18 de agosto de 2008

Uma confusão comum

Os comentários do leitor Pedro Sargento aos testemunhos de Rolando Almeida e Vítor Guerreiro revelam um aspecto interessante que por vezes se confunde, pelo que vale a pena pensar nisto outra vez. Os ex-alunos e os alunos têm tendência para relatar as piores experiências relacionadas com a chamada “filosofia continental” nas universidades por onde passaram. Eu também tive experiências dessas.

Estas experiências, contudo, tendem a confundir um mau ensino da filosofia com a filosofia continental propriamente dita. Nunca li uma linha de Benjamin, nem sequer sobre ele, mas não duvido que é possível fazer um trabalho de excelência quer no estudo deste autor, quer no ensino das suas ideias. E para a qualidade do ensino é irrelevante se Benjamin é um bom filósofo da arte ou não: lixo é lixo, mas trabalho académico sobre o lixo não tem de ser um lixo.

O que isto significa é que pugnar pelo ensino de qualidade é independente das nossas preferências filosóficas. Eu estudo filosofia analítica e não continental porque tanto quanto sei os filósofos continentais não discutem os problemas tradicionais da filosofia que eu estudo. Mas defendo a excelência do ensino da filosofia, quer se estude as ideias Kripke quer se estude as ideias Benjamin.

É por isso que o comentário do Pedro Sargento é interessante: exibe uma compreensão das ideias dos autores referidos por Rolando e Vítor que, a julgar pelos seus relatos, os seus professores evidentemente não tinham. E isso é que interessa.

Saber agora se as ideias de Benjamin funcionam ou são interessantes é outra discussão: é a discussão normal em filosofia, que consiste em avaliar criticamente as ideias, argumentos e perspectivas dos filósofos estudados.

Quando vemos as coisas assim, percebe-se que quando se ensina filosofia analítica mal as coisas não são muito diferentes: fala-se vagamente das coisas, sem que se compreenda realmente o que os filósofos estão a dizer, e elege-se o filósofo que é objecto de estudo como um Santo Padroeiro que não pode ser posto em causa.

Em duas palavras, o problema do ensino da filosofia é pura incompetência e falta de sentido crítico. E isto tanto se aplica ao ensino das ideias de Nietzsche como das ideias de Quine.

5 comentários:

  1. Acho que há outro aspecto que é preciso frisar:

    muitas vezes me perguntam (sobretudo ex-colegas ainda mais ligados à filosofia continental) se considero que só os ingleses e americanos disseram algo de interessante. Acho que aqui também se esconde uma confusão.

    Claro que todas estas pessoas por vezes etiquetamos de "continentais" podem perfeitamente, aqui e ali, dizer algo interessante, sejam ou não mais ou menos tolas ou mais ou menos excêntricas, não interessa. Todos corremos o risco de dizer coisas interessantes desde que pensemos um pouco. Só que aqui é que a porca torce o rabo:

    Uma coisa é dizer coisas interessantes, fazer alusões interessantes; outra coisa completamente diferente é produzir argumentos e contra-argumentos, avaliar criticamente ideias e argumentos, trabalhar sistematicamente um pensamento acerca de um dado problema.

    Não basta fazer sistematicamente alusões e citações para se ter um pensamento sistemático sobre alguma coisa. Fazer filosofia não é fazer alusões, por muito excitantes e excentricas que sejam... O nosso interesse em George Dickie, por exemplo, não é o mero facto de ser G. Dickie e logo de ser "fixe", o nosso interesse em Dickie é saber se a sua teoria funciona, se produz conhhecimento, se é precios ser aperfeiçoada e abandonada.

    E por mais que discordemos 1000 vezes de Dickie isso não significa que nao seja um bom filósofo, muito pelo contrário. Um bom filósofo não é alguém que diz coisas às quais podemos aderir ideologicamente, um bom filósofo é um profissional que nos faz pensar profundamente sobre as coisas e evidentemete, ao excitar as nossas capacidades críticas, pode gerar tanto concórdia como discórdia, mas isso é a natureza da filosofia, e deixa-se exprimir por algo muito simples, que os maus praticantes de filosofia não encaixam:

    O conhecimento não está na afirmação de crenças mas na actividade constante de testar e desafiar as crenças. As nossas melhores ideias só são boas na medida em que servem para lhes opormos contra-ideias e, desse contraste, retirar algum conhecimento ou uma melhor compreensão do problema, pelo menos.

    Não se trata de escolher o filósofo mais porreiro de todos para estampar na t-shirt, aprender a fazer paráfrases à maneira desse filósofo para contrariar quem faz paráfrases à maneira de outro, sem chegar realmente a discutar algo de interesse ou palpável... apenas tentar apanhar um pouco da "luz reflectida" desse ídolo que elegemos. Ao invés, trata-se de pensar.

    Daí que seja estranho a contestação a uma ideia suscitar sempre tanta fricção quando não se faz filosofia a sério. É normalmente indício de que a ideia é indefensável e que o objectivo em defendê-la não era tentar conhecer melhor fosse o que fosse. Os autores mais heterodoxos e "rebeldes" tendem a ser os mais incapazes de ser contestados (a norma é quererem ser heterodoxos para serem tão adorados como os supostos ortodoxos que desafiam). Podemos aqui lembrar os horrores palermas que o Deleuze dizia ter ao "diálogo" e à discussão pública. Preferia disparar solitaria e enigmaticamente frases sobre tudo e todos, contudo, sujeitar-se a defender as ideias que regurgitava para alunos impressionáveis seguirem acriticamente, já era outra conversa.

    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Caro Desidério

    é claro que, a princípio, não há nada que nos impeça de fazer um trabalho filosófico sério com um filósofo continental. Mas embora isso seja possível, na prática raramente acontece, pois a filosofia séria tem um grau de rigor incompatível com a fil. continental. Eu não estou exagerando: se um filósofo pretende apresentar as idéias de Heidegger pra seus alunos e levantar objeções aos seus argumentos o que acontece? Fica evidente que Heidegger não só não é um grande filósofo, mas também é um charlatão de marca maior. É por isso que alguém que tenha um interesse nas idéias de Heidegger dificilmente vai fazer filosofia a sério. A suposta habitual confusão entre péssimo ensino de filosofia e fil. continental, como se as duas coisas estivessem associadas, não é confusão. Na verdade este ensino ruim é uma condição necessária para que filósofos como Deleuze, Derrida ou Foucault sejam levados a sério. Certas obras desses filósofos sequer são filosofia. Alguém consegue imaginar qual é a objeção à afirmação de heidegger "o nada nadifica"? Eu não consigo..

    ResponderEliminar
  3. Um mito que sinto necessidade de ver esbatido é o criado pelos seguidores dogmáticos da filosofia continental que sempre que discordamos de um autor como Derrida ou Deleuze, alegam: "Não, não, estás equivocado. Ele não quis dizer isso. Se não concordas com essa ideia é porque ainda não a compreendeste". Ora, esta é uma verdadeira falácia que mina qualquer tentativa racional e crítica de fazer algum trabalho com supostos filósofos.

    A "falácia da incompreensão" é levada ao extremo numa área de estudos que deveria ser um exercício mental para discutir e não assegurar nada como garantido. Sempre pensei que filosofia fosse isso e foi essa a razão que me levou a escolher ingressar nesta área e não noutra!

    Alegar que não chegámos a compreender determinada ideia não é um erro, até deveria sevir de incentivo. No entanto, dar a discussão por terminada quando se repara que o interlocutor não fala o mesmo linguarejar barroco e hermético, abusando-se de uma retórica manipuladora de acesso ao conhecimento, é uma falta grave de ética do pensamento crítico. Se me dizem que não compreendo, insisto para que mo expliquem, mas quando reparo que eles próprios são incapazes de mo esclarecer, começo a acreditar que não têm mesmo nada para me ensinarem.

    Saudações cordiais

    ResponderEliminar
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  5. Ensinar filosofia é ensinar o aluno a aprender, ou seja, trazê-lo para filosofia como caimnho do próprio pensamento, nas suas competências.
    Nada a ver, essa ridícula discordância de filosofia continental e analítica.
    O bom professor ensina filosofia e não escolinhas...

    ResponderEliminar