12 de agosto de 2008

Pós-modernismo e fistfucking

Na sequência do post do Aires, e para todos rirmos mais um pouco, decidi repescar uma pérola que encontrei há já alguns anos, durante uma pausa para almoço na Fnac (na altura trabalhava eu como caixeiro de tintas, um emprego onde o devir-animal, ou o devir-besta, era coisa que não faltava): Organs Without Bodies: On Deleuze and Consequences. Trata-se de um excerto que nos fala de Foucault, Deleuze e fistfucking.
E, para dar um passo em frente, não será a prática de fistfucking o modelo daquilo a que Deleuze chamou «expansão de um conceito»? Dá-se um novo uso ao punho; expande-se a noção de penetração na combinação da mão com a penetração sexual, na exploração do interior de um corpo. Não admira que Foucault, o Outro de Deleuze, praticasse fisting: não será o fistfucking a invenção sexual do século XX, o primeiro modelo do erotismo e prazer pós-sexuais? Não é mais genitalizado mas foca-se apenas na penetração da superfície, com a mão, o objecto parcial por excelência, usurpando o papel do falo.
Repare-se como este pequeno excerto caracteriza na perfeição o modo de raciocínio da psicofoda pós-moderna (ou pós-qualquer coisa; o appeal vem mesmo é do ser-se pós, suponho): Imagine o leitor que é pós-moderno e quer falar mal de alguma coisa. O que faz? Simples, pergunta: «Não será o x de y realmente o z de m?» Ficou no ar a alusão, o resíduo suficiente para o leitor crédulo se autopsicofoder durante muito tempo. Quer dizer bem de alguma coisa? Simples, afirma: «o x de y é na verdade o z de m». Fantástico, não? Não precisa de argumentar, não precisa de fazer sentido, não precisa de ser coerente. Basta que tudo isto pareça muito irreverente, heterodoxo, bad-boy, «ontologicamente contingente», whatever!

A argumentação? O conteúdo? Pensamento? Ideias? Tudo isso são epifanias burguesas, coisas do passado, do tempo em que o mundo não tinha pensadores vigorosos como estes para o iluminar. Na verdade, é curioso como toda esta escrita, segundo o critério do próprio autor, é ela mesma «deleuziana»: não é verdade que esta mal descobriu um novo uso para o cérebro? Não é verdade que expandiram a noção de pensar de modo a incluir tudo menos o pensamento?

Agora um pequeno passatempo: quem consegue arranjar a melhor tradução para fistfucking? Seria embaraçoso conseguir traduzir mindfucking e não isto.

6 comentários:

  1. hauhauahauaha

    Desidério, não dá pra acreditar nisso! Isso tem que ser mentira, não é possível.

    : )

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  2. Vitor e restantes autores do blog, permitam-me um desabafo.

    Sou licenciado em Filosofia pela U. de Coimbra e terminei um curso com uma boa classificação. Durante os quatro anos nunca questionei que a filosofia se regesse pelos princípios que me eram apresentados, de tal modo que posso dizer que joguei o jogo deles e isso valeu-me uma boa classificação. Se me falavam com discursos herméticos e me apresentavam textos ainda mais herméticos, divinas orações a Derrida, Lyotard, Gadamer, Deleuze, etc., eu ainda conseguia ser mais hermético do que eles, coisa que apreciavam e me premiavam.

    Hoje estou exausto de tanto hermetismo e de nada saber sobre filosofia. Creio que a filosofia é bem mais interessante e cativante do que citar autores tidos por geniais e passar a vida a usar trocadilhos e outras armadilhas retóricas. Na faculdade, nunca me foram apresentadas alternativas ao modo de fazer filosofia, hoje sei que as há.
    A minha questão é esta: será possível que a maioria deste país esteja enganada?

    Saudações e continuação de um bom trabalho de despertar das consciências!

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  3. Caro Luís
    Bem-vindo ao blog e obrigado pelas palavras simpáticas. Não penso que seja de espantar a situação que descreves. Muitos professores não conhecem as bibliografias, porque se limitam a fazer como professores o que lhes fizeram a eles como alunos. Por outro lado, muitas vezes nem dominam a língua inglesa, o que não é vergonhoso: diferentes pessoas têm diferentes limitações e diferentes conhecimentos. O importante é procurarmos dar aos estudantes a melhor formação possível, baseada num bom conhecimento bibliográfico. Não se trata de “cilindrar” seja quem for, mas de dar aos estudantes e ao público em geral a possibilidade de ESCOLHA. Que foi precisamente o que não tiveste no teu curso, nem eu no meu. Hoje eu estaria a fazer a mesma coisa, mas ao contrário, se escondesse dos meus alunos a existência de filósofos como Deleuze ou Derrida, por mais que eu não tenha o mais pequeno interesse neles. O importante é dar aos alunos a possibilidade de escolher o tipo de filosofia que gostam mais de fazer; mas para isso precisam de ser expostos a várias maneiras de fazer filosofia, precisam de conhecer várias bibliografias, e não apenas as bibliografias franco-alemãs com mais de 50 anos.

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  4. Caro Luís,
    Não sei se o Desidério te respondeu à tua última questão: será que a maioria deste país anda enganada? Creio que a resposta é sim e, então sim, pelas razões apontadas pelo Desidério. Penso ser pacífica a ideia de que a maior parte das academias são conservadoras. A academia portuguesa é por razões sociais e profissionais ainda muito conservadora. Já perdi algum passo em relação ao que se passa nos departamentos de filosofia em portugal já que acabei o meu curso já lá vão uns 12 anos, mas as indicações de alguma abertura são ainda muito ténues e o teu comentário é prova disso mesmo. Defendo a tese de que a filosofia é mais vulnerável a más influências que o conjunto das ciências, mas admito uma objecção: a de que a filosofia não mais vulnerável coisa alguma, mas que quando se ignora no grosso um saber, é como se ele não existisse e responde-se-lhe com arrogância. Mas a tarefa de divulgar a filosofia e o que acontece nela nos últimos 50 anos parece-me essencial. Aliás essa é a razão pela qual dou a cara, dado que não tenho trabalho produzido ao nível do Desidério, por exemplo :-)
    abraço e bem vindo.

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  5. Eu proponho que "fistfucking" seja traduzido por "punhoda", que é uma mistura do gene do punho com o gene da foda.

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  6. Para a tradução de "fistfucking", as hipóteses mais óbvias seriam "punhofoda" ou então "foda-com-o-punho". Mas "fodacupunho" parece-me de longe a mais interessante, por razões também óbvias!!!

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