo na ciência quanto na filosofia: os novos e opostos métodos filosóficos propostos respectivamente por Descartes e Hume teriam hoje caído no esquecimento não fosse o trabalho real de investigação filosófica levada a cabo por eles; as suas investigações são interessantes independentemente de aceitarmos -- ou sequer de compreendermos bem -- as posições metodológicas por eles defendidas.

Em suma, no que respeita à metodologia, a prova do pudim está em comê-lo -- pela simples razão de que se uma investigação sobre X é difícil, mais difícil ainda é estabelecer previamente os métodos dessa investigação. A ilusão é pensar que estabelecer métodos sobre a investigação de X é algo que podemos fazer independentemente da investigação de X propriamente dita.

1 de Março de 2010

Contra o acordo ortográfico, uma ILC

Cidadãos lançam iniciativa contra acordo ortográfico no Facebook: notícia no Público. A ideia tem todas as hipóteses de vencer, pois lança mão de uma figura constitucional que só uma vez foi usada antes em Portugal, e com sucesso: ILC, Inciativa Legislativa de Cidadãos. Ligação...

A liberdade de expressão tem graus?

Muito se tem falado ultimamente em Portugal sobre liberdade de expressão. A baixa política tem-se encarregado de tornar a discussão desinteressante: uns dizem que há liberdade de expressão em Portugal e outros que não, consoante a filiação partidária. Parece que é tudo uma questão de haver ou não haver liberdade de expressão. Mas vale a pena pensar se essa (há ou não há?) é uma forma correcta de colocar a questão da liberdade de expressão, pois, se houver graus de liberdade de expressão, a discussão muda de figura. 

O que acha o leitor?

27 de Fevereiro de 2010

Vamos brincar à unificação

O uso do acento circunflexo ou agudo nas vogais passa a depender da forma como essas vogais são lidas em cada país. Visto que a pronúncia de palavras como tônico / tónico é diferente no Brasil e nos restantes países, na prática continua a escrever-se da mesma forma: em Portugal, nos PALOP e em Timor continua a escrever-se tónico, no Brasil mantém-se a forma tônico. No entanto, ambas as formas passam a ser legalmente corretas em todos os países, desde que usadas de forma sistemática, sendo a norma de cada país a determinar a forma que deve ser usada no seu espaço geográfico.
Fonte: http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=vop&page=crit1

Deixem-me ver se entendi. Agora temos uma só ortografia. Viva! Vamos conquistar o universo. Mas, no Brasil só pode escrever-se "tônico" e em Portugal "tónico". Tal como, na nova ortografia, no Brasil se escreve "excepcional", "espectador" e "percepção", ao passo que em Portugal se escreve "excecional", "espetador" e "perceção". Mas então onde está a unificação? Se estou a publicar um livro no Brasil tenho de escrever de uma maneira; mas em Portugal de outra. Onde está a unificação? O mais irónico é que antes da unificação as coisas já eram assim: havia muitas palavras que escrevíamos de maneira diferente, e outras não. Como agora. Com a diferença que antes toda a gente escrevia "espectador", mas agora os portugueses passam a escrever de maneira diferente.

Repare-se no texto acima como se faz a mentira política: em negrito a afirmação triunfante de que agora só temos uma ortografia. Viva! É assim muito mais fácil publicar livros iguais nos dois países. Mas... depois vem o sublinhado: não se pode usar no mesmo livro ora "excepcional" ora "excecional", como podemos usar ora "cousa" ora "coisa" (a razão disto não é esclarecida). Bom, afinal não há assim tanta integração das duas variantes ortográficas. Mas o pior é o que vem depois, em itálico: é a norma de cada país que determina se posso publicar um livro com "cousa" ou "coisa", perdão, com "espetador" ou "espectador".

Estou arrasado. Expliquem-me outra vez melhor como é que esta tolice da nova ortografia unifica o que quer que seja. Para unificar, na minha humilde opinião, seria necessário 1) não mudar ortografias que anteriormente eram iguais, como "percepção" e 2) encarar cada variante ortográfica como legal e sem fronteiras, como acontece com "oiro" e "ouro", podendo ocorrer em cada um dos países, e ambas no mesmo texto. Ou estou a ver mal?

Ainda alguém duvida que esta nova ortografia é uma mentira política? Ou isso ou as pessoas que o fizeram são infantilmente incompetentes.

26 de Fevereiro de 2010

A pequena celebração

Li Bai (701-762), também conhecido como Li Po, foi um dos melhores poetas chineses, talvez até o melhor, só rivalizado pelo imenso Du Fu. Um dos seus poemas que me tem acompanhado na memória ao longo dos anos, na tradução inglesa de J. C. Cooper, é esta pequena celebração, que aqui traduzi para português --  partindo da versão inglesa, pois infelizmente não sei mandarim. Este poema em particular, um dos mais belos, foi objecto no séc. XX de inúmeras traduções inglesas. Escolhi a que mais gosto. Depois da minha tradução, está a tradução inglesa usada numa composição musical de Vangelis, que a acompanha na perfeição.

A pequena celebração, de Li Bai

Bebo entre as flores uma garrafa de vinho.
Somos três, se contarmos a minha sombra
E a Lua cintilante.
A Lua nada sabe felizmente sobre vinho,
E a minha sombra nunca tem sede.

Canto e a Lua ouve-me em silêncio.
Danço e também a minha sombra dança.
Em todas as celebrações há a tristeza da despedida,
Mas esta tristeza é-me desconhecida.
Quando vou para casa a Lua vai comigo
E a minha sombra acompanha-me.

25 de Fevereiro de 2010

Proposta para uma nova ortografia

Eis uma sugestão a todos os que, algo sofisticamente, têm argumentando que devemos adoptar a nova ortografia, mas reconhecem que tem vários problemas que devem ser corrigidos. Vamos então corrigi-los. Só os mais graves.

Hífenes. Esqueça-se aquela ambiguidade do texto oficial, e use-se antes o bom senso: aceite-se a norma anterior porque temos mais que fazer do que mexer em hífenes, e para os casos bicudos adopte-se a regra simples de usar hífen ou não consoante precisamos de marcar que se trata de uma só palavra, mas composta, como “cor-de-rosa” (até porque uma rosa pode não ter cor de rosa), ou consoante se trata de uma aposição como “anti-” (não vejo a vantagem fantástica de ter de escrever “antissocial”).

Consoantes mudas. Esqueça-se o absurdo critério fonético, que obrigaria portugueses a deixar de escrever “aspecto” passando a escrever “aspeto”, ao passo que os brasileiros continuariam a escrever “aspecto”, entre muitos outros casos. Elimine-se apenas as consoantes mudas que nenhum lusófono pronuncie; apesar de mesmo assim ficarmos com os disparates orto-fonéticos de “ação” (que em Portugal se lê intuitiva e correctamente como “assão”, sem o “a” aberto), sempre seria melhor do que a mentira actual, segundo a qual temos agora uma nova ortografia unificada… mas com duas variantes, que é exactamente o mesmo que tínhamos antes.

Viagem no tempo. Em vez de se ter permitido que duas pessoas sem grande sensatez humana e ainda menos competência linguística fizessem entre eles um texto absurdo, depois sancionado por políticos semi-analfabetos, contratava-se verdadeiros linguistas das novas gerações, gente com menos de 40 anos e cuja lista de leituras não termina toda mais ou menos nos anos 40 do século passado. E teríamos tido, de certeza, um resultado cientificamente sólido e humanamente equilibrado. E, quem sabe, uma verdadeira unificação ortográfica. Até nem era difícil: era começar por eliminar o cientismo axiomático que pretende mudar as ortografias com base em Grandes Princípios Gerais, e fazer uma coisa pragmática, olhando para todas as diferenças ortográficas e eliminando ora as de um lado ora as de outro, caso a caso. Que tal?

Introdução ao Pensamento Islâmico

Chega-me a notícia desta novidade da 70: Introdução ao Pensamento Islâmico, de Abdullah Saeed.

24 de Fevereiro de 2010

23 de Fevereiro de 2010

Ned Block e Philip Kitcher

"Misunderstanding Darwin" é uma boa discussão do último livro de Jerry Fodor e Massimo Piatelli-Palmarini.

Um erro estrutural no pensamento de muitos filósofos é o que podemos chamar possibilismo: a ideia de que seja qual for a possibilidade em que se consegue pensar, terá de ser excluída por um qualquer argumento dedutivo formal ou então teremos de viver com ela. Este género de falácia está presente na ansiedade cartesiana para excluir a mera possibilidade vaga de estar a sonhar e nos argumentos cépticos contra a possibilidade do conhecimento. A resposta correcta é a dada por Russell em Os Problemas da Filosofia: não se pode excluir logicamente tais possibilidades, mas não há qualquer razão para as aceitar, e são menos plausíveis do que as outras.

Mas o possibilismo é persistente. Está presente no idealismo e no kantismo, tão prevalecente nas zonas mais anémicas da cultura filosófica: como não se consegue provar matematicamente que existe um mundo largamente independente de nós, então não existe tal mundo e tudo é pensamento, representações, ideias nossas, interpretações, narrativas; como há sempre várias maneiras de descrever a mesma realidade, incompatíveis entre si mas compatíveis com os mesmos dados, então a realidade é indeterminada, ainda que exista.

Precisamente por se apoiarem no possibilismo, Fodor e Piatelli-Palmarini cometem os erros apontados por Ned Block e Philip Kitcher. Para aqueles autores, teria de haver uma maneira lógica de excluir propriedades esquisitas, mas como não há tal coisa, acabou-se a teoria de Darwin, porque agora qualquer uma de uma infinitude de propriedades poderá ser responsável pela selecção. A resposta de Block e Kitcher é como a de Russell: não podem ser excluídas, mas são irrelevantes cientificamente.

Só faltava acrescentar que o raciocínio científico deve o seu sucesso, entre outras coisas, ao conservadorismo epistémico, que é o que se opõe ao possibilismo. Consiste em ser tão conservador quanto possível ao levantar hipóteses explicativas; avança-se apenas para entidades, energias, forças, seja o que for de afastado do senso comum, quando isso é mais económico e plausível do que continuar a usar as explicações e categorias que já usávamos antes. Quem me dera que mais filósofos compreendessem este aspecto fundamental do sucesso epistémico e parassem de explorar meras possibilidades lógicas a favor das quais não há qualquer motivação, esperando depois que os refutem. Como Moore viu, a hipótese de que tenho duas mãos é muito mais plausível do que a hipótese de que os cépticos têm razão; ambas podem estar erradas e ambas podem ser refutadas, mas qual delas é mais sensato aceitar?