9 de setembro de 2008

Lógica simbólica


Fala-se por vezes da “lógica simbólica”, supostamente por oposição à lógica aristotélica, e por oposição também às línguas comuns, como o português ou o francês. Mas esta maneira de falar é uma confusão. Isto porque todas as linguagens são simbólicas.

Na língua portuguesa, por exemplo, os símbolos “neve” querem dizer algo, mas estes mesmos símbolos nada querem dizer em francês, que usa os símbolos “neige” para referir o mesmo. Também a linguagem musical ou a linguagem pictórica são simbólicas, pela simples razão de que todas as linguagens são simbólicas. O que dá a impressão de só a lógica simbólica ser uma linguagem simbólica é o facto de se olhar para os símbolos apenas sem entender o que eles querem dizer — ao passo que olhamos para símbolos como “neve” e nem pensamos nos símbolos, mas antes directamente o que esses símbolos querem dizer.

Assim, falar da lógica simbólica pode revelar duas coisas. Primeiro, que não se vê que estamos rodeados de símbolos porque estamos rodeados de linguagem e toda a linguagem é simbólica. Segundo, que se olha para os símbolos da lógica e não se vê o que eles querem dizer, mas apenas as próprias marcas no papel ou num quadro. Que é exactamente o que acontece quando uma pessoa que nada sabe de música olha para uma pauta musical: só vê gatafunhos aparentemente frios e desumanos, que nada parecem querer dizer, quando na realidade pode estar a olhar para o registo de uma peça pungente, como esta.

6 comentários:

  1. Os símbolos na música são um terreno movediço. A notação musical é obviamente simbólica: uma série de colcheias e semínimas e pausas simboliza uma frase melódica. Mas quando falamos em simbolismo musical a associação que imediatamente se faz é entre a música e os sentimentos ou qualquer outro tipo de "mensagem" que estaria codificada na música.

    Acho que aqui acontece algo semelhante ao fenómeno descrito acima: as pessoas olham para os símbolos da lógica e quando não percebem pensam que aquilo é que são "símbolos" por contraste com as linguagens que compreendem. Ou seja: as pessoas que não ouvem imediatamente a música apenas pelas relações entre os sons, pela onstrução, etc, ficam convencidas de que o Bach codificou "sentimentos" na Arte da Fuga.

    ResponderEliminar
  2. O termo "lógica simbólica" já perdeu hoje bastante a popularidade que outrora gozou... Lembra-me contudo ter lido um livro mais ou menos recente, contudo, em que o autor dizia escrever "lógica simbólica" para não escrever "lógica formal", dado que muitos têm ojeriza ao "formal" como algo enfadonho, e para não escrever "lógica matemática", já que muito do que se faz em lógica não é necessariamente "matemático". De todo modo, confesso que nunca imaginei que o "simbólico" fosse lido em oposição ao "aristotélico".

    ResponderEliminar
  3. Em Portugal, muitos professores pensavam e talvez ainda pensem que a lógica aristotélica não é simbólica nem formal. Isto é falso, e não é vergonha nenhuma as pessoas terem ideias erradas das coisas. Apenas significa que o trabalho de ensino e divulgação, de publicação de bons livros introdutórios, tem de ser intensificado.

    ResponderEliminar
  4. Poderíamos simplesmente chamar o que alguns chmam de lógica simbólica de lógica pós-aristotélica.

    ResponderEliminar
  5. Parece-me que isso não seria muito feliz porque há muitas lógicas diferentes, e incompatíveis, depois de Aristóteles.

    ResponderEliminar
  6. Penso que a distinção entre "linguagens simbólicas" e "linguagem natural" poderia ser substituída por uma entre "notações" e "linguagens não-notacionais". Creio que impossível seria dar um único exemplo de uma linguagem ou representação não-simbólica.

    ResponderEliminar