23 de agosto de 2008

Crença, conhecimento e justificação

Um leitor anónimo levanta várias perguntas no post do Rolando com respeito à definição tradicional de conhecimento como crença verdadeira justificada. Vale a pena fazer alguns esclarecimentos, apesar de geralmente os alunos não terem qualquer dificuldade com estas coisas perfeitamente básicas (mas é preciso estudar, claro: não se aprende filosofia apenas a dançar o samba e a beber cerveja).

O que é uma crença? Usa-se este termo em filosofia para falar de qualquer representação do mundo que qualquer agente cognitivo faz. A confusão é que popularmente usa-se “crença” como sinónimo de crença religiosa. Mas crença religiosa é apenas um tipo peculiar de crença.

O que é a justificação? É a actividade de fundamentar uma qualquer crença. Se alguém disser que há fadas só porque era engraçado que houvesse fadas, isso é uma má justificação. O que distingue a boa da má justificação? Não se sabe claramente, mas há casos claros de boas e de más justificações.

Por que razão a justificação e a crença parecem elementos necessários do conhecimento? Porque o conhecimento é um tipo peculiar de representação do mundo, mas parece absurdo dizer que alguém sabe seja o que for só porque por acaso isso é verdade, ainda que a pessoa não tenha qualquer boa justificação a favor disso.

O que é a factividade do conhecimento? É o mesmo que a factividade da visão. Seria estranho dizer que o João, quando está a sonhar com árvores, está a ver árvores. Ele não está a ver árvores, está a sonhar com árvores. E no sonho pode pensar que está a ver árvores, mas não está porque não está perante árvores. O mesmo acontece com o conhecimento: temos de distinguir entre conhecer realmente algo e pensar que se conhece realmente algo. Conhecer falsidades é impossível do mesmo modo que é impossível dar um aperto de mão ao Pai Natal: dado que o Pai Natal não existe, não lhe podemos apertar a mão, e dado que ele não existe não podemos saber que existe, mas é claro que podemos pensar (erradamente) que existe.

Valerá a pena estudar a definição tradicional de conhecimento, dado que depois de a termos compreendido se vai estudar todos os muitos contra-exemplos que a falsificam? Esta questão é muito interessante porque mostra até que ponto algumas pessoas não percebem o que é estudar filosofia. Elas querem estudar filosofia como quem estuda religião ou física ou história: querem estudar resultados, teorias Absolutamente Verdadeiras, Verdades Insofismáveis Maravilhosas e Inspiradoras... e em filosofia tudo o que temos são teorias presumivelmente falsas, que enfrentam um batalhão de contra-exemplos e dificuldades. Estudamos essas teorias para sabermos o que não se sabe, para podermos teorizar nós mesmos sobre esses problemas sem termos de trilhar os mesmos caminhos. Mas quem não tem qualquer interesse na teorização filosófica — na teorização especulativa — é óbvio que não vê qualquer interesse no estudo da filosofia. E ainda bem, pois o mundo seria muito aborrecido se todos gostássemos de tudo. Eu aborreço-me de morte, por exemplo, com conversas frívolas e ambientes de cerveja, com as infantilidades da televisão e o barulho das discotecas e dos bares. Se todos fossem como eu o mundo era uma chatice. O meu conselho a quem não consegue ver interesse algum na teorização especulativa da filosofia é fazer outra coisa qualquer. Há muitas coisas para fazer na vida além de estudar filosofia.

24 comentários:

  1. Senhor Desidério,

    O que o senhor pretendeu explicar sobre crença e justificação eu já sabia. O que eu procurava era justamente uma explicação melhor, diferente, pra essas coisas. Mas como sou um sambista e bebedor de cervejo não tenho a mesma capacidade cognitiva de seus alunos, então só resta lamentar minha incapacidade. O senhor chegou a ler minhas questões?

    Elas querem estudar filosofia como quem estuda religião ou física ou história: querem estudar resultados, teorias Absolutamente Verdadeiras, Verdades Insofismáveis Maravilhosas e Inspiradoras...

    Esse comentário fica por conta sua, pois não espero nada disso. Mais uma vez não entendeu o que pedi.

    O meu conselho a quem não consegue ver interesse algum na teorização especulativa da filosofia é fazer outra coisa qualquer.

    Uma coisa é ter interesse em discussões especulativas, outra coisa BEM DIFERENTE, MUITO DIFERENTE, é querer entender o sentido dessa discussão especulativa específica sobre o conhecimento. Querer entender a relevância, a importância que representa essa teoria dentro da epistemologia.

    Fiquei muito decepcionado com suas não-respostas. Talvez não seja o melhor local para tê-las colocado. Só resta lamentar mesmo.

    ResponderEliminar
  2. Bom, você nem sequer sabe o que é a factividade, nem sabe que se escreve correctamente com c também no Brasil. Confunde, além disso, preposições com proposições. Não dá sinais de ter estudado seja o que for sobre o assunto. O que o faz pensar que é simpático da sua parte metralhar perguntas atrás de perguntas? Poderia pelo menos fazer uma ou duas perguntas cuidadosamente articuladas, e depois de ter estudado alguma coisa sobre o assunto: é uma questão de respeito pelo tempo dos outros; as pessoas não têm obrigação de satisfazer os seus desejos. As coisas funcionam cooperativamente: quem sabe mais de algo ajuda quem sabe menos disso, mas quem sabe menos tem de cooperar estudando seriamente. Caso contrário isto torna-se uma farsa.

    ResponderEliminar
  3. A palavra "factivo" não é costumeiramente utilizada em manuais de epistemologia do Brasil, mas posso estar muito enganado. Apenas por isso desconheço o termo. Mas já compreendo o que a palavra quer dizer no sentido utilizado.

    A "confusão" entre preposição e proposição foi um erro de escrita.

    Desculpe o excesso de questões, mas creio que ganharíamos todos se tivesse evitado comentários desnecessário sobre samba e cerveja e outros comentários sobre capacidade cognitiva e sobre desprezo por questões especulativas. Se as desprezasse nem perdia tempo em vir aqui perguntar, pedir ajuda.

    Se tivesse lido com mais atenção minhas questões veria que minhas dúvidas eram outras e não perderia tempo dizendo coisas que eu já sabia. Tudo que eu disse foi simplesmente ignorado por causa do desconhecimento da palavra factível e do erro de grafia?

    Quem sabe numa próxima consiga fazer-me mais claro. Não quero abusar do vosso tempo. Desculpe o exagero.

    Se fiz tantas perguntas é porque realmente não compreendi certas coisas que envolvem essa definição de conhecimento, que inclusive todos consideram banal, simples. Não sou um estudioso de epistemologia.

    ResponderEliminar
  4. Além de manuais de epistemologia há com certeza outros livros, e o mundo não acaba no Brasil. O Houaiss explica o termo "factivo" (confusamente, como quase todas as definições deste dicionário que envolvam um conhecimento um pouquinho mais sofisticado do que ler jornais), mas define. Nem isso você se deu ao trabalho de consultar.

    Este artigo é claro como água e explica a definição tradicional de conhecimento:

    http://criticanarede.com/fil_conhecimento.html

    Se o que quer saber é por que raio os filósofos se dão ao trabalho de tentar definir o conhecimento, e qual é a importância das definições, pode ler também outros artigos sobre isso. Muito rapidamente, damo-nos ao trabalho de definir coisas porque queremos compreendê-las melhor, mas uma boa definição seja do que for é muito difícil (define-se coisas em direito, biologia, matemática, além evidentemente da filosofia). Tentar definir algo é tentar saber melhor quais são as componentes fundamentais desse algo.

    As definições fazem-se em termos de condições necessárias e suficientes e podemos distinguir pelo menos três tipos de definições explícitas, além das implícitas. Eu explico isso com algum pormenor na Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos. Mas não sei se é isso que você quer realmente saber.

    ResponderEliminar
  5. Acabo de ler o texto de Elliott Sober e as dúvidas persistem. Provavelmente porque 1) você não está entendendo as minhas dúvidas; 2) não estou conseguindo esclarecer o ponto onde a coisa perde o sentido; ou ainda 3) o problema é tão claro e banal para você e não claro pra mim que parece que estamos falando de coisas totalmente diferentes.

    Eu entendo que se vai discutir sobre conhecimento proposicional, o saber-que (apesar de não entender com muita clareza por que só se debruça sobre esse tipo de conhecimento). Entendo o que são condições necessárias e suficientes. Não tenho quaisquer dificuldades com isso. Só acho certas explicações rasas. Por exemplo: As pessoas às vezes dizem que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Mas isto não é saber coisas que são falsas, é pensar que se sabem coisas que, de facto, são falsas.

    Essa distinção entre saber e pensar acho superficial, porque fico em dúvida de saber se nesse caso ocorreu um problema em relação à noção de verdade ou em relação à noção de justificação. Qual seria a explicação precisa aqui?

    O que é a verdade aqui? Que conceito de verdade que está operando?

    Depois o exemplo do porco do campo. Crer na relação entre o porco do campo ver a sua própria sombra e o dia da primaveira é uma crença verdadeira? Por quê? Me parece que não, já que essa relação é falsa assim como o céu não é verde (apesar de em alguns dias o céu ganhar outras cores). Ou não?

    Alguém que diz que a raiz quadrada de quatro é dois, mas essa pessoa não sabia que isso era assim mesmo. Essa pessoa apenas adivinhou por sorte. Essa pessoa tinha uma crença verdadeira e uma justificação vazia? Essa pessoa tinha uma crença falsa e uma justificação vazia?

    Vou procurar no Houaiss. Curioso é que você cita o dicionário Houaiss e depois diz que ele possui uma definição confusa acerca do termo. Poderia ter citado:

    http://criticanarede.com/docs/etlf_factivo.pdf

    ResponderEliminar
  6. A epistemologia não estuda apenas o conhecimento proposicional, mas também estuda o conhecimento proposicional. E dá destaque ao conhecimento proposicional, talvez erradamente, por se considerar que é um género fundamental de conhecimento.

    A distinção entre saber e pensar que se sabe é superficial. É banal. Tão banal que qualquer teoria que a elimine é provavelmente falsa. Porquê? Porque nenhum argumento há que seja suficientemente forte para refutar esta banalidade: não somos omniscientes. Se não houvesse qualquer diferença entre pensar que se sabe e saber, seríamos omniscientes pois saberíamos tudo o que pensaríamos saber.

    Não há qualquer conceito filosófico de verdade envolvido quando se distingue o saber do pensar que se sabe. Qualquer teoria da verdade tem de ser compatível com esta banalidade. Se o não for, é porque é plausivelmente falsa, dado que implicaria que somos omniscientes, o que é absurdo.

    Não compreendeu o exemplo do porco. A crença verdadeira não é a relação entre o porco ver a sua sombra e a primavera vir mais cedo. A crença verdadeira é que a primavera vem mais cedo, e isso é verdade porque a primavera veio mais cedo, mas precisamente por não haver qualquer conexão entre o porco ver a sua sombra e a primavera vir mais cedo, a crença não tem justificação, apesar de ser verdadeira. De uma maneira mais simples: se você tiver uma crença verdadeira, mas por sorte, ou por causa de algo que não está realmente conectado à verdade da sua crença, a sua crença não é conhecimento. Para que uma crença verdadeira seja conhecimento é preciso que essa crença não seja verdadeira por acaso e é preciso que o que o fez ter a crença e a verdade dela esteja adequadamente relacionado.

    No caso da raiz quadrada a pessoa tinha uma crença verdadeira, mas se adivinhou por sorte não sabia realmente qual era a raiz quadrada de quatro. Não sabia porque não tinha uma justificação adequada para a sua crença.

    Citei o Houaiss por duas razões óbvias: o número de pessoas no Brasil que têm esse dicionário é muito superior ao número de pessoas que têm a minha enciclopédia, e não me lembrava que essa definição está online na minha revista.

    Há da sua parte desde a primeira hora uma manifesta má vontade muito desagradável. É muito diferente ter dúvidas genuínas de estar a tentar provar não sei o quê. Ainda por cima não dá a cara. Nem sequer percebo para que raio se dá ao trabalho estudar a definição tradicional de conhecimento. Como bem disse, isso quase não é estudado no Brasil. Há muitas outras coisas que pode estudar, autores como Foucault, Nietzsche, Heidegger, etc., e isso é muitíssimo mais estudado no Brasil do que as trivialidades da definição tradicional de conhecimento.

    ResponderEliminar
  7. Caro Kneip,
    No meu post deixei links para textos que melhor podem esclarecer as suas questões. Precisamente por saber que podem surgir questões é que deixei os links para os textos referência. É claro que o Kneip pode duvidar dos textos e pode até duvidar que está a ler este comentário. Mas nesse caso não chega a lado algum.
    Não respondi antes porque o Desidério respondeu-lhe com correcção a todas as suas questões.As questões por serem filosóficas não tem de envolver uma complexidade tal que temos sempre dificuldade em compreedê-las. E compreender bem uma tese filosófica depende, obviamente, de questões psicológicas que os filósofos não dominam, tal como se a pessoa é ou não inteligente, etc. O que interessa aqui é que a tese CVJ está presente no texto de Platão e é ainda uma questão em aberto e actual. Por outro lado a tese CVJ é operacional, para definir conhecimento. São conceitos e ferramentas técnicas que aparecem em bons livros de filosofia, tal como os físicos ou biólogos possuem as suas teses centrais. Não vejo qual o problema em compreender isto. Pela experiência que tenho a ensinar filosofia a estudantes de 16 anos, esta tese é rapidamente compreendida não levantando grandes dificuldades.

    ResponderEliminar
  8. Uma dúvida: Não há respostas definitivas para questões filosóficas? É impossível afrmarmos que um dado problema filosófico foi definitivamente solucionado?

    ResponderEliminar
  9. Raramente isso acontece, sobretudo com os problemas centrais da filosofia: ninguém sabe se existe Deus, se temos ou não livre-arbítrio, qual é o fundamento da moral ou o que é a arte.

    ResponderEliminar
  10. Se não houvesse qualquer diferença entre pensar que se sabe e saber, seríamos omniscientes pois saberíamos tudo o que pensaríamos saber.

    De um lado somos omniscientes e de outro há distinção entre saber e pensar que se sabe? Não há muitíssimas posições intermediárias que essa definição geral do conhecimento não se preocupa? Essas posições intermediárias aqui neste momento de formular uma definição geral de conhecimento não interessam? Por quê? Desculpe, estou tentando compreender.

    Uma crença ser verdadeira está diretamente ligada com a sua justificação? Eu pensei que fossem coisas distintas. Que desse pra separar crença verdadeira e justificação. Por exemplo: alguém tem uma crença verdadeira de que o céu é azul. Além disso há uma justificação, uma explicação para isso ser assim. Não é assim? Parecia-me que na própria noção de crença verdadeira já havia uma noção implícita de verdade que depois a justificação viria reforçar.

    Obrigado pelas respostas. Vou deixar de lado a parte final, pois não me acrescenta, nem me serve de coisa alguma.

    ResponderEliminar
  11. Não, não é verdade que de um lado somos omniscientes e do outro se distingue a crença do saber. Você não compreendeu. É um argumento: “Se não houvesse diferença entre crença e conhecimento, então seríamos omniscientes. Mas não somos omniscientes. Logo, há diferença entre crença e conhecimento.” E como se defende a primeira premissa? Por que razão se não houvesse diferença entre crença e conhecimento, seríamos omniscientes? Porque nesse caso saberíamos realmente tudo o que pensamos saber.

    Isto não é uma definição de conhecimento. É apenas uma consequência do que é o conhecimento. Seja o que for o conhecimento, e seja ou não possível definir o conhecimento, o conhecimento nunca pode ser o mesmo do que a crença porque se o fosse, seríamos omniscientes.

    O facto de uma crença ser verdadeira não está relacionado de modo algum com a sua justificação. A verdade de uma crença depende apenas do que faz a crença ser verdadeira, e não da justificação que temos para pensar que é verdadeira. Verdade e justificação são coisas inteiramente diferentes. A verdade é um conceito metafísico, a justificação é um conceito epistémico. O que faz a crença de que há extraterrestres inteligentes ser verdadeira são os extraterrestres inteligentes. Outra coisa totalmente diferente é que justificação poderá alguém ter para ter essa crença. E hoje ninguém tem boas justificações para pensar que essa crença é verdadeira.

    Em suma: uma crença pode ser verdadeira, ainda que não tenhamos justificação para ela.

    ResponderEliminar
  12. Notei que você parece ter estabelecido uma relação entre pensar que e crença, e saber alguma coisa e conhecimento. Estou enganado? É mesmo assim? Aquilo que se crê é algo que ainda precisa de duas outras condições: que seja verdadeiro e que tenha boas justificativas. Exemplo: eu creio que Aristóteles escreveu a Metafísica.

    Não entendi bem o que faz uma crença ser verdadeira. Como que os extraterrestres inteligentes podem ser condição para a crença verdadeira em extraterrestres inteligentes?

    E só mais última coisa. Um conceito espistêmico (exemplo: justificação) pode servir para conceitos metafísicos (exemplo: verdade)?

    Pensei que verdade estava sendo entendida aqui em algum sentido epistemológico e não metafísico.

    ResponderEliminar
  13. “Aquilo que se crê é algo que ainda precisa de duas outras condições: que seja verdadeiro e que tenha boas justificativas.”

    É evidente que não. Podemos ter crenças falsas. Para que algo seja uma crença não tem de ser verdadeiro nem tem de ter boas justificações. Uma crença é só o que alguém pensa acerca de algo. “Pensar que” é em português um sinónimo de “ter a crença de que”: dizer “O João pensa que é preciso estudar” é o mesmo que “O João tem a crença de que é preciso estudar”.

    O que faz a crença na existência de extraterrestres ser verdadeira, se o for, é haver extraterrestres. Se não houver extraterrestres, por mais firmemente que alguém pense que há, a sua crença continuará falsa. As nossas atitudes epistémicas não tornam as nossas crenças verdadeiras ou falsas. No máximo, uma certeza forte, se for baseada em fortes justificações, é um indício de que a crença será provavelmente verdadeira; mas nunca é uma garantia por causa do “azar epistémico”: um agente pode estar numa situação em que tudo aponta para uma dada ideia, mas essa ideia é falsa.

    Um conceito epistémico não “serve” para conceitos metafísicos, se bem que eu não compreenda o que é isso do “servir”.

    Na minha introdução a Os Problemas da Filosofia, de Russell (Edições 70), que acabei de publicar cá no Brasil, explico a diferença entre o problema metafísico da verdade e o problema epistémico da verdade. O primeiro é o problema de saber o que é a própria verdade, o que faz uma frase ou pensamento verdadeiro ser verdadeiro. O segundo é o problema de saber como podemos distinguir as nossas crenças verdadeiras das falsas, se é o que podemos fazer tal coisa. Na antiguidade chamava-se a isto o problema do critério. O problema da definição tradicional do conhecimento não é o problema do critério e isto é talvez o que faz algumas pessoas pensar que a definição tradicional do conhecimento é uma tolice.

    ResponderEliminar
  14. Desidério, a sua afirmação de que "em filosofia tudo o que temos são teorias presumivelmente falsas" não é ela mesma filosófica? Então é ela também presumivelmente falsa. Você não possui certeza nenhuma a respeito de nada? Você acabou de afirmar que o conhecimento é fático: isso não é uma certeza?

    ResponderEliminar
  15. Uma teoria não é uma afirmação: é um conjunto articulado de afirmações. Mas aceitemos que todas as afirmações filosóficas são presumivelmente falsas. Nada se segue daí de especial, excepto a trivialidade de que esta afirmação é presumivelmente falsa. Se esta afirmação for presumivelmente falsa, então há afirmações filosóficas verdadeiras e esta não é uma delas. Qual é o problema?
    A certeza é um conceito inteiramente epistémico, nada tem a ver com o facto de as nossas afirmações serem verdadeiras ou falsas. As pessoas têm certezas quando pensam que têm justificações muitíssimo fortes a favor das suas crenças. Nada do que eu disse põe em causa a possibilidade de termos justificações a favor de várias crenças. Mas o que eu disse implica que mesmo tendo as melhores justificações a favor de algo, isso pode ser falso. E esta ideia também. Qual é o problema? Isto é apenas uma trivialidade: que somos falíveis. O que pensamos que é verdade, ainda que tenhamos as melhores justificações, pode ser falso porque não somos infalíveis. A ideia de que não somos infalíveis é óbvia. Poderá ela ser falsa precisamente por estarmos enganados? Sim. Mas é provável que estejamos enganados? Não. Podemos estar enganados quando pensamos que não é provável que estejamos enganados? Sim. E depois? Nada disto deveria causar surpresa porque tudo isto é banal. É apenas a consequência de não se fingir que somos infalíveis.

    ResponderEliminar
  16. A sua afirmação de que somos falíveis é irrefutável, pois, ainda quando alguém disser que tem certeza acerca de algo, você sempre poderá dizer que ela, presumivelmente, está errada. Nicolau de Cusa e Descartes, p.ex., também achavam que somos falíveis, mas não absolutamente falíveis. A afirmação segundo a qual somos absolutamente falíveis tem a pretensão de ser infalível. Se não tem, é uma brincadeira. Se tem, é autocontraditória.

    ResponderEliminar
  17. Desidério

    Fiquei com uma dúvida ao reler o Teeteto e lembrar que Sócrates ao fim do diálogo rejeita a idéia de conhecimento como crença verdadeira e justificada. Fui, então, ler o texto de Anthony Kenny e ele confirma que a tese foi de fato rejeitada ao fim do diálogo. Como então essa tese foi considerada clássica? Por quem, quando isso ocorreu?

    Obrigado.

    Kneip

    ResponderEliminar
  18. Desculpem, mas gostaria de algum texto falando dessa última pergunta que fiz. Vocês conhecem? Pode ser em inglês ou espanhol.

    ResponderEliminar
  19. A discussão moderna das insuficiências da definição clássica de conhecimento começa com Gettier; mas não sei quando é que antes disso as pessoas começaram a usar a definição clássica. Russell pressupõe-na e tem consciência das suas limitações. Mas não sei quem é que historicamente começou a fazer isso. Gettier cita Chisholm e Ayer, mas não sei quem antes deles, além de Russell, poderá ter falado explicitamente dessa definição. Contudo, parece suficientemente intuitiva e plausível para ser natural que vários filósofos diferentes, sem terem conhecimento de Platão nem de outros filósofos, cheguem à mesma ideia.

    ResponderEliminar
  20. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

    ResponderEliminar
  21. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

    ResponderEliminar
  22. e assim, fico sem saber por que a concepção de conhecimento como justificação, verdade e crença nos foram oferecidas pela tradição filosófica ocidental. (elias borges de campos).

    ResponderEliminar
  23. tenho 16 anos e estou-me a rir com a vossa discussão infantil, dois anos depois. De qualquer das formas tudo o que se escreveu para aqui nem me tirou as dúvidas nem acrescentou nada ao que o meu manual de filosofia diz, agora pensem. O tempo gasto nesses vossos contra-argumentos com palavras caras que não são mais que sinónimos que usam para se mostrarem inteligentes, poderia muito bem ter servido para responderem algo de jeito, e para alguém que gosta de discutir filosofia e que fica aborrecido "de morte, por exemplo, com conversas frívolas e ambientes de cerveja, com as infantilidades da televisão e o barulho das discotecas e dos bares.", talvez fosse hora de realmente estruturar argumentos em vez de escrever umas quantas definições e insultar quem não gosta das mesmas coisas. Até lá, talvez seja melhor "fazer outra coisa qualquer. Há muitas coisas para fazer na vida além de estudar filosofia."

    ResponderEliminar
  24. Primeira vez que eu leio o desidério perdendo a compostura e lançando mão de arrogância ao responder dúvidas de quem não é da área. Depois dessa evitarei lê-lo nas próximas.

    Chacon.A;

    ResponderEliminar