13 de setembro de 2008

Estética e cidadania

Há uns dias apresentei no 6º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, na Universidade de Évora, uma comunicação sobre argumentação em estética. A ideia foi, basicamente, mostrar com exemplos como se pode utilizar a argumentação no ensino da estética e da filosofia da arte, que é, no fundo, aquilo que os filósofos passam o tempo a fazer quando discutem os problemas da estética e da filosofia da arte.

Pareceu-me importante basear a minha apresentação em exemplos muito concretos em que os próprios alunos têm tendência natural para encarar a discussão desses problemas de forma argumentativa, desde que nós, professores, não lhes cortemos as pernas. Procurei, portanto, contrariar a ideia, tão frequente entre nós, de que as discussões de estética e de filosofia da arte são uma questão de sentimentos, não havendo lugar para a discussão racional.

No período de discussão um dos professores presentes colocou-me uma pergunta inesperada, mas que, vendo bem as coisas, não devia ser assim tão inesperada. O colega disse:

Sim senhor, tudo muito bem; eu também faço nas minhas aulas o que aí exemplificou, mas na prática isso não resulta.

Perguntei-lhe porquê. A resposta foi:

Tenho reparado que no final isso não os leva a gostar mais de arte, a ir mais a exposições, etc.

Reparei que alguns presentes acenaram que sim à objecção levantada. Disse-lhes que esse não era o objectivo da estética e da filosofia da arte; que se tratava de aulas de filosofia e não de educação artística ou isso. A verdade é que faz tanto sentido ensinar filosofia da arte com o objectivo de fazer os alunos gostar mais de arte e de ir mais a exposições como ensinar filosofia da religião com o objectivo de fazer os alunos ser mais religiosos, rezar mais ou frequentar mais a igreja.

Fico a pensar de onde virá a ideia de que a filosofia serve para fazer os alunos gostar mais de arte e coisas assim. Ah, já sei! É a educação para a cidadania.

5 comentários:

  1. Parece-me que não é apenas a triste ideia da educação para a cidadania que provoca este tipo de reacção infeliz. É também a ideia de que a filosofia não pode realmente ter qualquer valor ou importância em si mesma. Não ensinamos filosofia porque a filosofia é interessante em si, mas porque a filosofia pode servir para qualquer outra coisa, seja lá o que for. A ideia de que se ensina filosofia para a cidadania é apenas uma das muitas encarnações da mesma desvalorização da filosofia, que infelizmente começa muitas vezes pelos próprios professores de filosofia. Afinal de contas, sejamos honestos: quantos profissionais de filosofia não dedicam mais horas por semana à telenovela e ao futebol, ou a quaisquer outras coisas do género, do que a ler livros de filosofia, a escrever filosofia ou a discutir filosofia?

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  2. Mas essa ideia que o colega professor de filosofia colocou é muito habitual entre os profissionais de filosofia. Creio que essa ideia parte em larga medida da leitura que é possível fazer do programa, que conduz a uma leitura da filosofia errada desde o princípio. Uma questão que me tem preocupado muito e que é sintoma dessa análise errada que motivou a objecção do colega: quantos manuais de filosofia do secundário discutem realmente os problemas da estética? Quase nenhum.. a maior parte deles indica precisamente esse caminho, o de por os alunos a ouvir Massive Attack ou Mozart, consoante as preferências. Pela análise que fiz aos manuais de 10º ano, parte deles sugerem actividades como escrever poesia, idas ao teatro, etc.

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  3. Olá a todos!
    Também estive presente neste encontro e reparei que o Aires tocou na ferida de alguns professores do ensino secundário. A intervenção de alguns colegas e a deste em especial não são de todo descabidas, nem têm nada que ver com o facto de passarem o tempo a ver futebol ou novelas, mas com o Programa que apresenta como finalidades do ensino da filosofia não a discussão racional de problemas filosóficos, mas a sensibilização estética. Ora, sensibilizar para a arte não é uma finalidade da filosofia, mas o esclarecimento sobre aquilo que os artistas fazem e o modo como avaliamos o que os artistas fazem, sê-lo-á.

    Por isso, em conversa com alguns colegas, sempre me senti impreparado para leccionar estética. Porque eles põem os alunos a ouvir música, a descrever os seus estados de alma, e eu acho isso um mero "fait divers" que em nada me enriquece enquanto professor de filosofia.

    Uma abraço
    Valter Boita

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  4. Valter, penso que é preciso não esquecer duas coisas.

    Primeiro, que os programas de filosofia foram feitos por colegas nossos. Se eles acham mais importante a “sensibilização estética” é porque pensam que a filosofia não tem valor em si mesma.

    Segundo, que se os professores não quiserem cumprir essas directrizes vagas da sensibilização, não têm de o fazer; podem ensinar filosofia propriamente dita, em vez de usar a filosofia para sensibilizar alunos.

    Ora, eu penso que tanto num caso como no outro isto só acontece porque os colegas não conhecem as bibliografias filosóficas relevantes. Isto não é vergonhoso, ninguém nasce ensinado. Significa apenas que temos de divulgar e publicar a bibliografia filosófica adequada para que os nossos colegas vejam como é possível ensinar filosofia de maneira criativa e interessante para os alunos, sem a instrumentalizar para servir de creme sensibilizador.

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  5. Trata-se de uma postura bastante natural, se pensarmos na nossa própria formação académica: eu passei anos a levar com permanentes exercícios de sugestão mental — psicofodas — nas quais somos implicitamente preparados para pensar que ao ler todos aqueles autores muito estranhos e aparentemente tão remotos da vida real, entramos num domínio privilegiado, numa elite de "pensadores", condenados a nunca serem suficientemente compreendidos pelos meros mortais e o seu pragmatismo "empobrecedor".

    Ora, não admira que uma pessoa ao fim de quatro ou cinco anos se sinta um tanto ou quanto na pele de um missionário que vai ao mundo levar a luz aos pobres ignorantes que não são capazes de apreciar música ou pintura se não formos nós, a suposta elite, a lavar-lhes o cérebro com os mesmos exercícios de sugestão psicológica que nos fizeram antes.

    Este episódio mostra bem como os professores de filosofia, ao contrário do que pensam, andam tão a leste da filosofia: por que razão têm os alunos de gostar de arte? Por que razão gostar de arte é bom?

    A malta não encaixa isto nem pela cepa torta: a filosofia não é um corpo de doutrinas que se "aprende". É uma actividade racional que consiste em investigar as bases, os fundamentos, as razões de tudo aquilo acerca do qual temos compreensão implícita mas em que raramente pensamos.

    Ao aceitar acriticamente que ir ao museu é bom e que a "missão" do professor é lavar o cérebro às criancinhas para que façam só "coisas boas", estamos a chafurdar na mesma merda ideológica que criticamos a sociedades mais fechadas. Mas não vemos a merda ideológica como tal porque nos parece uma "coisa boa". Só identificamos a ideologia quando ela parece "coisa má". Mas o problema é precisamente esse: nas sociedades fechadas, a merda ideológica medra muito, prolifera, precisamente por causa das "coisas boas" que se aceita sem questionar.

    E já falei de mais.

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