20 de setembro de 2008

Categorias naturais


A SEP acaba de publicar um novo artigo sobre categorias naturais, de Alexander Bird e Emma Tobin. As categorias naturais são categorias como as de água, hidrogénio ou, mais controverso, mamífero. A ideia é que são divisões metafísicas naturais, independentes dos nossos aparatos cognitivos; as articulações da natureza, digamos assim. Um dos papéis das ciências empíricas como a física e a biologia ou a química seria, precisamente, descobrir estas categorias naturais (pense-se, por exemplo, na tabela periódica dos elementos químicos). A própria ideia de que há categorias naturais é evidentemente posta em causa por todos os filósofos de tendência arrealista ou irrealista ou anti-realista, e qualquer uma destas tendências era praticamente moeda corrente na filosofia analítica até há cerca de 40 anos, sendo ainda uma quase ortodoxia na chamada filosofia continental, que geralmente toma o projectivismo kantiano como verdadeiro. Note-se que não se deve confundir a ideia de que há categorias naturais com a ideia bem diferente de que o que nós hoje pensamos que são categorias naturais são realmente as categorias naturais. A ideia de que nenhumas categorias naturais reais correspondem ao que hoje pensamos que são as categorias naturais pressupõe que há categorias naturais.

32 comentários:

  1. Mais um artigo que ignora a contribuição original dos antecessores gregos ou medievais. Seria interessante acrescentar uma ressalva aqui e indicar um livro como o de David Charles, Aristotle on Meaning and Essence, que justamente defende o essencialismo aristotélico — muito mais adequado, segundo Charles, do que o de filósofos analíticos contemporâneos como Putnam — e os tais gêneros ou espécies naturais.

    Sim, Charles, professor de Oxford, é de certo modo um autor analítico.

    ResponderEliminar
  2. Adriano,
    Diga-me lá uma coisa: quando faz filosofia existe algum canone que imponha que tenha de - necessariamente - abordar a época X e Y ou o filósofo X e Y??? Se o Adriano estuda filosofia deve saber uma coisa central: é que não falaríamos de filosofia como falamos sem a sua tradição, mas não temos de, para fazer filosofia, passar o tempo todo agarrados à tradição. O que o faz feliz na filosofia? Debitar erudição histórica? Qualquer sujeito que se limite a decorar uma enciclopédia é, então, um filósofo.

    ResponderEliminar
  3. Vamos fazer um acordo: erudição por erudição é recolher teias em museu.

    Por outro lado, se se quer tratar de algum conceito filosófico relevante, a honestidade intelectual pede que se verifique o estado atual da questão, e isto quer dizer refazer a aporética/história do problema, justamente para que não se tome como novidade o que já foi expresso anteriormente.

    ResponderEliminar
  4. Mas o Adriano não o faz. Limita-se a dizer que já os antigos pegaram nesse problema. Mostre onde, como e porquê??? Satisfaça o seu próprio convite.

    ResponderEliminar
  5. Devo, por acaso, escrever um artigo acadêmico nesta caixa de comentários? Já não basta ter indicado o livro de David Charles?

    Ou o que v. quer é que eu cole trechos do livro que v. está com preguiça de checar?

    ResponderEliminar
  6. Caro Adriano, Numa caixa de comentários não tem de:
    1) escrever ensaios de filosofia
    2) postar livros inteiros
    3) atiçar ao ar acusações que não consegue fundamentar numa caixa de comentários
    O Adriano foi capaz de fazer um convite:
    "a honestidade intelectual pede que se verifique o estado atual da questão, e isto quer dizer refazer a aporética/história do problema, justamente para que não se tome como novidade o que já foi expresso anteriormente."
    E eu fui capaz de lhe fazer outro convite:
    Não diga somente que as pessoas se esquecem dos antigos. Refira que antigos é que está a falar e por quê?
    Sim, estou com preguiça de ler o livro que recomendou e por essa razão era-me muito útil que pudesse ser capaz de dizer duas ou 3 coisas sobre o livro que fossem articuladas e que sintetizem o livro. Isso seriam muito útil para todos.

    ResponderEliminar
  7. Entre escrever um artigo e expor um simples argumento que sustenta o nosso ponto de vista vai um grande salto. É por isso que os seus "quatro sentidos" de "filosofia" são reposições do mesmo preconceito acerca da filosofia e não captam um único grama de actividade filosófica.

    Com esses reptos fazes lembrar um pregador de porta a porta: eles também presumem que se as pessoas não vão a correr ler o que eles bem entendem que as pessoas têm o dever implícito de ler é porque são preguiçosas para ouvir a palavra do senhor. Claro que se puxarmos muito por eles argumentativamente fecham-se em copas e começam a remeter para os textos, na esperança de que ao lermos fiquemos magicamente convertidos, e da próxima vez que nos aparecem à porta vamos "entender-nos intuitivamente", deixando de lado os argumentos (as "logomaquias") e passando logo às exortações edificantes e à graxa mútua com muitos adjectivos.

    Tenta ler com distanciação o que disseste ao Rolando. Queres que as pessoas te dêm razão só porque ciitaste um livro? Se não tivesses livros ao lado para copiar e para arremessar, como fazias para pensar? Citas nomes para incitar as pessoas a deixarem de ser críticas?

    Não és capaz de explicar resumidamente o que entendes por "essencialismo contemporâneo" e em que sentido é que isso, segundo o defines, é inadeuqado?

    Ou precisas de uma tese de 500 páginas, inacessível a plebeus como nós? Sabes, eu tive um professor de filosofia antiga que quando não queria responder às perguntas exclamava: "isso é muuuuuuito complicado!" — e com esta cantiga lá ia consumindo as aulas. Resultava com as miudinhas caloiras, que ficavam a olhar para o pavão como se fosse um génio. Mas queres ouvir a melhor?

    O homem numa aula refere um compositor checo e eu, que sou apaixonado por música, fui pedir-lhe a referência. Incapaz de simplesmente me dar a referência sem se pôr com pavoneios, começa a escrever o nome do compositor em caracteres cirílicos. Acabou por me deixar 2 ou 3 alternativas possíveis (porque não sabia o que queria escrever). O mais ridículo de tudo isto é que os checos não usam alfabeto cirílico.

    Provavelmente se eu tivesse dito alguma coisa, também estaria a ser muito redutor. Afinal o homem estava só a tentar mostrar-me que tinha decorado alguns caracteres eslavos... e provavelmente até sabia muitas expressões em latim... embora não tivesse o hábito de perguntar triunfalmente às pessoas se sabiam o que era um "non sequitur" antes de parar para pensar outra vez, do mesmo modo que não parou para pensar que os checos não usam cirílico. Mas vai tudo dar ao mesmo... O que importa é não perder uma única oportunidade de usar as palavras mágicas, a ver se o cérebro dos outros é como o sésamo do Ali Babá.

    ResponderEliminar
  8. «Não diga somente que as pessoas se esquecem dos antigos. Refira que antigos é que está a falar e por quê?
    Sim, estou com preguiça de ler o livro que recomendou e por essa razão era-me muito útil que pudesse ser capaz de dizer duas ou 3 coisas sobre o livro que fossem articuladas e que sintetizem o livro. Isso seriam muito útil para todos.»

    Você leu meu primeiro comentário? Referi-me a Aristóteles e a seu essencialismo, a doutrina de que existem espécies naturais.

    Como disse, David Charles mostra como a versão essencialista de Aristóteles é mais adequada que a de Hillary Putnam.

    Porém, se quisermos entender por quê, temos de ir a Putnam e depois a Aristóteles, principalmente em seus Segundos Analíticos.

    ResponderEliminar
  9. Vitor,

    não entendo mais suas tempestades. Você está com uma idéia de mim totalmente errada.

    ResponderEliminar
  10. Ok Adriano,
    Obrigado. Eu não conheço a obra de D. Charles. Como é que ele faz essa defesa? É possível expor uma ou duas ideias centrais sobre os argumentos de D Charles em relação a esse problema?
    Obrigado

    ResponderEliminar
  11. Adriano, penso que estás a fazer uma confusão.
    Se fosse óbvio que Aristóteles tem algo de relevante a dizer sobre os termos para categorias naturais Charles não teria necessidade de ter escrito o livro que escreveu.
    Estás além disso a pressupor que Charles mostra convincentemente que Aristóteles tem algo de relevante a dizer sobre os termos para categorias naturais.
    Por outro lado, Charles tem precisamente o tipo de formação filosófica a que é costume chamar “analítica”, como tu mesmo reconheces.
    De modo que a tua queixa parece resumir-se ao seguinte: em tudo o que se escreve na Enciclopédia Stanford de Filosofia, ou em tudo o que alguma pessoa escreve sobre qualquer assunto da filosofia, temos o dever de referir todos os pensadores clássicos que deram contribuições fundamentais para o tema em causa. Esta posição é pura e simplesmente indefensável, porque depende muito do contexto: um livro, um artigo, um artigo de enciclopédia, são coisas diferentes com diferentes exigências. Mesmo aceitando que num artigo de enciclopédia se possa referir todos os filósofos clássicos que deram contribuições para o tema do artigo, não é em si um defeito relevante, mas antes uma opção do autor, não referir esses filósofos. Para se mostrar que o artigo é deficiente seria necessário mostrar que há aspectos conceptuais fundamentais que ficam de fora e que seriam esclarecidos se o artigo referisse tais autores. Repara que eu não estou sequer a dizer que isso não acontece com este artigo da Stanford. Estou só a dizer que se é isso que pensas, é isso que deves dizer aos autores do artigo.

    Mudando de assunto: conheces alguma boa enciclopédia francesa de filosofia que possamos consultar sobre este tema, esteja ou não online?

    ResponderEliminar
  12. «Se fosse óbvio que Aristóteles tem algo de relevante a dizer sobre os termos para categorias naturais Charles não teria necessidade de ter escrito o livro que escreveu.»

    O aspecto formal desse argumento não parece adequado. "Se fosse óbvio qualquer x, então não seria necessário y".

    "Se fosse óbvio que o céu é azul, então não seria necessária uma teoria das cores e da percepção para explicá-lo."

    Não há aí um non sequitur?


    «De modo que a tua queixa parece resumir-se ao seguinte: em tudo o que se escreve na Enciclopédia Stanford de Filosofia, ou em tudo o que alguma pessoa escreve sobre qualquer assunto da filosofia, temos o dever de referir todos os pensadores clássicos que deram contribuições fundamentais para o tema em causa.»

    Suponha que eu diga que o essencialismo categorial surja com Aristóteles. Suponha também que eu diga que vou escrever um artigo, seja onde for, sobre o assunto. Devo ou não citar aquele que abriu as possibilidades de pensar a questão? É simples: devo, se quero ser honesto intelectualmente.


    Fora isso, não conheço lá muitas enciclopédias francesas, mas conheço falácias do tipo "tu quoque".

    ResponderEliminar
  13. Se não é óbvio que Aristóteles tem algo de relevante a dizer sobre o essencialismo tal como hoje o entendemos, por que razão havemos de o referir? Precisamente porque não é óbvio que ele tenha algo de relevante a dizer sobre isso é que Charles escreveu aquele livro, tal como Mackie escreveu o mesmo sobre Locke. Mas mesmo que Aristóteles e Locke tenham defendido versões análogas às teses essencialistas contemporâneas, daí não se segue que sejam relevantes; e mesmo que sejam relevantes, daí não se segue que tenhamos de os citar em qualquer trabalho sobre o tema; e mesmo que tenhamos de o fazer, daí não se segue que há desonestidade intelectual, mas apenas incompetência, desconhecimento das coisas. A desonestidade intelectual é quando alguém sabe que P ou está em posição de saber que P e P é relevante para o que ela está a dizer e ela oculta P.

    ResponderEliminar
  14. ... or don't prove me wrong

    Por acaso o próprio céu tem um discurso acerca das cores?

    Um análogo adequado seria: se fosse óbvio que Aristóteles disse algo de importante acerca das cores não seria preciso escrever um livro para mostrar que Aristóteles escreveu algo importante acerca das cores.

    Não te esqueças de cada vez que acendes uma lâmpada, fazer um pequeno discurso sobre Thomas Edison... ou as pessoas na sala poderão pensar que há aí uma desonestidade.

    Serão os físicos desonestos de cada vez que não citam os clássicos da física para discutir um problema? Serão os músicos desonestos de cada vez que não inserem uma variação sobre um tema clássico em cada composição?

    ResponderEliminar
  15. Desidério,

    não sei se v. não entendeu ou se não quis entender, mas é óbvio que Aristóteles tem muito a dizer sobre o assunto. Ele tem, aliás, prioridade frente aos modernos, se é que me entende.

    E para os que quiserem saber mais sobre o livro de David Charles, há uma excelente resenha do scholar do King's College, Yannis Stephanou, publicada na Mind (aos que não tiverem acesso aos Oxford Journals, posso enviar o PDF, se houver interesse).

    ResponderEliminar
  16. «Por acaso o próprio céu tem um discurso acerca das cores?»

    O que raios isso quer dizer?

    «Serão os físicos desonestos de cada vez que não citam os clássicos da física para discutir um problema? Serão os músicos desonestos de cada vez que não inserem uma variação sobre um tema clássico em cada composição?»

    Pode parar de usar analogias falaciosas?

    ResponderEliminar
  17. Adriano,
    insisto no pedido que lhe fiz lá acima:
    Eu não conheço a obra de D. Charles. Como é que ele faz essa defesa? É possível expor uma ou duas ideias centrais sobre os argumentos de D Charles em relação a esse problema?
    Obrigado

    ResponderEliminar
  18. E por que raios é que as analogias são falaciosas?

    Que seja óbvio que o céu é azul é um facto que precisa de explicação, porque não é óbvia a razão pela qual se dá o primeiro facto.

    Se fosse óbvio que o autor x disse algo importante sobre y então é irrelevante tentar provar isso. Tentamos faze-lo quando nao é óbvio que autor x disse algo importante sobre y.

    O que raios quer dizer que Aristóteles "tem prioridade" sobre os modernos? Aproxima-se deles pela direita num cruzamento?

    ResponderEliminar
  19. Caro Rolando,

    a discussão das espécies naturais em Aristóteles, segundo Charles, é intrincada do processo de descoberta científica, que tem três estágios.

    Usando o artigo de Stephanou como suporte — que não deixa de ser muitas vezes crítico a Charles —, podemos dizer que

    - no estágio 1 temos algum conhecimento do significado da espécie, temos alguma idéia de alguma propriedade essencial da espécie, mas que ainda não podemos reconhecer essa propriedade como essencial, nem ainda podemos ter certeza de sua existência (a maneira como se conhece em Aristóteles pressupõe um primeiro contato com o senso-comum, com uma cadeia de razões preconceptuais);

    - no estágio 2 passamos a ter certeza da existência da espécie (suponha, grosso modo, o processo de demonstração da existência de um triângulo);

    - no estágio 3 descobrimos a essência da espécie (no caso do triângulo podemos dizer que a essência equivale a "dois retos").

    O que está por trás da idéia do estágio/passagem em três vias é a de que o estabelecimento da existência das espécies naturais (plano ontológico) depende do próprio processo de conhecimento (plano epistemológico), de inquiração — daí que as espécies naturais sejam estabelecidas já nos Analíticos (tomados como um todo), lembrando que a análise, em Aristóteles, é mais que demonstração ou silogística, é um método noético, um método para o conhecimento de "realidades últimas" (para usar um termo pomposo).

    ResponderEliminar
  20. Vitor,

    «E por que raios é que as analogias são falaciosas?»

    De que seja assim em campo x, não implica ser dessa maneira no campo y.


    «Que seja óbvio que o céu é azul é um facto que precisa de explicação, porque não é óbvia a razão pela qual se dá o primeiro facto.»

    É exatamente esse o processo de análise em Aristóteles, e provavelmente pensamos assim porque eles nos forneceu os fundamentos desse tipo de raciocínio, que por si já mostra que temos uma posição filosófica antes que pensemos nela.


    «Se fosse óbvio que o autor x disse algo importante sobre y então é irrelevante tentar provar isso.»

    Minha posição quanto ao livro de Charles é a seguinte: ele não está tentando provar que as posições de Aristóteles são relevantes. Isso está suposto desde o começo. O que ele faz é dar-se ao trabalho de tentar articular e explicar toda a filosofia do estagirita para tentar chegar a uma melhor compreensão de sua posição quanto às espécies naturais.


    «O que raios quer dizer que Aristóteles "tem prioridade" sobre os modernos? Aproxima-se deles pela direita num cruzamento?»

    Quer dizer que Aristóteles estabeleceu as bases para as discussões mais cabeludas das Idades Média, Moderna e Contemporânea (para entendê-lo no campo da Ética, temos os três tomos de mil páginas cada um de Terence Irwin, pela Oxford UP).

    ResponderEliminar
  21. E você não percebe que as analogias não servem para deduzir o que a filosofia deve ser a partir do que a música é. Servem para mostrar que o ónus da prova recai sobre si, que afirma que é diferente. Uma analogia não serve para deduzir o que um campo deve ser por comparação a outro. Tenta captar semelhanças relevantes que existem independentemente do que cada campo "deve" ser. Você é que está a tentar dizer que a acepção de "filosofia" deve ser "pluralista" mas não deu uma única razão plausível por que deveria ser assim.

    Você não tem uma posiçao filosófica antes de pensar nela. Você tem crenças pré-filosóficas que podem ou não vir a ser objecto de discussão filosófica.

    O que diz sobre a análise não tem relação com aquilo que você mesmo quis dizer com a analogia do céu e com a minha crítica a essa analogia. Você está a encher chouriços com ar.

    O seu último parágrafo demonstra que as minhas analogias com a música não são malucas. As experiências polifónicas do renascimento influiram no desenvolvimento da música séculos depois. Isso não significa que Bach seja desonesto cada vez que não faz uma citaçao musical (com temas ou variações) retirados dos mestres antigos. O mesmo vale para hoje em dia. Mesmo que esses autores renascentistas não tivessem existido, não era por isso que a história da musica tinha parado. De modo que é abusivo falar em "prioridades" e "tornar possível" como se Aristóteles fosse um profeta a quem o divino ditou a metafísica.

    ResponderEliminar
  22. Portanto: sempre que alguém falar em essencialismo e não referir Aristóteles, é intelectualmente desonesto. É isso?

    Se pensas isso, deves contactar os autores do artigo e o director da Enciclopédia. Todos esses contactos estão lá. Tudo o que eu fiz foi divulgar um artigo novo acabado de publicar na SEP. Se achas que outros artigos melhores sobre o mesmo tema estão publicados algures, basta enviar e serão igualmente divulgados.

    Mas discussão interessante é esta: é defensável que há demasiada história da filosofia na filosofia e que devemos cada vez mais abandonar os clássicos aos historiadores. Sei que és contra esta posição, mas não podes presumir que toda a gente concorda contigo. Em muitas universidades pensa-se que precisamente que se perde demasiado tempo a estudar demasiados clássicos com pouca ou nenhuma relevância para os problemas que queremos resolver. Noutras, finge-se que se faz história da filosofia, mas faz-se apenas doxografia necrófila sem qualquer relevância para a resolução dos problemas filosóficos que queremos resolver. Entre um extremo e outro há com certeza muitas posições. Mas é ingénuo pensar que a tua posição, só porque é a tua, é pura e simplesmente óbvia e que quem não concordar contigo é porque é intelectualmente desonesto.

    ResponderEliminar
  23. Vitor,

    eu não vejo como pode ser que a analogia com a música tenha qualquer coisa a ver com a filosofia, simplesmente isso.

    E Aristóteles não teve nada ditado pelo divino... ele também era falível.


    Desidério,

    parece-me insensato discutir o essencialismo em filosofia sem mencionar-se Aristóteles. Mas se pode fazê-lo... o que não deixa de ser simplificador.

    E, não, não posso contatar a SEP, não passo de um terceiranista. O "status" sem dúvida é mais importante que qualquer outra coisa nesses casos.

    ResponderEliminar
  24. O estabelecimento da existência de uma coisa não "depende" do processo de conhecimento. O processo de conhecimento É esse estabelecimento. É claro que o estabelecimento de que x existe depende de agentes racionais que procuram estabelecer que x existe. A afirmação é ociosa. Não podes chamar "plano ontológico" (querendo dizer que falas das próprias coisas por oposição ao conhecimento delas) quando a palavra "estabelecer" remete de imediato para a epistemologia. Uma coisa é haver categorias de coisas e outra é o estabelecimento da existência dessas categorias para agentes racionais. A expressão linguística "água" exprime uma categoria natural, que podia ter qualquer outra expressão linguística, sem que isso afectasse a realidade de o mundo conter essa categoria natural, ou o estabelecimento da sua existência por parte de agentes racionais.

    O "noético" será uma palavra grega que remete para o pensamento. Uma demonstração é uma sequência ordenada de ideias. Em que é que chamar a algo "método noético" o faz ter a ver com "realidades últimas" por oposição a "demonstração" e "silogismo"? Não será que "noético" aqui é mais uma daquelas palavras mágicas para desligar o pensamento, fascinando o leitor atreito a ter orgasmos quando ouve termos gregos?

    Como é que distingues uma "razão conceptual" de uma "razão preconceptual"? Uma é um conceito e a outra um preconceito? A distinção é quase... rectal.

    Fascina-me que você escreva "noético" mas depois pense que "realidade última" seja um termo pomposo. E que procure explicar "senso-comum" com "cadeia de razões preconceptuais".

    ResponderEliminar
  25. A sua escrita é a prova viva de que a música tem tudo a ver com o que você pensa que a filosofia é.

    ResponderEliminar
  26. Uma analogia entre a música e a filosofia só pode obviamente ter a ver com a filosofia (além da musica) de contrário não seria uma analogia entre a música e a filosofia. Pode é parecer-lhe que a analogia não funciona. Mas para isso tem de haver algo mais além de parecer. "Analogia" implica precisamente que se trata de coisas distintas, como na analogia do relógio, de Paley. Que tem o universo a ver com um relógio? E no entanto a analogia é boa. Se funciona ou não é outra coisa.

    Agora, se não lhe parece que a analogia funcione em algum aspecto que eu referi, mostre isso. A analogia funciona precisamente porque você é que quer defender um ponto de vista contra-intuitivo sem dar qualquer fundamentação.

    ResponderEliminar
  27. «Como é que distingues uma "razão conceptual" de uma "razão preconceptual"? Uma é um conceito e a outra um preconceito? A distinção é quase... rectal.»

    Convém não discutirmos mais.

    ResponderEliminar
  28. Então é assim: os directores da SEP e autores dos artigos são deuses com os quais aos quais só podemos apresentar os nossos argumentos depois de adquirirmos o estatuto certo porque os argumentos não valem por si. Mas podes chatear-me a cabeça a mim e aos leitores da Crítica porque neste caso somos todos umas bestas.

    Claro que depois de adquirires autoridade, poderás então falar com o pessoal da SEP e dizer-lhes que também eles são umas bestas. Afinal é mesmo para adquirir autoridade que serve andar na Universidade. Depois, armados dessa autoridade, podemos oprimir tranquilamente os outros.

    A tua visão da vida académica está totalmente deturpada. Na vida académica, se for saudável, as críticas são bem-vindas. Só que ninguém aceita quaisquer críticas só por serem críticas. Exercemos o mesmo sentido crítico perante as críticas que os críticos exercem ao fazer críticas.

    ResponderEliminar
  29. Desidério,

    calma!

    É mais simples e bem menos tenebroso: a diferença é que eu sei que aqui terei a chance de ser ouvido por pessoas inteligentes. Lá também há pessoas inteligentes, mas duvido muito que eles tenham a abertura que há aqui.

    ResponderEliminar
  30. Estás completamente enganado. É quase impossível contactares um qualquer autor da SEP, ou o director, e não receberes resposta. A menos que os contactes dizendo idiotices sem conteúdo académico. Mas pedidos de esclarecimento, objecções, etc., serão quase de certeza respondidos.

    ResponderEliminar
  31. Okay. Talvez eu faça isso. Agora sinto um incentivo.

    Só espero que isso não exclua possíveis debates por cá.

    ResponderEliminar