29 de dezembro de 2008

John Shand: O que é a filosofia?


Há uma anedota recorrente entre muitos filósofos profissionais, que envolve um deles a ser encurralado durante uma festa por alguém que ao saber que se trata de um filósofo lhe pergunta: "Bom, o que é então a filosofia?" A piada reflecte na verdade o desconforto de muitos filósofos e a desconfortante consciência de não serem capazes de dar uma resposta directa e clara. Mais...

28 de dezembro de 2008

Rui Daniel Cunha: Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia, de Ludwig Wittgenstein


Quando iniciei a licenciatura em Filosofia, em meados dos anos 80, não existia em Portugal — sinal do nosso atraso filosófico — uma única obra de Wittgenstein traduzida para a nossa língua (embora no Brasil, honra lhe seja feita, já existissem algumas edições). Foi a Fundação Gulbenkian quem quebrou esta lamentável situação e inaugurou as traduções portuguesas de Wittgenstein, com a publicação do Tractatus e das Investigações Filosóficas, mesmo no final de 1987, e é desta mesma editora que nos surge agora, em edição modelar, os Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia. Mais...

Biblioteca de Babel

Os estudantes de Filosofia da Universidade do Minho acabam de inaugurar o seu novo blog, intitulado Biblioteca de Babel. Bem-vindos à rede!

22 de dezembro de 2008

Alvin Plantinga

É inteiramente correcto, racional, razoável e adequado acreditar em Deus sem quaisquer indícios ou argumentos.

21 de dezembro de 2008

William James

Se acreditamos que não há em nós quaisquer sinos a tocar a rebate quando a verdade está perante nós, parece que pregar tão solenemente que temos o dever de aguardar pelo toque do sino não passa de uma excentricidade vã.

18 de dezembro de 2008

O Pai Natal e a filosofia


P
“É moralmente errado dizer às crianças que o Pai Natal existe? Independentemente da imensa alegria e excitação de que os miúdos usufruem por acreditar no mito do Pai Natal, trata-se de uma mentira descarada! Quando estão crianças em causa, devemos colocar-nos sempre num patamar moral superior, ou devemos contemplar a possibilidade de excepções? Quando eles descobrem a verdade, não estaremos a ensinar aos nossos filhos que não se pode confiar em ninguém, nem mesmo nos próprios pais?”

R
MARK CRIMMINS: É uma pergunta interessante, sobre a qual não tenho uma posição definitiva: fiquei aliviado quando o nosso filho cedo, e com ardil, nos levou a admitir a verdade. É provável que quando os miúdos descobrem a Grande Mentira do Pai Natal a disposição deles para partir do princípio de que os pais lhes dizem sempre a verdade completa e literal sofra um certo abalo. Mas decerto a grande questão da confiança não se coloca ao nível de saber se se pode contar com o facto de os pais dizerem sempre a verdade completa e literal, mas sim se se pode contar com o facto de agirem de acordo com os melhores interesses dos seus filhos. Faltar deliberadamente à verdade com as crianças, de um modo tal que é certo que, mais cedo ou mais tarde, elas acabarão por descobrir o logro pode, em circunstâncias normais, minar a confiança delas nos pais (razão pela qual fazê-lo parece ser, em regra, má ideia), mas não vejo razão para partir do princípio de que seja sempre má ideia. Na verdade, estou convencido de que é frequente os miúdos reagirem à sua própria percepção crescente de que a magia não existe, de que o Pai Natal não existe, e assim por diante, não com ressentimento por terem sido levados a acreditar no contrário, mas tentando, com secreta esperança, manter a ficção só mais um bocadinho. Desde que o pai ou mãe em questão seja, em regra, um pai/uma mãe em quem o filho possa confiar, especialmente quando é de facto importante que possa confiar nele/a, transmitir-lhe uma crença falsa cujas consequência nefastas são irrisórias e que gera, como diz, alegria e excitação, pode ser perfeitamente aceitável. Pessoalmente, posso garantir que não guardo qualquer ressentimento contra os meus pais por causa disso.

R
LOUISE ANTONY: Tenho uma opinião bastante vincada sobre este assunto, uma opinião que dá azo a grandes discussões com alguns dos meus melhores amigos: penso que não há bons argumentos para que se ensine uma criança a acreditar no Pai Natal, nem para que não se lhe diga a verdade da primeira vez que ela pergunta se ele existe.

Prima facie, uma pessoa não deve mentir aos seus filhos. Mais grave ainda, uma pessoa tem o dever de não tentar convencê-los positivamente de coisas que estão para lá de falsas – de coisas que são absurdas. Agora, que razão é suposto poder invocar-se para que inculcar a crença no Pai Natal seja uma excepção a esta proibição? O facto de a criança experienciar alegria durante o período em que acredita no Pai Natal? Regra geral, não se pode recorrer a este argumento para inculcar crenças absurdas, dado que há muitas crenças absurdas que trariam alegria a uma pessoa, estivesse ela disposta a acreditar nelas: a crença em que é a pessoa mais inteligente do mundo, em que vai viver para sempre, ou em que não há calorias nem colesterol no fettucine alfredo. Mais ainda, o facto de acreditar em coisas absurdas expõe aqueles que nelas acreditam a certos riscos, alguns das quais já apontadas pelo Mark Crimmins. No caso do Pai Natal, o risco de perder a confiança no testemunho dos próprios pais não é, em minha opinião, um risco de somenos. Por último, quando um pai (ou uma mãe, bem entendido) tenta activamente que a criança não tome em linha de conta argumentos perfeitamente correctos contra uma determinada proposição, esse pai/essa mãe corre o risco de a própria racionalidade vir a ser desvalorizada, e de que a criança apreenda a mensagem de que fazer sentido não é um elemento crucialmente importante. “Mas as renas voam?” “É magia!”

Portanto, não é líquido que a alegria de que as crianças beneficiam por acreditar no Pai Natal compense os eventuais resultados negativos induzidos põe esta crença. No entanto, o ponto decisivo desta questão reside no facto de as crianças não precisarem de acreditar no Pai Natal para experienciar a “alegria” que refere na sua pergunta. As crianças podem retirar enorme prazer de fingir que o Pai Natal existe, do mesmo modo que retiram grande alegria de fingir que o Poupas, ou o Super-Homem, existem. Tenho fortes suspeitas de que não é a alegria dos miúdos, mas sim a alegria dos graúdos, que está aqui em questão. São os pais que se comprazem com o facto de os filhos serem suficientemente “inocentes” para acreditar em tudo o que lhes é dito, ou que se deleitam com as coisas “amorosas” que os miúdos dizem e fazem quando acreditam em coisas que os adultos sabem ser absurdas. Ora, os adultos não têm direito a tais prazeres, e deviam abdicar deles.
Não, Virginia, o Pai Natal não existe. E é muito bom que o tenhas descoberto.
Alexander George, Que Diria Sócrates? (Gradiva)

17 de dezembro de 2008

Da miséria da vida estudantil

Apesar de não constituir o propósito principal deste blog, acontece que ocasionalmente, principalmente nos comentários, acabamos por referir a nossa experiência de licenciatura em universidades portuguesas. Para mim essa questão está já um pouco consolidada mas reveste-se de particular interesse se pensar que a licenciatura em filosofia constitui na maioria dos aspectos uma forte desilusão para as expectativas que eu tinha do curso. Não foram raras as vezes em que me convenci que não conseguia ler os textos dos filósofos já que eles só eram acessíveis ao professor, que até lia alemão, e àquela meia dúzia de alunos que frequentavam o seminário de alemão. Normalmente quando abordava um ou outro aspecto do filósofo “o tal”, respondiam-me que não era nada disso, que eu não estava a compreender o problema. Parecia que existia sempre algo mais profundo que eu era incapaz de alcançar. Naturalmente resvalei para outros quadrantes com alguma facilidade, nomeadamente com a hipótese bastante plausível de aquela malta sofria de um pedantismo insuportável e que existia ali algo infantil de afirmação social e pessoal. Curiosamente quando conversava com estudantes de outros cursos ficava na dúvida: 1) ou eles também são como eu e não passam a tal barreira só ultrapassável pelos eleitos, como os fulanos que até aprendem alemão e dinamarquês ou 2) afinal os que aprendem alemão e dinamarquês são mesmo uns pedantes. Bem, por nenhum passo de mágica passei a saber mais filosofia. O que futuramente me haveria de acontecer foi pegar num manual escolar escrito para adolescentes e perceber que me tinha escapado todo um mundo. Desde então a caminhada tem sido 1) lenta, 2) difícil e 3) não fosse a internet, muito solitária. Hoje mesmo estava a pensar nisto tudo e, sobretudo, nas dificuldades que tenho sentido. Estava também a pensar como é que tanta e tanta gente prefere viver na fantasiosa mentira e não admitir a sua deformação de base e recordei que, pelo segundo ano de faculdade, tinha eu uns 19 anos de idade, andava a distribuir em fotocópia um libelo que me tinham passado e que era a pedrada no charco daquilo que eu sentia em relação à universidade e aos estudantes. Trata-se de um libelo da Internacional Situacionista e que foi traduzido do francês por Júlio Henriques, publicado pela Fenda. Ainda guardo comigo dois exemplares originais impressos em folhas cor-de-rosa. Uma busca na internet e encontrei esse libelo. Estive a relê-lo e sob muitos aspectos ele ainda diz algo sobre a realidade dos estudantes universitários e o meio académico, pese embora os anos o tenham já politizado e desactualizado em alguns pontos. Mas vale a pena lê-lo, sobretudo para quem anda ainda nas universidades, que já não é o meu caso. Para aceder basta clicar AQUI.

16 de dezembro de 2008

Avaliar argumentos indutivos

Gostaria de lançar aqui um desafio muito simples, que é avaliar cada uma das seguintes previsões indutivas, tendo em conta as regras de avaliação de argumentos indutivos. A primeira previsão é a seguinte:

José Sócrates nunca teve uma dor de cabeça até hoje.
Logo, José Sócrates não terá uma dor de cabeça amanhã.


A segunda é a seguinte:

No último ano José Sócrates teve todos os dias dor de cabeça.
Logo, José Sócrates terá dor de cabeça amanhã.


Vamos supor que as premissas dos argumentos são verdadeiras e que, portanto, não há contraexemplos. O curioso é que a amostra indicada na premissa do primeiro argumento é maior do que a do segundo. Contudo, aceitamos mais facilmente o segundo argumento do que o primeiro. Ou não? Porquê?

13 de dezembro de 2008

Um pedido de ajuda

Alguns dos nossos leitores conhecem a terminologia espírita? Os termos ingleses que não sei como se dizem em português são os seguintes:
  • Sitter: uma pessoa que quer contactar com um morto e que para isso contacta com um médium.
  • Proxy sitter: uma pessoa que faz os preparativos e se encontra com um médium em nome do sitter.
  • Control: o espírito associado ao médium, que lhe permite contactar com o mundo dos mortos.
  • Communicator: o espírito do morto com o qual o sitter quer comunicar.
  • Sitting: uma sessão espírita.
  • Seance: isto presumo que se diz "sessão espírita", mas não tenho a certeza.

Agradeço a ajuda! Esta terminologia ocorre num livro de filosofia da religião de Rowe que estou a rever.

Peter Cave e paradoxos


Comprei este livro esta manhã. Nem sabia da sua publicação, mas apressei-me a ir a uma livraria assim que o leitor Luís Gonçalves o incluiu na sua lista de preferências dos melhores livros do ano. Já conhecia o nome de Peter Cave, um habitual da revista Philosophy Now da qual sou subscritor e dos seus livros que vi na Amazon. Mas nunca tinha lido qualquer dos seus livros. Estranhamente não me lembrava que o autor tivesse escrito um livro com o título Duas vidas valem mais que uma?. E não escreveu mesmo. Quando peguei no livro na livraria, mesmo sabendo que o ia comprar e analisar em casa, fiz algo que sempre faço quando pego em qualquer livro que é ver quem o traduz e saber qual a edição original que serviu de base à tradução. Curiosamente a edição portuguesa não menciona o original. Li o prefácio e introdução e apercebi-me que, apesar do livro ter tido revisão, merecia outra já que escaparam algumas gralhas. Ainda que não me pareça muito importante dadas as características do livro em causa, fica sempre bem uma edição sem gralhas. Se os livros se vendessem bem cá no burgo, de certeza que o editor iria reparar nessas gralhas para rever na 2ª edição. Acho que este aspecto também depende de nós, leitores. Se comprarmos livros e os lermos, os editores tem sempre a possibilidade de, com mais dinheiro, fazer melhor trabalho. Quanto ao título original, uma pesquisa na Amazon deu para perceber que se trata da tradução de Can a robot be a human? 33 perplexing philosophy puzzles. Fico sem perceber o que estará por detrás da opção do editor em alterar o título original, pelo que não tenho opções de objectar, muito embora pessoalmente não goste de ver este tipo de coisas acontecer nem vejo, à partida, qualquer espécie de vantagem em alterar o título. Talvez a nossa falta de cultura científica nos condicione a que nos preocupemos menos com robôs do que com crimes e se justifique – mal – daí a opção. Mas o que nos traz este livro? Ele coloca-nos perante 33 paradoxos e mostra-nos o quanto interessante, mas complicado pode ser pensar em cada um deles. De uma forma claramente intencional, o livro destina-se aqueles que querem pensar mas que desconhecem as ferramentas e como os problemas se devem colocar de um modo organizado. O livro não traz respostas mas constitui um excelente auxiliar para nos revelar o comprometimento que as pessoas comuns tem, mesmo sem saber, com problemas que são sofisticadamente discutidos por filósofos profissionais. Acima de tudo fico feliz que este género de livros e autores sejam divulgados e traduzidos entre nós já que é com eles que desmitificamos muitos mitos que enevoam a filosofia tal como ela tem sido mal praticada no nosso país. Livros como este são muitas vezes um princípio de acesso à filosofia e é a razão que me faz acreditar que eles são bem necessários. Recentemente a edição de Como diria Sócrates?, pela Gradiva é talvez o exemplo mais aproximado a este de Peter Cave, apesar que a edição da Gradiva é mais cuidada. Ainda assim, como já expliquei, trata-se de uma agradável e divertida forma de começar a pensar alguns problemas filosóficos de áreas que pensávamos inacessíveis, como a metafísica. Existe um poadcast com o autor no blog de Nigel Warburton. Ah, e o livro lê-se de uma assentada numa esplanada de café. Como na cidade onde vivo o inverno pouco se faz sentir, foi essa a opção que tomei. Uma bica e enigmas filosóficos.
Peter Cave, Duas vidas valem mais que uma? Enigmas filosóficos que o vão surpreender, Academia do Livro, 2008, Trad. Maria A. Campos

12 de dezembro de 2008

Empirismo e filosofia da mente, de Wilfried Sellars



Acaba de ser publicado no Brasil o livro Empirismo e Filosofia da Mente, de Wilfried Sellars, pela Vozes, com tradução de Sofia Stein (Universidade de Caxias do Sul).

11 de dezembro de 2008

A voz dos leitores: Os 10 mais de 2008

Dando voz aos nossos leitores relativamente ao desafio lançado há dias pelo Rolando, aqui vai a lista que Luís Gonçalves nos enviou com aqueles que ele considera os melhores dez de 2008.

10 Mais de 2008 – Luis Gonçalves

Informação empírica para a discussão da ÉTICA AMBIENTAL

Calma - Cool it!, Bjorn Lomborg (Estrela Polar)
Lomborg, depois do seu “ O Ambientalista céptico – Revelando a real situação do mundo”, de 2002, na Editora Campus, volta a reafirmar a sua análise crítica do debate sobre o aquecimento global, mostrando de uma forma clara, realista e baseada em dados científicos, como enfrentar os dilemas da discussão climática, dando o seu forte contributo para enfrentar as posições ecologistas radicais, nomeadamente aquilo a que ele chama a “ladainha ambientalista”.

Quente, Plano e Cheio, T. Friedman (Actual Editora)
Friedman, depois de “O Mundo é Plano – Uma história breve do século XXI”, de 2005, também na Actual Editora, onde já deixara a sua marca na análise do mundo contemporâneo, no que concerne ao papel das mudanças económicas, sociais e políticas nas organizações, nas sociedades e nos indivíduos, vem agora defender a necessidade de uma revolução verde, ou como ele próprio afirma: “E o que fizermos relativamente aos desafios da energia e do clima, da conservação e da preservação, dirá aos nossos filhos quem somos nós na verdade. São decisões sobre quem somos, o que valorizamos, em que tipo de mundo queremos viver e como queremos ser recordados.”

FILOSOFIA POLÍTICA

Manual de Filosofia Política, João C. Rosas (org.) (Almedina)
Uma discussão dos principais modelos teóricos políticos e de alguns dos problemas políticos mais marcantes deste tempo em que vivemos, de uma forma organizada, sustentada e motivadora. É um excelente instrumento de trabalho numa área da filosofia menorizada nos programas actuais de filosofia no secundário.

O Político, Platão, na tradução do grego por Carmen Soares (Círculo de Leitores / Temas e Debates)
É caso para dizer: finalmente o “outro Platão” vem à luz . Numa tradução cuidada, cotada e anotada, Carmen Soares permite-nos a leitura na língua de Camões de um texto essencial para se perceber o Platão tardio, o Platão pós-República, sob uma forma mais comum ao Platão socrático – a troca dialéctica de argumentos sob a inspiração da tentativa de resposta à dupla pergunta a que o Estrangeiro, em 285d dá voz: “Qual é a nossa posição face à investigação sobre a figura do político? Foi-nos ela suscitada pelo político propriamente dito ou porque nos queríamos tornar melhor dialécticos em qualquer matéria?"

O Mundo Pós-Americano, F. Zakaria (Gradiva)
Uma análise lúcida e pertinente do actual estado do mundo político no século XXI, no pós-11 de Setembro. O declínio político americano (a dita “potência única” após a queda do Muro de Berlim, nos finais dos anos 80 do século XX) combinado com a emergência dos BRIC´s (Brasis, Rússias, índias e Chinas) gera novos desafios mas também problemas não expectáveis que exigem uma reflexão cuidada de todos e sobretudo uma postura política nova, uma nova ordem política à escala global, partindo da casa “América.”

Dicionário de Relações Internacionais, Fernando Sousa (dir.) (Edições Afrontamento)
É bem vinda esta nova edição (2ª, revista e aumentada) deste dicionário, numa área das ciências sociais e políticas que diariamente vê os seus conceitos revistos, reformulados e até substituídos por outros, em função dos protagonistas dessa teia constantemente refeita que são as relações internacionais.

ÉTICA

Duas vidas valem mais que uma?, Peter Cave (Academia do Livro)
33 dilemas para desafiar os nossos valores, as nossas convicções, baseados em situações do nosso quotidiano, de uma forma bem disposta e que recoloca a filosofia no centro das decisões que temos de tomar constantemente.

ESTÉTICA

Introdução à Estética, George Dickie (Bizâncio)
Excelente meio para penetrar num mundo com o qual mantinha um passado de incompreensões e alguns mal entendidos.
Um bom livro de começo para quem quer saber o que é a Estética e quais as suas principais teorias.

FILOSOFIA TOTAL

Que diria Sócrates?, Alexander George (org.) (Gradiva)
O subtítulo do livro diz tudo: “Os filósofos respondem às suas perguntas sobre o amor, o nada e tudo o resto“, ou como surpreender a filosofia na rua, na sala de aula, em casa ... desafiando-nos a pensar melhor e a analisarmos criticamente as nossas ideias.

Os Problemas da Filosofia, Bertrand Russell, tradução de Desidério Murcho (Edições 70)
Finalmente a tradução em português legível, de uma das obras mais importantes de um dos filósofos marcantes da filosofia ocidental contemporânea, não só inglesa mas global. Para além da introdução que é um valor acrescentado da tradução.

8 de dezembro de 2008

Sugestões musicais



Eis, para variar, algumas sugestões musicais. Sugiro três discos que me parecem exemplificar diferentes tipos de beleza musical. Nenhum deles apresenta música que possa ser considerada revolucionária ou inovadora; trata-se antes de música que foi capaz de levar fórmulas já bem conhecidas quase ao seu mais alto grau de perfeição. E isto não está ao alcance de todos.

A primeira sugestão é a gravação das Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss, por Jessye Norman, acompanhada pela Gewandhausorchester de Leipzig, dirigida pela maestro Kurt Masur. Richard Strauss escreve para orquestra como poucos conseguiram fazer, dando brilho a todas as suas secções sem dar a impressão que está a abrir um mostruário. A sua música é incrivelmente melodiosa, mas as melodias são quase sempre imprevisíveis e sinuosas - por vezes parece até que vão descambar e que nos estamos quase a perder, o que faz parte do seu encanto. As Quatro Últimas Canções são o exemplo mais perfeito disso e são das canções mais belas que alguma vez se criaram. É-me muito difícil dizer qual das quatro prefiro. Por vezes prefiro a segunda, September, que começa com as cordas a acriciar-nos o ouvido e termina com um longo pianíssimo de Jessye Norman, rematado com o som quente e suave da trompa a fazer-nos quase levitar. É música do outro mundo. Outras vezes prefiro Beim Schlafengehen, a mais empolgante de todas. E, por vezes, a que mais me apetece ouvir é Im Abendrot, que começa com uma longa, lenta e planante melodia nas cordas, em que estas se desdobram num colorido irresistível, com os metais muito suavemente no fundo. De todas parece ser a mais introspectiva. Os entendidos dizem que a interpretação de Elizabeth Schwarzkopf é imbatível. Mas eu, que não sou entendido, já a ouvi várias vezes e prefiro esta de Jessye Norman. O som é simplesmente espectacular e é para ser ouvido bem alto.

Outro disco que sugiro é Largo, do pianista de jazz Brad Mehldau. Largo é um disco de jazz que consegue a leveza e a ingenuidade da melhor pop, sem deixar de ser jazz, e em que se encontra frequentemente a energia do rock, sem ser rock - tem uma versão de Paranoid Android, dos Radiohead, que é um bom exemplo disso e onde não falta o improviso controlado do melhor jazz. Outras músicas excelentes são When It Rains, Franklin Avenue e Dusty Mc Nugget, as minhas preferidas.

A minha terceira sugestão é de um songwriter pop como há muito não aparecia: Rufus Wainwright. O disco Release the Stars, é do melhor que Wainwright fez e tem canções pop estranhamente lânguidas, como Not Ready to Love - a lembrar o injustamente esquecido songwriter inglês Roy Harper - muito fora dos padrões habituais, além de ter uma voz poderosa e invulgarmente musical. Pode vir a ser um clássico da pop.

6 de dezembro de 2008

Wikicensuras

Verifiquei agora que o texto reformulado do Desidério no Wikipedia (ver post anterior) foi novamente censurado. Desta vez não o apagaram, pois isso entraria em contradição gritante com a existência de uma entrada inglesa no mesmo site. A técnica usada corresponde às minhas expectativas: usar directamente o termo inglês, para tentar suavizar o impacto. Contudo, o que salta mais à vista é a perda significativa de conteúdo e o português de cortar à faca, com frases mal construídas e uma «espansão» para traduzir «expanding» (De uma banda chamada «Incredible Expanding Mindfuck»).

O argumento do censor, segundo o qual "psicofoda" peca por referir um mero acontecimento mental é refutado pelos exemplos de palavras "consagradas": psicotrópico - substância que altera estados mentais e não "mudança mental" (seguindo a sua lógica). Nada há de "imaginário" ou "meramente mental" na "psicologia" ou na "psiquiatria". O "psicossocial" não é uma sociedade imaginária e as doenças "psicossomáticas" não são ficcionais. O "psicofísico" não é meramente psíquico e as "psicopatias" não são inventadas por romancistas.

Para equilibrar os exemplos em que o segundo componente da palavra composta é um substantivo: "psicoterapia" não é uma terapia "dentro da cabeça", é algo que se faz no mundo exterior e que tem efeitos nos estados mentais do paciente.

Além disso, o poema de William Blake "The Mind Traveller", foi traduzido para português com o título "O Psiconauta" (não se trata de um viajante imaginário, embora viaje mentalmente) - isto para atestar a flexibilidade de formação de palavras compostas. Se o inglês tem essa flexibilidade, por que razão o português não pode ter?

O censor afirma que não há conotação assexual para "foda" em português. Os dicionários Houaiss e Aurélio afirmam o seguinte:
Foda (Houaiss)
n substantivo feminino Uso: tabuísmo. 1 m.q. cópula ('ato sexual') v substantivo masculino Uso: tabuísmo. 2 aquilo que se suporta com dificuldade; dureza Ex.: o f. é ter de trabalhar no feriado
Foda (Aurélio) [Dev. de foder.] Substantivo feminino. Chulo 1.Cópula (2). 2.Coisa desagradável ou difícil de executar ou suportar: Trabalhar 15 horas por dia é foda.
Porto Editora:
substantivo feminino 1. vulgarismo relação sexual, cópula;
2. vulgarismo coisa desagradável, coisa insuportável;

O censor distingue arbitrariamente "baixo calão" de "alto calão". Isto é simplesmentei incompreensível e incientífico. A etimologia do termo, que é mais clara do que "fuck" atesta-o: "terram fodere", o latim para "escavar". O termo germânico de que deriva "fuck" não parece ter uma etimologia tão clara, à parte uma ressonância com o latim "pugnus" - "punho" (segundo o Oxford Dic).


De resto, o "fuck" em "mindfuck" não só não elimina como pressupõe a conotação sexual. McGinn di-lo diversas vezes no seu livro.


Não há qualquer bom argumento que sustente a «correcção» a não ser um vago puritanismo linguístico, fruto de um salazarismo residual. 

Como é que o nosso censor conciliaria o seu eufemismo «atrapalhar» com as referências do McGinn ao «significado sexual do termo»:

Há locuções relacionadas que ajudam a esclarecer o significado do nosso termo e também destacam a suposição de negatividade. A mais próxima é talvez «foder a cabeça a alguém». Temos mais uma vez a ocorrência de «foder», só que neste caso usamos «cabeça» como variante idiomática de «psique», embora isto tenha uma conotação mais corpórea e sugira sem dúvida a felação. A felação é pura e simplesmente um tipo de foda cefálica (como na expressão inglesa «giving/getting head»)

(do primeiro capítulo do livro)

Se algum leitor conseguir compatibilizar isto com uma objecção que não seja meramente baseada no pudor ou nas nossas psicofodas linguísticas inargumentativas... Peço-lhe que nos esclareça.

5 de dezembro de 2008

«Psicofoda» censurada na Wikipédia

O mundo português está ainda a milhas de se libertar das psicofodas linguísticas e culturais que nos afligem e tolhem o passo. Há muito que existe uma entrada para o termo «Mindfucking» no site da Wikipedia. Esta entrada é referida pelo próprio McGinn no seu livro: Mindfucking, a Critique of Mental Manipulation. Hoje o Desidério publicou um Wiki português para «Psicofoda», que foi apagado por um administrador, dando lugar a uma segunda publicação pelo Desidério, desta vez contendo a ligação para o Wikipedia inglês. Será que a censura se vai manter? Seria curioso tentar explicar a atitude argumentativamente.

Este post é uma versão abreviada do que publiquei aqui.

4 de dezembro de 2008

Generalizações e previsões


Descobri hoje numa aula do 11º ano que alguns alunos, ao avaliar argumentos, confundiam sistematicamente os argumentos indutivos por generalização com as previsões (que também são argumentos indutivos). Na verdade, eles sabiam distinguir perfeitamente generalizações de previsões. O problema surgia quando se tratava de os avaliar. Por exemplo, a generalização

Até hoje o Sol nasceu todos os dias.
Logo, o Sol nasce todos os dias.

foi por eles avaliada como um mau argumento, o que considero correcto. Mas também a previsão

Até hoje o Sol nasceu todos os dias.
Logo, o Sol irá nascer amanhã.

foi por eles avaliada como um mau argumento, o que é incorrecto. Diziam alguns deles que ambos os argumentos eram maus pelas mesmíssimas razões. Mas o conhecimento científico disponível mostra que a premissa da generalização é irrelevante para o que se quer concluir, ao passo que não o é para a conclusão da previsão.

O que acha o leitor?

1 de dezembro de 2008

2008 Best Of

A filosofia é o meu trabalho. Nesta lista inclui livros que me dão muito prazer conhecer e ler, mas também que me são muitos úteis para proceder aos devidos upgrades profissionais.

1 – Bertrand Russell, os problemas da filosofia,Ed. 70 ( trad Desidério Murcho)
Era inevitável que a tradução do Russell não viesse à cabeça desta minha lista, já que se trata de uma renovada tradução de um dos clássicos da filosofia contemporânea que pode ser lida tanto pelos profissionais da filosofia como pelos não especialistas.

2 – Michael Lacewing, Philosophy for AS, Routledge
O ensino da filosofia está no centro das minhas preocupações pelo que é natural que alguns dos livros de filosofia mais significativos para mim sejam manuais. Para além de tudo aprende-se muita e boa filosofia por manuais quando eles são bem feitos. Este de Michael Lacewing, apesar de não estar traduzido na língua portuguesa, foi um dos melhores livros que comprei em 2008 e certamente é uma útil e sempre presente ferramenta de trabalho

3. Vários Autores, A Arte de Pensar 11, Didáctica Editora
Já é publica a minha preferência assumida por este manual de filosofia para o ensino secundário. Apesar de ser um manual e destinado a estudantes do ensino secundário, acaba por ser das melhores introduções à filosofia que temos escrita exclusivamente por autores portugueses. Creio mesmo que é a única. É uma obra escrita numa linguagem compreensível e, na minha opinião, é talvez a maior revolução para o ensino da filosofia das últimas décadas permitindo mudar toda uma forma de encarar a filosofia inspirada em modelos que já provaram a sua caducidade.

4 – George Dickie ,Introdução à estética, Bizâncio, trad. Vitor Guerreiro
Era importante termos disponível em língua portuguesa alguma obra de George Dickie, um filósofo que protagoniza uma das mais relevantes teorias contemporâneas da filosofia da arte, a teoria institucional da arte. Mas esta obra é particularmente interessante porque Dickie escreve uma pequena história da filosofia da arte, até chegar à sua tese como que a mostrar ao leitor o percurso que conduz o filósofo a defender a sua tese.

5 – Kwame Anthony Appiah, Cosmopolitismo, ética num mundo de estranhos, trad. Ana Catarina Fonseca
É já a segunda obra que leio deste filósofo ganês, radicado nos EUA, país onde exerce a docência universitária na filosofia e confesso que é um autor que me tem interessado,não tanto pela especificidade das suas teses, mas mais pelo modo como escreve e apresenta a filosofia. A obra merece a 5ª posição na minha lista, mas a tradução e a edição em si nem sequer daria lugar a esta obra numa lista que se preze. Esta tradução merecia uma revisão completa. Nesta obra Apiah defende a tese cosmopolita de inspiração kantiana. Esta defesa não é exclusiva de Apiah em filosofia. A Filosoficamente da Bizâncio teve a oportunitade de traduzir uma obra de Louis Pojman onde é feita uma defesa aproximada a esta de Apiah.

6 - Peter Singer, Escritos sobre uma vida ética, D. Quixote, Trad. Pedro Galvão, Maria Teresa Castanheira, Diogo Fernandes
Seria muito difícil não mencionar uma qualquer obra de Singer já que é um filósofo por quem tenho uma grande admiração, mesmo que não subscreva toda a sua argumentação. Esta obra é uma espécie de best of de Peter Singer e vale sobretudo para quem quer compreender muitas das principais teses que o filósofo defende em formato que garante economia de tempo, sem qualquer deslize dos seus argumentos mais explorados numa ou outra obra.

7 - Alexander George, que diria Sócrates?, Gradiva, trad. Cristina Mateus de Carvalho
Este livro tornou-se a materialização em formato livro do trabalho desenvolvido no site Ask Philosophers. É divertido, rigoroso, impecável. É uma obra de filosofia que estabelece muito bem a ponte entre a filosofia e a vida mais quotidiana. E é mais um volume de uma das mais belas colecções de filosofia em língua portuguesa, a Filosofia Aberta.

8 - Peter Singer e Jim Manson, Como comemos, trad. Isabel Veríssimo, D Quixote
Este não é um livro típico de filosofia. Parte de uma investigação no terreno dos autores e essa investigação é que acaba por constituir as premissas para defender uma tese mais central, a que que temos uma obrigação moral no que metemos na boca para nos alimentar. Li-o com muito prazer durante o verão de 2008, mas com muito choque também e fiquei com a noção de que a generalidade das pessoas praticamente não tem grande noção que quando come esse acto pode ter implicações morais muito sérias. Precisaríamos de alguma continuidade na publicação deste género de obras em língua portuguesa.

9 – Gareth B. Matthews, Santo Agostinho, Ed. 70, Trad. Hugo Chelo
Desde os tempos de faculdade que não lia um livro inteiramente dedicado a Santo Agostinho. Pensava que já sabia tudo o que havia para saber do filósofo medieval e que esse que havia para saber nem era grande coisa. Enganei-me até começar a ler o excelente livro de Gareth Matthews um dos maiores especialistas da actualidade em S. Agostinho.

10 - Daniel C. Dennett, Quebrar o Feitiço, a religião como fenómeno natural, Esfera do Caos, trad Ana Saldanha
A filosofia é isto mesmo, ousadia intelectual. Dennett propõe nesta sua obra que se leia a religião como resultado da evolução e essa evolução conduzir-nos-á, inevitavelmente, ao ateísmo. Interessante. Esta edição é também assinalável pois vem repor alguma justiça na disponibilidade de obras de ateus em língua portuguesa. A versão de Dennett parece-me mais completa que a de Richard Dawkins.

Ideias e letras


A editora brasileira Idéias & Letras, divulgada por um leitor, tem alguns títulos muito importantes para o ensino. Destaco os seguintes:
  • Filosofia Medieval, org. por McGrade. Trata-se da tradução do Cambridge Companion to Medieval Philosophy. É uma obra crucial para preparar boas aulas de graduação de filosofia medieval.
  • Primórdios da Filosofia Grega, org. A. A. Long. Mais uma tradução, desta feita do Cambridge Companion to Early Greek Philosophy, que abrange os chamados pré-socráticos (designação algo enganadora porque alguns deles são ou contemporâneos ou posteriores a Sócrates). Crucial para aprofundar este período da filosofia num curso de graduação, quer numa cadeira de Filosofia Grega, quer numa cadeira electiva dedicada apenas aos pré-socráticos.

Os melhores de 2008 no Brasil

Eis uma lista do que considero que de melhor se publicou no Brasil de filosofia em 2008. A lista tem com certeza muitas omissões por puro esquecimento meu. Além disso, a lista não tem em conta a qualidade ou falta de qualidade das traduções.
  1. Uma Nova História da Filosofia Ocidental: Filosofia Antiga, de Anthony Kenny (Loyola)
  2. Uma Nova História da Filosofia Ocidental: Filosofia Medieval, de Anthony Kenny (Loyola) Com estes dois primeiros volumes da nova história da filosofia, estudantes e professores podem preparar melhores aulas de graduação de história da filosofia. Os volumes dividem-se sempre em duas partes: na primeira, faz-se uma apresentação histórica mais geral das ideias e contextos históricos do período em causa; na segunda, discute-se em maior profundidade, e tematicamente, os problemas, teorias e argumentos do período em causa.
  3. Estética: Fundamentos e Questões de Filosofia da Arte, org. Peter Kivy (Paulus). Trata-se da tradução do Blackwell Guide to Aesthetics. Com artigos sobre diversos aspectos da estética e da filosofia da arte, da autoria dos filósofos que hoje trabalham nesta área, é uma obra preciosa para professores e estudantes interessados nesta área de estudos.
  4. Compêndio de Epistemologia, de John Grecco e Ernest Sosa (Loyola). Outra tradução preciosa de mais um original da série Blackwell Philosophy Guides. Os filósofos contemporâneos que trabalham na área da teoria do conhecimento apresentam neste livro vários artigos sobre vários aspectos centrais da área. Um instrumento crucial para o ensino universitário.
  5. O Básico da Filosofia, de Nigel Warburton (José Olympio). Não há uma introdução à filosofia mais simples do que esta, sem contudo deturpar indevidamente a área. Imprescindível para o ensino médio e para alunos dos primeiros anos de graduação.
  6. Para Que Serve a Verdade?, de Pascal Engel e Richard Rorty (UNESP). Uma discussão lúcida sobre um tema que costuma ser muito mal compreendido. Rorty é um defensor do perspectivismo nietzschiano, segundo o qual a verdade é um conceito meramente religioso, que devemos abandonar como abandonámos os deuses gregos. Mas Engel está longe de concordar com esta perspectiva e apresenta a sua perspectiva alternativa.
  7. Liberdade e Neurobiologia, de John R. Searle (UNESP). Searle regressa neste livro a temas que já ocuparam uma parte importante das suas preocupações: a compreensão do livre-arbítrio num universo aparentemente determinado.
  8. A República de Platão: A Boa Sociedade e a Formação do Desejo, de Martha Nussbaum (Bestiário) Este excelente livrinho é de 2004, mas passou aparentemente despercebido, pelo que o incluo nesta lista. É uma apresentação obrigatória para quem quiser compreender bem a República de Platão, a sua relevância para a filosofia política contemporânea e para a nossa concepção de sociedade. Uma prosa clara como água e uma belíssima tradução.
  9. Incompletude: A Prova e o Paradoxo de Kurt Gödel, de Rebecca Goldstein (Companhia das Letras). Não é um livro de filosofia, mas de divulgação científica e filosófica, que apresenta alguns aspectos do famoso lógico que pensava ter acabado com as ilusões empiristas dos positivistas lógicos. Na verdade ninguém lhe ligou na altura e continuaram alegremente a ser nominalistas.
  10. Santo Agostinho, de Gareth B. Matthews (Jorge Zahar) Este livro foi publicado em 2007 no Brasil mas é um milagre de história da filosofia tal como devia ser feita, pelo que vale a pena recordá-lo. Apresentando as ideias de Agostinho simultaneamente com rigor exegético e à luz da filosofia contemporânea, é das melhores coisas que li sobre um filósofo do passado.

30 de novembro de 2008

O melhor de 2008

Respondendo à sugestão do Rolando, aqui vai a minha lista dos melhores livros de filosofia publicados em Portugal neste ano de 2008 (era bom que o mês que falta para o ano terminar trouxesse boas surpresas neste campo, mas isso não costuma acontecer).

A lista inclui apenas um livro de autores portugueses, pois é o único que conheço (ainda não li o livro do Pedro Galvão, pelo que não me posso pronunciar, se bem que tenha muito boas razões para acreditar que deve ser filosofia de excelente qualidade).

Dada a escassez de bons livros de filosofia publicados no nosso país, a lista que elaborei deve ser algo relativizada: alguns deles só aparecem na lista por falta de competição. A lista não está ordenada de forma rigorosa, mas os que considero mais importantes estão nos primeiros cinco.

1. Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia (Ed. 70, trad., introd. e notas de Desidério Murcho).
Este é um clássico que já estava a merecer uma tradução que fizesse jus ao estilo de Russell e à subtileza filosófica que o caracteriza. A introdução e as notas do Desidério ajudam muito nesse sentido. Ao comparar esta tradução com a bolorenta tradução de António Sérgio, até parece que estamos a falar de livros diferentes.

2. George Dickie, Introdução à Estética (Bizâncio, trad. de Vitor Guerreiro).
Uma excelente introdução à estética e filosofia da arte, escrita por um dos mais destacados filósofos da arte e com uma tradução muito cuidada e rigorosa do Vítor. Dickie aproveita também para apresentar algumas das suas próprias ideias, dado que estas têm sido amplamente discutidas na filosofia da arte contemporânea.

3. Alexander George, Que Diria Sócrates? (Gradiva, trad. de Cristina Carvalho).
Respostas de filósofos profissionais a pessoas comuns sobre praticamente todos os grandes temas da filosofia. É um livro muito acessível, sem prescindir do rigor filosófico.

4. Peter Singer, Escritos Sobre uma Vida Ética (Dom Quixote, trad. de Pedro Galvão, Teresa Castanheira e Diogo Fernandes).
Mais um livro de um dos grandes nomes da ética contemporânea, no qual se compilam alguns dos textos mais importantes de Peter Singer. A tradução está à altura do autor.

5. Gareth Matthews, Santo Agostinho (Ed. 70, trad. de Hugo Chelo).
Uma excelente discussão da filosofia de Santo Agostinho, à luz da discussão filosófica actual. Surpreendente.

6. Daniel Dennett, Quebrar o Feitiço - A Religião como Fenómeno Natural (Esfera do Caos, trad. de Ana Saldanha).
Não se trata do melhor Dennett (a primeira parte é escrita a pensar principalmente no grande público americano, mais dado a grandes emoções quando se trata de discutir questões sobre religião), mas Dennett raramente decepciona e vale sobretudo pela sua leitura naturalista da história da religião.

7. João Cardoso Rosas (org.), Manual de Filosofia Política (Almedina).
Um exemplo que muitos filósofos e académicos portugueses deviam seguir. Este manual é constituído por diversos ensaios de investigadores e filósofos portugueses, alguns deles bastante jovens. Os ensaios não têm todos o mesmo nível, mas o nível geral é bastante bom. Destaco os textos do organizador, João Rosas (da Universidade do Minho), e de Pedro Galvão (da Universidade de Lisboa). Além disso trata-se de um manual de filosofia política contemporânea, o que é de saudar.

8. George Orwell, Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Antígona, trad. de Desidério Murcho).
Não é bem um livro de filosofia, mas há lá mais filosofia do que em alguns livros de filósofos badalados. Se a filosofia é a avaliação crítica dos nossos preconceitos, então este livro transpira filosofia a cada página.

9. Karl Popper, Busca Inacabada - Autobiografia Intelectual (Esfera do Caos, trad. de João Duarte).
Popper explica-se a si mesmo. Interessante.

10. Thomas Cathcart, Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar…. (Dom Quixote, trad. de Isabel Veríssimo).
Um livro divertido e inteligente, que brinca com algumas das nossas intuições filosóficas. É pena a tradução ser bastante descuidada.

2008 - Os melhores


Estamos praticamente a findar mais um ano, o de 2008. Não nos prende razão especial alguma para assinalar esta convenção, mas é uma boa altura para fazermos o balanço de actividades. Uma coisa que resolvemos fazer é a nossa lista dos melhores livros de filosofia do ano de 2008. Cada um dos colaboradores do blog apresentará a sua lista, mas o blog é também o apêndice da revista Crítica onde a interactividade com os leitores é possível de modo que convidamos os nossos leitores a enviar-nos as suas listas que teremos gosto em publicar em post no blog. Precisamos apenas da lista sem que esteja sujeita a quaisquer regra restritiva e do nome do autor de cada lista. Ficamos a aguardar e enquanto isso vamos nós próprios pensando nos livros de filosofia que mais nos entusiasmaram durante o ano que agora termina.
Enviem as vossas listas para: rolandoa@netmadeira.com

29 de novembro de 2008

Kant vem aí

Excelentes notícias para breve sobre Kant, por Pedro Galvão. Tenho a certeza de que vou passar a ter um décimo do trabalho que tinha ao ler Kant.

28 de novembro de 2008

Indução e filosofia da ciência, de Stephen Law

A filosofia da ciência é uma das mais velhas subdivisões da filosofia, remontando pelo menos a Aristóteles. Está hoje em rápido crescimento, uma vez que os grandes avanços científicos do último século têm levado os filósofos a pensar mais cuidadosamente sobre a ciência. Estes filósofos poderão vir a influenciar o futuro da ciência. Ler mais...

Pós-graduação lato sensu em Filosofia


Estão abertas as inscrições para o curso de pós-gradução lato sensu em Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto. O curso oferece uma qualificação intensiva de nível superior, de caráter informativo e reflexivo, sobre os problemas, teorias e argumentos da filosofia antiga, moderna e contemporânea. Os destinatários são graduados em áreas afins e professores da rede pública e privada das áreas de Ciências, Humanas e Artes. Ultimamente temos tido uma afluência particularmente feliz de professores de filosofia do ensino médio que procuram actualizar os seus conhecimentos.

Carga horária: 360 horas. Número de vagas: 30. O curso decorre em dois meses apenas: Janeiro e Julho, em regime intensivo nos dois meses, de segunda a sexta-feira, das 08 às 12h e das 14 às 18h.

O curso decorre no centro da cidade histórica de Ouro Preto, MG, no Instituto de Filosofia, Artes e Cultura, que alberga o Departamento de Filosofia da UFOP. Mais informações...

desafio aos leitores

Esbarrei aqui numa "aporia" da tradução.

Tenho a expressão "pushing one's buttons", que explicado contextualmente, significa algo do género: quero ir ao cinema com Fulano, que não tem vontade de sair de casa. Sei que Fulano tem uma inveja danada de Sicrano e uma forte compulsão a imitar tudo o que Sicrano faz. Então digo-lhe: "Eh , Sicrano disse-me que foi ontem ver o filme tal-e-tal, não queres vir?"

Pronto, "premi os botões certos" para obter uma reacção psicológica (e física) que pretendo, da parte de Fulano.

À partida os candidatos óbvios em português são: "puxar os cordelinhos" ou "tocar na ferida". Mas isto não funciona porque se pode "puxar os cordelinhos" sem estar a manipular psicologicamente (por exemplo, manipulação política ou financeira, em que o manipulado está perfeitamente conscicente do que lhe fazem mas não tem alterantiva). Por outro lado "tocar na ferida" tem um significado demasiado restrito, de "tocar nos pontos sensíveis" e há contextos em que "pushing one's buttons" se aplica mas "tocar na ferida" não. Por exemplo: usar palavras com o intuito de provocar excitação sexual dificilmente se pode descrever como "tocar na ferida". Se houver "toques" de certeza que não será em feridas.

Ao leitor que deixar a melhor sugestão oferece-se... a gratidão eterna e um possível café. :-)

26 de novembro de 2008

Determinismo



Se o determinismo fosse verdadeiro, tal que todas as acções estivessem fixadas desde o momento inicial do universo pelas leis da natureza, estaria a moralidade posta em causa? Seria Hitler moralmente equivalente a Gandhi, na medida em que ambos foram determinados para agir como agiram? Deve esta constatação afectar a indignação que sentimos por pessoas «imorais»?

R
PETER LIPTON: É uma grande questão, mas vou contar-lhe apenas uma história familiar a aos filósofos que trabalham nesta área. Um homem é acusado e condenado por ter cometido um crime, sendo-lhe permitido fazer um pequeno discurso antes de ser decidida a sentença. Ele admite ter cometido o crime, mas alega ser não só criminoso, como também filósofo, um filósofo que está plenamente convencido da verdade do determinismo. Uma vez que tudo o que faz é determinado por causas que decorreram antes de ele próprio ter nascido, segue-se que não poderia ter feito outra coisa que não cometer o crime, o que faz com que, seguramente, não mereça ser punido. A juíza, tendo ouvido atentamente estas palavras, confessa ter, também ela, uma inclinação filosófica e que, à semelhança do criminoso, é também uma determinista. Como tal, não pode deixar de o punir.
Quando consideramos as relações entre determinismo e responsabilidade, a nossa tendência é não sermos totalmente consistentes. Assim, podemos pensar que não devíamos punir criminosos, que não nos devíamos indignar com eles. Qual é, porém, a «força» deste «não devíamos», tendo em conta que nós também somos determinados? Limitamo-nos simplesmente a fazer o que fomos determinados para fazer. Dado que não poderíamos agir de outra maneira, «devíamos» e «não devíamos» não parecem desempenhar qualquer papel.


Alexander George (org.), Que Diria Sócrates? Lisboa: Gradiva, 2008.


25 de novembro de 2008

A Filosoficamente oferece livros

Para assinalar o lançamento em Portugal de Introdução à Estética, de George Dickie, a Bizâncio resolveu oferecer três exemplares desta obra aos autores das três melhores respostas a esta pergunta: “O que é afinal uma obra de arte?”

Regras do passatempo: 1) o passatempo está aberto até às 00:01 do próximo dia 28, sexta-feira; o que conta é a data e hora do comentário; 2) o passatempo está aberto apenas aos residentes em Portugal, para onde o prémio será enviado gratuitamente pela Bizâncio; 3) sou eu que avalio as respostas, sem recurso, e escolho as três melhores.

A Filosoficamente é a nova aposta da Bizâncio na filosofia. A colecção publica obras de carácter introdutório e avançado sobre todas as áreas da filosofia. Inaugurada em 2007, publicou já livros de McGinn, Warburton, Pojman e Dickie.

23 de novembro de 2008

Joelson Santos Nascimento: Epicteto, Testemunhos e Fragmentos

Mais uma vez o Grupo de Pesquisa em Filosofia Clássica e Helenística, Viva Vox (DFL/UFS), agora em parceria com o Mnemosyne (DHI/UFS), Grupo de Estudos de História Intelectual e das Idéias, traz à baila o filósofo romano Epicteto. Após a tradução do Manual de Epicteto, temos a tradução bilíngüe (em grego, latim e em português do Brasil) dos fragmentos epictetianos apresentada neste opúsculo, organizado por Aldo Dinucci, doutor em filosofia clássica pela PUC-RJ e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe, e Alfredo Julien, doutor em História pela USP e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Ler mais...

22 de novembro de 2008

Fazer filosofia é fazer coisas


Frequentemente sou confrontado com uma observação que me causa algum incómodo, a de que determinada pessoa até gosta de filosofia, mas que precisa de fazer algo mais prático e, em razão disso, prefere estudar psicologia ou medicina. A perplexidade que me causa este tipo de observação é só uma: é que escolhi estudar filosofia precisamente por me considerar uma pessoa muito prática. Penso que é bom procurar definir aquilo que estamos a pensar quando nos referimos ao que é e não é prático. No sentido comum em que esta afirmação é feita, a característica de “prático” não pode ser atribuída a quase nenhum saber. Por prático entendem as pessoas, “fazer coisas”. Ora, na filosofia aquilo que fazemos é pensar como fazer coisas, por exemplo, como fazer ciência na filosofia da ciência. Claro que enquanto estamos a pensar como fazer coisas, não estamos, na verdade, a fazer coisas. Mas o que cabe aqui perguntar é se é possível fazer coisas sem antes pensar como as fazer? Claro que é, mas tem de existir sempre alguém que pense como fazer coisas para que outros as possam fazer. Aqui a opção entre o que é prático e não prático faz sentido, mas é pouco razoável que alguém desvalorize a filosofia de forma completa só porque pensa que o melhor que tem a fazer na vida é “fazer coisas”. Para além disso aparece aqui uma questão mais metafísica: e pensar como fazer coisas não é em si fazer coisas? Eu defendo que sim, mas é verdade que a generalidade das pessoas pode não o considerar desse modo. Mas a minha hipótese é que fazer filosofia ou, pelo menos, pensar filosoficamente é fazer coisas e que, mexer nas coisas só é compreensível se nos for dada a possibilidade de pensar em como as mexer antecipadamente. Será a minha hipótese aceite pacificamente?

19 de novembro de 2008

Padres, revolucionários de esquerda e poetas lunáticos


Nunca mais me esqueço do que, há muitos anos, um colega mais velho de Matemática, entretanto reformado, me disse na sala de professores da escola onde ainda ensino. Esse colega era conhecido por assumir frequentemente uma atitude provocadora e até politicamente incorrecta, como agora se diz. Estava então eu a lamentar-me baixinho pelo facto de tantas pessoas pensarem que os filósofos são aqueles que procuram saber tudo sobre coisa nenhuma quando o colega se virou para mim e disse: «olha lá, pá, ainda não cheguei a perceber se tu és dos padres, dos revolucionários de esquerda ou dos pseudo-poetas lunáticos.» Leia mais aqui.

Um argumento de Alexandre Machado

Alexandre Machado, colega e amigo da UFBA, apresenta aqui um argumento simples e certeiro contra a ideia de que é possível defender um realismo robusto, como Quine quereria, e ao mesmo tempo defender a subdeterminação das teorias pelos factos (ou verdades observacionais, para fugir da metafísica dos misteriosos factos).

18 de novembro de 2008

A natureza da filosofia e o seu ensino, de Desidério Murcho

Neste artigo defende-se duas idéias principais. Primeiro, que compreender a natureza aberta e especulativa da filosofia é uma condição necessária para uma compreensão fecunda do seu ensino. E segundo, que para se ter uma compreensão fecunda do ensino da filosofia é necessário distinguir cuidadosamente as competências estritamente filosóficas da informação histórica, e a leitura filosófica ativa dos textos dos filósofos da sua mera compreensão. Ler mais...

17 de novembro de 2008

Mário Santos: Por Que Escrevo e Outros Ensaios, de George Orwell

George Orwell (1903-1950) é fundamentalmente recordado como autor de duas famosas alegorias políticas do século XX: os romances Mil Novecentos e Oitenta e Quatro e A Quinta dos Animais. Mas foi também um fértil ensaísta (acolhendo aqui esta designação os mais variegados artigos jornalísticos). Foi sobretudo um comprometido publicista (como antigamente se dizia). Essa qualidade é evidente no volume que a editora Antígona acaba de publicar. Ler mais...

Popper e a verdade


Há dias estava eu de viagem quando apanhei alguém na rádio a dizer o seguinte: «como Popper mostrou, uma teoria científica é verdadeira até se provar que é falsa». Não é primeira vez que ouço alguém atribuir isto a Popper.

Trata-se, contudo, de uma grande incompreensão daquilo que Popper defende e Popper não poderia ter afirmado uma coisa tão manifestamente falsa. É daqueles comentários que revelam falta de subtileza filosófica e que consiste em tratar uma questão epistémica como se fosse uma questão metafísica. O que Popper defende é que temos boas razões para acreditar que uma teoria é verdadeira enquanto não se provar que ela é falsa, caso o tentemos fazer seriamente. Ora, ter boas razões para acreditar que P não é o mesmo que P ser verdadeiro. Popper nunca diria que a teoria geocêntrica foi verdadeira enquanto não se provou que era falsa. A teoria geocêntrica sempre foi falsa, mesmo quando acreditávamos justificadamente que era verdadeira.

Custa entender por que razão este tipo de confusão é assim tão persistente.


16 de novembro de 2008

O Básico da Filosofia, de Nigel Warburton


Tive uma boa surpresa ao passar pela livraria: a José Olympio acaba de publicar no Brasil o excelente O Básico da Filosofia, a que em Portugal dei o título Elementos Básicos de Filosofia. Trata-se de uma introdução muito simplificada à filosofia, ideal para o ensino médio (Brasil) ou secundário (Portugal). Infelizmente, a tradução agora publicada vem com atraso: é a tradução da terceira edição inglesa, ao passo que já saíu entretanto uma quarta edição, que deu origem à segunda edição portuguesa.

Na badana do livro afirma-se que a mesma editora publicou o Pensar de A a Z, do mesmo autor, mas deve ser um erro, pois não encontrei o livro no site do editor, nem nas principais livrarias. Presumo todavia que será publicado em breve.

15 de novembro de 2008

Promoção FNAC


As livrarias FNAC estão a fazer uma promoção aqui, vendendo Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell, por apenas 27,30 reais (o preço normal é de 39 reais). (Agradeço a Mário Nogueira a informação.)

13 de novembro de 2008

contra a psicofoda linguística

Hoje apresento uma proposta simples para obviar à manipulação mental tácita que se transmite através da linguagem, nem sempre conscientemente (aliás, na maioria dos casos não é consciente, creio). Hoje venho embirrar com uma palavrinha que há muito faz carreira no modo ideológico de oprimir o pensamento das pessoas, forçando-as a concordar implicitamente com coisas que elas, caso pensassem claramente no assunto e sem fantasmas na imaginação, jamais aceitariam. Essa palavrinha é a expressão "povo" e o seu plural, "povos".

Na sequência do texto do Desidério, sobre a linguagem mistificadora do "Outro", com que se transformam as pessoas em anúncios de uma etnia, credo ou instituição, venho aqui partilhar um hábito que adoptei há algum tempo: evito à força toda a palavra "povos" a menos que a omissão implique infidelidade gritante com o original. Ao invés, uso a palavra "população" e "populações". Passo a explicar.

Um "povo" remete precisamente para uma etiqueta, um anúncio de credo, instituição ou etnia, para os costumeiros berloques místico-nacionais que desumanizam as pessoas e as transformam em rótulos com pernas de uma religião. Veja-se o exemplo triste da ex-Jugoslávia, em que se pode nascer em Zagreb e ainda assim ser "sérvio": basta ser ortodoxo. Conversamente, pode-se nascer em Belgrado e ser "croata": basta ser católico. Já conhecemos sobejamente o que destas oposições tem saído ao longo dos anos. Faz-nos desejar que a próxima geração de miúdos pudesse crescer livremente sem apanhar com os popes de um lado e os padres do outro. Tão-pouco com os líderes demagógicos que prontamente se aliam aos primeiros.

Uma população é algo diferente. Numa população pode haver de tudo: alentejanos, americanos, ingleses, escoceses, croatas, sérvios, russos, ciganos, pretos, brancos, amarelos, travestis, transsexuais, vendedores de enciclopédias de meia-idade, jogadores de xadrez, filatelistas, poetas embriagados, professores de piano, tradutores armados em filósofos... enfim! É uma festa. A expressão "população portuguesa" ou a "população da Nova Zembla" (seja o que for) não remete para uma "ideia" de indivíduo, donde se retirou toda a individualidade e já só restam tolices nacional-religiosas ("o judeu", "o americano", o...", "o...") referências obscuras a um mítico paraíso perdido que em tempo algum existiu.

Assim: a menos que estejamos a traduzir um autor xenófobo, racista ou nacionalista, um platónico religioso ou um místico pós-moderno... Ponhamos de parte a palavra "povo" e usemos antes "população". Deixemos de ser "recursos humanos" de ideologias e tentemos ser pessoas, para variar.

11 de novembro de 2008

O Outro

A minha habitual crónica das terças-feiras do Público está aqui.

Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell

Está já à venda em Portugal (no Brasil está à venda desde Agosto, se não estou em erro) a minha tradução (com introdução e notas) deste saboroso livrinho de Bertrand Russell, originalmente publicado em 1912.

Agradeço ao editor das 70, Pedro Bernardo, o amável convite para fazer esta tradução, que tanto prazer me deu: traduzir um clássico de um dos maiores filósofos de sempre é um privilégio. Traduzi com muito carinho, e procurei explicar alguns aspectos mais profundos, na introdução, que está articulada com várias notas que espero sejam oportunas.

O livro de Russell permite duas leituras: como obra introdutória à filosofia e como obra de autor. É sobretudo quanto a este segundo aspecto que procurei apresentar alguns esclarecimentos.

O livro é excelente para quem quiser compreender o que é a filosofia, pois ao invés de Russell fazer listas algo anódinas das ideias dos outros, apresenta com vivacidade alguns problemas centrais da filosofia (sobretudo da teoria do conhecimento e da metafísica), explorando de seguida diversas tentativas de resposta, cuidadosamente argumentadas.

Russell é um autor muito inteligente e cheio de humor. Há uma passagem em que fala de um triângulo a jogar futebol que é inesquecível.

Espero que este trabalho seja útil para professores, estudantes e público em geral interessado em filosofia.

E fica aqui um agradecimento à Palmira e ao Carlos, que me ajudaram a escrever melhor uma passagem da minha introdução que refere as relações de Einstein com o éter. Agradeço também ao meu colega e amigo Sérgio Miranda, que prontamente se dispôs a traduzir do alemão o prefácio de Russell à tradução alemã desta obra.

Aqui encontra-se uma apresentação do livro e dois excertos.

10 de novembro de 2008

Logosfera


O Logosfera é um blog da autoria de Carlos Marques e Helena Serrão e que tem despertado a atenção, sobretudo pela quantidade de textos muito úteis ao ensino da filosofia e inéditos em língua portuguesa, traduzidos para o blog. É curioso que o panorama da blogosfera nos últimos tempos, para a filosofia, tem dado passos significativos, tirando da caverna muitos autores com qualidade.

Desobediência civil


O recurso à desobediência civil por parte dos professores é um cenário cada vez mais provável. A desobediência civil é, por definição, uma ilegalidade. Mas será que devemos obedecer a toda e qualquer lei? O Dúvida Metódica em boa altura lançou a discusssão. Vale a pena acompanhar e mostrar mais uma vez que a filosofia e os filósofos são fundamentais no esclarecimento e na discussão de problemas com consequências tão práticas como este.

Quem quiser seguir a discussão sobre como deviam os professores ser avaliados, pode ver o post de Carlos Pires, também no Dúvida Metódica.

Na imagem acima pode ver-se Bertrand Russell apelando à desobediência civil.

7 de novembro de 2008

Sugestão

Alguns leitores passaram pela má experiência de escrever um comentário com alguma articulação que, infelizmente, acabaram por perder porque a Internet ou o servidor falhou. A minha sugestão é que os leitores escrevam as respostas num processador de texto, como o Word ou outro, fazendo depois Copiar & Colar na caixa de comentários. É mais prático também porque o Word ou outro processador de texto que seja bom tem correctores ortográficos e outras ajudas que tornam a escrita mais rápida e eficiente, o que torna o processo de comentar mais rápido. Fica a sugestão!

6 de novembro de 2008

I Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP


O I Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP é uma iniciativa dos alunos da graduação do curso de Filosofia e conta com o apoio do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura, do Departamento de Filosofia e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O encontro ocorrerá entre os dias 10 e 14 de novembro de 2008 no IFAC, localizado na Rua Coronel Alves 55 Centro, Ouro Preto, Minas Gerais. O encontro reune graduandos, graduados e pós-graduandos, estimulando o debate filosófico e promovendo a interação entre universidades. O evento consiste em palestras ministradas por professores convidados, mini-cursos, debates sobre temas filosóficos e apresentações de comunicações em mesas redondas temáticas.

Calendário

Segunda-Feira, 10/11/2008

10:00 - Inscrições Finais
14:00 - Comunicações - ÉTICA 1
16:00 - Comunicações - METAFÍSICA 1
19:30 - Palestra: Necessidade, Factividade e Negação
Com o professor Desidério Murcho

Terça-Feira, 11/11/2008

10:00 - ÁGORA debates: Filosofia Analítica e Filosofia Continental
Com os professores Desidério Murcho e Imaculada Kangussu
14:00 - Comunicações - TEMAS DIVERSOS DA FILOSOFIA
16:00 - Comunicações - METAFÍSICA 2
19:30 - Palestra: Filosofia e Religião: uma religião humanística no século XXI
Com a professora Marta Luzie de Oliveira

Quarta-Feira, 12/11/2008

10:00 - Palestra: Imaginação em Kant
Com professor Hélio Lopes da Silva
14:00 - Comunicações - FILOSOFIA MODERNA
16:00 - Comunicações - ÉTICA 2
19:30 - Apresentação do Mestrado da UFOP

Quinta-Feira, 13/11/2008

10:00 - ÁGORA debates: Sobre a Verdade
Com o professor Olympio José Pimenta Neto
14:00 - Comunicações - LÓGICA
16:00 - Comunicações - EPISTEMOLOGIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA
19:30 - Palestra com professor Túlio Roberto Xavier de Aguiar

Sexta-Feira, 14/11/2008

10:00 - MESA REDONDA
Com os professores Rodrigo Duarte, Imaculada Kangussu e Douglas Garcia
14:00 - Comunicações - ESTÉTICA e FILOSOFIA DA ARTE
16:00 - Comunicações - FILOSOFIA POLÍTICA E TEORIA CRÍTICA

Mesas de comunicações

ÉTICA 1 (10/11)
Coordenador: Luiz Helvécio Marques Segundo

- Teoria Tridimensional do Direito de Miguel Reale: Roberto Rômulo Braga Tavares (IPTAN)
- Utilitarismo e sentimentos morais: Sagid Salles Ferreira (UFOP)
- Uma defesa da filosofia moral de Kant: Pedro Merlussi (UFOP)
- Sade e os princípios de natureza e moral na Filosofia Libertina: Paulo Fernandes Ribeiro de Souza (UFU)

METAFÍSICA 1 (10/11)
Coordenador: Mayra Moreira da Costa

- Das relações entre intuição, metafísica e ciência no pensamento de Henri Bergson: Aristeu Laurêncio Mascarenhas (UFSCar)
- A crítica de Nietzsche ao dualismo platônico: Natália de Andrade Pereira (Unimontes)
- Outrem deleuzeano como mundo possível: Ana Carolina Gomes Araújo (UFU)
- Sobre os argumentos de Kripke acerca da modalidade e da essencialidade: Iago Bozza Francisco (UFOP)

TEMAS DIVERSOS DA FILOSOFIA (11/11)
Coordenador: Ricardo de Oliveira Toledo

- A ordem do coração no pensamento de Blaise Pascal: Nilson Gonçalves de Oliveira (UFOP)
- Loucura e ceticismo: impossibilidade de conhecimentos absolutamente verdadeiros ou absoluto silêncio intelectual: Regis Cardoso (UNICAMP)
- Sócrates sofista, Machado de Assis filósofo? Alex Lara Martins (UFMG)
- O ethos filosófico em Baudelaire como atitude de modernidade segundo Michel Foucault: Rogério Luís da Rocha Seixas (UFRJ)

METAFÍSICA 2 (11/11)
Coordenador: Sagid Salles Ferreira

- Contra a negação da existência da verdade Rodrigo Reis Lastra Cid (UFOP)
- A correspondência entre linguagem e mundo no tractatus de Wittgenstein: Leandro Shigueo Araújo (UFU)
- Os Comprometimentos Ontológicos do Logicismo Fregeano em "Os Fundamentos da Aritmética": Henrique Antunes Almeida (UFMG)
- Estamos comprometidos com a existência de propriedades em nosso discurso acerca da realidade? Rodrigo Alexandre de Figueiredo (UFOP)

FILOSOFIA MODERNA (12/11)
Coordenador: Luiz Otávio

- A Noção de Substância em Descartes e Espinosa Jorge Quintas (UERJ)
- Hume e a "Ciência do Homem": questões epistemológicas no Tratado da Natureza Humana: Cristiano Moraes Junta (UFSCar)
- As diferentes formulações da dúvida cartesiana: Maíra de Souza Borba (UFMG)
- Kant e as Refutações do Idealismo Empírico: Fábio César da Silva (UFOP)

ÉTICA 2 (12/11)
Coordenador: Clarissa Ayres

- A educação estética e o desenvolvimento da moralidade: José Costa Júnior (UFOP)
- Como a "dívida" se torna "culpa": Vinícius Amaral Galvão de França Andrade (UNICAMP)
- Breve abordagem sobre a liberdade, a angústia e a má fé em Sartre: Danilo Gomes Ferreira (UFU)
- Subjetivismo, objetivismo e o sentido da vida: Fernando Fabrício Rodrigues Furtado (UFOP)

LÓGICA (13/11)
Coordenador: Matheus Martins

- Paradoxo do mentiroso e modelos de ponto fixo: Guilherme Araújo Cardoso (UFMG)
- São os paradoxos da implicação material realmente paradoxos? Renato Mendes Rocha (UFG)
- Lógica paraconsistente: Lógicas da inconsistência formal e dialetismo: Diego Amaro Varela (UNICAMP)
- A Vagueza da Linguagem Natural e os Paradoxos Sorites: Eduardo Dayrell de Andrade Goulart (UFMG)

EPISTEMOLOGIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA (13/11)
Coordenador: Iago Bozza Franscisco

- Hume e as objeções populares: Flávio Miguel de Oliveira Zimmermann (USP)
- O ser no espaço-tempo: Diego de Souza Avedaño (UFU)
- Causas e Efeitos: Problemas Atuais: Mayra Moreira da Costa (UFOP)
- Inferência, Justificação e Explicação: cutucando o coerentismo: Thiago Monteiro Chaves (UFMG)

ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE (14/11)
Coordenador: Fernando Pacheco

- Da totalidade como obra de arte à obra de arte como via possível: gnosiologia e filosofia da cultura em Georg Simmel: Vitor Sommavilla de Souza Barros (UFMG)
- A música como convite à regressão em Adorno: Felício Ramalho Ribeiro (UFMG)
- Gênio e imaginação em Kant: Danilo Citro (UNESP)
- O engano da indefinibilidade da arte: Thiago Barros Gomes (UFOP)

FILOSOFIA POLÍTICA E TEORIA CRÍTICA (14/11)
Coordenador: Thiago Reis Santos

- Fetichismo e reificação: a estrutura de dominação do capitalismo Vinícius dos Santos Xavier (Mackenzie)
- A apropriação do conceito de tolerância de John Locke no debate contemporâneo sobre a diversidade religiosa: Pedro Alex Rodrigues Viana (UFOP)
- Hannah Arendt e a geopolítica: Bruno Faria Gomes (CEFET-Campos)
- História como empreendimento de memória: a revolução copernicana de Walter Benjamim: Warley Souza Dias (Unimontes)

Organização

CAFIL
- Mayra Moreira da Costa
- Sagid Salles Ferreira
- Rodrigo Reis Lastra Cid
- Rodrigo Alexandre de Figueiredo
- Luiz Helvécio Marques Segundo
- Thiago Reis Santos
- Evando Aparecido Gasque

Apoios

DEFIL
IFAC
UFOP
ÁGORA Debates
Grande Hotel Ouro Preto

5 de novembro de 2008

O paradoxo dos corvos


O "Paradoxo dos Corvos", um dos mais conhecidos paradoxos da Teoria da Confirmação, será o tema da primeira MLAG Lecture (Mind, Language and Action Group) a realizar-se no Estúdio de Videoconferência da Universidade do Porto. Acontece já no próximo dia 7 de Novembro de 2008, pelas 17h30, no Edifício da Reitoria, à Praça Gomes Teixeira. O conferencista convidado é António Zilhão, da Universidade de Lisboa. A conferência será transmitida online. Mais informações...

1.º Workshop Luso-Brasileiro de Filosofia Analítica


1.º Workshop Luso-Brasileiro de Filosofia Analítica
Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa
Instituto Filosófico de Pedro Hispano

Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
LanCog: Language, Mind and Cognition Group

21 de Novembro de 2008

Departamento de Filosofia da FLUL
Sala Mattos Romão

09:00 -- Adriana Silva Graça, Universidade de Lisboa e LanCog, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Os Nomes da Ficção: Solução na Pragmática ou na Semântica?
Nesta apresentação, irei debruçar-me sobre qual a melhor solução para o problema
dos nomes vazios (em particular, dos nomes da ficção) não subscrevendo qualquer
forma de fregeanismo relativamente ao sentido de nomes próprios nem qualquer
versão da admissão de um terceiro reino de entidades. Irei discutir duas
alternativas viáveis, uma de índole semântica, outra de índole pragmática, ambas
as quais apelativas, analisando os seus custos e benefícios.
10:20 -- Marco Ruffino, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Componentes Proposicionais Não-Articulados

De acordo com Perry (1986, 1998), o proferimento de uma sentença pode expressar
uma proposição contendo elementos que não correspondem a nenhuma parte
gramatical (morfema) do proferimento. Perry chama tais elementos de
constituintes proposicionais não-articulados. Cappelen e Lepore (2005, 2007),
formulam uma crítica forte desta noção: de acordo com estes, a noção de
constituintes não-articulados não passa de um mito. Stanley (2000) critica esta
mesma noção baseado em outros princípios: de acordo com ele, toda sensibilidade
contextual é apenas devida ou a indexicais explícitos ou a indexicais ocultos na
forma lógica da sentença proferida. Adicionalmente, Stanley provê evidência
sintática para a presença de indexicais ocultos em sentenças usadas como exemplo
por Perry. Corazza (2007) defende uma posição híbrida: para este, todos os
constituintes proposicionais semanticamente relevantes são ou o valor de
elementos gramaticais explícitos ou de uma posição de argumento implícita na
forma lógica profunda da mesma, mas isto é consistente com a possibilidade de o
falante não ter nenhuma representação consciente deste elemento. Neste artigo
analisarei estas três linhas críticas e argumentarei que nenhuma delas é
completamente convincente. Eu também adicionarei minhas próprias considerações
críticas a respeito da noção de Perry. Minha conclusão será, portanto, puramente
negativa, isto é, que nenhuma das posições mais salientes nesta questão é
inteiramente satisfatória.
11:40 -- Breno Hax, Universidade Federal do Paraná
Espécies, Qualidades e Substâncias
Meu propósito é examinar uma reconhecida estratégia de distinção de espécies e
qualidades e avaliar a sua plausibilidade na explicação do que designarei como o
fato da conjunção de espécies e qualidades. Examinarei a seguir uma segunda
estratégia de explicação do fato mencionado que aparentemente é-lhe rival. A
segunda estratégia propõe que uma entidade x é de certa espécie e tem
determinadas qualidades porque possui certa microestrutura física. Discutirei
alguns pontos corretos dessa estratégia e também uma lacuna. Concluirei com a
sugestão de uma proposta de entendimento das relações entre qualidades, espécies
e substâncias.
13:00 -- Almoço

15:00 -- Anna Christina Ribeiro, Texas Technical University
Aesthetic Luck
The idea that some aesthetic experiences and some aesthetic judgments are not
open to all aesthetic subjects seems to be the kind of claim that only a
cultural snob would make. Yet, the aesthetic experiences and judgments available
to a given individual are frequently beyond her control. The issue concerns the
character and value of one's aesthetic experiences and judgments and,
ultimately, the possibilities for aesthetic value in one's life. If there is a
phenomenon of aesthetic luck, then (1) all beauty is not open to us, and there
is little we can do about it, and (2) our aesthetic subjectivity and notions of
beauty are threatened. Attempts to overcome the vicissitudes of aesthetic luck
land us in paradox or circularity. One may have to accept one's aesthetic fate,
and the restrictions it places on one's potential for an aesthetically valuable
life.
16:20 -- António Lopes, LanCog, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Intencionalismo, Anti-intencionalismo e o Verdadeiro Objectivo da Interpretação em Arte: Uma Polémica Genuína?

Desde o alvor da filosofia da arte de matriz analítica até hoje, o debate em
torno da relevância das intenções dos autores para a interpretação crítica de
obras de arte não parece dar mostras de esgotamento. Mas será esta polémica
genuinamente acerca do verdadeiro modo de aceder ao sentido ou significado das
obras? Procurarei mostrar que a discordância é mais bem descrita como dando-se
ao nível meta-estético, o de saber qual é o objectivo correcto da interpretação.
Uma vez que as razões para excluir empreendimentos interpretativos em arte como
ilegítimos ou "errados" são minimais, e que as considerações de valor, e não
apenas de determinação de sentido, são nesta matéria proeminentes, defenderei
que o papel da filosofia da arte deverá restringir-se ao de denunciar
empreendimentos que violem tais requisitos minimais ou que descrevam
incorrectamente o seu propósito.
17:40 -- João Branquinho, Universidade de Lisboa e LanCog, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Necessidade Metafísica
Discuto quatro tipos salientes de necessidade: metafísica, lógica, conceptual e
natural. Argumento no sentido de mostrar que a necessidade metafísica,
necessidade concebida à boa velha maneira aristotélica como fundada na
identidade das coisas, tem um papel central na ordem da explicação. A distinção
entre necessidade metafísica e necessidade lógica ou conceptual não é uma
distinção entre necessidade de re (que pertence às coisas) e necessidade de
dicto (que pertence às palavras ou conceitos), pois mesmo as mais triviais
verdades logicamente ou conceptualmente necessárias são-no em virtude do mundo,
da identidade das coisas (Williamson 2007). Assim, quer a necessidade lógica
quer a necessidade conceptual são definíveis, por restrição, em termos de
necessidade metafísica. Por outro lado, presumivelmente há verdades naturalmente
necessárias que são metafisicamente contingentes (Fine 2005). Todavia, toda a
verdade naturalmente necessária em sentido estrito, que o é em virtude da
identidade de categorias e propriedades naturais actuais ou nativas, é
metafisicamente necessária. Assim, também a necessidade natural (estrita) é
definível, por restrição, em termos de necessidade metafísica.

Entrada Livre
Todos os interessados são bem-vindos
Apoios: Fundação Nacional para a Ciência e a Tecnologia, Ilubraro