13 de agosto de 2008

Filosofia da música 2

O musicólogo deixou no seu comentário à posta anterior algumas sugestões de leitura sobre filosofia da música. Aproveito para acrescentar outras e fazer um ou outro comentário sobre o que disse, começando pela referência a Eduard Hanslick.

Hanslick foi um famoso crítico musical vienense do século XIX, tendo sido caricaturado pelo próprio Wagner – muitas vezes vítima da crítica de Hanslick – na sua ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga. O livrinho de Hanslick Sobre o Belo Musical – a tradução portuguesa é Do Belo Musical – dá início à filosofia da música. É datado? Claro que é, pois foi escrito há mais de um século. Mas é o único livro de filosofia da música que conheço traduzido para português e é filosofia de boa qualidade. É, em minha opinião, muito melhor do que a maioria dos livros de filosofia que se podem encontrar nas prateleiras das livrarias portuguesas, mesmo para quem não tem um interesse especial por filosofia da música.

E em português, estamos conversados. Não há mais filosofia da música (não estou a falar de crítica musical, de musicologia, de história ou de sociologia da música, bem entendido). Temos, pois, de ler inglês, dado que também não nos vamos conseguir safar com francês nem com o espanhol.

Assim, sugiro duas curtas e acessíveis introduções à filosofia da música, uma de 2002 e outra de 2004, respectivamente:

Peter Kivy, Introduction to a Philosophy of Music (OUP)
R. A. Sharpe, Philosophy of Music, An Introduction (Acumen)

Os autores são ambos bons filósofos profissionais e Peter Kivy é mesmo um dos mais importantes e discutidos filósofos da música, além de ter uma formação musical avançada. Outros dos nomes sonantes da filosofia da música, além de Kivy, são Jerrold Levinson (ambos americanos) Stephen Davies (neo-zelandês), Roger Scruton e Malcolm Budd (ingleses).

Mas há outros filósofos, alguns dos quais exploram áreas mais restritas da filosofia da música, como Dianna Raffman (filosofia da música, filosofia da linguagem e da mente), John Fisher (filosofia da música rock e pop) e Lydia Goehr.

E tem de se referir um clássico da filosofia da música dos anos 50, embora o autor seja primariamente musicólogo, que é Emotion and Meaning in Music, de Leonard Meyer.

Só mais um comentário à seguinte passagem do musicólogo:

«Pensando bem até há muita coisa sobre música. O defeito: a maioria dos músicos não são filósofos. E a maioria dos filósofos percebe muito pouco de música. Esse é o principal dilema que encontrei em tudo o que li. Uma discrepância entre os dois mundos.»

É verdade que há muita coisa sobre música, mas que não é realmente filosofia da música. E isto é que se pode ler na maior parte dos textos dos compositores que referiu. Mas acho que, neste caso, a tarefa está mais facilitada para os filósofos do que para os músicos, pois é possível fazer boa filosofia da música sem saber muito de música (Scruton, por exemplo é compositor, mas Levinson não é e está muito longe disso; prefiro Levinson a Scruton como filósofos), ao passo que não é possível fazer boa filosofia da música sem saber filosofia.

Mas a verdade é que quase todos os autores que referi têm formação musical muitíssimo avançada e são filósofos. Em suma, os mundos talvez não sejam assim tão discrepantes como afirma.

5 comentários:

  1. O livro de Peter Kivy também é datado — 2004. Isso nada nos diz acerca do valor das afirmações que lá encontramos.

    Também o dilema de Êutifron é datado, a mesma data que o texto homónimo de Platão, e no entanto é um argumento em filosofia da religião tão pertinente como se tivesse sido colocado ontem.

    As boas e más ideias são datadas. Não é por isso que são boas ou más.

    Pode haver bons argumentos com 500 anos e maus argumentos com 5 dias.

    ResponderEliminar
  2. Em português estamos conversados não! Esquecia-me de um pequeno livrinho, muito curioso que merece alguma atenção: A Quatro mãos (INCM, 2005), pelo Fernando Gil e pelo Mário Vieira de Carvalho.

    Quanto à "datação" do livro de Hanslick o problema dela reside fundamentalmente que muitas das teses nele explicitadas se aplicam exclusivamente a fenómenos musicais que existiam naquele tempo, mas que hoje são muito pouco do que se ouve. Isto é: o âmbito do livro parece permanecer muito restrito - no âmbito da música erudita instrumental.

    A música evoluiu imenso desde então, e novas manifestações musicais e sonoras, nomeadamente a música comercial, não fazem grande sentido quando analisadas à luz daqueles argumentos. E novas manifestações que na altura nem seriam consideradas música, estão a colidir com o que ali é dito. É só por isso que pode ser "perigoso" para um ouvinte do séc. XXI ler aquele livro desprevenido e depois tentar encaixar o que leu na música que hoje em dia se faz.

    ResponderEliminar
  3. Caro Musicologo

    realmente o livro de Hanslick pode possuir algumas limitações, mas afinal, qual livro não possui limitações? Mas apesar disso esse livro tem uma característica importante, que vc se esqueceu de mencionar: ele existe. Em um cenário filosófico pobre como vcs tem aí em Portugal, ele é mais do que bem vindo. Aliás, seria melhor trabalharmos pra escrever e divulgar melhores livros ao invés de reclamar dos livros que estão no mercado: se eles estão lá é porque alguém se deu ao trabalho de fazê-los - se não gostamos do trabalho dessas pessoas temos que oferecer alternativas.

    ResponderEliminar
  4. Tendencialmente sobre o tema deste tópico dissertei eu no meu blogue, citando também o pioneiro da filosofia da música, Hanslick.

    "A música precisa de significado?"

    É este o link - http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/2008/08/msica-precisa-de-significado.html

    Saudações,
    Victor Afonso

    ResponderEliminar
  5. Acredito que seja do interesse dos que acessam e gostam desse blog:
    Em março haverá um curso realizado pela Revista CULT, no Espaço CULT que tratará da Critica Musical.
    com o objetivo de desenvolver a capacidade crítica de estudantes e profissionais interessados em ampliar o conhecimento. Serão abordados temas importantes como o estilo dentro de uma perspectiva histórica, técnicas de entrevista e redação, o papel da internet e a produção de música independente. Para ministrar as aulas convidamos profissionais de destaque no segmento.

    6 de março - sexta-feira das 19h30 às 21h30
    7 de março - sábado das 10h às 18h
    Aulas:
    Sexta - 06 de março
    19h30 - Análise crítica dentro de uma perspectiva histórica
    Ministrado por: Sérgio Martins - crítico de música da revista Veja.
    Sábado - 07 de março
    10h - Técnicas e estilo
    Como escrever uma crítica musical.
    Ministrado por: Pedro Alexandre Sanches - sub-editor de cultura da revista Carta Capital.
    11h30 - Evolução da crítica musical e seus critérios
    Ministrado por: Jotabê Medeiros - crítico e repórter do Estadão.
    14h30 - A história do rock no Brasil
    Ministrado por: Kid Vinil
    16h - Técnicas de entrevista
    Com a participação dos alunos, um jornalista convidado entrevistará o músico Lobão.
    Inscreva-se:
    - Pela internet: entre no site www.espacorevistacult.com.br e acesse o link do curso A Crítica Musical e clique em "Fazer Inscrição"
    - Por telefone: ligue para o Espaço Revista CULT no (11) 3385.3385 e fale com Flávia Moreira, de segunda a sexta, das 9h às 18h.
    - Pessoalmente: compareça à redação da CULT na Praça Santo Agostinho, 70 - 10º andar - Paraíso - São Paulo - SP, próximo à estação Vergueiro do metrô. Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 10h às 18h.

    ResponderEliminar