7 de agosto de 2008

Heidegger, José Mourinho e o Todo (Gato Fedorento)

«HEIDEGGER e o 4-4-2: Foi, ontem, apresentado o livro “Liderança – As Lições de José Mourinho” de Luís Lourenço, baseado na sua tese de mestrado. Segundo o autor, José Mourinho "é diferente por partir de um novo paradigma de pensamento, preconizado por Heidegger ou Morin, por exemplo, e o operacionalizar. Trata-se de um novo olhar para o Todo, que põe de parte a divisão e análise das partes e o pensamento cartesiano de há quatro séculos". Cada vez que leio isto (e faço-o várias vezes ao dia, na esperança de o vir a compreender), gosto de imaginar a seguinte conversa entre dois adeptos, à saída de Stanford Bridge:

- Eh pá, o Chelsea não merecia ter empatado este jogo.
- Pois não. Mas a primeira parte foi tão má que parecia que o Mourinho não tinha lido “O Ser e o Tempo”.
- Quantas vezes é que o Heidegger avisou que o 4-4-2 só resulta se o trinco compensar a subida dos laterais?
- Exacto. Meu amigo, se é para ver a nossa equipa voltar ao pensamento cartesiano, não contes mais comigo para vir ao estádio.
- Calma. Também tens que perceber que estava nevoeiro. Se calhar, por isso é que, durante a primeira parte, o Mourinho não conseguiu ver o Todo.»

Miguel Góis: Gato Fedorento

2 comentários:

  1. Eu tenho o livro há algum tempo e li-o com atenção e acho que é das primeiras coisas a ser publicadas dentro do género. Não compreendo o sentido jocoso do Miguel Góis, para ele "Filosofia do futebol" será uma coisa sem sentido? Terá de o futebol sempre ser entendido como um jogo, um desporto intuitivo, físico ou meramente científico?

    Como Mourinho parece apontar, nem sempre as coisas se passam assim. Às vezes pensar sobre as coisas, analisá-las permite-nos encontrar novas formas e ângulos de abordar um problema que tem vindo a ser abordado da mesma maneira ao longo da história do futebol. É que 11 jogadores em campo está longe de ser a mesma coisa que um TODO em campo.

    E especialmente na metodologia do treinar (que é o que está em causa), esse passo é absurdamente lógico mas genial:

    Qual a vantagem de treinar 11 homens, como indivíduos, se depois no jogo em concreto temos um Colectivo - Um todo basculante, uma equipa coesa - que tem de funcionar como tal?

    Foi isto que Mourinho percebeu. E é essencialmente sobre isto que o livro fala e explica:

    A crição de um sistema de treinos tão próxima da realidade do JOGO quanto possível, isto é, em que os jogadores nos treinos actuem já como um TODO e não como indivíduos.

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  2. Viva,

    Pode-se pensar sobre futebol como se pode pensar acerca de qualquer coisa.

    Simplesmente há uma diferença entre pensar sobre um dado assunto e fazer citações descontextualizadas de clássicos, desde o Sun Tzu até ao Heidegger, paráfrases ocas que realmente nada dizem, tentando produzir uma aparência de grande profundidade teórica,quando aquilo que se diz das duas uma:

    a) ou é interpretado de tal forma a ser inteligível e, invariavelmente, é uma banalidade: uma equipa é um colectivo e a estratégia de um colectivo não pode ser a soma de estratégias individuais desconexas. Não era preciso uma tese cheia de heideggerianismos para dizer isto.

    b) é simplesmente falso ou então é treta (verdades irrelevantes para fazer sensação) ou psicofodas: alusões sugestivas para que o próprio leitor, ao identificar uma referência tola, se fique a sentir muito bem pensante por tê-la identificado, embora nada de relevante ou palpável se tenha pensado.

    É este o problema, e não o futebol, claro.

    Mas quem tem dúvidas pode sempre ver este vídeo:

    http://www.youtube.com/watch?v=XKEHTp-cHgQ

    O que me fascina é pensar que mesmo que se procure caricaturar este tipo de coisa, a caricatura teria de ficar igual ao original.

    O mais curioso é que um gajo fica a pensar que se trata de velhos armados em sabichões, com muito brio e pouco juízo... mas na verdade são miúdos com mais gravata e verniz do que cérebro.

    Até

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