4 de setembro de 2008

E se Kant não gostasse de vegetais?

«Algumas pessoas parecem pensar que, se não podemos dizer que todos os habitantes do mundo devem tornar-se vegan, então ninguém tem a obrigação moral de o fazer. No livro, em outros aspectos útil, So Shall We Reap, Colin Tudge afirma que a menos que todos os habitantes do mundo devam tornar-se vegan não pode dar-se o caso de qualquer pessoa estar obrigada a fazê-lo. Realça que, para muitos povos que vivem em ambientes inóspitos, em regiões de grande altitude ou semidesérticas, o vegetarianismo não é opção viável. Em seguida cita o filósofo setecentista alemão, Immanuel Kant, como autoridade a favor da opinião de que «nenhum princípio ético é verdadeiramente aceitável a menos que se possa, em princípio, recomendá-lo ao mundo inteiro». Conclui que o vegetarianismo e o veganismo chumbam este teste e, por conseguinte, não podem ser princípios éticos.»

«Tudge refere-se à primeira formulação do «imperativo categórico» de Kant, ou lei moral suprema, cuja tradução mais rigorosa é: «Nunca devo agir senão de forma a poder também desejar que a minha máxima se torne lei universal». Porém, a interpretação de Kant sugerida por Tudge transforma a lei moral num disparate. Significaria, por exemplo, que não seria ético ser professor, porque se todos os agricultores do mundo se tornassem professores não haveria agricultores para cultivar os alimentos necessários aos outros. É perfeitamente possível restringir a aplicação de princípios morais a contextos específicos e fazêmo-lo constantemente. Dizemos às pessoas para cumprirem as promessas, mas não quando a única forma de salvar a vida de uma vítima de acidente rodoviário nos obrigar a quebrar a promessa solene de não chegar atrasados ao concerto escolar em que a nossa filha tocará violino. De igual modo, poderíamos afirmar: «sejam vegan a menos que as circunstâncias em que vivem vos impeçam de se alimentar em condições apenas com vegetais.» Duvidamos que haja algo na filosofia de Kant, devidamente interpretada, que impeça este princípio de ser eticamente válido — mas, se houver, tanto pior para Kant.»

Retirado da versão portuguesa: Como Comemos? de Peter Singer e Jim Mason, (D. Quixote) com algumas revisões de texto minhas aqui e ali.

6 comentários:

  1. «Significaria, por exemplo, que não seria ético ser professor, porque se todos os agricultores do mundo se tornassem professores não haveria agricultores para cultivar os alimentos necessários aos outros.»

    Que enunciado mais absurdo! Trata-se obviamente de um non sequitur, de uma conseqüência que não se segue da premissa.

    Por acaso "ser professor" pode ser sequer uma máxima? Não, oras! Nem muito menos uma máxima universalizável, senão teríamos o caso em que todos os homens na face da terra deveriam ser professores!

    Não será a primeira nem a última vez em que Peter Singer aderiu a uma falácia temerária, nem em que defendeu uma tese filosófica sem que sua argumentação fizesse sentido.

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  2. Claro que “Sê professor!” não pode ser uma máxima, precisamente porque não pode ser universalizável. Mas nem por isso as pessoas deixam de ser professoras. Logo, não se pode interpretar a máxima de Kant como se quisesse dizer que tudo o que faço tem de obedecer a uma máxima universalizável algo cega. Dado que o argumento contra o vegetarianismo era a ideia de que as pessoas em certas circunstâncias não podem ser vegetarianas, o que contrariaria a exigência kantiana, está refutado o argumento porque fazemos muitas outras coisas que também não podemos universalizar desse modo algo cego.

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  3. O eterno problema do imperativo categórico é justamente esse: é necessário um acrescento, que se deve à contextualização. Mas isso, e desculpem-me a slippery slope, pode torná-lo mais permissivo do que Kant, provavelmente, desejaria.

    Por exemplo, o imperativo categórico obriga-me a não matar (máxima universalizável). Porém, há circunstâncias em que parece legítimo matar outrem (em legítima defesa, por exemplo). O problema é: quando é que paramos? De contextualização em contextualização, o que me impede de, a determinada altura, afirmar que é lícito matar em qualquer circunstância?

    Algumas pessoas, parece-me, podem muito bem ter como máximas universalizáveis não só o "matar apenas em caso de legítima defesa", mas também "matar em caso de guerra", ou mesmo "matar sempre que dê prazer fazê-lo".

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  4. Acho que o principal é que nesta interpretação de Kant, o vegetarianismo não podia ser eticamente válido, no sentido de alguém estar moralmente vinculado ao vegetarianismo da mesma maneira que está vinculado a não torturar inocentes. Naquela interpretação do imperativo categórico, podíamos ser vegetarianos mas isso não teria qualquer relevância moral... como ser vendedor de enciclopédias.

    Precisamos de ir contra essa interpretação e ver que nada há de problemático em introduzir restrições ao princípio moral, continuando a ter um princípio moral.

    Kant não diz que tudo o que fazemos tem de obedecer a uma máxima universalizável, mas diz que tudo o que fazemos moralmente tem de o ser. É isso que não se pode sustentar. A relevância da analogia com o professor parece-me a seguinte: a fasquia kantiana das máximas universalizáveis como condição da moralidade exlcui da moralidade coisas que são moralmente relevantes. Na verdade, exclui quase tudo.

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  5. Mas que absurdos estou ouvindo aqui. Chego a questionar meu enorme respeito anterior pela Crítica.

    Como é que se pode dizer (1) "claro que 'sê professor!' não pode ser uma máxima, precisamente porque não pode ser universalizável" e em seguida (2) "nem por isso as pessoas deixam de ser professoras". Que tem a ver a segunda afirmação com a primeira? Já a primeira é suficiente para mostrar, como eu fiz, o erro crasso cometido por Singer. O que faz a segunda, tenta salvá-la? Não há como salvá-la.

    Kant não diria jamais que não se pode ser vegetariano, Desidério! Que incompreensão absurda! Não é porque algo não seja universalizável que não se deve fazê-lo... será que não compreendem que em sendo assim não se trataria mais, em Kant, de uma questão ética, mas sim de uma questão antropológica pragmática?

    Recomendo a leitura do terceiro tomo da nova história de Anthony Kenny para uma melhor compreensão da ética kantiana, ela pode lhes fazer bem.

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  6. http://www.peta.org/feat/ChineseFurFarms/index.asp

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