7 de Agosto de 2008

Tradução de «supervenience»

Tenho vindo a alimentar uma discussão a propósito da tradução do termo «supervenience», para a qual contribuí com um texto algo mordaz e intencionalmente cómico, publicado na Crítica — Sobreveniência, superveniência e o quarto português. Humorismos à parte, gostaria agora de resumir alguns detalhes desta discussão, uma vez que influirá na tradução do dicionário Mautner.

Razões por que prefiro o termo «sobreveniência»:

a) em inglês, «supervene» é usado em diversos contextos afilosóficos, além de em contexto filosófico. O termo inglês mantém a continuidade com o uso corrente e isto quanto a mim é uma vantagem.

a.1) a forma verbal em português, equivalente a «supervene», caso mantivéssemos «superveniência», seria «supervém» (x supervém a y). O que parece um pouco tolo.

a.2) «x sobrevém a y» é a opção mais natural, elegante, económica, indolor.

b) elimina-se uma série de confusões comuns como «x é superveniente sobre y», como vejo escrever-se bastantes vezes. Há uma ideia falsa de que «x sobrevém a y» carece de algo que «x é superveniente em y» comunicaria. No fundo desta sensação está uma psicofoda da língua: a pessoa que diz «superveniente sobre» tem a sensação de estar a dizer algo muito inteligente e depois recusa abdicar deste uso. Mas isto aproxima-nos das patetadas heideggerianas de tentar traçar uma fronteira epistémica arbitrária ridícula entre o zé mediano e o superfilósofo, à custa de torcionismos verbais. Pensando outra vez, com cuidado, vemos que «x sobrevém a y» diz tudo o que é preciso dizer e não nos obriga a construir frases na passiva para evitar o «supervém».

c) Uma objecção que me apresentaram tem a ver com a noção de co-variação: a dada altura usou-se a palavra «superveniência» para captar uma relação assimétrica entre propriedades. O mental depende do físico mas o contrário não sucede. Contudo, objectaram-me haver casos em que «superveniência» apenas capta uma co-variação de propriedades. A minha resposta é que nestes supostos casos, o melhor será usar, se necessário, o termo «co-variação». Isto nada nos diz sobre a adequação ou inadequação de «sobreveniência» relativamente a «superveniência».

d) Outra objecção que me apresentaram foi a de o termo «sobreveniência» implicar uma «relação de estar por cima», o que em termos ontológicos destaca a tal assimetria de que falei na alínea anterior. A minha resposta a isto é que se isso fosse um problema para «sobreveniência», então seria um problema para «superveniência», pois «sobre» e «super» são dois espécimes da mesma palavra. Por outro lado, na frase «x sobrevive a y» não se supõe que x está «em cima de» y. Aqui podemos dizer que há metáfora morta, mas que se aplica tanto a «sobrevir» como a «supervir». Os latinos diziam «super mensa» para «em cima da mesa».

e) Pelo modo como construímos uma imensidade de palavras: sobreviver, sobrepujar, sobrecarregar, sobrelotar, sobrenfatizar, sobrestimar...

f) Como não traduzirmos «causation» por «causação», pois isso levaria as pessoas à ideia tola de que «causação» é «filosófico» e que «causalidade» é um termo diferente, ao qual «falta» supostamente qualquer coisa para captar o mesmo que «causação». Ao escrever «superveniência» estamos a criar a mesma situação entre «sobrevém a» e «é superveniente em».

17 comentários:

  1. Caros,

    Muitos parabéns. A ideia de criar um blog de suporte à Crítica é excelente, pois permite a publicação de conteúdos que lá não teriam lugar; e permite outra agilidade no sistema de comentários, dando outra liberdade ao leitor.

    Cumprimentos!

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  2. Obrigado pelo incentivo, Sérgio. O espaço está aberto a todos.

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  3. Desi, tanto superveniência [ou supervenção] quanto sobrevir significam vir sobre x ou depois de x. Significam também acontecer [ocorrer repentinamente, de modo inesperado]. Não me parece que causação e causalidade signifiquem exatamente a mesma coisa. Causação refere-se mais ao ato de produzir um efeito, e causalidade mais ao estado daquilo que produz o efeito e/ou à relação entre causa e efeito. Abraço, edg

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  4. Edson, o artigo não é meu. É do Vítor.

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  5. Olá Edson,

    Não estou a argumentar que "sobreveniência" e "superveniência" têm significado diferente, bem pelo contrário. Argumento contra as pessoas que acham que "superveniencia" é mais profundo, rico, adequado, whatever, do que sobreveniência.

    O meu argumento é minimalista: temos um termo que evita os torcionismos verbais a que o outro nos obriga e mantém a coerência com o uso corrente, além de filosófico. Não gosto de "superveniência" porque a razão de as pessoas se agarrarem a este termo é igual à razão pela qual os heideggerianos se agarram ao dasein e ao ser para a morte: tem-se uma sensação "morna" de falar com muita proficiência. Isto pode nem ser consciente: aprende-se, como os heideggerianos aprendem a fazer jogos de palavras.

    Quanto a "causalidade": a "tensão" arterial não parece ser o acto de "tensionar" arterialmente a circulação do indivíduo. O causation inglês e o nosso "causalidade" referem a mesma coisa e a proliferação de palavras aqui só serve para confundir e para fazer parecer inteligente quem, como os heideggerianos, não sabe fazer senão jogos de palavras e em todo o lado vê "profundidades", excepto nos problemas reais, que dão um pouco mais de trabalho a pensar e não precisam de linguagens bizantinas para serem dificeis.

    Abraço

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  6. Caro Vítor

    Queria parabenizá-lo e agradecê-lo particularmente pelos textos que tem traduzido e publicado na Crítica: muitíssimo bons e oportunos!

    Mesmo com vosso (vocês "aí" em Portugal e outros "cá" no Brasil) hercúleo trabalho há ainda muito a fazer pela filosofia de qualidade e com seriedade em língua portuguesa.

    Noto essa necessidade, agora no primeiro ano do curso, em particular na metafísica, onde os textos, traduções e indicações seus, de João Branquinho e Desidério têm ajudado sobremaneira (vai aí mais uma palavrinha para o caso deste tópico).

    Em tempo: parabéns também pelo Ana-Lítica-Mente!

    Um abraço
    Alex.

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  7. Vitor, não sei o que é tensão arterial [é a mesma coisa que pressão arterial?], mas sei que circularidade não é a mesma coisa que circulação, p.ex. Positividade também não é a mesma coisa que posição etc. [Não se podem comparar palavras apenas com base no sufixo.] Não sou heideggeriano, mas não me parece que todo heideggeriano faça o que você diz. Mas esta é uma discussão inútil. Abraço, edg

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  8. Eu achei o artigo da Crítica muito interessante. Pessoalmente, aceito de bom grado a sugestão do autor e compreendo as suas razões. Numa língua viva, a criação de novas plavras, para mais seguindo uma evolução semântica correctíssima, não tem de escandalizar ninguém. Os pares agarrarão ou deixarão cair.

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  9. edson:

    honestidade também não é o mesmo que honestação, não é por isso que temos de introduzir "honestação" para captar uma ideia que "honestidade" não capte. "Agir honestamente" chega. No caso da causalidade, não me ocorre uma única circunstância em que precisemos de introduzir "causação" na qual "causalidade" não funcione perfeitamente para dizer o mesmo. "Causalidade mental" por exemplo, e "causação mental". Em que circunstâncias seria necessário usar a segunda?.

    Estou apenas a responder à questão que o edson me levantou. Se a discussão é inútil... bem... a culpa não foi minha. Você é que a achou suficientemente interessante para responder ao post original.

    Um abraço

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  10. Vitor,

    Eu quis dizer que seria inútil uma discussão acerca da atitude dos heideggerianos. [Por isso escrevi "esta" e não "essa" ou "aquela".]

    A causalidade é um processo constituído por três elementos ou momentos: a causa, o efeito [produto] e o processo causal propriamente dito. Para minha sensibilidade, causação refere-se mais ao processo, a ação de causar, de produzir um efeito.

    O filósofo alemão Fichte até cunhou um neologismo para significar a unidade entre causa e efeito, Tathandlung, que pode ser traduzido por estado-de-ação ou simplesmente ato-ação.

    Abraço,
    edg

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  11. Quando escrevemos "causalidade do mental sobre físico", qual é a ideia que ficou por captar, para que tenhamos de introduzir "causação"? O dicionário de inglês-inglês oxford define causation como:

    "the relationship between cause and effect; causality."

    Ora, a causalidade é aquilo que é comum a todas as relações causais. Quando falamos da causalidade de x sobre y, da acção causal de x sobre y, não vejo o que ficou por dizer.

    Nada há em "agir honestamente em" que precise de ser posteriormente captado por "honestação de x sobre y". A honestidade de x a respeito da sua acção é suficiente. A questão aqui é saber se faz sentido fazer uma cópia morfológica do inglês para captar nada de novo. É o mesmo disparate que traduzir "nonphysical" por "não-físico" confundindo o "non" com "não", quando em inglês "non" é prefixo de negação genuíno e não o operador lógico "não-". Fazêmo-lo porque nos ficamos pela fonética e pela morfologia... como o homenzinho no quarto chinês.

    Quanto à unidade da causa e do efeito... bem, ou essa ideia é clarificada por algo mais, ou é usada de algum modo num argumento, ou não sei bem o que pensar dela. Tanto quanto a percebo, ou é uma redundância ou uma falsidade.

    Os filósofos do idealismo alemão convertiam qualquer banalidade num conceito quase místico e a única razão para termos de lá ver algo de muito profundo é a convicção dos idealistas em que ali tem de haver algo de muito profundo. Raramente estas profundidades se inserem num argumento inteligível. Foi este tipo de coisas (a "actualidade" latina por oposição à wirklichkheit, etc) que iniciou a tradição da lana caprina que culmina em Heidegger, o último porta-voz do inefável na terra (ou o maior perscrutador do século).
    Se atentarmos no fundo semântico dessas oposições (os termos latinos contra os alemães em Hegel) o que lá está é teologia, só faz sentido para quem já aceitou uma série de compromissos ontológicos duvidosos. (há o "Ser" e depois há "os seres", esses pelintras, que só se unificam e glorificam pelo Ser... e outras porcarias nazis)

    Os alemães têm teses curiosas: são místicos do estado e depois afirmam dogmaticamente que o indivíduo é o abstracto e que o estado é a ideia que os unifica, que lhes dá "concreção" e outras palermices do género. Mas a defesa destas ideias não está depois numa argumentação clara que mostre a pretensão original. Está em comportar-se como se a expressão comunicasse a verdade absoluta e quem discorda ou é considerado ingénuo, pouco profundo, ou dogmático.

    Mas a verdade é que não há qualquer profundidade nas afirmações dogmáticas dos idealistas alemães. A única razão porque parecem muito difíceis de refutar é o facto de esconderem o próprio pensamento atrás da javardice gramatical, do bizantinismo linguístico.

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  12. Não sei o que honestidade/honestação pode ter a ver com causalidade/causação. Para mim, sinônimos perfeitos são raríssimos, se é que existem. Causalidade e causação significam essencialmente a mesma coisa, mas não exatamente do mesmo modo. Como disse, causação enfatiza o aspecto ativo, processual do fenômeno causal. Quanto ao Tathandlung, Fichte escreveu mais de um livro para desenvolver a sua tese acerca da natureza do eu. Quanto aos idealistas alemães, creio que esta é mais outra discussão inútil. Fichte só pode ser considerado um "idealista alemão" com muita boa [ou má] vontade. E duvido muito que generalizações como "os alemães", "os heideggerianos" ou "os analíticos" refiram algum objeto real.

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  13. Caro Edson

    Você apresenta duas definições para 'causalidade' e três para 'causação', na ordem abaixo.

    Para mim, parecem se referir à mesma coisa, além de mais confundir que esclarecer.

    Pode, por gentileza, esclarecer?

    "e causalidade mais ao estado daquilo que produz o efeito e/ou à relação entre causa e efeito."

    "A causalidade é um processo constituído por três elementos ou momentos: a causa, o efeito [produto] e o processo causal propriamente dito."


    "Causação refere-se mais ao ato de produzir um efeito,"

    "Para minha sensibilidade, causação refere-se mais ao processo, a ação de causar, de produzir um efeito."

    "Como disse, causação enfatiza o aspecto ativo, processual do fenômeno causal."

    Sds
    Alex.

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  14. Dá-me ideia que em abstracto (as duas palavras fora de qualquer contexto), e dada a sua raíz comum latina, superveniência será mais lato que sobreveniência.

    Superveniência - como um superlativo - e Sobreveniência - como um comparativo - estabelecendo uma relação de superioridade (ou anterioridade, depende se estamos a falar de tamanhos, tempos...), a um específico y que se lhe apresente.

    Afinal de contas aqui o problema reside especificamente em diferenciar "super" e "sobre", dando ideia intuitiva e psicológica que o primeiro prefixo é «mais forte, mais abrangente" que o segundo, em lugar de simplesmente sinónimos.

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  15. Alex, chamemos de C ao fenômeno constituído pela relação entre uma causa e um efeito quaisquer. Na minha opinião, quando se quer realçar o aspecto dinâmico do fenômeno C, ou seja, a ação de produzir um efeito, deve-se preferir o termo causação, e quando se quer enfatizar a condição ou qualidade de causa, isto é, a capacidade de produzir efeito, deve-se preferir o termo causalidade. É uma questão de ênfase, de foco em determinado aspecto do mesmo fenômeno. Pode-se considerar o fenômeno C segundo cada um de seus três momentos ou elementos, segundo a sua totalidade [como Lúlio e Schelling], de modo estático, de modo dinâmico, etc. Para cada um desses modos de consideração deve haver um termo mais adequado. A Tathandlung fichteana, p.ex., refere-se ao Eu transcendental como unidade de ação [causação] e ato [efeito], portanto, a um fenômeno de autopoiese sem suporte substancial [causa]. Falando em "transcendental", lembro o conceito kantiano de causa transcendental, no qual o termo causa não possuiu sentido categorial [fenomênico]. Grato, edg

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  16. A causalidade descreve o que é comum a todas as relações causais, como a amizade é uma propriedade de certo tipo de relações.

    Parece estranho falar num "lado activo" e (por necessidade de definição) num lado "passivo" das relações causais. Simplesmente, a palavra que descreve a própria acção causal é o VERBO "causar", como em "x causa y". Ou descrições como a acção causal de x, etc. Como usaríamos "causação"? Falar em "dinamismos" é estar já a encher demasiado as palavras com coisas de que gostamos mas que não fazem parte do sentido das palavras.

    Passa-se o mesmo com as variações em volta do "super" e do "sobre". O que é importante não é aquilo que inventamos ad hoc com base no efeito que a sonoridade de "super" tem na nossa imaginação, mas sim o sentido que as palavras segundo a etimologia e segundo o uso histórico, segundo uma análise lógica desses usos para separar o trigo do joio. Temos de partir de um conteúdo mínimo, indiscutível, e não de variações ad hoc segundo a imaginação. "Super" e "sobre" são espécimes da mesma palavra. Não é a fonética de "super" que lhe dá um âmbito maior do que "sobre". Isto é projectar fantasmas no léxico em vez de tentar compreender objectivamente o que a palavra é.

    "A causação de x sobre y"? Mas é assim que escrevemos "a causalidade de x sobre y". O que eu proponho é que se pense muito bem e veja se há realmente algo que se capta em "causação" que não seja captado em "causalidade".

    Outra coisa que desempenha aqui um papel é pensar que se tem de traduzir "causation" por "causação" só por causa da morfologia da palavra inglesa. Mas as palavras não têm o significa que nós queremos, elas têm o significado que têm, e "causation", em inglês, significa o MESMO que a nossa "causalidade"... é uma questão de verificar.

    Trata-se simplesmente de aplicar um critério minimalista para evitar a conversa da treta e as frases que parecem muito profundas quando nada dizem.

    A honestação, obviamente, servia de paralelo, pois "causalidade" descreve o que é comum a relações causais, como "honestidade" e "amizade" descrevem propriedades comuns a certo tipo de relações ou acções. A noção de praticar uma acção honesta não precisa de ser captada por um disparae como "honestação" nem amizade por "amigação". "Causação" é igualmente inútil e a questão aqui é saber se faz sentido usá-la, e não fazer hermenêutica a partir de teses altamente discutíveis de autores que não primavam pela lucidez.

    Fui demasiado generalista relativamente ao idealismo alemão. Contudo, dentro dessa generalização, parece-me ter acertado em alguns alvos. É comum depararmo-nos com afirmações dogmáticas nesse território filosófico, para as quais não há argumentos que as sustentem, apenas afirmações misteriosas ou convicções teológicas. No caso de Fichte temos a célebre caracterização do "dogmático" e do "idealista" e como a escolha de cada um releva do tipo de pessoa que se é. Isto é teorizar dois passos à frente do que se pretende mostrar, com meros adjectivos disparados contra aquilo de que não se gosta. Não se filosofa assim, isto é pensar à teólogo: "é muito mau que x, logo y". E não admira que toda essa malta tenha vindo do seminário.

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  17. Vitor,

    Como sujeito, você é a causa de seus atos. Mas quem é ativo é você e não seus atos. E nem você nem seus atos são ações.

    Quanto a Fichte, onde está essa célebre caracterização de que você fala? Parece-me que ou você a leu de segunda mão, num manual qualquer, ou só leu as conclusões da argumentação de Fichte.

    Grato,
    edg

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