13 de agosto de 2008

O som da música e o sabor das hóstias

Poderá um ateu ser apreciador de música religiosa?

Há quem pense que há algo errado em um ateu gostar muito de música religiosa, alegando que só quem está imbuído do sentimento religioso está também em condições de apreciar verdadeiramente a Paixão Segundo S. Mateus de Bach, a Missa em Dó Menor de Mozart ou o Te Deum de Bruckner.

Se estas pessoas tiverem razão, os ateus (e os agnósticos, já agora) não estão em condições de apreciar uma parte muito substancial da música ocidental. Mas terão essas pessoas razão?

Será que o palato do ateu e do agnóstico também não estão em condições de apreciar o sabor das hóstias? São coisas diferentes, poder-se-á dizer: a analogia não funciona porque o crente não toma a hóstia para apreciar o seu sabor; não é o deleite das suas papilas gustativas que o leva a comungar. Mas esta resposta não mostra que analogia não funciona. Isto porque podemos também dizer que o crente não está realmente interessado na música, mas na função simbólica que esta desempenha nas celebrações religiosas e que é semelhante à da hóstia.

13 comentários:

  1. Isto lembra-me a questão da intenção do artista na avaliação da obra. Quem ouve as minhas palavras não as compreende por meio da minha intenção, pois não tem acesso a ela, a pessoa tem de descobrir a minha intenção interpretando as palavras. E claro está que nãoa é necessário que haja uma sintonia entre as suas intenções e as minhas para que haja compreensão ou talvez fruição daquilo que eu pretendi dizer com as minhas palavras.

    O mesmo se passa com a música... afinal, os próprios sons não são religiosos. A peça mais profana de todas continua a escrever-se com do, re, mi, fa, sol, la, si, mais os acidentes, com os mesmos acordes, com as mesmas técnicas. Ou será que ocorria uma modificação substancial em Bach quando este saltava da composição de uma peça para cravo para a composição de uma missa?

    Aproveito este comentário para deixar uma dica: a filosofia da música é algo de que simplesmente não existe divulgação em portugal. Se eu falar nisso a antigos colegas eles certamente não conseguem pensar mais além de Pitágoras e Platão, ou talvez algumas obras mais recentes... já seculares.

    Abraço

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  2. Caro Vitor

    tem razão, é pouco divulgada - no Brasil, em que os cursos de estética são nada com coisa nenhuma, os filósofos nem sabem o que essa área existe. Sei de dois filósofos sérios que trabalham com estética aí em Portugal, o Antônio Lopes e o Aires Almeida. Já encontrei esses artigos deles na internet:


    O QUE SE PODE APRENDER COM A MÚSICA?
    Aires Almeida


    Teorias essencialistas da arte
    Aires Almeida


    Aires Almeida
    O Valor Cognitivo da Arte (tese de mestrado do Aires, muito informativa)


    MAU GOSTO OU OBRA ERRADA?
    Porque é que Glenn Gould nunca tocou realmente Bach
    António Lopes


    Execução Musical e “Ontologia” da Obra
    Comentário a “Mau Gosto ou Obra
    Errada?”, de António Lopes
    LUÍS DUARTE D’ALMEIDA


    Relativismo na Avaliação de Execuções Musicais
    António Lopes



    Platonismo em Música : Duas variedades
    António Lopes

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  3. Matheus,

    Obrigado pelas referências. Alguns dos textos já conhecia mas outros nem desconfiava da existência.

    Em todo o caso, pretendo divulgar em breve na Crítica duas obras, como fiz com o Loux e o Lowe. Trata-se da "Introduction to a Philosophy of Music" do Peter Kivy e o "Themes in the Philosophy of Music" do Stephen Davies. Com algum tempo, espero também fazer recensões desses textos.

    Um abraço

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  4. Vítor, podes catar na net os artigos referidos pelo Matheus e colocá-los num post separado da Crítica, com as respectivas ligações. Aliás, o Matheus também o pode fazer.

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  5. Um Ateu poderá apreciar música religiosa mas decididamente não da mesma maneira que um religioso. Eu também posso apreciar poesia chinesa à minha maneira, mas como não compreendo chinês não conseguirei atingir o mesmo estado mental/emocional que quem está dentro do código.

    O Ateu limitar-se-á a fruir sons, e, poderá desdenhar mais ou menos a letra e o sentimento que está a ser transmitido por esta (letra, a música em si não transmite sentimentos). Por outro lado o religioso, poderá ver em si evocados sentimentos e memórias religiosas (e é provável que assim seja), tendo a música reliosa em si um efeito poderoso. O Ateu, estando fora do contexto terá evocações claramente distintas (a música apesar de não transmitir emoções ou sensações, evoca-as em nós, mediante o que já está em nós).

    Assim, em conclusão, é preciso analisar a experiência de vida do Ateu para se perceber o que é que aquela música lhe poderá evocar e fazer sentir. Tal como será preciso ter em atenção a experiência de vida e contexto religioso do crente para perceber o que a mesma música lhe evocará. E nessa diferença estará a também a diferença entre um poder apreciar "melhor" a música em questão.

    Deixo no ar: qual o verdadeiro papel da letra religiosa nisto tudo. É possível menosprezá-la e dissociá-la da música?

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  6. Caro musicólogo,

    dado que a maior parte das palavras na música religiosa são em latim, será que uma pessoa religiosa que não saiba latim (a esmagadora maioria)também não consegue apreciar adequadamente a música?

    A linha de raciocínio que sugere parece ir dar a uma trivialidade: cada pessoa aprecia a música de maneira diferente, pois cada pessoa tem uma história diferente e associa a cada peça musical acontecimentos pessoais diferentes das outras. Há um psicólogo da música, penso que John Sloboda, que descreve essa teoria popular como a teoria «Olha filha, estão a tocar a nossa música!» Só eles sabem o que isso significa para eles.

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  7. A tese de que os ateus não podem fruir música relgiosa peca por muitas suposições falsas:

    a) que para fruir música religiosa é preciso ter crenças religiosas.

    b) a ideia de que nenhum ateu poderia compor música relgiosa.


    Contudo, um compositor ateu ou agnóstico é obviamente capaz de escrever um requiem.

    Por outro lado, nunca sentimos que o mesmo problema existe na música profana, quer dizer, que o ouvinte só pode apreciar "verdadeiramente" a música se partilhar todas as crenças que tiverem a ver com o tema da peça. O defensor da tese de que o ateu não pode fruir música religiosa nunca se daria ao trabalho de defender que só um republicano poderia apreciar a sinfonia 3 ou 5 ou a 9 de Beethoven... nem que é preciso acreditar na vericidade histórica das 1001 noites para poder ouvir a "sherazade" de Korsakov...

    Bem, o resto é evidente por si...

    Fazer isso com os temas religiosos não seria diferente de fazê-lo com os temas irreligiosos.

    Parece supor também um relativismo insustentável, como se houvesse incomensurabilidade entre temas musicais e só os adeptos de determinada subcultura pudessem fruir a música com temas ligados a essa subcultura.

    Assim, só um crente nas mitologias germânicas podia ouvir o anel dos niebelungos, etc.

    Contudo, somos perfeitamente capazes de fruir os temas destas obras sem acreditar em Wotan ou Odin, ou que Sherazade foi uma personagem histórica... Podíamos numerar exemplos incessantemente.

    Dido e Eneias de Purcell? Como foi possível um cristão escrever tal peça? Como foi possível apreciar-se tal peça na corte de Carlos II?

    etc etc etc

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  8. Eu atrever-me-ia inclusive a afirmar que um ateu musicalmente inteligente tem uma experiência sonora e sim, espiritual, muito mais profunda a ouvir a Paixão segundo sao Mateus de Bach, do que um ouvinte muito crente mas musicalmente calhau... (musicalmente calhau significando pouco sofisticado no modo de ouvir, e não sem treino profissional ou teórico na música, claro).

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  9. Caro Aires,

    Exactamente. A minha linha de raciocínio conduz a essa trivialidade que para mim é a que faz mais sentido neste caso. A audição de música é um fenómeno sobretudo subjectivo e pessoal que está ligado à experiência de vida e ao contexto de cada pessoa.

    Por isso mesmo a diferença na audição entre religiosos, não religiosos, analfabetos ou não. Todos ouvem a mesma música, mas de certeza todos terão experiências diferentes. O que quer que haja em comum, será extra-musical, parece-me. E a questão da letra, como é óbvio terá importância porque é um elemento "perturbador". Eu perceber a letra, ou não, vai influenciar o desfecho final.

    Não consigo compreender o que quer dizer com "apreciar adequadamente" a música. Não sei qual é a maneira adequada ou ideal de apreciar uma música. A que se refere?


    Caro Victor Guerreiro,

    Acusa a falácia de:
    «(...)só os adeptos de determinada subcultura pudessem fruir a música com temas ligados a essa subcultura».

    - Não assim. O que
    se pretende, creio, é que os adeptos de uma subcultura partilham uma experiência auditiva mais aproximada entre si, porque pertencem ao mesmo contexto e às mesmas vivências.

    Claro que um Ateu pode fruir perfeitamente uma peça religiosa e vivênciá-la intensamente. Mas não o fará da mesma maneira que um religioso o fará. Nem com as mesmas motivações. Suponha um ateu e 2 católicos com conhecimentos de latim a ouvirem um requiem. Não será de esperar que os 2 católicos tenham uma vivência mais aproximada entre si do que o ateu, o que quer que na prática isto depois signifique ou se traduza? Não quer dizer que a vivência do Ateu seja "pior", apenas é "diferente".

    Uma coisa é ir à bola porque gostamos de ver golos, outra é ir porque gostamos de ver os jogadores, outra é ir porque gostamos de apreciar os planos tácticos, outra é ir porque somos jornalistas e temos de fazer um trabalho. Não sei se alguma destas formas é "mais genuína" ou "mais adequada" de ver e apreciar a bola, mas sei que são todas diferentes e todas trarão resultados diferentes em momentos diferentes.

    Ainda que o resultado final possa ser o mesmo: o despertar violento de emoções!

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  10. Caro Musicólogo,

    O que me parece é que seja o que for que um determinado grupo de ouvintes — católicos, budistas, xintoístas, góticos, comunistas, fascistas, vendedores de enciclopédias com mais de 40 anos, etc — partilha, ISSO é que será extra-musical.

    Depois há aqui umas proposições arrojadas que podem não ter qualquer correspondencia com os factos. Teríamos primeiro de ver se há elementos comuns entre os ouvintes católicos que sejam relevantes para a experiência musical. Quais são ao certo?

    Pelo que já sublinhei nos meus comentários anteriores, esse algo comum não pode ser simplesmente a crença na existência de uma determinada entidade, que faça parte do tema da obra. Porque:

    a) essa crença é irrelevante musicalmente, por tudo o que já disse nos outros comentários (ver o exemplo da "sherazade" ou do anel dos niebelungos.

    b) mesmo que haja grupos de pessoas que têm a tendência de associar conjuntos de crenças com conjuntos de experiências musicais, não vejo que isso seja muito relevante. As pessoas que partilham um credo político têm a tendência para considerar genial toda a arte que é produzida sob os auspícios da "estética oficial" (ver o realismo soviético) e no entanto isso pouca relevância tem para o valor ou a fruição da arte em condições normais. Quando muito, podemos dizer que isso é ruído exterior à arte. Bastava introduzir um preconceito idiota qualquer na mente dessas pessoas para de imediato pensarem que afinal o artista x não é "revolucionário" mas sim um "degenerado".


    c) o caso da religião só parece ser muito importante porque temos a tendência de dar às crenças religiosas um estatuto que não damos a qualquer outro tipo de crenças. Contudo, as crenças religiosas são como qualquer outro tipo de crenças.

    Imagine-se uma ópera que narrasse uma história de amor entre dois homossexuais. Talvez os homossexuais como grupo partilhem todos uma experiência dessa obra ou elementos dessa experiência, que são peculiares ao grupo. Mas não me parece que isso seja muito relevante, ou pelo menos não impede qualquer heterossexual de apreciar o mesmo conteúdo. Posso emocionar-me com uma ária cantada por um personagem feminino sem que para isso tenha de ter ovários. E no entanto uma pessoa que tenha ovários terá certamente experiências muito diferentes das minhas. Será que isso afecta o modo como ouve música? Talvez, mas também não me parece ser relevante.

    Agora a pergunta: relevante para quê?

    Bem, suficientemente relevante para declararmos que os católicos como grupo têm uma experiência musical única que todos partilhem.

    A orientação relativista do seu comentário levanta ainda outro problema: É que a experiência musical certamente que varia no interior dos mesmos grupos e até na mesma pessoa. Até que ponto é que falar numa "experiência musical católica" individuada não equivale à mesma arbitrariedade de postular "almas nacionais" comuns a todos os utentes de uma língua e de um território?

    Abraço

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  11. O sentido do meu comentário, resumidamente, é dizer que é tão arbitrário individuar uma "experiência musical católica" como individuar uma "experiência musical dos vendedores de enciclopédias com mais de 40 anos".

    É arbitrário porque depende de atribuirmos um valor excessivo à ideia de "ser católico" como grupo e ao papel que a crença na existência de uma entidade desempenha na fruição.

    Pelo mesmo raciocínio, se fosse correcto, provaríamos que nenhum racionalista, ateu ou naturalista teria condições para fruir de literatura irrealista. Contudo, posso perfeitamente emocionar-me com um romance ficcional povoado de personagens maravilhosas ou fisicamente impossíveis.

    A pergunta do musicólogo será esta:

    P: "Será que o facto de o leitor de literatura maravilhosa acreditar na existência das entidades a que o romance alude é significativo para a experiência que esse leitor tem da obra?"

    Bem, é trivial que sim. Suponho que um leitor de Tolkien que acredite em hobbits terá uma experiência diferente da minha. Mas acontece que todos os leitores que não acreditam também têm experiências diferentes uns dos outros e provavelmente os leitores que acreditem em hobbits também terão.

    Acabamos por ver que nada disto é muito relevante no sentido em que não nos permite individuar uma experiência musical do grupo x — cristã. Pelo menos não da maneira como foi sugerida pelo musicólogo, simplesmente postulando-a com base na atribuição intuitiva que fazemos de um valor especial para as crenças religiosas mainstream da nossa sociedade.

    Abraço

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  12. Estamos sempre a aprender! Adoro estes debates e blogues!

    Fica-me então ainda no ar a dúvida: se a crença (na letra, no mito, na temática) não é importante, porque não está contida na música, em si, de forma explícita, o que é então relevante para se ouvir música e ter-se determinada experiência? Haverá algo externo que seja realmente relevante?

    Será que se eu for completamente "oco" poderei ter uma experiência musical frutífera?

    Remetendo para outro comentário seu, O que significa não ser "calhau" musicalmente?

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  13. Caro musicólogo,

    «Exactamente. A minha linha de raciocínio conduz a essa trivialidade que para mim é a que faz mais sentido neste caso. A audição de música é um fenómeno sobretudo subjectivo e pessoal que está ligado à experiência de vida e ao contexto de cada pessoa.»

    Acho que estamos a desviar-nos um pouco da questão inicial, que era a de saber se envolveria alguma contradição em ser ateu e apreciar música religiosa. A resposta do musicólogo foi que sim, mas não da mesma maneira. Mas como implicitamente acaba por reconhecer, isso é irrelevante para a questão em causa, dado que nenhuma pessoa aprecia a música da mesma maneira que outra qualquer.

    Já agora, pegando no que diz, a escuta musical é um fenómeno que tem envolve obviamente elementos subjectivos, mas não se resume a isso. Aliás, talvez os elementos culturais sejam ainda mais determinantes na escuta musical. É sabido que as pessoas reagem às mesmas peças musicais de forma diferente em função da cultura musical a que pertencem. Assim como é verdade que, na nossa cultura musical ocidental, praticamente todas as pessoas, mesmo sem qualquer formação musical, reconhecem que um acorde em tom menor é mais triste do que um acorde em tom maior.

    «E a questão da letra, como é óbvio terá importância porque é um elemento "perturbador". Eu perceber a letra, ou não, vai influenciar o desfecho final.»

    Bom, a letra, o estado de espírito, o local onde se ouve, a hora do dia, a cotação da bolsa, o preço da gasolina, o tempo chuvoso, a dor de dentes que se tem, etc.

    «Não consigo compreender o que quer dizer com "apreciar adequadamente" a música. Não sei qual é a maneira adequada ou ideal de apreciar uma música. A que se refere?»

    Bom, refiro-me áquilo a que alguns musicólogos e filósofos da música (por exemplo, Roger Scruton em The Aesthetics of Music) referem como «ouvir com compreensão». Ouvir com compreensão (listen with understanding) é ouvir compreendendo o que se está a ouvir. Por exemplo, uma pessoa que desconheça a forma sonata é incapaz de ouvir, neste sentido, uma sonata. Assim como um cão é incapaz de ouvir música; ele ouve apenas um conjunto de sons ou ruídos. Isto porque, para o cão, aqueles sons não têm qualquer significado nem é capaz de detectar qualquer tipo de articulação neles. Alguns musicólogos e filósofos vão mesmo mais longe e falam usam até a noção de «ouvinte ideal». O ouvinte ideal é, grosso modo, um ouvinte informado, embora não seja necessariamente um ouvinte que estudou música.

    Não vejo porque razão um melómano religioso esteja mais ou menos habilitado a apreciar a Paixão Segundo S. Mateus do que um melómano musical ateu. É só isso.

    Um abraço

    PS: amanhã parto de férias e vai-me ser difícil estar ligado à net. Se não responder, não será por falta de consideração ou por falta de interesse.

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