17 de setembro de 2008

Kwame Anthony Appiah

As pessoas muitas vezes recomendam o relativismo porque acham que conduz à tolerância. Mas se não pudermos aprender uns com os outros o que é certo fazer, pensar e sentir, então o diálogo entre nós não faria sentido. O relativismo dessa natureza não é uma forma de encorajar o diálogo: é apenas um motivo para ficarmos em silêncio.

8 comentários:

  1. Sim e não diria a esta afirmação. Sim, pois realmente não podemos por todo crédito a uma teoria como se esta fosse a salvadora da humanidade, capaz de transformar e de melhorar. Não, pois se o relativismo não representa garantias de que haverá tolerância, pelo menos abre espaço para compreensão de que a verdade do outro também existe e de que aquele pode ser tão válida quanto a sua.
    Vejo em outras formas de se pensar muito mais perigo de acabarmos, como já muito ocorreu, na intolerância e na boçalidade.
    É claro que mais uma vez está tudo no bom senso do ser humano, que apesar de variar existem alguns limites, de lidar com o outro/diferente. O homem tem a capacidade de se apropriar de qualquer teoria, seja ela construída ou dada e fazer com que esta sirva a seus propósitos, sejam bons ou ruins.

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  2. Se a motivação do relativismo fosse a tolerância, ficamos sem perceber muito bem como por que razão não pode o "outro" aceitar a existência da verdade objectiva. Isso seria verdadeiramente tolerante, pois implica a capacidade de perceber que somos falíveis e que nos enganamos, ao passo que "a verdade do outro e a de cada um" pouco nos exige em tolerância: não tenho de ser tolerante se nunca me engano, não tenho de lidar com a minha falibilidade.

    Temos de separar duas coisas:

    a) a existência de verdades objectivas

    b) o direito das pessoas a acreditarem, estudarem e divulgarem as ideias que bem lhes passe pela cabeça.

    são coisas muito diferentes.

    O problema das pessoas é que querem ter o direito a defender o que lhes apeteça, o que está muito bem, mas não querem suportar que as suas crenças estejam sujeitas à crítica disciplinada.

    Afinal, que mal tem enganarmo-nos? Aceitar que às vezes erramos dá-nos a possibilidade de melhorar as nossas crenças. O relativismo fecha-nos em nós próprios, transforma limites acidentais, circunstanciais, em limites absolutos, e isto de um modo mais acrítico e dogmático do que qualquer tese por ele caricaturada.

    Em suma: os relativistas confundem tolerância ética com tolerância epistemológica. A última não é desejável nem razoável, ao contrário da primeira.

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  3. E você não acha que tolerância espistemológica pode influenciar a ética? Ou tu vês estes dois elementos como coisas desconexas?
    Principalmente em nossa sociedade que aposta no conhecimento científico. Lembre-se que a biologia já justificou o racismo e isso foi científico! Agora no momento que pessoas percebem que aquilo que o outro fala é um discurso e não uma verdade, "A VERDADE" científica, não fica mais fácil de encontrarmos aqueles que se apropriam de um saber para prejudicar os outros?
    Como vocês vêem essas mudanças crassas de postura correlação a uma mesma coisa? Seriam porque há o erro, sem intenção? Apenas isso?
    Ou seria porque os humanos conseguem distorcer sua realidade, leia-se discurso sobre, de forma que possa amparar seus interesses sobre a égide da verdade.

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  4. a) acho que a tolerância epistemológica influencia de facto a ética: negativamente. Leva-nos a ser tolerantes com o intolerável e a perder a melhor defesa contra os totalitarismos e superstições: a razão e a verdade.

    b) o racismo não é e nunca foi científico, independentemente de ter sido cultura comum de uma época onde os interesses egoístas toldavam o juízo às pessoas numa escala grotesca. Mas isto só nos devia alertar para os perigos do relativismo: o racismo, a xenofobia e os totalitarismos decorrem do relativismo, em vez de serem ameaçados por ele. O fascismo é relativista, é a substituição da verdade pelo argumento da força bruta.

    c) a única maneira de evitar a apropriação do saber para a repressão social é precisamente o de aprofundar o saber e não relativizá-lo. Não entendo como poderia a ética ser auxiliada com a falsificação da realidade.

    d) As confusões da sociobiologia não são científicas e já não o eram no tempo em que foram inventadas. Baseiam-se num disparate: saltar da observação da natureza para juízos de valor. O facto de haver comportamentos destrutivos que são naturais não os torna morais nem desejáveis. Esse disparate foi feito por todo o género de tolos anti-científicos, como os lamarckistas soviéticos, por exemplo. Mas estas coisas grotescas, como o caso Lysenko, foram possíveis por causa do relativismo implícito dessas ideologias. Pense-se nos ataques marxistas à "ciência burguesa", em que se confunde os nossos desejos e preconceitos com a realidade e, pior, levando-as à prática com furor profético e militante.

    Neste sentido, a "esquerda" anti-darwinista, o lamarckismo soviético, e a sociobiologia de direita, estão todos no mesmo barco relativista e hostil à ciência. A ideologia é em si mesma algo relativista, pois substitui a verdade pela "sua" verdade, e não vê outro tipo de busca pela verdade que não seja o combate com as verdades dos "outros".

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  5. Caro D`Avila,
    Creio que está a incorrer em algumas incompreensões elementares, mas vamos lá conversar a ver se clarificamos as coisas. A frase é generica e existem variantes do relativismo mais defensáveis que outras. De um ponto de vista mais geral, não podemos defender o relativismo como o D`Avila propõe: imagine que eu sou da opinião que o D`Avila é um cavalo que pensa e fala. O Dàvila pode dizer-me que não é, mas eu digo-lhe que é pois essa é a minha opinião. Ora, com este exemplo tolo só lhe quero mostrar uma coisa: que não podemos ultrapassar determinadas barreiras quando pretendemos defender o relativismo. Por outro lado, defender a objectividade não é afirmar que existe uma só teoria para um problema e ponto. Obviamente que podem coexistir diversas teorias sobre um problema e todas elas são concorrentes da verdade. Se defendermos o relativismo, cada uma delas é a verdade e vamo-nos deparar com o silêncio, já que nada mais há a discutir para além da verdade. Isso não é tolerância, D Avila. Pelo contrário, é intolerância pela discussão activa das teorias concorrentes da verdade.
    Por outro lado, quando defendemos o relativismo na versão de que “tudo é relativo” enfrentamos outro problema: “tudo é relativo” é relativo ou não? Se for relativo então podemos defender que “nada é relativo”. Caso contrário “tudo é relativo” é falso, pois existe pelo menos uma verdade que não é relativa que é aquela que me diz que “tudo é relativo”. Agora veja lá o disparate que é alguém defender que “tudo é relativo” não é relativo. O D´Avila está disposto a tolerar um disparate desta natureza?
    Portanto, o relativismo não abre espaço algum à tolerância e isso é uma ilusão. O que o relativismo abre é espaço a que verdades relativas sejam tomadas objectivamente, que é o que mais temos assistido ao longo da história da humanidade com toda a espécie de tiranias.
    Não sei se o D`Avila compreendeu a minha exposição, mas espero que sim.
    Abraço

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  6. Hmm... interessante. Acho que estou pegando o fio da meada. No momento em que assumo que tudo é verdade pois tudo é relativo então levo a autodestruição do argumento pois se tudo é verdade então isto inclui o nada. Na outra ponta desse artífice temos o nada como verdade que acaba por corroer a elementar inconveniência. Mais ou menos por ai certo?

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  7. Não, não percebeu o que lhe disse. Quem é que falou em "nada"?. O que lhe expliquei é algo muito intuitivo, mas talvez seja mnelhor outra opção. Proponho-lhe um problema: Tome a seguinte proposição: "Todas as verdades são relativas". Esta verdade é em si uma verdade relativa ou objectiva?
    Obrigado

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  8. O argumento é simplesmente autoderrotante porque se tudo é relativo então a proposição que afirma que tudo é relativo é ela própria relativa. Não pode ser um diagnóstico objectivo das coisas.

    O que é ridículo nos "sociólogos da ciência" é que o seu discurso é uma pretensão à ciência acerca da ciência.

    Negar a objectividade nao é negar um conteúdo particular objectivo, é negar a possibilidade de fazer afirmações em geral.

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