15 de agosto de 2008

Introdução à Estética, de George Dickie

Deverá sair já em Setembro a tradução portuguesa de Vítor Guerreiro desta excelente introdução sintética mas abrangente à estética e à filosofia da arte, de George Dickie. Sendo um dos mais importantes filósofos actuais a trabalhar nesta área, esta obra é ideal para quem desejar conhecer melhor a estética e a filosofia da arte, de Platão aos nossos dias.

Fiz a revisão deste livro com muita dedicação, pois parece-me uma contribuição fundamental para estudantes, professores e quaisquer outras pessoas interessadas em conhecer uma área hoje em dia pujante da filosofia, mas que é relativamente desconhecida em Portugal e no Brasil. Em 2006 divulguei este livro no Público, e essa pequena apresentação pode ser lida na Crítica, aqui. O livro será publicado na colecção Filosoficamente, da Bizâncio.

16 comentários:

  1. Fico satisfeito pelo próximo número da colecção Filosoficamente.
    Agora, honestamente, não estou de acordo consigo quando diz que a área, filosofia da arte, suponho, seja desconhecida dos filósofos portugueses. Que me diz de José Gil e dos seus trabalhos? Como justifica o facto de em quase todas as faculdades portuguesas existirem mestrados em Estética e em filosofia da arte? E tantos são os vultos que têm vindo cá, como por exemplo Escoubas ou Mario Perniola?

    Saudaçoes

    ResponderEliminar
  2. Referia-me à filosofia analítica da arte. Peço desculpa pela imprecisão. Em qualquer caso, lendo o livro de Dickie verá que tem pouco ou nada a ver com o tipo de coisa que é conhecido em Portugal e no Brasil.

    ResponderEliminar
  3. Caro Paradoxo,
    E quem agora não concorda consigo sou eu! :-) Conheço obviamente os nomes que refere. Fui aluno dum deles. No meu curso de Estética estudei Goethe e Walter Benjamim. Claro que rapidamente nos tornamos especialistas na Urpflanze de Goethe, a planta original (ou originária???). Ora do que se trata? De uma tal planta que só alguns seres lá chegarão. Note que a professora de estética era catedrática e eu posso ser fuzilado por estar a fazer estas afirmações. Bem, o maior drama foi ter de estudar (????) Walter Benjamim, um autor obscuro por natureza com o qual se fazem belissimos puzzles imaginários. Fiz um curso de estética onde cada um falava para se ouvir a si próprio e a professora não andava muito longe dessa realidade. Recordo uma belissíma aula de estética em que um aluno, levado no espírito, discutia activamente com a professora. A discussão era para se saber se era possível gostar da música de Schoenenberg sem sequer a ter escutado. Sabe como Paradoxo? Por "antecipação de sentido".... sabe o que é antecipação de sentido estético? eu também não... mas fiquei a saber que posso livremente tecer comentários ao próximo disco do Marco Paulo mesmo sem ele o ter gravado ainda. Façço-o por antecipação de sentido. Chamo a isto o "sex appeal do inorgânico" expressão de Mario Perniola, como bem sabe. Como vê, este é um pequeno exemplo de que o que se ensina em estética e filosofia da arte em portugal, não é bem estética e filosofia da arte, mas uma experiência mística e religiosa só alcançavel por algumas almas abençoadas. Portanto, a minha opinião é diferente da sua: nem o José Gil sabe de filosofia da arte, nem a professora que me "ensinou" estética sabia. Isto é lixado dizer, pois é. A professora da estética também tem livros e traduções publicados, também pode puxar da cartola um curriculo que nunca mais acaba e provavelemente bebeu copos com o Perniola discutindo activamente Goethe e Benjamim. Perante isto que lhe possa dizer? Olhe posso-lhe dizer que é com livros como os de Dickie que eu vou conhecendo e estudando filosofia da arte. E isto, para mim, é muito mas muito tramado.
    abraço

    ResponderEliminar
  4. vou partilhar com os leitores uma experiência pessoal como aluno universitário de estética.

    Tive um professor de quem eu e os meus colegas averiguámos ser capaz de citar 70 nomes diferentes em meia aula (menos de duas horas). (isto nao é gozo, foi mesmo quantificado com o relógio, papel e lápis) Ao inspeccionarmos os apontamentos uns dos outros, víamos que das duas uma: ou ninguém escrevia ou apenas fazia listas de nomes e alusões sem conexão umas com as outras.

    Este professor recusou-me um texto sobre Eduard Hanslick que enterguei em cima da hora, embora tenha aceite exposições orais improvisadas em que a pessoa se limitava a passar cd's e a fazer comentários que nem para passar no top + tinham qualidade, quando mais para comentário filosófico a fosse o que fosse.

    Agora a parte chocante: estive 2 anos a fazer alternadamente estética e hermenêutica com este professor e sabem quando finalmente passei com um 16: quando fiz um exercício de escrita automática no teste, com todos os disparates mais loucos que me vinham à cabeça (não estou a brincar) e fiz uma exposição oral onde referia alguns dos autores preferidos do dito.

    Quanto à cadeira de estética propriamente dita (a experiência anterior foi a hermenêutica, embora não houvesse distinção entre as cadeiras. Aliás, salvo raras excepções, os professores, independentemente das cadeiras que dão, falam sempre no mesmo) só a fiz em condições quando mudei de docente, tendo a sorte de estudar com uma das poucas pessoas que faz estética analítica por cá (pelo menos no meu curso não conhecia outra) e onde finalmente aprendi alguma coisa sobre estética em vez de como fazer referências malucas para impressionar tolos.

    ResponderEliminar
  5. ... ah! Também nestas "aulas" nos fartávamos de ouvir falar em Perniolas e em sex appeal, "eróticas a nicómaco" e outras coisas que tais.

    Esqueci-me do pormenor

    ResponderEliminar
  6. Caro Rolando Almeida,

    Concordo em boa parte com o seu comentário. É certo e sabido que as universidades portuguesas estao cheias de sobranceria intelectual que tem como interesse orientador a autopromoção, nos casos de professores “estabelecidos”, e a necessidade de a estes agradar, no caso dos estudantes. É claro que esta “lógica” acaba por minar o território intelectual e barrar a saudável troca de ideias, de um modo desinteressado dos aspectos pessoais, e deste modo é também vedada a dinâmica filosófica que contribui, noutros paises, para que a Filosofia mais e mais tenha um lugar de destaque na formação pessoal e no progresso social.

    Mas permita-me uma observação: Nao me parece justo destacar dois ou três pensadores e colà-los à imagem de esterilidade filosofica que afecta alguns professores (neste caso fala da sua experiencia em Portugal, mas posso dizer por experiencia propria que este problema nao existe só no nosso pais). Provavelmente a sua Professora nao conseguiu comunicar-lhe, ou preferiu ignorar, o contributo, a meu ver muito significativo, que autores como Benjamin e Perniola deram ou continuam a dar para a Estética, para a história das ideias sobre a arte, para a análise e crítica de fenómenos sociais.
    Perniola é o orientador do meu doutoramento, e posso dizer-lhe que a expressao “sex-appeal do inorgânico” nao é sua (por coincidência é mesmo de Benjamin(!) e está no “Livro das Passagens”), nem esta expressão se refere àquilo que diz, de forma algo leviana: “mas fiquei a saber que posso livremente tecer comentários ao próximo disco do Marco Paulo mesmo sem ele o ter gravado ainda. Faço-o por antecipação de sentido. Chamo a isto o "sex appeal do inorgânico"”. O “sex-appeal do inorganico” de Perniola nao tem nada a ver com o dar um juízo estético antes de se ter a experiência da obra de arte propriamente dita. É antes algo que perpassa alguma da história / crítica da arte do último século e que envolve as teorias, verdadeiramente revolucionárias nesta área da crítica artística, e que deveriam interessar qualquer pessoa que pretende filosofar seriamente sobre Estética, de autores como Wilhelm Worringer, Henri Focillon, George Kubler, Wittgenstein e o próprio Benjamin, entre outros.
    Permita-me ainda dizer-lhe, e uma vez que avalia positivamente o trabalho de Dickie, que este é um autor muito estudado nas aulas de Perniola e que a sua “teoria institucional da arte” tem muitíssimo a ver com a ideia da perda da “aura” (podemos chamar-lhe também “essência”, ou “valor intrínseco”) da obra de arte, que está no centro da reflexão estética de...Benjamin.

    Cumprimentos e continuação de bom trabalho

    ResponderEliminar
  7. Olá Pedro,

    Sem querer parecer demasiado céptico nem intrometido (já que a missiva era para o Rolando), gostaria que explorasse mais um pouco a relação entre a perda da aura e a teoria institucional da arte. A mim parece que a teoria institucional foge precisamente, tanto no sentido classificativo como no valorativo, a propriedades intrínsecas que o objecto tenha. Pelo que não percebi muito bem a conexão.

    Pessoalmente, acho que a teoria institucional não funciona, mas vou guardar esse tema para um post separado, que poderá ser discutido por si só. Tenho um (esboço de) contra-argumento, que ainda não pus totalmente à prova, e que é um pouco como o argumento das muitas religiões para a filosofia da religião, a hipótese de uma pluralidade de mundos da arte. Embora a fraqueza mais evidente seja a de explicar o primeiro objecto estético (o que não tem enquadramento institucional, por definição).

    Cumprimentos,

    ResponderEliminar
  8. Caro Pedro,
    Obrigado pelo seu comentário. Claro que me referi com uma certa ironia ao sex appeal. E claro que sabia que podia descontextualizar a expressão (muitas destas expressões são sempre descontextualizadas no pensamento pos moderno pelo que andamos sempre na arte da adivinhação do que o autor quis realmente dizer). Tenho o livro do Perniola e não passei das primeiras páginas. Conheci o autor pela citação que faz numas das suas obras a Guy Debord. Confesso que não conheço o trabalho do Mario Perniola. Há uns dois anos li um texto dele, contra a comunicação muito desinteressante. Mas não acho aberração alguma que se estude Mario Perniola ou Walter Benjamim num doutoramento. Acho é estranho que esses autores sejam explorados num curso de licenciatura passando por cima da base e do mais básico. A consequência mais óbvia desse comportamento é formar pessoas que só citam acriticamente os filósofos. E este comportamento académico é que eu questiono, não os autores, mesmo que, como lhe disse, filosoficamente não me atraem. Outro aspecto: é claro que falamos sempre de forma leviana dos autores. Não podemos falar domais profundo dum autor em linhas de comentário num blog. A questão filosófica nunca deve ser remetida para se saber apenas se falamos de forma leve ou profunda sobre um filósofo, medindo isso somente pela numero de citações e reconstextualizações que somos capazes de fazer. O trabalho filosófico consiste em debater os argumentos dos filósofos.
    abraço

    ResponderEliminar
  9. Chamem os bois pelos nomes, ninguém leva a mal... Maria Filomena Molder e Carlos Couto Sequeira e Costa!

    Acertei? Quero um exemplar da tradução do Dickie para mim!!!

    :)

    ResponderEliminar
  10. Caro Vítor,

    A afinidade que encontro entre o que Benjamin diz no seu famoso ensaio ( “a obra de arte à época da sua reprodutibilidade técnica”) e a teoria institucional de Dickie prende-se com a simples noção de perda (no caso de Benjamin) ou pura não-existência (Dickie) de um valor intrínseco da obra de arte que a distinguisse como tal. Por outras palavras, nao existe um predicado essencial da obra que lhe conferisse ao mesmo tempo identidade e valor. Mas, penso, deve ser sublinhado que a reflexão de Benjamin tem em conta principalmente as consequências histórico-politicas da tal perda da “aura” da obra de arte. A aura seria aquilo que mantem uma obra “à distancia” e que, por efeitos da sua unicidade e irrepetibilidade, pode ser instrumentalizada pelo poder politico (e Benjamin exemplifica que tal instrumentalização serviu para propagandear uma “estética do fascismo”).
    A partir do momento em que é possível reproduzir ad infinitum uma obra (o exemplo é naturalmente a fotografia) essa perde o seu carácter distanciador e original, perdendo a tal “aura”, e entra de rompante no domínio publico, transformando profundamente a relação entre a sociedade, a arte e a sua crítica.

    Parece-me que aqui os dois filósofos estejam a orbitar as mesmas questões, pois como sabe também a teoria institucional de Dickie procede a uma análise das condições externas que acabam por “inserir” a obra num espaco que a define como tal, mais a mais transformando o conceito de arte no processo.
    Mas digamos que a reflexao de Benjamin se dirige sobretudo a uma analise das consequencias factuais de um progresso tecnico e que, julgo, a Dickie interesse sobretudo precisamente esse negar da existencia de um predicado essencial inerente à obra. Como acontece muitas vezes em Filosofia, os dois filósofos, partindo de épocas, métodos e estilos tão diferentes, acabam por se encontrar mais a frente no caminho, proporcionando-nos óptimos elementos para reflectir sobre a relação entre arte e sociedade.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  11. Caros Desidério e Rolando, agradeço as vossas respostas.

    Reparem que o meu comentário não foi redigido sob uma intenção cáustica, mas lançando um "argumento" que é muito comum ouvir por parte dos meus colegas. Infelizmente, a minha experiência com a cadeira de Estética é tão semelhante ao que já foi relatado que prefiro nem sequer aventar mais nomes à colecção de autores-padrão que nunca, pelo menos nas minhas aulas, foram submetidos à avaliação crítica e nós, então jovens, sorviamos tudo a julgar que assim poderíamos de facto ter uma boa classificação. Agora de estética eu pouco sei, é um facto. Mas se me pedirem para recitar autores e ideias avulsas que me foram apresentadas, faço-o com destreza, já que foi para isso que fui treinado.

    Não considero José Gil um dos grandes pensadores do mundo como há uns anos foi apresentado por uma revista francesa. Os livros dele que abordam a estética ("Movimento Total", "metamofoses do corpo", etc) são dois relicários de coisa nenhuma. Se parte de Bergson e da sua ideia de movimento para a dança, apresentado um acervo de ideias e de artistas para ver se ganha o concurso do "Quem sabe o nome de mais artistas?", não percebo a relevância filosófica de tal actividade. Mas o pior que conheço foi o já citado Sequeira Costa, que talvez por ser filho de artista, consegue desvirtuar completamente a filosofia da arte e vencer o tal concurso do "Quem sabe o nome de mais artistas?".

    Estou a despertar de um sono dogmático que não me deveria ter sido inculcado na universidade. Os professores de filosofia em POrtugal são maus, a minha experiência na universidade foi péssima, sobretudo em áreas que têm sofrido um desenvolvimento inquestionável, tais como ética, filosofia da arte e da religião. E, de cadeira em cadeira, o sermão e as relíquias eram as mesmas.

    Saudações

    ResponderEliminar
  12. Paradoxo,
    A universidade poderia sim ter constituído uma oportunidade melhor para todos nós. O temos a fazer é aprender por nós mesmos. Já vai aparecendo bibliografia em português e a Crítica é um bom arquivo de bons textos.
    Abraço

    ResponderEliminar
  13. Caro Pedro,

    A questão que se depara ao Dickie é a seguinte: "o que faz que um objecto seja uma obra de arte?". Qual a propriedade ou conjunto de propriedades que fazem de um objecto um objecto estético em geral e uma obra de arte em particular. A teoria institucional é uma tentativa de responder a esta questão.

    Ora, quando falamos das consequências políticas da perda de uma propriedade que a obra supostamente tem, ou quando falamos da instrumentalização política da arte, já estamos a falar pressupondo que o problema da natureza da arte foi resolvido (já sabemos o que faz que uma obra de arte seja arte) ou entao pusemo-lo de lado para tratar outro aspecto ou outra questão dentro da filosofia da arte.

    Ao passo que é interessante perguntar se uma obra de arte politicamente instrumentalizada pode ser boa, o problema em si da instrumentalização política da arte cai no foro da sociologia. Claro que podemos fazer filosofia acerca disso. Podemos tentar saber que propriedades tem uma obra de arte politicamente instrumentalizada e se isso é relevante para a classificarmos como arte e para a avaliarmos enquanto arte. Contudo, parece-me que isto está longe das preocupações do Dickie, no que diz respeito à teoria institucional em si. A teoria institucional não depende de haver instrumentalização política da arte. A teoria, se funcionasse, funcionaria num mundo onde há arte mas não instrumentalização política.

    Sou muito céptico perante o cepticismo dos que são cépticos perante o progresso técnico. E passo a explicar porquê. Os menonitas e outras seitas segregacionistas que conhecemos dos filmes rurais norte-americanos e dos romances, descendentes de emigrantes holandeses e de outros países, que fugiram às perseguições católicas na Europa, têm reservas muito fortes contra aquilo que entendem ser a "tecnologia". No entanto, usam carroças de eixos e vestuário, que são produtos de engenharia altamente avançados e que implicaram milhões de anos de evolução e experiência. A diferença entre o eixo da carroça e a minha webcam ou uma PSP portable é de grau e não de natureza.

    Não conheço o pensameto de Benjamin, li há alguns anos uns ensaios publicados na Relogio dAgua mas, sinceramente, não retive uma única ideia. Provavelmente ele diz aí coisas interessantes e acerca das quais muito se pode dizer. Não sei. Para comentar o resto do seu comentário precisava de ir ver uma definição clara do que Benjamin entende por "aura", e o que pensa acerca de outras coisas.

    Contudo, pelo que posso adivinhar: houve uma discussão semelhante, documentada nos textos do Fernando Lopes Graça, acerca da gravação e da transmissão radiofónica para a fruição da música. Muita gente sentiu que estes meios de divulgação iriam "deturpar" ou "degradar" a arte da música. Nesses ensaios, Lopes Graça opoe-se veementemente a tais preconceitos e defende a divulgação da música gravada como uma importante conquista da música, da pedagogia e da cultura.

    Contudo, como disse, não sei ao certo qual é a objecção de Benjamin ao progresso técnico na sua relação com a arte, pelo que não quero arriscar caricaturar o seu pensamento.

    Abraço

    ResponderEliminar
  14. Julgo que Benjamin precisaria de argumentação forte para defender que a entrada da arte no domínio público a faz perder quaisquer propriedades.

    Os aristocratas no tempo de Mozart e de Telemmann também eram, ocasionalmente, analfabetos musicais. Nem sempre havia ouvintes dedicados entre eles. Não vejo que o facto de haver muito mais pessoas incapazes de fruir profundamente uma tocata de Bach altere substancialmente a natureza da arte.

    Precisaria de um argumento que mostrasse que a Arte da Fuga, ao ser gravada e difundida, perde seja o que for, descritível em termos de uma aura ou de outro conceito que capte essa suposta propriedade. Pessoalmente, se não fosse a música gravada, eu próprio não teria estudado música há alguns anos, sentido a compulsão de aprender mais sobre aquelas peças fantásticas que o Bach escreveu para o cravo.

    Eis outro exemplo: os conservadores ficam horrorizados quando ouvem Bach interpretado em piano. E eu divirto-me com estes pudores, que me lembram os menonitas e os amish com as suas carroças, muito sérios a pregar contra os ecrãs do cinema, e a infernizar a vida aos filhos por causa de ideias que, se fossem examinadas criticamente, ver-se-ia que não têm fundamento. Isto se as pessoas deixassem de acreditar que a razão é opressora mas que o preconceito (o nosso pelo menos) liberta. Mas esta é outra história.

    Será que as suites francesas ficam desvirtuadas no pianoforte? Custa-me a crer, pois soam muito melhor do que no cravo, onde nem se pode fazer um raio de um crescendo nem brincar com a dinâmica. Mas não podemos dizer isto em frente de um melómano conservador, para bem da sua saúde cardíaca.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  15. Caro Vitor,

    Gostei muito do primeiro parágrafo do seu comentário, porque dá uma definicao clara do objecto de reflexao de Dickie. Agradeco essa delimitacao da problemática, que me ajuda também a compreender melhor o que Dickie propoe.

    Mas gostaria de sublinhar o facto de que Benjamin produz uma analise historica e social,e nao qualitativa, das mudancas impostas a obra de arte pelo advento da possibilidade da sua reproducao. Esta mudanca tem consequencias, e sao estas consequencias que o autor quer explorar. Dickie interroga a natureza da obra de arte e chega a conclusao que aquilo que a define nao pertence ao seu objecto (a sua realidade material).

    Ao contrario de Dickie, Benjamin nao pretende explicitamente indagar a natureza da obra de arte (embora admita que o termo "aura" possa induzir nessa interpretacao), mas penso ser pertinente, para a Estética e para a Filosofia da Arte, que ambos os autores esclarecam a relacao entre arte e sociedade a partir de duas abordagens diferentes. É verdade que a questao que se colocam nao é a mesma, mas a teoria institucional toca de perto a analise de Benjamin, porque me parece indiscutivel que as "instituicoes artisticas" sejam um elemento tanto influenciado como até influente na esfera politica.

    Deste modo as suas notas sobre a perda de qualidade de uma obra arte por forca da possibilidade de reproducao nao me parecem pertinentes para o que esta em causa, embora sejam muito interessantes. Nao é que a obra perca qualidades quando entra no dominio publico, mas sim o dominio publico e a obra que sao influenciados e transformados pelo progresso tecnologico aplicado ás formas artisticas audiovisuais.

    É assim tambem que julgo nao haver espaco para consideracoes acerca do valor do progresso tecnologico. Nao será possivel definir, no interior de cada comunidade e de acordo, por exemplo, com as suas crencas religiosas, um limite até ao qual essa mesma comunidade usufrui da tecnologia? Se eu tiver possibilidades de comprar um Ferrari é uma hipocrisia escolher andar de bicicleta? Nao, e um certo "elogio da simplicidade" nao está necessariamente ligado a uma escolha irracional.


    Por favor, ignore-se a ausencia de acentos, que me faria chumbar a portugues até na era pós-acordo..

    Um abraco

    ResponderEliminar
  16. Olá Pedro,

    Não creio que a escolha da simplicidade tenha algo de irracional, muito pelo contrário. Em algumas cidades europeias anda-se mais de bicicleta do que por cá e acho isso muito mais racional do que ter a rua engarrafada de automóveis, com um ocupante por veículo, muitas vezes sem uma necessidade premente disso. Irracional é ter carros caríssimos, que consomem monstruosidades de combustível, que têm pouco espaço, só para dizer que se os pôde comprar. É como os macacos à luta para ver quem é mais catado. Não vejo diferença entre um orgulhoso num ferrari e o homem mais rico da tribo dos xifranpés (ficcional), todo orgulhoso porque tem 4 cabras e os vizinhos nenhuma, embora ande roto e cheire mal dos pés. Alguns medem estatuto social mostrando carros, outros exibindo quantos membros da tribo lhes catam os piolhos: vai dar tudo ao mesmo. Não se trata sequer de uma apologia da simplicidade tribal porque as palermices humanas são as mesmas em todo o lado, seja na selva seja na cidade.

    No caso da comunidade religiosa: eu referia-me apenas à demonização da tecnologia, que é idiota em si mesma. Além de ser hipócrita. Claro que uma comunidade pode estabelecer limites. Mas porque esse limite em particular? É completamente arbitrário. E mais arbitrário ainda é querer subjugar as gerações posteriores a um contrato que depdende de uma maluqueira dos indivíduos que fizeram o contrato, que quiseram aquela vida. Para quê? Para "preservar" a comunidade? A religião da comunidade? Mas quem disse que isso se sobrepõe aos indivíduos?
    Bem, mas não é este o tema da nossa discussão. Considere isto um a parte.

    Em relação ao Benjamin: aceito que as minhas observações tenham pouca relevância para o que está em causa, mas o facto é que não sei o que está em causa. Não sei ao certo o que é a "aura" não sei ao certo qual é a objecção contra a reprodução. O que há de especial no progresso e na reprodução no sec XX que tenha introduzido uma diferença que mereça captar com conceitos novos, como "aura" ou "reprodução". Aceito que possa haver aqui alguma ideia sólida, mas não sei qual é. Respondi apenas ao que me pareceu o mais imediato: as objecções mais conhecidas ao progresso técnico e os diversos romantismos "do antigamente", etc.

    Um abraço

    ResponderEliminar