20 de setembro de 2008

Dilemas éticos


O leitor Tiago Videira enviou-nos estes dilemas, para estimular a discussão:
  1. Suponha que está a trabalhar numa mina com dois ramais. Ao fundo do seu ramal estão cinco mineiros a trabalhar. No ramal que parte para o lado está um mineiro solitário. Subitamente um vagão vem descontrolado e você apercebe-se que à velocidade que ele vem ele irá embater e matar os cinco mineiros. Mas há tempo para uma acção: você pode mudar a cavilha e desviá-lo para o ramal onde só está um mineiro. O que decide você? Porquê?
  2. Suponha agora que não existe qualquer cavilha, mas está um colega junto de si. Ele vê vir o vagão desgovernado. Uma alternativa será lançar o seu colega para a linha travando assim o vagão, mas matando o seu colega. Salvará no entanto os cinco mineiros do fundo do ramal. Isto é aceitável? Você faria isto?
  3. Suponha ainda que está sozinho e não existe qualquer cavilha. A única opção é lançar-se você para a frente do vagão para poupar cinco pessoas, à custa da sua própria vida. Você tomaria este passo? Seria legítimo? Porquê?
Os primeiros dois dilemas éticos são propostos por James Taylor em Gary Hardcastle e George Reisch, A Filosofia Segundo os Monthy Phyton, Estrela Polar, 2008, pp. 218-219. O terceiro foi sugerido por Serranito após ter conhecimento dos dois primeiros.

11 comentários:

  1. No primeiro caso escolheria mudar a cavilha e desviá-lo para o ramal onde só está um mineiro. Porque nesse caso salvaria cinco vidas ao invés de uma: as consequências da minha decisão (estou pressupondo o consequencialismo aqui) seriam melhores.

    No segundo caso já não saberia o que fazer ou pelo menos não gostaria de matar o meu amigo. Aqui está uma das piores objeções que se pode fazer a uma teoria ética de orientação consequencialista. Ela me faz lembrar também da crítica de Anscombe,se não me engano o exemplo era algo como: "Se pudesse salvar um trem lotado jogando um bebê num bacia de ácido, seria correto fazer isso?" Confesso que não sei como responder a essa objeção.

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  2. Mas este não é o experimento mental criado pelas filósofas Philippa Foot e Judith Jarvis Thomson, chamado o Problema do Bonde?

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  3. Não é engraçado que responder negativamente a 3 implica que não há obrigaçao moral em 1 de desviar o vagão para a linha onde causar menos mortes?

    Mais facilmente respondemos que seria moral desviar o vagão para cima do desgraçado mineiro do que concluímos dever atirar-nos para a frente do vagão.

    Parece que consideramos mais moral ficar a ver as cinco pessoas morrerem sem nos atirar-mos para a frente do vagão do que deixar de sacrificar uma pessoa para salvar cinco. Mas parece que se há obrigaçao de matar o mineiro em 1 tem de haver obrigação de nos atirarmos para a frente do vagão em 3. Se não há obrigaçao em 3 então parece não haver obrigação de matar em 1, bastando colocar-nos no lugar do mineiro desgraçado, a quem vamos impor o dever sobrerrogatório que não queremos aceitar, com desculpa.

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  4. Resumindo: aquilo que queria chamar a atenção é para o facto de parecer moralmente aceitável rejeitar nós próprios um dever sobrerrogatório mas, em contrapartida, não parecer imoral impor esse dever sobrerrogatório a outro. Algo aqui não soa bem.

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  5. Interessante que, na escolha do Matheus, nos dois casos ele sacrificaria uma vida para salvar cinco. Segundo o utilitarismo, portanto, as duas atitudes deveriam ser equivalentes. Mas parece haver um hiato entre nossas convicções morais e as justificativas racionais que damos para as mesmas.

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  6. Joedson,
    É na verdade uma adaptação do problema do trólei (no Brasil diz-se Bonde??? - não sabia).

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  7. Sim, Rolando. Bonde é como chamamos os " autocarros" movidos a "electricidade"

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. pois é joedson

    A atividade ética resulta de um equilíbrio refletido entre nossas intuições morais e nossas teorias éticas. Algumas vezes corrigimos nossas teorias porque não condizem de modo algum com nossas intuições e outras vezes revemos nossas intuições. A partir disso alguns utilitaristas, como Smart, por exemplo, objetam que esses dilemas que parecem colocar em xeque aa teorias consequencialistas (praticamente todo mundo escolhe uma resposta pra 1 que difere de 2 e 3)não a colocam em xeque realmente, pois aqui são nossas intuições morais que devem ser revistas. Ou seja: se nossas intuições nos dizem que devemos escolher alternativas em 2 e 3 que diferem de 1, são nossas intuições que devem ser revistas, não a teoria consequencialista.

    Eu me deparei com essa resposta do Smart em um artigo que procurava responder a críticas ao utilitarismo que não mencionavam o dilema trólei em específico, mas suponho que a mesma resposta se aplicaria neste caso.

    Além disso, um utilitarista poderia argumentar que embora as nossas escolhas nesse dilema, a partir do utilitarismo, são contra-intuitivas, pelo menos é uma teoria que nos fornece uma decisão para esses casos. O que uma teoria deontológica de tipo kantiano diria que é correto nessas situações? Ficar de braços cruzados e esperar o trólei passar por cima dos mineiros.

    Como já faz muito tempo que não estudo esse tema eu não me lembro direito dos argumentos - mesmo falando como amador. O Pedro Galvão é que trabalha com esses temas.

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  10. A propósito de dilemas, não resisto a transcrever aqui uma passagem de uma crónica que li ontem mesmo no jornal Público (precisamente a coluna que é assinada pelo Desidérios às terças-feiras). A autora é Catarina Portas e o assunto é ela, as suas viagens e os seus amigos, como de costume. Começa assim:

    «Estávamos em Goa e éramos vários, sentados à mesa de um café de praia, diante do mar e de um dilema: entender o que nos fazia voltar e tornar a voltar à Índia.»

    Grande dilema, hein! Ela e os amigos têm um problema, mas pensa que se trata de um dilema. Espero, ao menos, que os nossos alunos não venham um dia a escrever parvoíces destas.

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  11. acho que na hora H desaparece a etica os dilemas, podemos dizer que nós proprios davamos a vida mas o que impera é o instinto de sobrevivencia....

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