Tenho vindo a alimentar uma discussão a propósito da tradução do termo «supervenience», para a qual contribuí com um texto algo mordaz e intencionalmente cómico, publicado na Crítica — Sobreveniência, superveniência e o quarto português. Humorismos à parte, gostaria agora de resumir alguns detalhes desta discussão, uma vez que influirá na tradução do dicionário Mautner.
Razões por que prefiro o termo «sobreveniência»:
a) em inglês, «supervene» é usado em diversos contextos afilosóficos, além de em contexto filosófico. O termo inglês mantém a continuidade com o uso corrente e isto quanto a mim é uma vantagem.
a.1) a forma verbal em português, equivalente a «supervene», caso mantivéssemos «superveniência», seria «supervém» (x supervém a y). O que parece um pouco tolo.
a.2) «x sobrevém a y» é a opção mais natural, elegante, económica, indolor.
b) elimina-se uma série de confusões comuns como «x é superveniente sobre y», como vejo escrever-se bastantes vezes. Há uma ideia falsa de que «x sobrevém a y» carece de algo que «x é superveniente em y» comunicaria. No fundo desta sensação está uma psicofoda da língua: a pessoa que diz «superveniente sobre» tem a sensação de estar a dizer algo muito inteligente e depois recusa abdicar deste uso. Mas isto aproxima-nos das patetadas heideggerianas de tentar traçar uma fronteira epistémica arbitrária ridícula entre o zé mediano e o superfilósofo, à custa de torcionismos verbais. Pensando outra vez, com cuidado, vemos que «x sobrevém a y» diz tudo o que é preciso dizer e não nos obriga a construir frases na passiva para evitar o «supervém».
c) Uma objecção que me apresentaram tem a ver com a noção de co-variação: a dada altura usou-se a palavra «superveniência» para captar uma relação assimétrica entre propriedades. O mental depende do físico mas o contrário não sucede. Contudo, objectaram-me haver casos em que «superveniência» apenas capta uma co-variação de propriedades. A minha resposta é que nestes supostos casos, o melhor será usar, se necessário, o termo «co-variação». Isto nada nos diz sobre a adequação ou inadequação de «sobreveniência» relativamente a «superveniência».
d) Outra objecção que me apresentaram foi a de o termo «sobreveniência» implicar uma «relação de estar por cima», o que em termos ontológicos destaca a tal assimetria de que falei na alínea anterior. A minha resposta a isto é que se isso fosse um problema para «sobreveniência», então seria um problema para «superveniência», pois «sobre» e «super» são dois espécimes da mesma palavra. Por outro lado, na frase «x sobrevive a y» não se supõe que x está «em cima de» y. Aqui podemos dizer que há metáfora morta, mas que se aplica tanto a «sobrevir» como a «supervir». Os latinos diziam «super mensa» para «em cima da mesa».
e) Pelo modo como construímos uma imensidade de palavras: sobreviver, sobrepujar, sobrecarregar, sobrelotar, sobrenfatizar, sobrestimar...
f) Como não traduzirmos «causation» por «causação», pois isso levaria as pessoas à ideia tola de que «causação» é «filosófico» e que «causalidade» é um termo diferente, ao qual «falta» supostamente qualquer coisa para captar o mesmo que «causação». Ao escrever «superveniência» estamos a criar a mesma situação entre «sobrevém a» e «é superveniente em».
17 comentários: