Confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com a qualidade do ensaio de José Gusmão Rodrigues, um aluno do secundário que foi capaz de defender de forma argumentada, em inglês e em apenas quatro horas, o que a esmagadora maioria dos professores, tanto do secundário como universitários, não consegue fazer em português e em quatro semanas. Os candidatos tiveram de escolher um dos quatro tópicos que lhes foram apresentados sem conhecimento prévio, sendo de seguida avaliados anonimamente por um júri especializado.
Cada tópico era acompanhado por uma citação de algum filósofo, tendo José Rodrigues escolhido o tema ilustrado pela afirmação «A arte não é uma cópia do mundo real. Uma dessas malditas coisas já é suficiente». Citação retirada de
Linguagens da Arte, de Nelson Goodman, que serve para José Rodrigues discutir o problema do valor da arte. Uma das coisas que imediatamente se nota no ensaio de José Rodrigues é a clareza do discurso argumentativo e a articulação de ideias, aliados a uma sólida cultura filosófica e a um conhecimento notável das ideias discutidas (é o caso da breve discussão da teoria icónica da representação, de Suzanne Langer), recorrendo frequentemente a exemplos e a contraexemplos esclarecedores. Além disso, José Rodrigues não se limita a fazer uma espécie de relatório crítico sobre as principais teorias em causa. Como qualquer filósofo, procura avançar com ideias próprias.
José Rodrigues começa por formular genericamente o problema do valor da arte e anuncia que irá defender no seu ensaio uma perspectiva instrumentalista. Esclarece, contudo, que o instrumentalismo defendido por ele é diferente do que é defendido por Goodman. Diferentemente do instrumentalismo construtivista de Goodman, José Rodrigues procura defender uma perspectiva instrumental inspirada no Wittgenstein das Investigações Filosóficas e na filosofia de Heidegger. Penso que este é o aspecto menos conseguido do seu ensaio, uma vez que, por um lado, não se chega a perceber bem em que sentido o desvelamento do Ser heideggeriano operado através da arte se enquadra numa perspectiva instrumentalista da arte e, por outro lado, em que sentido isso pode ser considerado conhecimento experiencial, como era suposto ser, de acordo com José Rodrigues. O ensaio não acaba, pois, da melhor maneira, embora seja de ter em conta que se trata de um pequeno ensaio com cerca de cinco páginas, não sendo assim possível justificar adequadamente tudo o que se defende. Seja como for, nada disso retira mérito ao ensaio de José Rodrigues, uma mente filosófica que não pode ser desperdiçada (espero que continue a estudar filosofia, pois tem claramente futuro).
Por curiosidade, li também os outros ensaios medalhados em Viena e, em minha opinião, o ensaio de José Rodrigues merecia a medalha de ouro, juntamente com o também excelente ensaio do estudante sul coreano (também ele medalha de prata). Qualquer deles me parece bastante melhor do que a medalha de ouro que foi para o aluno dinamarquês. Mas estas coisas são mesmo assim e isso até nem é o mais importante.
Entretanto, seria bom que outros alunos do secundário aparecessem e se candidatassem às Olimpíadas Nacionais de Filosofia, cujos vencedores irão representar Portugal nas Olimpíadas Internacionais de Filosofia de 2012, na Noruega.