30 de agosto de 2008

Factivo, facticidade, factício e factitivo

Subsistem por vezes algumas confusões com respeito ao termo "factivo", confundindo-se com facticidade. Para efeitos de completude aproveito para esclarecer também outros termos relacionados. A factividade é um termo da linguística. Um verbo, por exemplo, é factivo quando a oração encaixada representa algo como um facto. Ou seja, quando esse verbo implica o facto expresso pela oração encaixada. Por exemplo, o verbo "sonhar" não é factivo porque "O Asdrúbal sonhou com uma árvore" não implica a existência da árvore; mas "ver" é factivo porque "O Asdrúbal viu uma árvore" implica a existência da árvore. Ler mais...

10 comentários:

  1. O objeto do verbo sonhar não é factível porque Asdrúbal sonhar com uma árvore não implica a existência da árvore; porém o verbo sonhar é factível porque objetivamente Asdrúbal sonha quando dizemos que ele sonha e coincide o fato de que esteja sonhando.

    Que tal? Não seria uma formulação mais precisa, caro Desidério?

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  2. Posso sonhar tornar-me oboísta e, no dia seguinte, ir a uma loja de música comprar um livro de método, um oboé, e inscrever-me em aulas de oboé e teoria musical. O objecto do sonho é factível.

    O verbo não é factivo, caso contrário a distinção entre factivo e contrafactivo vai ao ar. (não me parece correcto dizer que o verbo é "factível")

    Factivo seria "O adriano sabe que o Asdrúbal está a sonhar"... porque observa o Asdrúbal balbuciar palavras acerca de árvores enquanto dorme. Parece.

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  3. É engraçado. "Factício" capta o sentido original de "feitiço", que os franceses supostamente terão importado para dar "fetiche" e que nós voltámos a importar como se fosse galicismo, como é habitual por cá.

    Pense-se contudo em palavras como "passadiço", "embarcadiço", etc.

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  4. Engraçado mesmo é que factício venha do latim e signifique "artificial, não natural, imitativo" (segundo o dicionário Houaiss, o melhor em língua portuguesa).

    Engraçado também que factício fosse (lembrou-me o mesmo Houaiss) a maneira como Descartes chamava aquele tipo de idéia fantasiosa, feita ou inventada por meio da imaginação.

    Já factível é aquilo "que pode acontecer ou ser feito", e também acrescenta o mesmo dicionário, o "exeqüível, realizável".

    Digo já que dicionários não são a maior autoridade para se definir conceitos filosóficos... mas está claro que "factício" está bastante próximo de "fictício", denotando o contrário do que aparentemente Desidério queria mostrar. Daí que eu optasse por factível.

    Falando em feitiçaria, houve uma operação estranha na sua refutação. Falávamos no presente. Você inventa um presente posterior ao sonho. Mas mesmo assim a objeção vai mal, porque no fundo equivoca a diferença entre sonho e realidade. Aquilo com que se sonha nunca é real, mesmo porque consiste no embaralhamento de dados sensíveis, misturados pela imaginação.

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  5. factível é o que pode ser feito, o exequível.

    factício é que tem a propriedade de ter sido feito. O mesmo que "feitiço" enquanto adjectivo.

    "factício" não está próximo de "fictício" a não ser pela quase homografia. "cágado" e "cagado" também estão "próximos" nesse sentido e no entanto nada têm a ver.

    Aqui não há flexão temporal alguma. "Sonhar" não é factívo porque o verbo não implica que as entidades sonhadas sejam um facto. "Ver" que fulano está a sonhar é factivo porque implica o facto de que fulano está a sonhar. A flexão temporal não é para aqui chamada.

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  6. Factício e fictício são sinônimos, tenham grafia e som parecidos ou não. Ambos significam artifical, não natural, imitação... se quiser, compare as acepções disponíveis no tal DLPO.

    Uma idéia factícia ou fictícia é uma idéia forjada imaginariamente.

    ***

    Pode ser o caso em que fulano sonhe. Nesse sentido, o verbo sonhar é factível. Pode ser o caso em que fulano sonhe ser músico e seja? Sim, e isso contraria aparentemente o que eu tinha dito. Mas aí depende da imagem que temos de sonhar, ou melhor: se tomarmos sonhar no sentido de fantasiar a respeito de algo, então sonhar não é um verbo factível.

    Mas, na verdade, o "factível" não estava na lista do Desidério, e sim o "factivo", que no português brasileiro é raríssimo, sendo preterido, ao que me parece, pelo factual.

    Aliás, o DLPO nem registra a palavra "factivo", embora o Houaiss registre duas acepções (numa delas é sinônimo de factício e na outra, "verbo que, quando us. na oração principal, determina que a oração subordinada seja interpretada como expressando um fato verdadeiro".

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  7. Então para si uma "facção" e uma "ficção" são a mesma coisa. Porque a raiz latina de "facção" é o verbo "facere" ao passo que a raiz latina de "ficção" é o verbo latino "fingere".

    Começo a perguntar para com os meus botões: isto é uma questão de palavras? Será que se o autor do post tivesse usado "factual" não veríamos na mesma uma série de "luzes de néon" em forma de seta, a apontar para o que, aparentemente, é uma imperdoável falha de raciocínio? Dá a entender que estamos aqui numa caça desesperada à gralha ou algo assim... Agora já não é a lógica da coisa que importa mas o facto de o Desidério ter usado uma palavra menos comum? Bolas, que já começa a soar um pouco estranho isto. Ninguém veio para aqui discutir egos, supostamente.

    O meu dicionário também não regista muitas palavras. É um problema. É por isso que defendo que se devia traduzir os dicionários de inglês-inglês e mandar para o lixo os dicionários nativos, Para perceber por que penso assim, pode-se ver alguns dos posts que publiquei no meu blogue sobre as tretas lexicais em português.

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  8. Se você se acalmar um pouco, talvez consiga pensar no seguinte:

    um objecto factício é um objecto que foi feito, manufacturado, produzido em série, etc. Mas é um objecto bem palpável, real.

    Um objecto fictício, obviamente, não será palpável, a não ser na imaginação.

    ... Se a ideia foi "forjada imaginariamente", então nem sequer foi forjada, dado que isso foi uma ficção. O acto de forjar ou de ter a ideia foi uma ficção na cabeça de outrem...

    Um chá de camomila era capaz de ajudar, ou raiz de valeriana.

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  9. Nota sobre a diferença entre "factivo" e "factual":

    Se "factual" fosse o mesmo que "factivo", será que por razão de força maior "genitivo" e "genital" seriam o mesmo?

    Factual é a propriedade que algo tem de ser um facto. Factivo é a propriedade de representar factos. É um facto que Asdrúbal sonha, mas o verbo "sonhar" na frase "Asdrúbal sonha que bebe café" não é factivo porque não representa um facto. O verbo "ver" em "João vê que Asdrúbal sonha" (que ocorre ao mesmo tempo que o sonho) é factivo porque refere o facto de Asdrúbal estar a sonhar (nesse mesmo momento, dado que "vê" está no presente, nem posterior nem anterior).
    Em todo o caso não é o verbo "sonhar" que é factual, o que é factual é que Asdrúbal sonhe, porque é um facto que está a sonhar. Mas o verbo ser ou não factivo e o acontecimento descrito ser factual são coisas diferentes.

    Sei que prometi não escrever muitos comentários de cada vez. Mas só me ocorreu este detalhe sobre "factual" agora.

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  10. Vitor diz que

    (1) a raiz latina de "ficção" é o verbo latino "fingere";

    (2) [u]m objecto fictício, obviamente, não será palpável, a não ser na imaginação.

    Sobre fingére diz o Houaiss que é "propriamente 'moldar na argila'". Convenhamos, pois, algo bastante palpável.

    Quanto a Desidério usar factivo em vez de factível... Deus, não faz diferença se é ele ou sujeito xyz. Nem faz diferença alguma que eu seja um grande admirador de Desidério. A questão é saber se factivo era uma boa escolha ou não... e talvez até seja.

    E que tem a ver a diferença entre "genitivo" e "genital" para a diferença entre "factivo" e "factual"? Não é porque em um primeiro caso haja a diferença que necessariamente no segundo também haverá.

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