9 de agosto de 2008

Wishful thinking

Estamos a trabalhar no Dicionário Escolar de Filosofia, segunda edição, e uma vez mais procuramos uma boa expressão portuguesa que capte "wishful thinking". Até agora, a melhor candidata é "falácia da esperança".

A forma lógica desta falácia é a seguinte: "Era bom que fosse verdade que P; logo, é verdade que P".

A maravilha da expressão inglesa é que é popularmente usada nos países de língua inglesa e ao mesmo tempo é um termo técnico de lógica informal. É significativo que na mentalidade portuguesa, que prima pela falácia da esperança -- uma espécie de pensamento mágico -- não se use comummente uma expressão para esse mesmo hábito mental deletério.

Todas as sugestões são bem-vindas!

23 comentários:

  1. Uma das características da psicofoda, segundo o McGinn, é que não se tem experiência da psicofoda como psicofoda mas como um estado de graça, de acesso privilegiado à verdade.

    De igual modo, a nossa cultura do pensamento mágico só é eficaz a lixar a mente aos utentes da língua na medida em que não houver consciência desse mesmo pensamento mágico.

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  2. Segundo penso, wishful thinking tem sido traduzido por raciocínio caprichoso. Na minha opinião, falácia da esperança parece-me uma expressão mais adequada. Podíamos mesmo ir mais à letra e traduzir por pensamento esperançoso, mas esta expressão pode ter um significado dúbio... Por mim, falácia da esperança pode facilmente consagrar-se como a melhor hipótese.

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  3. Falácia do desejo tambem lhe ficava bem :-)

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  4. Falácia da esperança seria mais condizente com hopeful thinking. Esperança remete para esperar, antecipa-se um futuro que pode vir a acontecer (ou não). Desejar é mais condizente com pensamento falacioso - o desejo anula o racional e como se diz em linguagem cristã "cega a consciência". Desejo remete mais para um estado desiquilibrado e, ansioso e fanático - mais crente e pouco razoável.

    ps- boa ideia esta de pedirem sugestões. Parabens ao Blogue!

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  5. Bem, "pensamento mágico" parece-me mais que adequado.

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  6. "sonhar acordado" parece a expressão mais comum.

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  7. não vejo qualquer problema em utilizar o termo "wishful thinking" Desidério. por exemplo, temos a "post hoc" que não tem tradução propriamente dita. de qualquer modo penso que as melhores traduções são "falácia do desejo" e "falácia da pretensão". "falácia da esperança" não me parece tão bom exactamente por causa do que o renato escreveu.

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  8. Desidério, também já traduzi a expressão por "falácia da esperança" num texto do Rachels que já publicaste na Crítica. Mas há outras possibilidades que me parecem adequadas como, por exemplo, "falácia da ilusão" ou "falácia da fantasia". O que me parece relevante é que a tradução inclua sempre o termo "falácia".
    Abraço,

    Vítor João Oliveira

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  9. "pensamento desiderante". (mas no dicionário vem só "desiderato"; pelos vistos, a palavra não existe.) melhor: "pensamento desideriano". agora a sério: "pensamento projectivo". transmite bem a ideia de uma pessoa projectar as suas esperanças e desejos no mundo. aliás, o projectivismo, na filosofia do valor, é a teoria de que as propriedades valorativas não pensam de projecções da mente.

    PG

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  10. ... a "falácia do sonhar acordado"?

    Acho que é igualmente importante, na medida do possível, manter a continuidade com aquela expressão que for o correspondente óbvio na língua "alvo" — neste caso parece ser "sonhar acordado" ou algo como "fazer castelos nas nuvens".

    Parece-me que a referência ao pensamento mágico, embora eu inclusive goste mais dela do que de "sonhar acordado" tem o inconveniente de ser mais claro depois de lermos os ataques que se tem publicado ao "pensamento mágico" na cultura portuguesa, por exemplo. Já quando usamos as expressões da "cultura comum", como "sonhar acordado", elas são identificáveis por si, sem exigir mais nada. Toda a gente sabe o que é sonhar acordado, que género de ideias e atitudes caracterizam esse estado.

    Falácia da fantasia parece-me demasiado lato — nem toda a fantasia é "sonhar acordado" embora "sonhar acordado" implique fantasia. Pode-se sonhar acordado sem ser acerca de entidades fantasiosas.

    Usar o original parece-me mau, temos léxico para isso e não há qualquer razão para fazer filosofia com crioulo de inglês em vez de português. Não porque tenha algo contra o crioulo de inglês... mas por pensar que para falar isso então mais vale esquecer o portugues e falar logo ingles. Essa opção é igualmente má por se dirigir a um público mais estrito. Acho que a opção de usar os termos ingleses em vez de tentar traduzi-los acaba por nos condenar a falar só para os colegas. Se estou a ler um livro introdutório e nunca li filosofia antes, é improvável que identifique em si e por si "wishful thinking". Fazemos o mesmo que a escola portuguesa: só ensina quem já vem ensinado de casa.

    Falácia da esperança, mais uma vez, tem esse problema de ser muito lato: nem todas as esperanças são "sonhar acordado". Só um tipo peculiar de esperanças o são. Por exemplo, neste momento, tenho esperança de que tragam o café em condições, mas a julgar pelo que bebi ontem aqui, é provável que saia bem.

    Falácia da ilusão ainda é pior, pelos mesmos motivos que apontei. Demasiado geral. Posso sofrer uma ilusão sem estar a fazer o que "whishful thinking" implica. Parece que "sonhar acordado" implica auto-ilusão. Resta saber se toda a auto-ilusão é isso.

    Espero ter ajudado.

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  11. Caro Vítor Guerreiro,
    como disse antes, mas que volot a sublinhar, o que me parece fundamental é que se mantenha na tradução o termo falácia, já que será esse termo que restringe o significado. Se dissermos wishful thinking apenas, sabe-se imediatamente que se trata de um pensamento falacioso. O importante, independentemente do uso comum da expressão, é que a tradução mantenha a falácia "se é bom que x seja, então x é".
    Abraço.

    Vítor João Oliveira

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  12. "Pensamento Mágico" ou "Desejo Mágico".

    Apesar da palavra magia não pertencer à expressão inglesa, é como classificaria este processo mental.

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  13. Olá Vitor,

    Propus "falácia de sonhar acordado" e disse que era igualmente importante manter a continuidade com o expressão comum. Não que era preciso manter em exclusivo a expressão comum. Concordo com a ideia de manter a "falácia", tenho dúvidas é quanto às expressões que acompanham "falácia".

    Abraço

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  14. De resto, não é que me soe muito bem... pelo contrário. Mas privilegio sempre a literalidade à sonoridade.

    Para ser franco, soa-me pior depois de lhe juntar "falácia".

    Talvez a solução fosse uma coisa mais simples, como "falácia do desejo" ou "falácia da ideia desejada", ou algo assim.

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  15. Mil obrigados a todos pelos comentários! Todas as sugestões são boas. Algumas já tinha considerado, outras não.

    A sugestão do Pedro Galvão parece-me muito boa: pensamento projectivo capta bem a ideia. E tem a vantagem de se ligar com as teorias projectivistas, nomeadamente em ética, como o Pedro sublinhou.

    Por outro lado, a sugestão do Guerreiro tem uma vantagem: está a alinhada com o uso corrente. Dizemos muitas vezes a alguém que está a projectar os seus desejos sobre a realidade que está a sonhar acordado.

    Esta é uma boa razão para escolher esta opção: é que o termo inglês é originalmente uma expressão corrente, e não um termo técnico. Ou seja, qualquer das nossas opções deveria ser tal que nos permita dizer a alguém que nada sabe filosofia que o que ela está a fazer é wishful thinking e a pessoa perceber imediatamente o que estamos a dizer, tal como acontece em inglês. Neste aspecto, parece-me que só a sugestão do Guerreiro funciona bem.

    Mas eu preferiria "Pensamento Desideriante", porque tem evidentemente mais classe! :-)

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  16. Ah, Tiago: a sua sugestão também é boa (podemos perfeitamente usar termos ingleses, se o desejarmos), mas note que há uma diferença entre usar um termo latino como "post hoc" e usar um termo inglês: é que o inglês não é uma das raízes etimológicas da língua portuguesa, ao passo que o latim é.

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  17. Desidério, concordo que pensamento projectivo do Pedro Galvão é a tradução que melhor se adapta. Parece-me que sonhar acordado é mais lato que wishful thinking.

    Proponho também uma expressão para consideração: ilusão do anseio (ou desejo/esperança mas anseio parece-me que se aplica melhor). Acho que (quase) consegue captar a ideia no inglês.

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  18. Olá a todos!
    "Wishful thinking" como já foi referido é um termo importado, não se trata de um termo filosófico nem aspira a isso. Os textos técnicos em língua inglesa foram-no importando da linguagem coloquial e a tradução deste termo para uma linguagem técnica pode exprimir a morte desse mesmo termo. Dou-vos o exemplo do termo alemão "Dasein" que significa "existência" e foi importado para a filosofia por Hegel para designar a existência humana. Ora, o grande vulto de Messkirch Heidegger :)), lembrou-se de fazer aquilo que pode acontecer a alguém que agarre numa palavra comum e lhe atribua uma designação técnica ou demasiado obscura, derivando daí todas as obscuridades permitidas a quem se lembre de traduzir esse termo para uma língua estrageira.

    Como eu sei que ninguém aqui pretende seguir tais erros, mediante os quais de transita num ápice de obscuro para obscurantista, somando ao facto de considerar muito interessante a expressão inglesa e não querer vê-la defraudada como aconteceu com um termo tão simples como "Dasein", proponho que na sua tradução se evite tecnificá-la. Ou seja, ainda que o pensamento ingénuo (esta é a minha tradução de wishful thinking) seja objecto de estudo da filosofia, encará-lo como uma falácia é ir além do significado do termo no original, ainda que seja, no contexto filosófico, entendido como falacioso.

    Um abraço

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  19. Obrigado, Paradoxo do Sermão, oops, de Senão, oops, de Zenão... sim, zé, não.

    Bom, a proposta do Guerreiro foi bem acolhida lá em cima pelo chefe Aires: Sonhar Alto. Parece captar perfeitamente o sentido inglês corrente, e não há razão alguma para não fazermos com esta expressão corrente o que os bifes fizeram com a deles: deram-lhe um tratamento técnico. Sim, porque os ingleses são uns tecnicistas, como se sabe, e a culpa de todos os males do mundo é a técnica -- não são os ditadores, a falta de pensamento crítico, a autoridade, o pensamento falacioso, nada disso.

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  20. Que tal falácia do querer ou falácia da vontade?

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  21. Acho que a discussão já passou, mas... eu sugeriria algo como "falácia do otimismo" ou "ilusão otimista", já que usamos a palavra otimismo no dia-a-dia para designar justamente esse engano de afirmar que algo é X porque ser X seria bom.

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