10 de Agosto de 2008

O que é uma análise?

Há duas maneiras de entender uma análise, o que pode parecer surpreendente. Deparei-me recentemente com este aspecto ao trabalhar na segunda edição do Dicionário Escolar de Filosofia.

Podemos entender uma análise de um dado conceito como uma apresentação de outros conceitos mais básicos que captem inteiramente o primeiro. O exemplo típico é algo como a análise do conceito de virgem como pessoa que nunca teve relações sexuais. Esta é a concepção fraca de análise. Na concepção forte, o que resulta da análise, para ser realmente uma boa análise, terá de ser uma frase analítica. Realmente, “Uma pessoa virgem é uma pessoa que nunca teve relações sexuais” é uma frase analítica. As tentativas de análise filosófica são tipicamente vistas como tentativas de análise no sentido forte: se fosse realmente verdade que o conhecimento é crença verdadeira justificada, essa afirmação seria analiticamente verdadeira.

Isto colide com a ideia de que não só a filosofia, mas também as ciências como a física ou a química, analisam conceitos fundamentais das suas áreas respectivas. Assim, a química analisa a noção de água em termos de H2O, mas esta não é uma análise no sentido forte do termo, dado que “A água é H2O” não é uma verdade analítica. O mesmo acontece com as análises da física (electrão, velocidade, massa, etc.).

Isto é curioso e mostra até que ponto o famoso argumento da questão em aberto de Moore resulta de uma ênfase excessiva no sentido forte de análise. No sentido forte é verdade que qualquer análise terá de “fechar a questão” (não faz sentido perguntar se uma pessoa que nunca teve relações sexuais é virgem), mas no sentido fraco uma análise pode ser bem-sucedida e não fechar a questão (faz sentido perguntar se a água é H2O ou se a massa é a medida da resistência de um corpo às mudanças de velocidade e à força sentida num campo gravítico). Assim, o teorizador que é o alvo da crítica de Moore, como Mill com a sua definição de bem (o bem é a felicidade), parece ter uma resposta pronta: “A minha análise não é uma análise no sentido forte do termo”.

Mas Moore também tem uma boa réplica. Se a sua análise não é analítica, diria Moore, é sintética. Mas se for sintética, tem de resultar da investigação empírica do mundo, que é precisamente o que acontece com as análises sintéticas da física. Mas em ética, como nas restantes áreas da filosofia, seria de esperar que as análises fossem analíticas, precisamente porque são filosóficas e os filósofos raramente levantam o traseiro da cadeira para fazer investigação empírica. Logo…

Bom, Mill teria uma boa resposta. Ele não considerava que a sua definição de bem era analítica, e ficaria espantado se alguém pensasse tal coisa. Mill apresenta o que lhe parece a concepção de bem que realmente as pessoas têm, ou que podemos inferir da nossa observação assistemática das pessoas. Mill não veria com desagrado a ideia de naturalização da ética — na verdade, ele até naturalizou a lógica!

2 comentários:

  1. Moore poderia replicar do seguinte modo: a diferença entre "o bem é a felicidade" e "a água é H2O" é que a primeira definição tem um elemento normativo importante, de caráter prescritivo. Assim seria de se esperar que ao nos depararmos com a felicidade teríamos a propensão ou julgaríamos correto ajuizá-la como algo bom, mas responde Moore, não é isso o que acontece: em várias circunstâncias nos deparamos com a referida propriedade (felicidade no caso) e mesmo assim questionamos se isso de fato é algo bom. Ao que parece, Moore defende que o bom é algo mais fundamental que propriedades como a felicidade ou qualquer tentativa de definição, pois é utilizado para ajuizar sobre qualquer dessas propriedades. Por isso "parece natural" perguntar se algum elemento de uma definição naturalista é realmente bom, mas "não parece natural" perguntar se a água é H2O se já aprendemos química, por exemplo. É claro, ainda podemos nos perguntar se a água é de fato H20, mas isso depois de aprendermos química e levantarmos alguma dúvida razoável - de qualquer modo não temos a forte intuição de que a água não poderia ser H2O quando aprendemos química.

    Conseguir ser claro? Moore não aceitaria sua objeção porque as definições naturalistas em ética tratam são acusadas por ele de deixar o elemento normativo da ética de fora, ao passo que as demais definições nem enfrentam esse problema em primeiro lugar.

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  2. Caro Matheus, obrigado pelo comentário. Esta resposta de Moore não me parece muito prometedora.

    Em primeiro lugar porque pressupõe que a identificação do bem com a felicidade é em si normativa; é discutível que Mill pensasse dessa maneira e, mais importante, é defensável que não precisamos de aceitar tal coisa, mesmo que Mill o aceite. Podemos defender que a identificação do bem com a felicidade não é normativa, mas sim descritiva, e a descrição básica na qual se apoiam depois as normas.

    Em segundo lugar, porque pressupõe que as definições normativas teriam de ser analíticas. Mas temos realmente de aceitar tal coisa? Não podem as definições ou análises das normas ser sintéticas?

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