7 de agosto de 2008

Ensinar filosofia: Portugal e Brasil

A propósito do alargamento no Brasil, a todos os estados, do ensino obrigatório da filosofia para estudantes pré-universitários, muitos colegas me têm perguntado como são as coisas em Portugal, já que lá este ensino obrigatório existe desde há séculos. Agora, a propósito do post do Miguel, o leitor Alex pergunta por que razão em Portugal os cursos de filosofia são todos licenciaturas e não bacharelados, como no Brasil.

A razão é esta: chama-se em Portugal “licenciatura” ao que no Brasil se chama “bacharelado” e não temos nome para o que no Brasil se chama “licenciatura”. No Brasil uma licenciatura é um bacharelado numa dada área, com ênfase no ensino dessa área, para capacitar o aluno para dar aulas. Em Portugal há apenas o que chamamos “licenciaturas” mas no Brasil se chama “bacharelado” e depois em algumas delas há “vias de ensino” ou “vias científicas”, que correspondem à diferença que se faz no Brasil entre a licenciatura e o bacharelado. Noutros casos, e isso é mais comum em filosofia, só há mesmo a licenciatura, igual para toda a gente; mas depois quem quiser dar aulas no ensino secundário (que no Brasil se chama “ensino médio”) terá de fazer uma pós-graduação em ensino da filosofia. Na verdade, e sei que isto é espantoso para os colegas brasileiros, a esmagadora maioria dos professores de filosofia do ensino secundário português são licenciados em filosofia (as excepções serão muito poucas), quase todos têm uma pós-graduação em ensino, muitos têm mestrados em filosofia ou ensino e alguns têm doutoramentos. A situação é, pois, bem diferente do que acontece no Brasil, no qual me dizem que a maior parte dos professores de filosofia do ensino médio não têm qualquer formação académica em filosofia.

Em Portugal, a filosofia é uma disciplina obrigatória no 10.º e 11.º ano, quando os estudantes têm entre 15 e 16 anos. O 12.º ano é o último ano antes da universidade.

Espero que esta nota seja esclarecedora.

6 comentários:

  1. Não faz muito tempo, todo curso universitário no Brasil era de bacharelado. Quem quisesse se licenciar, a fim de dar aulas, tinha então de fazer um curso complementar de licenciatura, de dois anos. Depois esse curso passou a ser dado em um ano apenas. Depois passou a poder ser cursado simultaneamente com o bacharelado. Hoje muitos cursos universitários oferecem as duas possibilidades, licenciatura e bacharelado, que correm paralelamente: o aluno monta o seu curso conforme o interesse. E muitos cursos são oferecidos apenas na modalidade licenciatura. Nas duas faculdades de filosofia em que leciono, o curso é apenas de licenciatura e dura três anos.

    A educação no Brasil virou um negócio como qualquer outro. Existe p.ex. um curso chamado R2 que forma licenciados em filosofia em seis ou nove meses, a distância, bastando que o aluno possua uma graduação anterior qualquer.

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  2. Pois é Edson, um negócio em que os diplomas valem muito dinheiro na exata proporção em que o conhecimento é desvalorizado. É de assustar esse R2 que vc mencionou, assim como várias pós (incluindo mestrados!) que se faz sem qualquer aula: pagam-se prestações e em alguns meses temos mestres semianalfabetos nas mais diversas áreas. E eu, depois de concluir uma graduação com muito esforço e anos de estudo, perco vagas pra gente com essa formação.

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  3. Sobre os professores que não têm formação na área: em várias escolas particulares isso é prática costumeira, em várias escolas públicas isso tb acontece (mas não sei se podem ser efetivados sem formação na área, embora seja provável). Acontece muito tb de padres ou ex-seminaristas que aprendem filosofia nas coxas no seminário ocuparem essas vagas tb, infelizmente a maioria é mal preparada.

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  4. Sim, sim, Desidério, nota muito esclarecedora.

    No Brasil, licenciatura forma professores generalistas. Senso comum, seria como dizer do bacharelado "um trabalho que se vai fazer" e da licenciatura "uma matéria que se vai ensinar". Ao se dizer 'bacharelado' por cá pensa-se em advogados, engenheiros, administradores etc.

    A licenciatura habilita a dar aulas no secundário, coisa que um bacharel, em tese, não pode fazer. Mas um licenciado não pode dar aulas no ensino superior, dado que sua formação técnica é menos profunda e que, para o ensino superior, também é comumente preciso ter pós-graduação.

    Um licenciado em física, biologia, geografia ou história, por exemplo, dificilmente arruma emprego fora do ensino secundário e não está apto à investigação - amiúde, é um mestre-escola moderno.

    Eu, por exemplo, curso um bacharelado em filosofia. Com ele poderei seguir na pós-graduação e dar aulas no 3º grau. Mas até lá, se quiser ensinar no secundário, terei de complementar a formação com uma licenciatura, de um ano ou ano e meio, onde verei coisas utilíssimas de pedagogia, psicologia social, contação de histórias, tudo muito temperado no vosso bem conhecido eduquês.

    Donde minha pergunta (mais pertinente aos brasileiros - entendidos como 'todos que vivam no Brasil' -, mas extensível aos colegas portugueses): até entende-se (cabendo discutir) bacharelado e licenciatura em física, biologia, geografia ou história; mas em filosofia?

    Já agora: é realmente um escândalo a situação dos profs. no Brasil, especialmente no secundário. Não só muitos não são formados em filosofia (há batalhões de teólogos, sociólogos, historiadores e lingüistas a dar aulas) como para além da filosofia, no ensino em geral, muitos não são formados seja no que for. Mas deixemos as lamúrias para os outros, fiquemos nós com o trabalho.

    Abraço nos professores

    Alex.

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  5. Se um brasileiro com grau de bacharel vir a morar em Portugal, ele poderá lecionar no ensino secundário, tendo mestrado, mesmo sem essa pós na área de ensino?

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