21 de setembro de 2008

Filosofia e história da filosofia

Kant escreveu estas palavras interessantes:
Há letrados para quem a história da filosofia (tanto antiga como moderna) é a sua própria filosofia; os presentes prolegómenos não são escritos para eles. Deverão aguardar que os que se esforçam por beber nas fontes da própria razão tenham terminado a sua tarefa, e será então a sua vez de informar o mundo do que se fez. (Immanuel Kant (1783) Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura. Trad. de Artur Morão, Edições 70, Lisboa, 1982, p. A3)
O que Kant queria dizer é que o livro em causa não era um livro de história da filosofia, nem fingia ser um livro de história da filosofia. Isto porque provavelmente foi acusado de desconhecer a história da filosofia, aquando da Crítica da Razão Pura, publicada pela primeira vez em 1781. Esta mesma acusação faz-se hoje aos filósofos contemporâneos que fazem realmente filosofia em vez de fazerem da história da filosofia “a sua própria filosofia”, como diz Kant. Esta mesmíssima confusão leva algumas pessoas a pensar que os filósofos contemporâneos desconhecem a história da filosofia. Isto é falso. O que se passa é que se estamos a fazer filosofia não podemos estar o tempo todo a fazer história da filosofia.

Quando se lê algumas obras de Derrida ou de Heidegger, de Deleuze ou de Husserl, não se encontra nelas quase referências à história da filosofia. Contudo, outras obras destes e de outros autores são especificamente dedicadas ao estudo de filósofos do passado. O mesmo acontece com os filósofos analíticos. Alguns estudos são de filosofia contemporânea e poucas referências históricas têm; outros são inteiramente dedicados ao estudo dos estóicos, de Aristóteles ou de Agostinho. Porquê então a ideia falsa muito difundida segundo a qual os filósofos analíticos desconhecem a história da filosofia?

Por desconhecimento bibliográfico. Se as pessoas conhecem o trabalho de filósofos analíticos como Anthony Kenny, Bernard Williams, Gareth Matthews, Paul Guyer, etc., não teriam esta ideia falsa de que os filósofos analíticos desconhecem ou desprezam a história da filosofia.

Penso que é um disparate o debate que procura estabelecer se a filosofia analítica é melhor ou pior do que a filosofia continental. Em parte, porque as pessoas que entram neste debate geralmente desconhecem as bibliografias relevantes, de modo que é uma discussão improcedente. Por outro lado, porque me parece óbvio que as pessoas devem poder escolher em liberdade o que querem estudar. Mas para poderem escolher têm de conhecer as opções à sua disposição, e a verdade é que quem faz filosofia continental, na esmagadora maioria dos casos, não o faz por escolha mas porque é a única coisa que realmente conhece. (É também por isso que a própria expressão "filosofia continental" é ofensiva para muitos colegas, e por isso eu a evito: porque subitamente, o que eles pensavam que era a única maneira de estudar filosofia fica relativizada e passa a ser apenas uma maneira de estudar filosofia. Isto é psicológica e profissionalmente difícil de aceitar, e eu compreendo perfeitamente isso.) Por isso o importante não é ter uma discussão encarniçada sobre os méritos e os deméritos da filosofia analítica por oposição à continental, mas apenas divulgar amplamente ambos as maneiras de estudar filosofia para que as pessoas possam escolher em liberdade. Não sei se o leitor concordará comigo, mas é para poder discordar que temos as caixas de comentários.

3 comentários:

  1. Em estudante constatei algo engraçado quando tive pela primeira vez aulas de metafísica na vertente analítica, que foi também o início da minha aproximação à filosofia analítica. Reparei que apesar da ausência de remissões constantes para os textos clássicos, da ausência de citações directas do grego e do alemão, que tanto fascinam algumas pessoas, mesmo que não saibam grego ou alemão e, pior, mesmo que isso não torne as afirmações mais informativas, apesar de tudo isto, a riqueza histórica daquelas aulas era superior à de outras aulas de "metafísica" que tínhamos e onde basicamente se ouvia exortações ritmadas por termos gregos, listas de nomes, afirmações ideológicas passadas como se de factos estabelecidos se tratasse, etc.

    Naquelas aulas de metafísica analítica percebi que o professor nos dava uma panorâmica dos problemas, e da sua história, apesar de não fazer remissões constantes e ininformativas (meramente decorativas e para criar separações artificiais entre as pessoas). Havia mais história nelas, apesar de não haver vocalizações excitantes de nomes exóticos que faziam os alunos sair das outras aulas um pouco como em putos saíamos dos filmes do Bruce Lee: aos pontapés e a gritar "iáa". Só que em vez de golpes de karaté, disparava-se termos gregos para alimentar ilusões de superioridade e distância perante o "vulgo". O pessoal saí das aulas cheias de pseudo-história muito edificado, a sentir-se bem-pensante, mas a verdade é que não aprendem a pensar e sim a citar fontes gregas e alemãs para impressionar palermas impensantes.

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  2. «Quando se lê algumas obras de Derrida ou de Heidegger, de Deleuze ou de Husserl, não se encontra nelas quase referências à história da filosofia. Contudo, outras obras destes e de outros autores são especificamente dedicadas ao estudo de filósofos do passado.»

    Desidério, acho que cabe distinguir "livros de história da filosofia" (como os de Kenny ou de Russell, ou os de Reale e os de Abbagnano), dos livros que tratam de maneira especializada algum autor clássico (como os de Guyer, no caso de Kant, ou os de Berti, no caso de Aristóteles).

    Isto posto, teríamos que ver o que fizeram os filósofos originais de cada linha. Searle e Dennett são filósofos analíticos originais; Heidegger e Merleau-Ponty são filósofos continentais originais. Eu digo que os dois últimos estão muito mais treinados na história das questões de que tratam — mesmo que não precisem fazer história —, do que os dois primeiros.

    Estar treinado na história dos problemas da disciplina não está relacionado à escrever a história dessa mesma disciplinado. Significa apenas estar melhor vacinado (embora não completamente) a possíveis ilogismos, porque o treino com as questões é já um treino lógico da razão.

    (Kant é um filósofo que teve bastante contato com os problemas filosóficos da sua época, inclusive podemos ver isso na espécie de apêndice que ele escreveu na primeira Crítica, relativamente a isto. Mas também ele parece ter estudado mal e ao mesmo tempo simplificado posições da filosofia grega. Mas a culpa não é dele. Nós mesmos, e há uma literatura imensa a respeito, estamos ainda aprendendo a lidar com a riqueza ignorada do passado, vide a grandiosa tentativa de Richard Sorabji, King's College/agora Oxford, da edição e tradução dos comentadores de Aristóteles.)

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  3. "Quando se leem algumas obras de..." em vez de "Quando se lê algumas obras de..."

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