28 de setembro de 2008

Metafísica e vida

Muitas das vezes somos levados a pensar que a metafísica é uma área da filosofia tão sofisticada que não possui qualquer relação com a vida. Mas essa crença é falsa, apesar de se compreender a falsidade em que tentadoramente caímos. Os estudos em metafísica são realmente complexos e sofisticados, mas são também os pilares de todo o conhecimento. Estou a lembrar-me de um problema em particular, da ética aplicada, o do aborto. E também o da eutanásia. É impossível uma discussão racionalmente preenchida sobre o aborto se não tivermos em consideração pelo menos algumas noções metafísicas. Uma delas prende-se com o problema da identidade que pode mostrar que algumas premissas de argumentos podem ser falsas ou, pelo menos, muito discutíveis. Para além de tudo é na metafísica que se faz o esforço máximo de conceptualização, de forma que esta é uma área nuclear. Com efeito, sendo a metafísica uma área complexa, não é de todo inacessível, até ao leitor mais comum. A melhor referência que conheço como introdução à metafísica não está, infelizmente, traduzida para português, que é a de Earl Conee & Theodore Sider, Riddles of Existence, a guided tour to metaphysics. Da minha parte consigo fazer divulgação das obras e argumentos mais comuns segundo as mais modernas técnicas de investigação em filosofia, mas é bem verdade que me falta muitas vezes o talento e conhecimento para escrever com rigor alguns textos curtos que ilustrem os problemas. Felizmente há quem o faça entre nós. Deixo aqui linkados dois textos que acho do mais excelente que li como minúscula introdução ao problema metafísico da identidade, um de Desidério Murcho publicado no De Rerum Natura e outro de Pedro Galvão, publicado no recente Da Pluralidade dos Mundos. Estes dois textos não deixam ainda o leitor discutir activamente o problema, mas pelo menos servem para mostrar por que razão o problema metafísico da identidade está intimamente ligado ao problema moral da eutanásia e aborto. Após a leitura destes textos alguém ainda se atreve a afirmar que a metafísica nada tem a ver com a vida?
Nota: a Crítica tem uma secção toda dedicada à metafísica com inúmeros textos inéditos. Um tesouro a descobrir.

7 comentários:

  1. A sofisticação da metafísica só faz que a metafísica deixe de ter a ver com a vida para os casos em que a sofisticação da própria vida deixa muito a desejar. Acabamos sempre no velho Sócrates: "uma vida que não é examinada..."

    Que tem a arte da fuga de Bach a ver com a vida? Depende... depende da vida que é capaz de fruir o prazer que obras como essa oferecem.

    Quando perguntamos se uma disciplina tem a ver com a vida temos de lembrar que não há uma única disciplina que tenha a ver com a vida de toda a gente em geral. Haverá sempre quem não se interesse por botânica... e depois? Dificilmente esse será um argumento para não haver botânica.

    No caso da metafísica, tem muito mais a ver com a vida das pessoas em geral (de mais pessoas) do que a botânica... mas nem por isso temos um argumento que menoriza a botânica.

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  2. Vitor,
    Creio que podemos aqui estabelecer uma diferença que, como hipótese, pode estar na base da confusão:
    a) algo tem a ver com a vida porque é socialmente interventivo.
    b) algo não tem a ver com a vida porque por muitas mudanças que ocorram em b) a vida manter-se-á mais ou menos a mesma coisa.
    Assim a resolução de um paradoxo matemático teria menos a ver com a vida do que a descoberta de uma vacina ou cura de uma doença. Mas publiquei este pequeno post precisamente para, com um exemplo sacado a dois textos bons e fáceis de ler, mostrar que é falso pensar que o problema matemático não tenha a ver com a vida. Sem ele não se teriam resolvido uma série de problemas da vida. Outro aspecto que eu não referi no post, mas deixei-o ao de leve, tem a ver com as nossas limitações: não podemos ambicionar, um só homem, ser metafísico e descobrir a cura para a sida. pelo menos estes homens são mesmo muito raros:-) infelizmente, talvez.
    abraço

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  3. Gostei do questionamento levantado. Estou a cursar uma disciplina específica da metafísica chamada "metafísica da modalidade". Não são poucas as vezes que penso que a metafísica, apesar de sua pretensão em tentar descrever as estruras mais gerais da realidade nada tem a ver com ela. Sei que tal afirmação é falsa, por motivos que não irei discutir. Minha intenção é simplesmente chamar a atenção para a dificuldade que tenho em associar os problemas metafísicos com problemas de outras áreas da filsofia - a ética prática, como você sugeriu -, no caso da metafísica da modalidade, além de me parecer altamente abstrata e técnica, não me coloca em contato direto com nenhuma realidade próxima.

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  4. Caro Assis,
    Se estiver a fazer ciência, pode considerar 100 hipóteses diferentes para explicação de um só fenómeno. Das 100, somente uma ou até nenhuma explicará a realidade. Com efeito, daí não se segue que o estudo não constitua uma tentativa de explicar a realidade. Mas o Assis tem uma boa oportunidade de pensar por si mesmo sobre isto que aqui lhe digo. Pense qual a razão que o leva a estudar uma matéria em que muitas vezes nada tem a ver com a vida nem com a realidade? Se descobrir alguma razão interessante, diga-nos aqui no blog. Bem, a menos que o estudo da lógica se assemelhe a palavras cruzadas.

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  5. Acho, pelo contrário, que a metafísica é a base de todos os questionamentos filosóficos noutras áreas, por exemplo: "existem "deveres", o que são?" ou "a quinta sinfonia é um particular?"... que são estas duas senão questões metafísicas?

    No blog do Pedro Galvão há um texto curiso sobre realismo modal e ética.

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  6. Rolando, sou a Assis...

    Talvez eu não tenha compreendido bem o propósito de estudos como a lógica nem mesmo o que de fato é a metafísica.
    Só essa compreensão pode permitir uma assimilação da filosofia com a realidade.

    Para já, discordo da opinião do senso comum de que a lógica nada mais é que testes bestas de reciocínio que para nada serve.



    Vitor, poderia me dizer qual o link do Pedro Galvão, tenho interesse em ler o texto.

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  7. Olá Assis,
    completamente de acordo. Ensino a estudantes de 16, 17 anos de idade e noto que a grande dificuldade dos estudantes, em qualquer matéria é compreender o que é que aquilo tem a ver com a realidade.
    abraço

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