30 de setembro de 2008

Falácia da redefinição e menoridade


Eis uma falácia interessante que ocorre em muitos contextos de discussão. Alguém faz uma afirmação qualquer. Outra pessoa apresenta contra-exemplos inegáveis. O proponente original então redefine um termo qualquer crucial da afirmação, tornando-o tão lato que consegue efectivamente neutralizar os contra-exemplos. Isto é uma falácia porque dá a ilusão de se tratar de uma boa resposta ao contra-exemplo, quando na verdade é apenas uma confissão de que o sentido original da afirmação era realmente falso; apenas mudando o sentido dos termos se dá a ilusão de que a proposição afinal resiste a contra-exemplos. Mas o novo sentido lato dado ao termo crucial torna a afirmação verdadeira, mas desinteressante. 

Escrevi um pouco sobre esta falácia no apêndice do livro A Arte de Argumentar, no qual dei um exemplo bem conhecido: a de que a filosofia consiste na sua história.

Recentemente, na lista Lógica-L deparei-me de novo com esta falácia. Um colega começou por dizer que todos os filósofos se ocupam principalmente da salvação. Uma afirmação interessante, e nada trivial. Mas parece haver contra-exemplos históricos, até porque o conceito de salvação é cristão e consequentemente os filósofos anteriores ao cristianismo não terão a rigor qualquer conceito de salvação. Mas então redefine-se o conceito de salvação para significar “qualquer reflexão sobre o sentido da vida”. Esta é a primeira redefinição falaciosa porque só num sentido muito lato se pode dizer que qualquer reflexão sobre o sentido da vida é sobre a salvação.

Mesmo com esta redefinição enfrenta-se contra-exemplos óbvios de filósofos famosos que quase nada escreveram sobre o sentido da vida. Volta-se então a redefinir a afirmação original e agora diz-se não que todos os filósofos se ocupam primariamente do sentido da vida, mas antes que todos os filósofos se ocupam do sentido da vida, ainda que secundariamente. Mas a preocupação primária, acrescenta-se, é realmente o sentido da vida — só que isso não é explícito. Esta é uma afirmação arbitrária porque ninguém pode saber qual era a preocupação primária de Aristóteles ou Descartes, se eles não a tornaram explícita.

Assim, a afirmação original foi distorcida e tornou-se em qualquer coisa como isto:
Todos os filósofos escreveram seja o que for ainda que pouco e vagamente sobre algo que podemos também vagamente e sem qualquer precisão considerar uma preocupação com a salvação em sentido amplo, ou seja, com a vida, com a felicidade, com a vivência e o destino da vida humana na Terra.
Acontece que mesmo esta proposição precisa de mais algumas redefinições falaciosas, pois mesmo neste sentido imensamente lato filósofos como Kuhn parecem constituir um contra-exemplo histórico. É sem dúvida possível continuar a redefinir os termos da afirmação original, tornando-a cada vez mais irrefutável à custa de a tornar cada vez mais desinteressante.

Este tipo de falácia é interessante por pelo menos uma razão. O que pode levar alguém a não se permitir argumentar directamente a favor de uma dada ideia, tendo de se refugiar em teses históricas problemáticas? Uma pessoa pode perfeitamente defender o seguinte:
O único problema genuíno ou o problema central da filosofia é o problema da salvação.
A pessoa pode defender isto e reconhecer que muitos filósofos aparentemente não pensam isto. Qual é o problema? Imagine-se a tolice que seria um pintor ter de provar que a sua abordagem à pintura, se vermos bem, já estava presente e já era legítima desde o início das artes e todos os artistas concordavam com ela. Ou a tolice que seria Einstein defender as suas ideias dizendo que, se lermos bem Newton e Ptolomeu, vemos que já eles defendiam ideias como as suas. Ou a tolice que seria Kant dizer que se virmos bem, tanto Descartes como Hume já defendiam precisamente as suas ideias.

O que leva alguém a procurar substituir uma tese filosófica interessante por uma tese histórica falaciosamente redefinida para se tornar irrefutável historicamente (e como tal vácua e desinteressante) é uma formação mental baseada na autoridade e não na argumentação. A pessoa sente-se incapaz de defender uma ideia a menos que muitos homens famosos mortos a tenham defendido; então, se todas as evidências mostram que eles não a defenderam, finge-se que sim, que a defenderam. E disfarça-se assim uma tese filosófica interessante, e susceptível de ser discutida, numa vagueza histórica desinteressante porque vácua.

Não poderemos fazer filosofia enquanto não nos libertarmos deste atavismo autoritário que impede as pessoas de filosofar por si, defender ideias próprias, mesmo que seja contra muitos homens ilustres mortos. Ouse-se filosofar.

3 comentários:

  1. Fino!

    Ao "caute" de Espinosa há que opor hoje um valente "aude"!

    Abraço

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  2. Essa falácia é sobejamente utilizada por pessoas que pretendem ter razão a qualquer custo...

    O Desidério podia era ter alertado para o caso de que uma definição (e, por arrastamento, um argumento que se valha dessa definição) ser tanto mais forte quanto mais precisa for essa mesma definição. Definições vagas conduzem normalmente a argumentos fracos.

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