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O carcereiro libertário

A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Há quem pense que a racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação são opressoras — meros artifícios de poder. Quando se pede argumentos a favor de tal ideia, atiram-nos à cara a autoridade última de um ou outro autor — um sinal de que essa pessoa foi vítima de estupro intelectual, pois nem se apercebe que ficou numa tal posição de inferioridade perante esse autor que a possibilidade de ele estar pura e simplesmente enganado não lhe ocorre.

A racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação não são opressoras. Se alguém me perguntar o que é um argumento dedutivo válido, eu explico que é um argumento no qual é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa, e dou exemplos triviais, como «Alguns autores são palermas; logo, alguns palermas são autores». Se a pessoa duvidar seja do que for, pode verificar por si mesma. E pode continuar a fazer perguntas, que terá sempre respostas que nunca invocam a minha autoridade. A experiência que tenho como professor de lógica, e antes como aluno de lógica, é que nesta disciplina a autoridade do professor não conta, pois para cada afirmação, definição ou conteúdo há razões que o aluno pode pôr em causa e discutir abertamente.

Quando estudamos autores que acusam a razão e a lógica de serem autoritárias, a experiência é totalmente diferente. Neste caso, nenhuma razão é dada para aceitar o que afirmam; temos de o aceitar com base unicamente na sua autoridade, dos autores por eles citados e do professor que ajuda ao estupro intelectual. Pensar que os autores que acanalham a razão e a lógica são libertadores é como pensar que os nossos mais perversos carcereiros são afinal os nossos mais benévolos libertadores. O simples esforço de decifração dos textos de tais autores é suficiente para adormecer o nosso sentido crítico, e o objectivo dessas bestas é precisamente provocar o adormecimento do intelecto.

Em contraste com estes autores e com os seus métodos de estupro intelectual, a racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação têm esta característica única: não são seja de quem for. O mau argumento do mais autoritário dos autores cai com estrondo se for mau e se for visível que é mau, porque a racionalidade não é dele nem de qualquer outra pessoa.

Se declararmos que a argumentação e a racionalidade são opressoras, estaremos a desviar as atenções do que é realmente opressor: a autoridade arbitrária e sem qualquer razão de ser excepto a “razão” da força e do interesse próprio. Precisamos de mecanismos que limitem o poder dos políticos; que limitem os usos militares da ciência; que limitem os usos propagandísticos da psicologia cognitiva, da sociologia e do marketing, que permitem eleger políticos inaptos. Mas não daremos atenção a qualquer destas coisas enquanto continuarmos com a ilusão de que é a racionalidade e a ciência que oprime, e não os políticos desonestos, os intelectuais rançosos e o pensamento obnubilado em geral.

Comentários

  1. Eu acho que não percebi a intenção do artigo. Percebi o conteúdo e discordar seria pueril. E é precisamente por isso que me faz confusão: é isto que uma vasta faixa demográfica de portugueses pensa da racionalidade, da ciência, da argumentação e da verdade? Há na elite influente no campo da ciência e da filosofia alguma secção proeminente com tal linha de pensamento?

    Eu não vejo indícios relevantes disso e logo não vejo qualquer relevância deste artigo na formação da capacidade crítica geral, salvo o último parágrafo, que denuncia o factor de opressão. Se os há, gostava de os saber.

    Eu creio, porém, que as pessoas têm a noção de quem é o opressor. A atitude alheada ou conformista sobre as questões políticas parece, pelo contrário, consequência da lavagem ao cérebro do discurso político e a falta da ferramenta mais fundamental para a discussão de todos estes temas: a crítica racional.

    As pessoas só se limitam a absorver as minhocas que lhes metem na cabeça sem as questionar, sem as querer compreender. Não me parece que seja uma questão de oposição à racionalidade, mas antes o desconhecimento de que ela é uma ferramenta fundamental para decifrar o discurso político — que, geralmente, é inextricável e, por isso, vazio.

    Acho que é mais preciso discutir a análise do discurso.

    Bom artigo, de qualquer das formas.

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  2. Caro Hugo

    Obrigado pelos seus comentários.

    Aconselho a leitura dos seguintes artigos e livros, para se perceber de que autores estou a falar:

    http://disputatio.com/articles/002-2.pdf

    http://criticanarede.com/html/lds_razaoausente.html

    http://criticanarede.com/fil_unreason.html

    Qualquer pessoa que seja formada em filosofia pelas universidades portuguesas sabe que o inimigo número um em quase todas as aulas é a racionalidade e lógica, vistas como “redutoras” e “opressoras”.

    Por alguma razão, o romantismo irracionalista, que deu curiosamente origem ao nazismo alemão e ao fascismo italiano, imperam.

    Mussolini escreveu: “Se o relativismo significa desprezo por categorias fixas e por homens que declaram ser os portadores de uma verdade objectiva imortal, nada há de mais relativista do que as atitudes e actividades Fascistas”. Compare-se isto com o ataque constante de Derrida às tais “categorias fixas”.

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  3. De facto não tinha a noção desse perigo e, porquanto fora pela incapacidade crítica do povo que as ideias de Mussolini grassaram, subscrevo.

    Note-se que o segundo artigo requer autenticação para se aceder a ele.

    ResponderEliminar
  4. Não concordei com o exemplo de argumentação:

    «Alguns 'autores' são 'palermas'; logo, alguns 'palermas' são 'autores'»

    Não vejo como essa conclusão seria válida por apenas essa premissa, teria que haver uma premissa que demonstrasse que o conjunto de palermas é mais do que apenas um subconjunto do conjunto de autores sendo a ideia da conclusão descrever uma intersecção entre os conjuntos. O quantificador "alguns" pode tornar a assertiva falsa caso a segunda variável seja integralmente um subconjunto da primeira:

    «Alguns mamíferos são homens; logo, alguns homens são mamíferos»


    Ou seja, assim a conclusão indica que nem todo homem é mamífero.


    Abraços

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