3 de setembro de 2008

A certeza implica a verdade?

O conceito de certeza provoca por vezes algumas confusões. Dado que a certeza, se for fruto de uma investigação cuidada das coisas, está correlacionada com a verdade, é tentador pensar que a certeza implica a verdade.

Mas isto é falso. A mais forte certeza, adquirida pela investigação cuidadosa das coisas, pode ter por objecto uma proposição falsa. Isto acontece porque podemos ter azar epistémico e porque somos falíveis.

O azar epistémico ocorre quando todos os indícios apontam favoravelmente para uma proposição que no entanto é falsa. A falibilidade é o que nos faz errar, mesmo nas coisas mais simples e mesmo quando pensamos cuidadosamente.

Descartes põe tudo em dúvida em busca de uma certeza sobre a qual possa erigir o seu conhecimento, e isto pode dar a ilusão a quem o lê que a certeza implica o conhecimento. Mas isto é falso. A certeza, adequadamente adquirida, é apenas um bom guia, mas porque não é um guia infalível, não implica a verdade. A certeza é um conceito epistémico e a verdade um conceito metafísico, e seria surpreendente se o primeiro implicasse o segundo.

12 comentários:

  1. "Descartes põe tudo em dúvida em busca de uma certeza sobre a qual possa erigir o seu conhecimento, e isto pode dar a ilusão a quem o lê que a certeza implica o conhecimento. Mas isto é falso."

    Segundo Descartes, a "... certeza é quando pensamos que não é absolutamente possível que a coisa seja diferente do que a julgamos" [Princípios de filosofia, 4a. parte]. Ou seja, segundo o pai da filosofia moderna, se S tem certeza de que p, então S considera sua crença acerca de p infalível.


    "A certeza é um conceito epistémico e a verdade um conceito metafísico..."

    Evidentemente, você acredita que a proposição expressa pela frase "a verdade é um conceito metafísico" seja verdadeira. Suponhamos que essa crença seja verdadeira e justificada. Ainda assim você acredita ser ela falível?


    "... e seria surpreendente se o primeiro [conceito epistêmico] implicasse o segundo [conceito metafísico]"

    Surpreendente [pelo menos para os realistas] seria se um conceito implicasse a realidade. Mas não há nada de surpreendente em um conceito implicar outro conceito.

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  2. Desidério,

    concordo em absoluto com este post.

    Levanto, porém, duas questões (e são só questões, não objeções):

    (1) eu entendo que você está falando de certeza no sentido subjetivo dela, isto é, "fulano tem certeza de x", mas não há também uma outra noção de certeza, que é aquela dos silogismos apodícticos?;

    (2) há um certo senso-comum em filosofia de que por algo seguir-se logicamente, daí não implica uma correspondência com o real, uma correspondência metafísica; pois bem, qual é o fundamento dessa idéia?

    Um grande abraço, por parte de um admirador de seu trabalho de divulgação filosófica, inigualável em língua portuguesa.

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  3. Compreendo a análise realizada relativamente à certeza. Contudo, tenho uma objecção ao último dos argumentos apresentados. Conhecimento é um conceito epistémico; e, que determinada proposição x seja verdadeira é tomado como sendo uma condição necessária a que se conheça x. Assim, aqui teríamos um caso de um conceito epistémico que implicaria um conceito metafísico. Pode ser que características específicas da certeza façam com que esta não implique verdade; contudo, afirmar simplesmente que seria surpreendente que um conceito epistémico implicasse um conceito metafísico, não me parece o melhor dos argumentos, uma vez que há um dos principais conceitos epistémicos implica um conceito metafísico.

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  4. Obrigado pelos vossos comentários! Começando pelo fim, Bruno: boa objecção. Contudo, repare que o conhecimento é uma relação de um agente com uma verdade, pelo que não pode ser surpreendentemente um conceito puramente epistémico; tem um pé no agente e outro na realidade. A minha ideia, inadequadamente expressa, é que seria surpreendente encontrar uma garantia puramente epistémica de verdade, precisamente porque a verdade não é um fenómeno epistémico. A verdade é uma propriedade de crenças que agentes têm acerca da realidade. Seria surpreendente descobrir algo puramente epistémico que pudesse garantir a verdade; esta ideia é defendida por Russell em Os Problemas da Filosofia, mais ou menos nos seguintes termos: que nada na qualidade interna das crenças pode fazer uma crença verdadeira: é a realidade que a faz verdadeira ou falsa. Mas daqui segue-se, ou pelo menos eu argumentaria nesse sentido, que nada na qualidade interna da crença pode dizer-nos garantidamente que ela é verdadeira (algo que depois Russell mais ou menos aceita mas mais ou menos rejeita também, e eu chamo a atenção para essa tensão no pensamento dele — já não me lembro se numa nota se na introdução que escrevi para o livro.

    Adriano, discutir filosofia é levantar objecções; não tenho a pretensão de ter a última palavra e é com as objecções atentas que se aprende. Os silogismos não podem ter certezas porque não são agentes cognitivos. Só os agentes cognitivos podem ter certezas. E podem ter certezas baseadas em muitas coisas. Por exemplo, quando uma pessoa me apresenta um argumento válido simples ou me diz que dois mais dois são quatro eu tenho a certeza de que isso é verdade, no sentido de ter o máximo grau de adesão epistémica. Mas por maior que seja o grau de adesão epistémica, não é isso que torna a minha crença verdadeira ou falsa, mas sim a realidade. E como sou falível parece-me que nunca tenho garantias de que a minha crença seja realmente verdadeira, por mais que me pareça verdadeira. O ponto 2 não compreendi.

    Edson, penso que na minha resposta ao Bruno respondi também em parte a ti, não?

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  5. Não tem a pretensão, mas como filósofo deveria ter a intenção de "ter a última palavra", isto é, de atingir a verdade, não? Não cabe ser pretensioso, pretender algo sem que se o tenha alcançado; mas deve-se almejar um certo fim se se quer ser virtuoso em alguma especialidade que se tenha escolhido, como é o caso da filosofia para nós.

    Sem dúvida "silogismos não podem ter certezas porque não são agentes cognitivos" — e ainda bem que ninguém aqui disse uma barbaridade dessas. Mas silogismos podem ser apodícticos e certos, não? E nesses, é possível falhar? A honestidade parece implicar a resposta: diante de silogismos apodícticos não se pode ter dúvidas, é impossível falhar ao estar-se certo deles, porque eles mesmos são certos por definição.

    O ponto 2 pode ser exemplificado da seguinte maneira: suponha que a dita prova ontológica em Descartes esteja correta, isto é, que seu raciocínio esteja correto. Do ponto de vista lógico costuma-se dizer que não há falha ali. Porém há uma objeção que os logicistas geralmente fazem, que é a de que por algo implicar logicamente, daí não implica ser o caso ontologicamente.

    Ou, no caso cartesiano, não é porque se prova logicamente que Deus existe que então se pode passar do plano lógico para o ontológico; do plano lógico para o da existência.

    A questão é: por que não?

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  6. Querer descobrir a verdade das coisas e ter a pretensão de que se descobriu tal é muito diferente.

    Se os silogismos fossem assim tão evidentes que fosse impossível falhar, por que razão tantos alunos teriam notas negativas a lógica? Claro que é possível falhar quando se pensa que um silogismo é válido ou inválido. O conceito de agente falível não parece contemplar a possibilidade de o agente alguma vez, em alguma circunstância, ter garantias de que não está a falhar. Os factos de 1) um agente falível ter muitas certezas, 2) algumas das suas crenças serem necessariamente verdadeiras e 3) em alguns casos o agente ter as melhores justificações a favor das suas crenças, não implicam que esse agente, se for falível, pode em alguns casos ter a garantia de não estar a falhar.

    Agora compreendo a questão 2. É uma confusão. Se se demonstra logicamente que algo existe, existe. As demonstrações são factivas. O que pode acontecer é haver um erro e portanto não ser uma demonstração, mas uma tentativa falhada de o demonstrar.

    Parece-me que está a formular mal a crítica de que o argumento ontológico está errado porque a existência não é um predicado de primeira ordem. Mas esta crítica é muito, muito diferente do que está a dizer. Não tem nada a ver com a ideia absurda de “implicar logicamente” mas não “implicar na realidade”. Talvez valha a pena estudar alguma boa bibliografia. Aconselho: História Concisa da Filosofia Ocidental, do Kenny; Dicionário de Filosofia de Cambridge, de Audi; Compêndio de Filosofia, de Bunnin e Tsui-James.

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  7. DESIDÉRIO: ...quando uma pessoa me apresenta um argumento válido simples ou me diz que dois mais dois são quatro eu tenho a certeza de que isso é verdade, no sentido de ter o máximo grau de adesão epistémica. Mas por maior que seja o grau de adesão epistémica, não é isso que torna a minha crença verdadeira ou falsa, mas sim a realidade. E como sou falível parece-me que nunca tenho garantias de que a minha crença seja realmente verdadeira, por mais que me pareça verdadeira. [...] Edson, penso que na minha resposta ao Bruno respondi também em parte a ti, não?

    EDSON: Sim, respondeu, obrigado. Você confirmou as minhas suspeitas. Ao dizer que, como é falível, nunca terá garantias de que a suas crenças sejam realmente verdadeiras, você incorre em contradição pragmática, pois, esta afirmação pretende ser verdadeira.

    Esse tipo de falibilismo radical é ininteligível, pois se anula a si mesmo.

    Está claro, pelo menos desde Descartes, que não podemos ter certeza [pleonasticamente] absoluta acerca de crenças relativas a nossas percepções sensoriais, ao chamado mundo externo. Mas disso não se segue que não possamos ter certeza fundada acerca de alguns princípios apriorísticos.

    Sem estes, nem sequer o próprio falibilismo seria possível!

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  8. Surpreende-me o grau de imprecisão nessa discussão. Inicialmente, levantou-se a conjectura sobre as relações entre verdade e certeza. Mas do que exatamente vocês estão falando? Estão falando de qual teoria da verdade, da correspondencial? Se for, qual delas? Há muitas não equivalentes. Há ainda muitas outras teorias da verdade: coerência, revelação (mística ou não), pragmática, parcial, semântica, redundância etc. Estão falando de qual aspecto da verdade, o definicional ou o criterial? Outra questão: o conceito de verdade só faz sentido relativamente a uma estrutura, ou modelo. Mesmo para quem acredite que exista uma “Verdade Absoluta”, seja lá o que isso signifique, essa noção só faz sentido dentro de uma estrutura, neste caso, podemos tomar como modelo dessa estrutura “o universo”, seja lá o que isso signifique também. Além do mais, é mesmo a verdade uma propriedade? Se for, é uma propriedade de quê? Quais seriam os “portadores de verdade”, sentenças, proposições, enunciados, crenças, juízos, pensamentos... ? Por outro lado, se a verdade não é uma propriedade, o que seria ela?
    Do outro lado, temos o conceito de ‘certeza’. O que queremos dizer por esse conceito, necessidade (qual, lógica ou física?), justificação, ou o quê? Algo só é justificado quando temos certeza desse algo, ou só temos certeza de algo quando ele é devidamente justificado? Necessidade implica certeza? Certeza implica necessidade? O que significa o conceito de ‘justificar’, o de ‘necessidade’? Mencionou-se a lógica (silogismo aristotélico); mas por que não foram mencionados outros sistemas lógicos clássicos, como o (um) cálculo proposicional, o (um) cálculo de predicados (1ª ordem ou ordem superior, com ou sem igualdade), a (uma) teoria de conjuntos, onde o conceito de verdade é melhor compreendido do que no silogismo aristotélico? E o que falar dos sistemas lógicos não-clássicos? O que garante que a “lógica clássica” é a mais adequada? Há contextos que demandam outras lógicas. Enfim, os termos precisam (pelo menos parcialmente) ser clarificados, caso contrário, a discussão é vazia.

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  9. Desidério, sua réplica é simplesmente absurda e mostra uma incompreensão enorme do que eu disse a começar por dizer que "querer descobrir a verdade das coisas e ter a pretensão de que se descobriu tal é muito diferente". Muito bem, foi exatamente essa a distinção que eu tracei anteriormente a esta réplica.

    Segundo, não fica bem minorar seu interlocutor recomendando-lhe bibliografia. Isto pode ser visto como uma simples forma de ataque grosseira, ainda mais quando se parece ignorar, de sua parte, uma idéia básica na história da filosofia em sua face contemporânea, vide Lukasiewicz.

    Sinceramente, esperava mais de você.

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  10. William, concordo em parte com você. Ocorre que eu entrei aqui meio de gaiato no navio... entre os demais há algum acordo acerca de conceitos e teorias metafísicos e epistemológicos básicas.

    "Inicialmente, levantou-se a conjectura sobre as relações entre verdade e certeza. Mas do que exatamente vocês estão falando? Estão falando de qual teoria da verdade, da correspondencial?"

    Não estamos falando sobre nenhuma teoria acerca da verdade, mas da própria verdade. Eu apontei para o fato de não ser óbvio que a verdade consista na correspondência e indiquei a teoria coerencial como alternativa.


    "Se for, qual delas? Há muitas não equivalentes. Há ainda muitas outras teorias da verdade: coerência, revelação (mística ou não), pragmática, parcial, semântica, redundância etc. Estão falando de qual aspecto da verdade, o definicional ou o criterial?"

    Acho que não é possível definir a verdade: a partir de que seria ela definida? Apontei a certeza como um critério possível.


    "Outra questão: o conceito de verdade só faz sentido relativamente a uma estrutura, ou modelo. Mesmo para quem acredite que exista uma "Verdade Absoluta", seja lá o que isso signifique, essa noção só faz sentido dentro de uma estrutura, neste caso, podemos tomar como modelo dessa estrutura "o universo", seja lá o que isso signifique também."

    A verdade pode ser a própria estrutura.


    "Além do mais, é mesmo a verdade uma propriedade?"

    Eu disse isso por falta de expressão melhor. A verdade se dá no pensamento [no sentido de Frege e não no de Descartes].


    "Se for, é uma propriedade de quê? Quais seriam os "portadores de verdade", sentenças, proposições, enunciados, crenças, juízos, pensamentos... ? Por outro lado, se a verdade não é uma propriedade, o que seria ela?"

    Sentenças, proposições, enunciados, crenças, juízos etc. são todos fatos e processos mentais. Onde estaria a verdade se não no pensamento?


    "Do outro lado, temos o conceito de 'certeza'. O que queremos dizer por esse conceito, necessidade (qual, lógica ou física?), justificação, ou o quê?"

    Fez-se sim a distinção entre necessidade lógica e meta-física. Meus interlocutores defendem a certeza como estado mental subjetivo, de assentimento a certas crenças. Eu já acho que há uma certeza objetiva, quando nos damos conta da necessidade.


    "Algo só é justificado quando temos certeza desse algo, ou só temos certeza de algo quando ele é devidamente justificado?"

    Acredito no segundo caso. Mas a justificação não tem de ser necessariamente demonstrativa; pode ser intuitiva, como no caso da evidência.


    "Necessidade implica certeza? Certeza implica necessidade?"

    A certeza é efeito e não causa da necessidade. E por isso pode servir de critério parcial da verdade.


    "O que significa o conceito de 'justificar', o de 'necessidade'?"

    Necessário é o contrário de contingente: aquilo que não pode ser de outro modo. Não é possível que um triângulo não tenha três lados.


    "Mencionou-se a lógica (silogismo aristotélico); mas por que não foram mencionados outros sistemas lógicos clássicos, como o (um) cálculo proposicional, o (um) cálculo de predicados (1ª ordem ou ordem superior, com ou sem igualdade), a (uma) teoria de conjuntos, onde o conceito de verdade é melhor compreendido do que no silogismo aristotélico? E o que falar dos sistemas lógicos não-clássicos? O que garante que a "lógica clássica" é a mais adequada? Há contextos que demandam outras lógicas."

    A nossa mente é que é "clássica". Para nos entendermos em torno de lógicas não-clássicas precisamos recorrer à lógica clássica.


    "Enfim, os termos precisam (pelo menos parcialmente) ser clarificados, caso contrário, a discussão é vazia."

    Pode ser meio confusa, mas vazia não.

    Abraço,
    edg

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  11. Caro William,

    "Não vejo como separar uma teoria da verdade "da própria verdade". Devo ter, de alguma forma, algum conceito de verdade, senão minha proposição acerca "da própria verdade" não teria significado (a noção de "significado" também pressupõe, por sua vez, uma teoria)."

    Um conceito não é uma teoria, mas pode integrar uma teoria. Você está jogando com as palavras, ora se referindo a teoria no sentido estrito, de sistema articulado de conceitos, ora no sentido amplo, ordinário, de simples idéia. Se a discussão acerca da verdade sempre pressupusesse uma teoria da verdade no sentido estrito, então como você explica a criação da primeira teoria da verdade? -- Eu só quis dizer que não estávamos discutindo nenhuma teoria da verdade em especial.


    "Como você citou Frege, referindo-se ao fato de que para ele a verdade está no pensamento, isso iria contra a noção de "própria verdade", que parece sugerir algo objetivo, existindo num mundo exterior a uma mente. Ou seja, o pensamento existiria independentemente de uma mente; algo estranho."

    Se é estranho, então o próprio pensamento de Frege é estranho, pois é isso que ele defende, platônico que é. Objetividade não significa necessariamente faticidade, concretude etc., mas pode significar intersubjetividade, universalidade etc.


    "Penso não ser possível utilizar um conceito (no caso, o de verdade) sem ter alguma definição dele (mesmo que de caráter superficial, não-reflexivo e vago - penso principalmente no senso comum, que se utiliza desse conceito)."

    Todos temos uma compreensão básica, tácita do que seja a verdade. Mas daí não se segue que tenhamos um conceito dela. Você acaba de fazer uso do termo conceito. Você tem um conceito claro, explícito de conceito? Parece que o seu é diferente do meu. Devemos então chegar a um acordo a respeito disso também, antes de continuar o nosso papo? Se for assim, não iremos muito longe -- embora talvez produzamos um dicionário!


    "É claro que precisamos especificar o que entendemos por estrutura. Quando digo que a noção de verdade só faz sentido em uma estrutura, estou pensando em estrutura lógica, matemática (na parte semântica dessas teorias). Penso que a verdade não pode ser a estrutura, pois essa depende da verdade de uma teoria para ser construída; uma teoria de conjuntos, uma lógica de ordem superior (teoria de tipos) uma teoria de categorias etc.. Não acredito que exista uma "estrutura ab ovo". (existe um ovo sem galinha? hehehe)."

    Mesmo sem um elaborado conceito de verdade, é possível dizer que o que tem valor de verdade são as proposições, juízos, pensamentos etc. Um juízo verdadeiro é um conhecimento. A estrutura básica do conhecimento é "algo sobre/de algo", como já sabia Platão. Uma estrutura não tem necessariamente de ser compexa.


    "Frege não estava tão convencido de que a verdade é uma propriedade, ele adotou isso como hipótese. Alguns filósofos sustentaram (com uma certa razoabilidade) que a verdade não pode ser um predicado."

    Por que eu não posso fazer o mesmo que Frege? Aliás eu só me referi a ele devido a sua concepção de pensamento e não a de verdade. Verdade é um valor que pode ser atribuído a proposições, juízos, pensamentos etc. Que é isso senão um predicado?


    "Muitos sustentaram - Russell, Wittgenstein - que a verdade não é uma coisa nem outra. Não está "no mundo exterior" nem "no mundo interior". Segundo Russell (Os problemas da filosofia), por exemplo, a verdade é uma relação complexa (num sentido específico), entre fato e proposição. Para ele, as relações são universais, e não dependem do sujeito."

    E você pensa o quê? Eu penso que não existem fatos puros, brutos, dados, prontinhos da silva, só esperando para que algum sujeito, consciência ou mente os relacione com uma proposição. Aliás, a própria proposição também é um fato, um fato mental.


    "Nem "dois mais dois igual a quatro" é necessário. Isso é verdadeiro num modelo usual da aritmética clássica (de Peano). Há certos modelos, por exemplo, a aritmética do contínuo, onde "dois mais dois igual a quatro" é falso. A não ser que você admita "necessidades relativas"."

    A aritmética do contínuo permite somar duas laranjas mais duas laranjas? E quanto dá?
    Fico a pensar se alguém é capaz de VIVER segundo esses modelos "heterodoxos". Mas, tudo bem, se em algum mundo possível 2+2 não for igual a 4, então se trata de uma necessidade relativa a pelo menos um mundo, o nosso.


    " "Acredito no segundo caso. Mas a justificação não tem de ser necessariamente demonstrativa; pode ser intuitiva, como no caso da evidência." "

    "Neste caso, entraria em consideração questões pragmáticas."

    E isso é um problema? Aliás, comecei minha argumentação apontando para uma contradição pragmática.


    "Não sei, mas penso que a certeza tem mais a ver com uma crença forte do que com necessidade. A força de uma crença não precisa ter como causa a necessidade. Alguém pode crer fortemente que Deus existe, mas não precisa crer que ele existe necessariamente."

    Quem tem certeza de que Deus existe, não pode acreditar que Deus apenas possivelmente exista. Pode sim acreditar que Deus existe realmente [modo intermediário a necessidade e possibilidade]. Mas se estiver errado, ou seja, se Deus não existir, então esse alguém não tinha de fato certeza, mas apenas uma convicção.


    "O que é necessário é o seguinte: "um triângulo é um triângulo"; isso é sem dúvida verdadeiro."

    Então há pelo menos uma verdade necessária, o princípio de identidade. Se é necessária, e não apenas relativamente necessária, então o princípio de identidade tem validade em todo mundo possível. Nesse caso, NÃO pode ser objeto do falibilismo.


    "Agora: "um triângulo tem três lados" não é necessariamente verdadeiro, é contingente; João pode saber o que significa os conceitos "lado", "três", "figura" etc., mas nunca ouviu falar em ângulo, portanto não sabe o que esse conceito significa, logo, não pode saber que "um triângulo tem três lados"."

    E o que importa o que João sabe ou deixa de saber sobre geometria? Um juízo ou proposição ou conhecimento é a priori se puder ser conhecido, obtido sem recurso à experiência. A ignorância ou a erudição nada tem que ver com a história.


    " "A nossa mente é que é "clássica". Para nos entendermos em torno de lógicas não-clássicas precisamos recorrer à lógica clássica." "

    "Não estou muito certo de que isso seja verdadeiro..."

    Se me mostrar algum tratado de lógica não-clássica escrito em lógica não-clássica, mudo de opinião. Que tal organizar um congresso totalmente não-clássico?


    "Aqui admito que exagerei, hehehe. Mas sou meio exagerado com certas coisas... Diria o seguinte: não é uma discussão vazia, de fato, mas é como um duelo entre cegos."

    Você devia se perguntar, então, se uma atitude meramente destrutiva contribui com alguma luz.


    Abraço,
    edg

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  12. A partir dos seguintes conceitos:
    "Certeza é o estado da inteligência onde é possível visualizar a verdade"
    "O que caracteriza a certeza é a evidência"
    A pergunta formulada em Lógica Jurídica:
    Com a certeza é possível afirmar somente a verdade?
    A resposta, considerada errada, foi:

    Sim, uma vez que o conceito de certeza nos mostra que aquilo que a caracteriza é a evidência, podemos afirmar que a evidência é a prova e esta sempre será verdadeira, ainda que esteja demonstrando que em algum momento houve erro ou falsidade, sob o aspecto da certeza essa será a verdade dos fatos.

    Gostaria que comentassem, posto que a ligação entre os elementos Certeza e Verdade me pareceu comprometida em função das definições que nos foram passadas, às quais foram consideradas ao formular a resposta, embora em um sentido mais amplo, considere ambas como totalmente independentes.

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