9 de agosto de 2008

Mestres e discípulos

Costuma-se afirmar que Sócrates foi mestre de Platão, e Platão mestre de Aristóteles. Há uma acepção, contudo, em que tal afirmação é falsa, e por isso enganadora. A relação paradigmática entre mestre e discípulo é iniciática; o mestre é o pretenso detentor de um acesso privilegiado à verdade, recusa-se a ensinar explicitamente o discípulo, obrigando-o a segui-lo como um cachorrinho, tentando absorver um ensinamento pretensamente indizível e feito de gestos e máximas, poucas explicações e nenhuns argumentos.

Não era esta a relação que Sócrates mantinha com Platão e Platão com Aristóteles, pela simples razão de que eram todos filósofos e como filósofos passavam a vida a pôr em causa as ideias uns dos outros — o que é incompatível com a reverência que os mestres exigem dos discípulos. Basta ler algumas obras de Platão ou Aristóteles para verificar que estes homens não tinham o tipo de atitude reverencial necessária para serem mestres ou discípulos, pois passam a vida a argumentar. A discussão livre de ideias praticada por filósofos como Platão e Aristóteles é um ácido que destrói o ambiente acéfalo apropriado à encenação da relação entre mestre e discípulo. Por isso é menos enganador dizer que Sócrates foi professor de Platão e Platão professor de Aristóteles.

17 comentários:

  1. Agora repara numa coisa curiosa que a nossa "cultura" tem: ao passo que a relação entre "mestre" e "discípulo" evoca logo as patetices místicas que enchem as pessoas de entusiasmo poético pelo Saber com S, quando falamos em adultos lúcidos, autónomos, a raciocinar e a argumentar uns com os outros, esse delírio poético e esse fascínio místico desaparecem logo e as pessoas ficam com a sensação de que tudo isso é muito "seco" e "desinteressante".

    Já falar de "mestres" e "discípulos" parece ser um estímulo interminável para a masturbação intelectual. Pode-se passar a vida inteira a discutir quem foi mestre de quem e quem foi discípulo de quem, ou podemos passar a vida a afirmar-nos discipulos de Fulano ou Sicrano, sem que alguma vez nos esforcemos por pensar argumentativamente.

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  2. Não concordo. Nem toda a relação mestre-discípulo se insere no seguidismo acéfalo do segundo face ao primeiro. Por mim, não vejo qualquer problema em se afirmar que Sócrates foi mestre de Platão e este de Aristóteles. Quando o prof. Desidério sustenta que a
    "relação paradigmática entre mestre e discípulo é iniciática; o mestre é o pretenso detentor de um acesso privilegiado à verdade, recusa-se a ensinar explicitamente o discípulo, obrigando-o a segui-lo como um cachorrinho, tentando absorver um ensinamento pretensamente indizível e feito de gestos e máximas, poucas explicações e nenhuns argumentos."
    está a assumir apenas uma parte do que são as relações entre quem instrui e quem aprende. E como bem sabemos, há certos professores que também exigem o mesmo tipo de seguidismo que aqui se afirma...

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  3. Peter, não consegui tornar claro o meu argumento. Em nenhuma parte do meu texto se afirma que toda a relação entre mestre e discípulo é iniciática, mas apenas que esse é o modelo de tal relação. E na verdade basta que por vezes tal relação seja iniciática para ser enganador dizer que Aristóteles foi discípulo de Platão.

    Quanto ao que afirma relativamente a professores que agem como mestres iniciáticos, esses merecem realmente o nome de mestres. Mas parece-me óbvio que Platão não foi professor de Aristóteles neste sentido de mestre. Foi apenas professor.

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  4. Essa relação iniciática entre professor e aluno, pelo menos nos cursos de filosofia, é muito comum. Os puxa-sacos ganham bolsas com mais facilidade, tem regalias, são melhor tratados, etc.

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  5. Sobre argumentar ser desinteressante Vitor, bem, quem diz essas coisas está mais preocupado em ter algo que lhe de aspiração pessoal do que em fazer filosofia. Confunde a atividade filosófica com outra coisa qualquer, como ler poemas ou ver filmes. : - )

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  6. A ideia que me evoca a relação mestre-discípulo é de um professor com uma dedicação particular ao aluno, isto é mais pessoal, em que o professor tem uma grande experiência (e possivelmente alguma prova de mérito) na disciplina em que é mestre. Também evoca uma relação iniciática em que no princípio o discípulo aceita acriticamente tudo o que lhe é ensinado. Só após o período de aprendizagem inicial há o processo de assimilação e crítica/reconstrução do que foi apreendido.

    No caso de filosofia a parte acrítica só me parece fazer sentido até o mestre acabar de expôr um argumento, portanto um período extraordinariamente curto =) Ensinar filosofia acrítica é ensinar a decorar e não ensinar filosofia, não é verdade?

    A ideia mística de mestre é mais uma das preguiças mentais de acreditar que alguma entidade tem respostas absolutas e que não erra. "Facilita" bastante a vida porque não obriga a pensar de uma forma crítica e objectiva. Como aceitar em bloco todos os argumentos de uma fonte, seja ela uma pessoa, partido político, religião, etc.

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  7. A ideia de que no princípio tem de haver uma transmissão acrítica de conhecimentos falsifica-se se pensarmos no modo como se aprende música. Aqui é impossível fazer aquilo que se faz nas universidades com a filosofia, em portugal: não se começa a aprender olhando acriticamente para os textos musicais dos mestres do passado. Tem de se aprender constantemente as ferramentas da escrita e da leitura musical. Só aprendendo a raciocinar musicalmente é que é possível retirar conhecimento dos textos dos mestres.

    Em filosofia, em portugal, vigora a ideia contrária: primeiro temos de estar uns meses ou anos a olhar passivamente para o que os mestres fazem e só depois, quando "crescermos" é que podemos participar criticamente. O problema deste ponto de vista é que só é possível crescer criticamente exercendo as capacidades críticas... desde o início. Claro que vamos errar muito, e depois? Há uma cultura falsa do erro em portugal, que consiste em ver o erro como um pecado que mancha a alma. Por isso a discussão publica de ideias é um pouco tida por desconfortável: se se descobre que os doutores, inevitavelmente, erram, como vai ser?

    Só que isto faz parte de uma tolice maior: pensar que o conhecimento está nas crenças e afirmações em si e não na actividade permanente de testar as crenças. Esse é o processo de conhecimento, e não a mera formulação das crenças. Em ciência e filosofia faz-se afirmações para as testar e tentar falsificar. Essas tentativas geram conhecimento.

    Em ideologia e religião faz-se afirmações bombásticas, fulgurantes ou misteriosas para afectar a imaginação do ouvinte e desencorajá-lo de pensar, convencê-lo a render-se ao mistério e, claro, à vaidade dos sacerdotes nas suas irrisórias e sempre tão "humildes" capacidades intelectuais. É por isto que a mística da relação mestre-discípulo é repulsiva. Ficamos convencidos de que é através desse tipo de relações que nos afastamos a animalidade quando, pensando outra vez, são elas que mais de perto denunciam o nosso estatuto de símios evoluídos. O que mais nos eleva acima disso é a argumentação e a contra-argumentação, a actividade de testar permanentemente as crenças.

    Podemos ter muito treino ao longo da vida, mas as faculdades críticas não são oferta de um mestre. Nascem connosco, basta que as exercitemos. E um bom professor sabe fazer isso mesmo: ensinar o aluno a exercitar as capacidades críticas, e não a veicular iniciaticamente conhecimentos.

    Abraço

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  8. Pois, o curioso é que as pessoas dogmáticas não gostam de excercitar sua capacidade crítica, mesmo quando inserida em um contexto de debate aberto. Já vi alunos de filosofia idolatrarem professores que detestam essa idolatria - é a mentalidade de culto: nosso mestre disse não está errado, vc entendeu mal, quem vc pensa que é pra criticá-lo, etc. O divertido nesses casos é que o discípulo parece uma caricatura grosseira do mestre, imitando e exagerando suas características mais superficias. Mas a situação fica complicada mesmo quando o "mestre" gosta de discípulos puxa-sacos que ficam repetindo seus dizeres como mantras, aí a coisa complica.

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  9. O mais divertido é que as pessoas nem sequer conseguem perceber que são nem por que são dogmáticas. Basta ler alguns comentários que a última crónica do Desidério teve no de rerum natura, em que as pessoas reagem, supostamente inflamadas pela verve revolucionária e iconoclasta, a citar autores pós-modernos como quem recita versículos do corão ou da bíblia. Mas é que esta malta nem sequer percebe que faz isto, não entendem. É sacrilégio pensar que a crença em Foucault ou Deleuze ou outros é dogmática porque um dos dogmas do pós-modernismo é que os autores pós-modernos são destruidores de ídolos, são libertadores, são irreverentes, são heterodoxos, e tudo isso. Diagnosticam a doença aos outros mas são eles próprios paradigmas de lucidez e saúde. Todos estamos cativos das ilusões da "metafísica ocidental, tradicional, bla bla bla", excepto os grandiosos diagnosticadores da doença, que estão todos fora da história.

    Estas pessoas comportam-se como bons devotos e nem sequer vêm. Imaginam que basta citar uma frase encantadora de Foucault ou Deleuze e que o simples acto de citar e a sonoridade da frase a tornam verdadeira. O que é tanto mais ridículo quanto depois se pugna contra a "verdade", essa ilusão burguesa e "pragmática americana média". seja lá o que este palavreado palerma significa.

    As pessoas nem sequer sabem ao certo contra o que estão a protestar. Regurgitam umas ideias muito vagas sobre "pragmatismo" e "americanos médios". Só fantasias na imaginação. É algo frustrante debater com isto... é como tentar falar com adolescentes obstinados e com a cabeça cheia de fantasmas.

    O pior é que esta malta consegue mestrados e doutoramentos e depois alega já não ter de argumentar para defender ideias. Podem dizer o que querem pois têm credenciais. E vão contaminar a cabeça a mais uma, duas, três gerações de estudantes que ficam tal qual eles, que aprendem os tiques. Se houvesse uma cultura do debate público e da discussão de ideias a sério, as charlatanices seriam muito mais difíceis de manter. Se estes gajos fossem forçados a discutir e defender as suas ideias, independentemente de algum camelo lhes ter passado um título académico para as mãos.

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  10. Totalmente de acordo com a explanação de Vitor Guerreiro sobre o comentário de Diogo Reis, talvez este tenha querido se referir a outra coisa:

    "No caso de filosofia a parte acrítica só me parece fazer sentido até o mestre acabar de expôr um argumento, portanto um período extraordinariamente curto".

    Talvez Diogo queira dizer que, para entendermos apropriadamente uma idéia ou argumento precisamos dar-lhe um crédito inicial, assumi-la e ver aonde leva.

    Lembro de ler isso em Bryan Magee, como sendo "o paradoxo da racionalidade": devemos suspender inicialmente o juízo para tratarmos com o devido cuidado e atenção as idéias e argumentos com os quais lidamos.

    Pois bem, isso é verdadeiro. Mas será isso uma "parte acrítica" da filosofia? Não me parece. A começar pelo fato de, mesmo se for para concordar, devemos raciocinar e avaliar.

    Abraços
    Alex.

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  11. olá alex,

    Há um "uso alegre" dos conceitos que é preciso evitar. Um dos conceitos que mais padece deste uso é a palavra "paradoxo". As pessoas com alguma erudição têm o vício terrível de usar "paradoxo" como sinónimo de qualquer coisa como "contraditório" ou talvez "aporético"... Temos de distinguir com cuidado afirmações autoderrotantes, por exemplo, de afirmações paradoxais. Paradoxo tem um significado muito preciso: é uma afirmação cuja verdade implica falsidade e vice versa, como o famoso "o que estou agora a dizer é mentira".

    A ideia de que temos de aplicar o princípio de caridade para podermos sequer começar a pensar nada tem de paradoxal. Quando um leitor discute comigo tenho de aplicar esse princípio e não pressupor que ao escrever "frases" a pessoa está na verdade a falar em penicos. Tenho de supor que ele pretende comunicar algo com sentido.

    O erro aqui consiste em supor que enquanto ouvimos em silêncio permanecemos "acríticos". Ora isto impossibilitar-nos-ia de ser críticos "depois". Se somos acríticos "antes" tudo o que fazemos "depois" é reproduzir a atitude acrítica. O silêncio e o princípio de caridade não implicam suspensão do pensamento.

    A ideia central do meu comentário é que é perverso instalar-se numa relação de tutela ou "mestria" sobre alguém. É instalar-se numa relação de poder, por mais "benigna" que se pretenda, e isso acaba invariavelmente na prepotência. Ensinar alguém não é exercer tutela sobre a sua inteligência, não é "levar a luz aos que não a têm". É apenas dar ferramentas a quem não as conhece, mas que em tudo o mais está em paridade cognitiva connosco, porque todos precisamos de pensar com outrem e todos somos falíveis. As pessoas podem maior ou menor treino, talento ou tempo dedicado a uma área, mas de resto, estamos em paridade cognitiva na medida em que qualquer pessoa com muito menos treino do que outra pode, por alguma razão, ver ou perceber um detalhe que a outra não conseguiu ver. Instalar-se no papel do mestre é abdicar de pensar com outrem e tentar fazer de outrem um espelho onde congratular o ego pela sua própria realização, e isso é perverso.

    Um bom professor não se vê a si mesmo, creio, como mestre nesse sentido. E a razão é ultimamente muito simples:

    O conhecimento não está na mera afirmação de crenças mas na actividade permanente de testar as crenças. Portanto, o ensino é uma questão de dar ferramentas para pensar e não de comunicar afirmações pensadas. Não se trata de transmitir conteúdos mas de ensinar a avaliar conteúdos. Isto não se consegue através de submissão inicial, seguida por um ritual de passagem doloroso até o discipulo ganhar o direito a tornar-se pregador. A actividade que a filosofia é pressupõe o espírito crítico desde o início. Tal como não faria sentido aprender música começando primeiro por algo que nada tivesse a ver com música. Começa-se a ensinar música com música, com as ferramentas do raciocínio musical.

    Abraço

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  12. Caro Vitor

    Agradeço o esclarecimento sobre o mau uso do conceito de paradoxo e o desenvolvimento do seu comentário anterior - muito bom, e com o qual concordo integralmente.

    Quanto ao mau uso de 'paradoxo', já havia lido sobre isso, creio que um texto do Desidério. Mas foi como Magee chamou a coisa (no 'Confissões de um filósofo', se não me engano), e por isso as aspas.

    Quanto ao meu comentário, era mais endereçado ao Diogo mesmo. Eu sugeria que talvez o que ele chamava de "momento acrítico" não era acrítico coisa nenhuma, não podia ser; e que então talvez ele quisesse dizer apenas que precisamos ser caridosos com os interlocutores num primeiro momento - mas, claramente, você o disse melhor que eu.

    Abraço
    Alex.

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  13. O Alex tem razão. Quando eu me referi a acrítico foi no sentido de dar o benefício da dúvida ao argumento apresentado. Ou seja, apenas não partir com uma ideia pré-definida do argumento, algo que por vezes é muito difícil de fazer. Como exemplo podemos tomar o caso da teoria da relatividade que, se não for ouvida (ou lida) com atenção e no meu caso se não tivesse visto exemplos com contas, é difícil de aceitar intuitivamente. Era neste sentido que eu queria dizer que se devia ouvir a explicação até ao fim acriticamente.

    A propósito do modo de ensinar filosofia, no 10º ano, no primeiro teste de filosofia que fiz houve 3 positivas, eu não estive incluido nesses 3, parece-me que foi porque todos os alunos procuraram dar respostas da própria cabeça. Depois aprendemos a forma correcta de responder aos testes: decorar os apontamentos dados na aula e recitá-los...

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  14. O professor Desidério simplesmente parte de uma petição de princípio, a saber, já predefine que tudo pode ser conhecido verdadeiramente é pelo pensemento crítico para definir que tudo que é valorosamente sabido o será pelo pensamento crítico.

    Em meio a isto conclui que haverá um séquito cego quando não houver o pensamento crítico, sem em momento nenhum condescender na hipótese de que seu juízo não seja absoluto para conhecer todas as categorias de pensamento.

    Ora, o que o professor Desidério possui não é nada mais nada menos do que uma crença na competência de seu juízo, como se ele pudesse exceder a si mesmo e dizer tudo o que é possível sobre o juízo universal, que,a sism, só poderia receber conhecimento pela via do argumento ou da empiria logicamente analisável.

    Unicamente esta crença aparece de modo invertido porque é uma crença no poder absolouto e transcndental da racionalidade e por isso sedutora, pelo viés do engano, aos racionalistas que não se precatam dessa condição, sendo todos eles amiúde tomados pelo memo convencimento.

    Mestre, assim, para eles, é um sujeito que elimina o único tipo de pensamento que eles têm por verdadeiro sem aquiscer na exisTência deoutro tipo de transmissão que, em,bor anãos eja filosoficamente dmeosntrável, nem por isos é declarável com,inexistente. Toda relação Mestre discípulo calça-se justamente na confirmação desta transmissão e não numa simples veneração fideísta.

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  15. Cada qual enfia o barrete que quer. As pessoas são livres de andar a repetir mantras e de considerar que há uns seres humanos especiais, iluminados, que sabem a Verdade, restando apenas a nós, pobres mortais, seguir nas suas peugadas, periclitantemente, até absorver a sua inefável sabedoria, inexprimível em simples afirmações lúcidas, apenas indicável em alegorias e meias palavras, gestos e figuras de retórica.

    Na verdade, ocorreu-me agora, que a minha posição sobre o "conhecimento verdadeiro" (um conceito filosófico revolucionário que supõe o surpreendente "conhecimento falso" -- imagine-se alguém que sabe que o João está em S. Paulo quando o João está no Rio!) me foi transmitida pelo meu grande Mestre, o Inominável, depois de ele ter descido da montanha um dia pela manhã, estava eu a evacuar.

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