1 de setembro de 2008

Infalíveis confusões

Para tentar desfazer alguns equívocos que a discussão do falibilismo tem gerado a partir dos comentários de alguns leitores e das respostas que dei a alguns desses comentários, vou tentar, muito resumidamente, expor o essencial acerca deste assunto e tentar, mais uma vez, isolar a causa dos equívocos.

Há uma série de confusões a ter em conta (algumas já referidas) mas a confusão principal parece ser a seguinte: a confusão entre o epistemológico e o metafísico. Quando digo que todas as minhas crenças são falíveis não estou a dizer que uma proposição verdadeira pode ser falsa, o que seria ridículo. Tentemos uma analogia.

Vladimir Horowitz era um grande pianista. Vladimir Horowitz era um agente falível? Sim, sem dúvida! Seria impossível enganar-se ao interpretar uma partitura? Não. Como agente falível, podia cometer toda uma gama de erros. Isso implica que não podia executar brilhantemente uma obra? Não, obviamente. Onde está a confusão?

Uma proposição, se é verdadeira, não pode ser falsa. Mas quando digo que as minhas crenças são falíveis ou que ao afirmar alguma coisa sou falível, não estou a dizer que as proposições verdadeiras podem ser falsas, estou a dizer que posso enganar-me ao atribuir um valor de verdade a uma proposição. Voltemos à analogia:

Horowitz faz a interpretação individual x da peça A. Faz sentido afirmar que a interpretação x é "falível"? Não. Uma máquina de café é falível, pode tirar mal um café, mas um café tirado não é "falível" porque o café não é a máquina, do mesmo modo que as proposições são uma coisa e as crenças dos agentes são outra. Os cafés são o resultado da acção falível da máquina. Mas os critérios acerca do que faz um bom café são independentes da máquina e das chávenas de café em particular.

Obviamente, a interpretação individual x da peça A não é falível nem infalível: ou é falhada ou bem-sucedida. O agente que prime as teclas e raciocina musicalmente é que é falível, pode sempre falhar ao escolher o fraseado ou a expressão particular de um trecho da obra.

A expressão "todas as afirmações são falíveis" é enganadora porque leva-nos a pensar que se trata de as verdades acerca do mundo poderem ser falsas (isto seria a ideia de que todas as verdades são contingentes) e não os agentes racionais que são falíveis (isto é, que se podem enganar ao atribuir valores de verdade a uma proposição — afirmação epistemológica que resume o falibilismo).

Quando atribuo um valor de verdade a uma proposição, posso enganar-me, o que não significa que me engane. Mas se não me enganei, a razão de não me enganar é o facto de a proposição a que creio ser verdadeira ser de facto verdadeira. Mas o facto de eu, como agente racional, ser falível, não implica que me engane, do mesmo modo que o facto de Horowitz ser falível não implica que todas as suas execuções de Chopin têm algum defeito. É por Horowitz ser falível que é possível haver aspectos a melhorar as execuções, mas isso não significa que haja. Confundir a falibilidade de Horowitz com o estatuto das interpretações, ou confundir a falibilidade do agente com a verdade e falsidade das proposições, é como pensar que os seres mortais não podem estar vivos, porque se são mortais isso implicaria que estão mortos. É fácil ver onde está a confusão neste raciocínio.

Será que Horowitz deixou de ser falível no momento em que executou uma interpretação brilhante de uma mazurca de Chopin? Seguramente que não. Continua a ser tão falível como antes. Executar brilhantemente uma peça não o torna infalível, do mesmo modo que falhar numa interpretação individual não o torna incompetente. É apenas uma consequência de ser um agente falível. Caso contrário não precisaria de estudar nem de praticar constantemente. Claro que se pensarmos que são as interpretações, e não o pianista, que são falíveis, confundimos o epistemológico com o metafísico e isto vai gerar uma série de outras confusões. Quando dizemos, pouco precisamente, que as interpretações de Horowitz são falíveis, estamos apenas a usar uma metonímia semelhante a "estou a ouvir Chopin" — na verdade, estamos a ouvir uma sonata de chopin executada por pianista B. O que queremos realmente dizer é que Horowitz, como todos os agentes racionais, é falível. As interpretações ou são boas ou são más. Como as proposições ou são verdadeiras ou são falsas.

7 comentários:

  1. “Quando digo que todas as minhas crenças são falíveis não estou a dizer que uma proposição verdadeira pode ser falsa, o que seria ridículo.”

    Se todas as suas crenças são falíveis, então esta mesma crença, segundo a qual todas as suas crenças são falíveis, também é falível. E se ela é falível, então nem todas as suas crenças são falíveis.

    Por que você acha ridículo uma proposição verdadeira ser falsa? Por que acredita que isso seja impossível? Mas essa não é apenas mais outra crença falível? Se ela é falível, então não é impossível – nem ridículo – que uma proposição verdadeira seja falsa.

    Não se pode ter certeza de que p, e ao mesmo tempo considerar possível que não-p. Se eu considero que não-p é possível, então isso só demonstra que eu não tenho certeza de que p. A menos que se trate de alguma espécie de método cartesiano invertido: o da certeza metódica.

    Você disse acreditar que verdade é a adequação entre uma proposição e a realidade. Se todas as nossas crenças são falíveis, então não é impossível que todas, absolutamente todas, as nossas crenças sejam falsas. Mas nesse caso não haveria verdade. Se não há verdade, que estamos fazendo aqui filosofando, ou seja, buscando a verdade?

    A não ser que existam proposições verdadeiras pairando por aí independentemente de uma mente que as conceba e relacione com a “realidade”. Mas se elas só são verdadeiras se concordam com a “realidade”, quem é que estabelece a concordância, Deus?

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  2. O detalhe que parece estar a fazer mais confusão é o seguinte:

    Horowitz poderá estar a executar mal uma peça no preciso momento em que a executa bem? Não, obviamente. Mas que tem isto a ver com a sua falibilidade? Ele deixa de ser mortal quando nasce? Também não deixa de ser falível quando não falha!

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  3. Uma coisa é a possibilidade de eu me enganar quando faço juízos sobre a minha incapacidade para voar por meios naturais (epistemologia). Outra coisa é a possibilidade de os seres humanos, caso a evolução natural fosse diferente no passado, poderem voar por meios naturais (metafísica). São coisas completamente distintas. A verdade de que sou incapaz de voar é indepedente da frase que exprime essa proposição, e é independente das minhas crenças acerca da minha incapacidade de voar. Se não fosse assim, então a minha certeza de que podia voar bastava para me fazer voar.

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  4. Se todas as nossas crenças fossem falsas isso não significa que não haveria verdade. Com efeito, se isso fosse assim, estaríamos sempre certos: pois bastaria inverter o valor de verdade de todas as nossas afirmações para acertar em cheio.

    Ter a certeza de que sei tocar oboé não implica que é impossível que eu não soubesse tocar oboé. É obviamente possível que eu não aprendesse a tocar oboé, mas essa é uma possibilidade de estados de coisas no mundo. A falibilidade das minhas crenças é algo diferente: posso estar a sofrer delusões e imaginar que sou oboísta, com toda a certeza que a delusão me permite e estar enganado.

    Sim. As proprosições que são verdadeiras não são verdadeiras por eu pensar que são. O facto de eu saber tocar oboé não deriva de eu pensar que é verdade que toco oboé. A minha crença é verdadeira se a proposição a que atribuí um valor de verdade V — vitor sabe tocar oboé — for verdadeira.

    Se a proposição anterior é verdadeira, não pode ser falsa, ainda que não seja fisicamente necessário que vitor se tornasse oboísta. É um facto contingente que vitor se tenha tornado oboísta (na verdade não sou). Mas se for verdade que sou oboísta, a proposição que exprime essa verdade não pode ser simultaneamente falsa.

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  5. Por outras palavras: uma coisa é a propriedade que um certo estado de coisas no mundo, que torna verdadeira uma afirmação minha, ser contingente. Outra coisa é a proposição que exprime uma verdade acerca desse estado de coisas contingente poder ser falsa ao mesmo tempo que é verdadeira. Isso é ridículo, como é óbvio. A menos que lhe pareça razoável que alguém seja e oboísta e ao mesmo tempo não o seja.

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  6. Ok. Vamos ver se é desta que acertamos:

    quando digo que uma proposição verdadeira não pode ser simultaneamente falsa você diz que eu estou, segundo os meus próprios critérios, a fazer uma afirmação falível. Logo, é possível que as proposições sejam verdadeiras e falsas.

    Mas a falibilidade das crenças do sujeito não implica que o sujeito não tenha crenças verdadeiras. Tal como a falibilidade do pianista não o impede de fazer interpretações excelentes. Você está a falar de uma possibilidade diferente: a possibilidade de a interpretação ser má ao mesmo tempo que é boa. Se pensar um pouco, verá que isto não faz sentido e que nada tem a ver com a natureza falível do pianista.

    Poder enganar-me quando acredito que sou oboísta não tem a ver com a possibilidade física de ser ou não oboísta. São coisas diferentes. A verdade de que sou oboísta não faz que o facto de o ser deixe de ser um facto contingente. Nem a contingência desse facto faz com que a proposição "possa" ser falsa. Ela "podia" ser falsa SE eu não me tivesse tornado oboísta. Talvez se torne verdadeira se eu tiver um ataque de amnésia e esquecer tudo acerca de oboés. Mas nada disto tem a ver com o falibilismo.

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  7. “Uma coisa é a possibilidade de eu me enganar quando faço juízos sobre a minha incapacidade para voar por meios naturais (epistemologia). Outra coisa é a possibilidade de os seres humanos, caso a evolução natural fosse diferente no passado, poderem voar por meios naturais (metafísica). São coisas completamente distintas.”

    A tese segundo a qual uma tese epistemológica é uma coisa completamente distinta de uma tese metafísica é ela mesma uma tese epistemológica: a realidade é objetiva [não subjetiva, não relativa, não construída], mas, como sou falível, é possível que, mesmo me considerando certo, ou seja, mesmo sendo possuído pelo estado mental subjetivo de certeza, eu esteja de fato errado. Mas essa tese epistemológica é ela mesma uma crença falível e, por conseguinte, possivelmente falsa.

    “A verdade de que sou incapaz de voar é indepedente da frase que exprime essa proposição, e é independente das minhas crenças acerca da minha incapacidade de voar.”

    Ambas as independências a que você se refere são apenas crenças, que, como tais, segundo vocês, podem ser falsas.

    “Tal como a falibilidade do pianista não o impede de fazer interpretações excelentes. Você está a falar de uma possibilidade diferente: a possibilidade de a interpretação ser má ao mesmo tempo que é boa. Se pensar um pouco, verá que isto não faz sentido e que nada tem a ver com a natureza falível do pianista.”

    Não faz sentido porque é simplesmente impossível alguém tocar bem e mal no mesmíssimo instante, assim como é impossível chover e não chover ao mesmo tempo e no mesmo lugar etc. É impossível agora e sempre, aqui e em toda parte, neste e em qualquer outro mundo possível. Por quê? Porque o princípio de não-contradição é necessário e universal.

    Não faz sentido algum eu dizer que sim, que existe uma realidade objetiva e/ou que existem princípios necessários e universais, e ao mesmo tempo, mesmo que a título de mera possibilidade, admitir que talvez não seja assim, que talvez eu esteja enganado mesmo a respeito dessas minhas crenças básicas.

    Com efeito, para negar a validade universal da realidade e/ou desses princípios, ou seja, da objetividade, mesmo que a título de mera hipótese, eu tenho de recorrer a esses mesmos princípios!

    Faz sentido, p.ex., admitir que possivelmente a nossa crença na existência da verdade [ou da validade] seja falível, uma vez que essa afirmação pressupõe ela mesma o conceito de verdade [ou de validade]?

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