12 de agosto de 2008

Lógica de Aristóteles e lógica aristotélica

Acabei de publicar no site de apoio do meu manual A Arte de Pensar dois pequenos textos de apoio sobre a silogística, com tradução de Rui Daniel Cunha: um clássico, de Lukasiewicz, e outro de Robin Smith, retirado do excelente Cambridge Companion to Aristotle.

Poucos professores e estudantes sabem que a lógica aristotélica que se encontra em muitos manuais escolares pouco corresponde à lógica que Aristóteles realmente escreveu. É, antes, o resultado de diversos tratamentos escolares feitos ao longo de séculos, quase todos desastrosos. Por isso, esta lógica, que é muitíssimo simples, é muitas vezes leccionada com complicações desnecessárias, sem que o fundamental fique claramente compreendido. O simples facto banal de a lógica de Aristóteles original não poder trabalhar com classes vazias é muitas vezes ignorado. Algumas dessas deficiências básicas foram apresentadas brevemente no meu livro O Lugar da Lógica na Filosofia.

Hoje em dia, é possível — e desejável — simplificar a lógica aristotélica e mudá-la de modo a permitir o uso de classes vazias. Foi esta a opção que vi na bibliografia mais recente que consultei, e que adoptei no Arte de Pensar, assim como nas minhas aulas na UFOP.

A propósito: muitas pessoas ficam surpreendidas com isto, mas dedico apenas uma aula de quatro horas à apresentação da lógica aristotélica aos meus alunos, depois de dominarem os elementos centrais da lógica de predicados clássica. E eles não têm qualquer dificuldade.

2 comentários:

  1. Caro Desidério!
    É bem verdade que muitas pessoas ficam espantadas em saber que quando se está ensinando lógica não é fundamental nem começar nem terminar pela silogística aristotélica - ou o que os professores de filosofia pensam que ela é.
    Textos como os que tu acabas de disponibilizar, assim como o teu livro, precisam disso mesmo: divulgação para que uma cultura mais coerente de ensino de lógica seja aos poucos construída.
    O blog foi uma idéia ótima, parabéns.

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  2. Olá, Gisele! Muito obrigado pelas tuas palavras. Espero ter tempo para traduzir outros dois textos informativos sobre a lógica aristotélica. Poucas pessoas sabem que Aristóteles de facto desenvolveu um sistema axiomático e que provou teoremas e até metateoremas. As pessoas não sabem disto porque pensam que a lógica aristotélica são aquelas regras tolas, puramente ad hoc, e por vezes redundantes. E o irónico é que quando dás aos estudantes regras não redudantes, e por isso um número menor de regras (bastam 4), alguns professores estranham, sentem "falta" das outras e protestam, por mais que se explique que as outras não fazem falta.

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