3 de setembro de 2008

O homem que confundiu a sua falibilidade com um chapéu

Há formulações do falibilismo que levam a pensar que refutar o falibilismo é mostrar que há crenças a respeito das quais não podemos estar enganados. Uma destas formulações é a de que o falibilismo é a doutrina de que não podemos ter certezas acerca de seja o que for.

Isto é uma má formulação, porque podemos ter certezas sem ter conhecimento e podemos ter crenças verdadeiras, com ou sem certeza, sem que tenhamos conhecimento. É inclusive possível não poder estar enganado (ter uma crença verdadeira) e no entanto não ter conhecimento genuíno. Não poder estar enganado, ter certeza e ter conhecimento são coisas muito diferentes.

A formulação que venho criticar confunde "crença verdadeira", "conhecimento", "certeza" e "justificação". Em resultado disso, confunde também falibilismo com cepticismo.

O cepticismo é a doutrina de que não podemos ter conhecimento ou certeza de coisa alguma. Nesta formulação também se confunde conhecimento com certeza. Nem todas as formulações do cepticismo são assim.

O falibilismo é a doutrina de que os agentes racionais são falíveis e que as suas crenças são falíveis. Em resultado, os agentes racionais falíveis não podem ter garantias absolutas de que não cometeram algum erro ao justificar as suas melhores crenças. Claro que podem ter garantias boas e até excelentes. Podem ter certezas, crenças verdadeiras e até conhecimento (crenças verdadeiras justificadas).

Ter certeza de alguma coisa é estar num certo estado mental, em que pensamos não poder estar enganados a respeito de algo ou em que pensamos não haver quaisquer razões ou indícios para pensar que estamos enganados.

Conhecer algo é ter uma crença verdadeira justificada acerca desse algo.

Algo é falsificável quando pode ser refutado: uma tese é falsificável se há circunstâncias nas quais se pode mostrar que não é verdadeira.

Algo é falível quando pode cometer ou conter erros. Como somos falíveis as nossas crenças e as suas justificações, independentemente da verdade e falsidade das crenças, podem conter erros.

Algo é duvidoso quando as circunstâncias que tornam esse algo uma verdade ou uma falsidade não são claras.

A confusão destes conceitos leva à crença de que o falibilismo é a doutrina de que tudo é duvidoso em consequência de sermos falíveis. Isto é uma má formulação do falibilismo.

Quando tenho a crença de que um triângulo equilátero é uma figura com três lados iguais, tenho uma crença verdadeira justificada. Como se trata de uma verdade semântica, é muito difícil cometer erros ao justificar a minha crença, embora saibamos que é possível estar enganado a respeito de que afirmações são ou não verdades semânticas, por exemplo: "a água é H2O". Uma pessoa que não sabe que "equilátero" e "ter lados iguais" são co-extensionais pode enganar-se acerca de "um triângulo equilátero é uma figura com três lados iguais" ser uma verdade semântica. É por isso que o aprendemos na escola: porque não somos infalíveis. Aprendemos as ferramentas necessárias para saber identificar verdades semânticas e distingui-las das outras.

Agora um detalhe: quando tenho uma crença verdadeira, isso significa que o mundo se comporta de tal modo que torna uma crença minha verdadeira. Mas posso ter essa crença com base em justificações erradas. Posso estar na aldeia XYZ e ter a crença de que lá estou porque pensei ter identificado elementos arquitectónicos que na verdade não pertencem a essa aldeia. Tenho a certeza de que estou na aldeia XYZ e a crença acerca da qual tenho certeza é verdadeira. Mas não tenho conhecimento genuíno de que estou em XYZ. Quando leio os indícios adequadamente, tenho conhecimento de que estou em XYZ: tenho uma crença verdadeira justificada. Ser falível apenas significa que não tenho garantia absoluta de que a justificação da minha crença não contém algum erro, o que pode aumentar a possibilidade de a minha crença ser falsa mesmo quando parece verdadeira. Mas isto não se aplica com igual força a tudo.

O que significa então não poder estar enganado? Não é o facto de ter certeza. Pois o homem que entra na aldeia XYZ e tem a certeza de estar em XYZ por causa de indícios errados, não pode estar enganado quanto a estar em XYZ, mas o não poder estar enganado não vem da sua certeza. De onde vem então? Vem do facto de o mundo tornar verdadeira a crença de qualquer indivíduo que diga: "estou em XYZ" no momento em que se encontra naquela região do espaço. Não é a certeza que faz com que não possa estar enganado. Pois a sua certeza baseia-se em indícios equivocados. Não pode estar enganado e no entanto não tem conhecimento.

Esta experiência mental mostra perfeitamente que não poder estar enganado é compatível com ser-se falível. É porque somos falíveis que podemos ter certezas equivocadas e crenças verdadeiras injustificadas. Claro que também podemos ter certezas inequivocadas e crenças verdadeiras justificadas. Não deixamos é de ser falíveis — até as nossas crenças verdadeiras justificadas (não necessariamente todas) podem conter erros de justificação.

O que acontece quando dizemos de uma crença verdadeira que é "infalível"? O que estamos realmente a dizer é que quando o mundo se comporta de tal maneira que torna uma crença em particular verdadeira, essa crença não pode ser falsa na medida em que o mundo se comporta dessa maneira. O "infalível" não brota da própria crença nem da certeza do sujeito na sua crença. A formulação correcta seria esta: infalivelmente, quando o mundo se comporta de tal modo que faz uma crença ser verdadeira, essa crença não pode ser falsa. Portanto, quanto temos uma crença verdadeira justificada, não somos "infalíveis" nem a nossa crença é infalível: acontece que o mundo faz que não possamos estar enganados — como no exemplo da aldeia.

30 comentários:

  1. Só uma pergunta:

    É possível que S conheça p, ou seja, que S tenha uma crença verdadeira e justificada de que p, sem que S tenha ao mesmo tempo certeza que p?

    Grato,
    edg

    ResponderEliminar
  2. O que Vitor não entende é o seguinte: não há dúvida de que todo homem seja falível.

    Mas é possível que alguém se engane quando assente ao enunciado de que todo homem é falível?

    ResponderEliminar
  3. Adriano:

    Pode o sujeito que chegou a XYZ e acredita que está em XYZ por causa de indícios errados estar enganado quando a estar em XYZ? Não. Tem conhecimento de que está em XYZ? Não, está enganado relativamente ao modo como justifica a sua crença. Toda a gente acredita que a água é H2O, mas quantas pessoas dominam completamente a justificação dessa asserção ou sequer a compreendem com clareza? Isto significa que é falso? Não. Obviamente. Significa que podemos ter sempre erros contidos nas justificações.

    Uma pessoa que acredite no falibilismo e tenha um pensamento confuso acerca da questão em causa, irá acreditar com verdade que as pessoas são falíveis mas está enganado em relação a tudo o que rodeia a justificação dessa crença.

    Edson:

    Obviamente que sim, que é possível. Um indivíduo que tenha dificuldade em distinguir verdades semânticas de outro tipo de verdades pode acreditar que um triângulo equilátero tem lados iguais, não pode estar enganado e no entanto o seu entendimento da questão é confuso. Não tem de ter certeza da sua afirmação, do mesmo modo que o nosso viajante que chegou a XYZ pode acreditar que chegou a XYZ e achar, erradamente, que os indícios que inspeccionou ainda não são suficientes para o informar de que está em XYZ.

    Ter uma crença verdadeira justificada não é o mesmo que ter uma crença verdadeira exaustivamente justificada. É essa a ideia central do falibilismo. É que não basta ter crenças, é preciso justificá-las e esse processo é doloroso, trabalhoso.

    Uma das causas da presente confusão é que aparentemente o Edson e o Adriano, sem perceber, aceitam um certo solipsismo, como se a descoberta das verdades fosse uma coisa que só ocorre na cabeça de um único indivíduo. Algumas das nossas crenças verdadeiras mais bem fundamentadas levaram séculos a fundamentar, senão mais. Falibilidade é nunca termos garantia absoluta de termos dominado todos os aspectos da justificação das crenças.

    Posso estar enganado ao afirmar que as pessoas são falíveis? Em princípio posso, se a minha justificação dessa crença for marreca. Vou acreditar numa verdade sem perceber patavina de como ela é verdade.

    Posso ter uma formulação razoavelmente bem trabalhada do falibilismo, aí terei conhecimento parcial — como é a maior parte do conhecimento científico relevante. Aí acredito em verdades com justificação parcial. O que posso fazer? Continuar a investigar. Como é que acha que se obteve as verdades da geometria? Um dia alguém acordou com a cabeça cheia de certezas?

    O facto de eu estar certo quanto à falibilidade das pessoas é irrelevante, ao contrário do que o adriano pensa, e não torna o falibilismo autoderrotante, pela simples razão de que não posso derivar cartesianamente dessa crença a justificação exaustiva de todas as minhas crenças verdadeiras.

    As pessoas mais habilitadas para falar de cosmologia física são precisamente as que menos certezas têm acerca da justificação das suas teses. Se fosse impossível ter conhecimento sem certeza então só haveria consensos universais na ciência e na filosofia.

    Quem tem mais "certezas" acerca de crenças cosmológicas? Precisamente as pessoas que menos sabem acerca do assunto e isto é assim com todas as áreas do conhecimento. Faz parte da natureza humana esse comportamento tolo.

    ResponderEliminar
  4. Peço desculpa por este acrescento.

    Para evitar mais saraivada:

    disse:

    "Posso estar enganado ao afirmar que as pessoas são falíveis? Em princípio posso, se a minha justificação dessa crença for marreca. Vou acreditar numa verdade sem perceber patavina de como ela é verdade."

    No meu post afirmei que o indivíduo que pensa que chegou a XYZ por causa de indícios errados não pode estar enganado quanto a estar em XYZ embora não tenha conhecimento de que está em XYZ.

    Não estar enganado quanto a estar a XYZ não é obviamente o mesmo que não estar enganado de todo em todo. Por exemplo, alguém pode ter um entendimento confuso do que significa a falibilidade e quando atribui a falibilidade aos seres humanos, a sua crença coincide aparentemente com uma crença verdadeira mas aquilo em que essa pessoa acredita é de facto diferente. Por exemplo, pode acreditar que ser falível é ser irrecuperavelmente otário.

    ResponderEliminar
  5. Vitor, desculpe-me mas eu não estou nada confuso, e muito menos estou defendendo alguma espécie de solipsismo [se é que isso existe]. Ao contrário, defendo a intersubjetividade da razão. Mas defendo, contra você, que verdade é um fato mental, uma propriedade de proposições. Em outras palavras, a "realidade" não é verdadeira nem falsa, apenas é, o que tem valor de verdade é o pensamento. Não existe ouro falso.

    O falibilismo não pode ser aplicado a ele mesmo. O princípio da falibilidade é ele mesmo infalível.

    Thomas Nagel não defende o falibilismo absoluto do Desidério. [Ao defender a falibilidade da lógica, este cai sim no relativismo ou, no mínimo, no ceticismo lógico.] No livro "A última palavra", ao contrário do que diz o Desidério, o Nagel defende para si a última palavra, ou seja, afirma apenas que a última palavra não pode ser dada de fora do pensamento, da razão. Mas que há sim verdades não-empíricas que não precisam nem podem mais ser revisadas. O Nagel diz ainda que não é possível ter certeza de que p sem estar comprometido com a verdade de que p, ou seja, de que p não é mais revisável.

    Em nenhum momento eu me referi a todo tipo de proposições, mas apenas a proposições fundamentais, ou seja, a princípios da lógica e da matemática, em especial, e a juízos a priori, em geral.

    ResponderEliminar
  6. Edson,

    Você afirma com convicção que não está confuso mas o modo como usa as palavras é uma confusão pegada. E você seria capaz de ver isso e de pensar mais tranquilamente se não estivesse obcecado com o "desiderianismo". A formulação de falibilismo que se tem vindo a defender aqui não é "desideriana", vem de John Stuart Mill. Há outras formulações com as quais não concordo e para ser sincero, a elaboração destas experiências mentais tem-me ajudade muito a clarificar as minhas ideias nos últimos dias.

    Claro que o solipsismo existe. Uma teoria não deixa de existir por ser falsa. Dada a falsidade do solipsismo, neste caso.

    A sua argumentação sobre a verdade é autoderrotante: se a verdade é um facto mental e nada tem a ver com o mundo, não a podemos investigar investigando o pensamento porque os nossos pensamentos também são itens do mundo e logo estão sujeitos às mesmas reservas que o Edson coloca a respeito da "verdade no mundo". É muito mais simples: nós descobrimos as verdades, não as criamos. Se você acredita nisso então é ridículo acusar alguém de relativismo porque o relativista seria você, defenderia um tipo qualquer de construtivismo social da realidade ou algo assim. Não pode confundir as verdades acerca do mundo com a expressão linguística dessas verdades.

    É irrelevante que o falibilismo se aplique ou não a si próprio. Vou resumir:

    A = "As pessoas estão sempre enganadas"

    Isto é autoderrotante porque quem o diz está necessariamente enganado.

    B= "As pessoas são sempre falíveis"

    Não é autoderrotante porque do facto de as pessoas serem falíveis não se segue que estejam enganadas. Eu posso sempre enganar-me acerca de que afirmações são verdades semânticas mesmo independentemente de as verdades semânticas não poderem ser falsas, como é óbvio:

    Imagine alguém que nunca se preocupou em analisar a palavra "equilátero". Para essa pessoa, trata-se apenas de um nome que chamamos aos triângulos que têm os lados todos iguais. No entanto essa pessoa sabe identificar triângulos equiláteros e sabe que todos os triângulos com lados iguais são triângulos com lados iguais. Mas nunca analisou a estrutura da palavra "equilátero". Ou seja, ela tem conhecimento, crenças verdadeiras justificadas, mas a sua compreensão contém erros.

    O solipsismo reside apenas em que para o Edson parece que se um indivíduo tem uma crença verdadeira justificada então essa pessoa tem necessariamente uma crença verdadeira exaustivamente justificada. E isto é o que ninguém pode ter a garantia absoluta de ter, porque nunca temos garantia absoluta de ter cometido algum erro. Precisamos dos outros. Por isso é que o conhecimento não vem da afirmação das crenças mas da actividade permanente de discussão das crenças. Repare: mesmo discordando abertamente de si, é graças às suas crenças — que eu considero confusas — que tenho vindo a clarificar as minhas próprias crenças sobre o falibilismo nos últimos dias. Quer isto dizer que não me enganei? Não. Para já, farto-me de corrigir os meus próprios textos depois de os escrever porque reparo que não pensei bem determinado aspecto.

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  7. Já reparou numa coisa engraçada? Você não quer que haja verdades acerca do mundo independentemente das nossas crenças, mas depois quer que as crenças sejam em si mesmas falíveis ou infalíveis independentemente da falibilidade dos agentes. (por isso é que o falibilismo lhe parece autoderrotante).

    Mas não vê que isso é reivindicar precisamente aquilo que aparentemente negou antes?

    ResponderEliminar
  8. Vitor, não estou obcecado pelo desiderianismo ou por qualquer outro ismo. Refiro-me ao amigo e colega português apenas porque essa discussão começou com o artigo dele, lembra-se? Para não ter de ficar me repetindo, ou seja, repetindo o que ele escreveu, simplesmente cito o seu nome.

    Você pode me dar um exemplo de filósofo solipsista? Entre os clássicos, não conheço nenhum que o seja. Berkeley não o é, Fichte não o é.

    Não existe ouro falso. Ouro falso não é ouro. Uma árvore não pode ser verdadeira nem falsa. O que tem valor de verdade são as proposições acerca do ouro ou da árvore.

    Há um hiato entre o domínio do ser ou da "realidade" e o do sentido.

    A estrutura básica do conhecimento, descoberta por Platão, é: algo sobre algo. Ora, o primeiro algo é de natureza mental, um pensamento. O segundo pode ser outro pensamento ou um fato.

    O problema é que não existem fatos nus, brutos, despidos de pensamento, fatos em si. Essa não é uma tese dogmática. Se o incomoda, digamos simplesmente não temos acesso a tais supostos fatos extra-mentais.

    O falibilismo é muito mais antigo que o Mill. Nada tenho contra o falibilismo meramente epistemológico. Mas o falibilismo que o Desidério defendeu no artigo em questão e nos respectivos comentários não é meramente epistemológico. Ele aplicou o princípio falibilista ao próprio falibilismo e à lógica -- o que não é possível.

    Você pode achar o meu estilo confuso. Talvez o seja. Mas a tese anti-relativista que estou defendendo é bem simples e modesta. E não é nenhuma idiossincrasia minha. O próprio Nagel a defende, além de Husserl, Descartes, Aristóteles et al.

    ResponderEliminar
  9. Eu tenho a pleonástica certeza absoluta de ser falível, pois os princípios básicos da lógica impedem que duas teses contraditórias tenham o mesmo valor de verdade. E eu estou cansado de defender teses opostas às de meus interlocutores, como você mesmo: não é possível que sejamos e não sejamos falíveis. E se fôssemos infalíveis, então todos defenderíamos as mesmas teses -- num mundo insuportavelmente monótono.

    Agora, do fato de ser falível não se segue que eu o seja sempre e em relação a tudo. Defendo, com Aristóteles, Descartes e Husserl, que, quando tenho uma intuição racional, ou seja, uma evidência, sou infalível. A certeza --no sentido forte, objetivo, e não no sentido subjetivo, de convicção-- é apenas um efeito secundário da evidência intuitiva.

    A certeza, nesse sentido, é *efeito* e não *causa* da verdade. E por isso pode servir de critério da verdade, como a toma Descartes.

    Quando me dou conta de que estou duvidando, portanto, de que sou falível, tenho nesse instante a infalível certeza de que existo, como mostraram Agostinho e Descartes.

    Você prefere discutir com eles, que são muito mais claros que eu? Ou com o Nagel? Poderíamos discutir, por exemplo, algumas passagens dA última palavra.

    ResponderEliminar
  10. Não estou interessado em competições de citação de clássicos. Tudo isso para mim não passa de palavras-cruzadas para entreter tias. Ou temos pensamento ou não temos. Eu faço o que posso, mas não vou esconder o meu pensamento atrás de citações pomposas.

    O ouro falso existe: uma liga de latão chamada "pinchbeck", de onde vem o anglicismo "pechisbeque" e que se assemelha visualmente ao ouro. O que você quer dizer é outra coisa: que não faz sentido falar em "falsos" estados de coisas. Você confunde sistematicamente palavras e coisas. "Ouro falso" é apenas uma descrição que aplicamos a ligas metálicas como o pinchbeck. Não estamos a dizer dessa própria liga de latão que é um "falso" estado de coisas.

    Do facto de você ser falível não se segue que esteja enganado, mas segue-se obviamente que é falível.

    Você não sabe o que quer: afirma que não há verdades fora das crenças e agora diz que a certeza é um efeito da verdade.

    ResponderEliminar
  11. Tenha cuidado se abrir uma loja, homem... a convicção de que o dinheiro falso não existe ainda lhe vai dar chatices.

    ResponderEliminar
  12. Quem é que falou em competição e em citações? Só pensei que, como para você é um sacrifício me entender, talvez fosse bem mais fácil entender os clássicos da clareza.

    O que você chama de ouro falso simplesmente não é ouro, ou seja, não é ouro legítimo, mas apenas uma imitação.

    " 'Ouro falso' é apenas uma descrição que aplicamos a ligas metálicas como o pinchbeck. Não estamos a dizer dessa própria liga de latão que é um 'falso' estado de coisas."

    Nem poderia, pois isso não faz sentido: as coisas são o que são. Falsas podem ser apenas proposições acerca delas.

    "Do facto de você ser falível não se segue que esteja enganado, mas segue-se obviamente que é falível."

    Você leu o artigo do Desidério, afinal de contas? Você entrou na discussão em defesa das teses dele. Mas até agora não está claro até que ponto você concorda com o que ele diz. Ele diz explicitamente que podemos estar errados acerca de tudo. Inclusive sobre isso, sobre estar errados acerca de tudo. Para mim, isso é simplesmente um absurdo. Tivesse sido você a dizer essa absurdidade ou o Nagel ou o papa, eu teria reagido da mesma forma.

    "Você não sabe o que quer: afirma que não há verdades fora das crenças e agora diz que a certeza é um efeito da verdade."

    Eu afirmei que a verdade é uma propriedade de proposições, do pensamento. A certeza decorre da compreensão de que é impossível que as coisas sejam de outro modo, ou seja, que se trata de uma proposição necessária.

    Por isso, não faz sentido dizer que podemos estar certos, ter certeza, e ainda assim pensar que podemos estar errados. Isso simplesmente não existe. Ninguém emprega o termo certeza dessa forma.

    ResponderEliminar
  13. "Tenha cuidado se abrir uma loja, homem... a convicção de que o dinheiro falso não existe ainda lhe vai dar chatices."

    Dinheiro falso é tão dinheiro quanto napa ou curvim é couro, ou seja, não é.

    Falsa é a crença na autenticidade da imitação.

    Mas você deixou escapar o principal. O mais importante é que quando pensamos "dinheiro" já estamos, evidentemente, pensando. Já estamos tendo uma atitude proposicional: isto é [ou não] dinheiro -- S é p [ou não-p]. Daí a tendência a pensar em coisa falsas.

    ResponderEliminar
  14. Tenha cuidado em não partir para o "mocking", Vitor.

    Ouro falso não existe no sentido de que se é falso, não é ouro. Mas no sentido de que se pode falsificar ouro, isto é, criar algo que tenha semelhança com ele, então aí ouro falso existe.

    Para não violar o princípio de não-contradição vale testar a possibilidade de existência de mais de um sentido para uma palavra ou expressão.

    ResponderEliminar
  15. Vitor,

    entendi precisamente o que você está fazendo para ver que a tese não caiu, que a tese não é autoderrotante: quer imputar ao adversário o fardo de não compreender o que seja justificação.

    Porém está sendo desonesto ao fazê-lo, por um simples motivo: a justificação não tem papel algum na nossa discussão, é completamente irrelevante para a questão.

    Não importa aqui saber por quais meios alguém chega a afirmar tese x. Importa saber se você pode estar enganado quando assente ao falibilismo.

    A questão não é saber se pode estar enganado quanto aos meios por que conclui em favor do falibilismo. A questão é saber pura e simplesmente se está enganado quando assente ao falibilismo.

    E, dado que você não pode estar enganado quando assente ao falibilismo, segue-se que o falibilismo é uma tese infalível.

    Falar em justificação aqui é pôr-se a sofismar, a mudar de assunto.

    ResponderEliminar
  16. Vitor, simplesmente não compreendi a sua acusação de que eu estaria sendo desonesto. Eu simplesmente continuo dizendo as mesmíssimas coisas que venho dizendo desde o início. Não mudei de estratégia porque não tenho nenhuma [quem está sendo chamado de ignorante aqui sou eu, e desde o primeiro comentário].

    A minha tese não caiu, e não é autorefutante; o contrário é que é o caso: o falibilismo absoluto, aquele que se aplica a si mesmo e à própria lógica, e que, por isso, confunde-se com o ceticismo lógico, é que é autocontraditório e, como diz o Nagel, ininteligível. É impossível pensar o que vocês acreditam poder pensar.

    ResponderEliminar
  17. homem, ninguém lhe chamou desonesto nem ignorante... apenas disse que você é confuso e não parece saber o que quer. Mas se é por isso, também eu me confundo, nem sempre sei o que quero e ignoro mais do que gostaria de saber.

    Se você se preocupasse menos com coisas que não têm importância alguma talvez conseguisse tirar o mesmo proveito que eu tenho tirado de tudo isto (como lhe disse: há quatro dias atrás não tinha pensado tanto sobre este assunto).

    Claro que dinheiro falso não é dinheiro. O que acha que significa "dinheiro falso". Eu não estou exactamente no "mocking", mas você não me deixa muitas alternativas... é que com essa fúria de querer caçar os erros à malta acaba por deixar que as suas próprias palavras gozem consigo.

    Por que está tão interessado em saber até que ponto eu concordo ou deixo de concordar com o desidério? Eu não entrei "em defesa" dele porque ele é crescidinho (mais do que eu) e sabe-se defender muito bem. Não sei se concordamos em tudo nem isso é importante. Eu falo para defender o que me parece ser verdade, mas quando vejo que estou em erro aceito-o sem dramas. Não estou a discutir o meu ego nem a travar qualquer guerra santa em nome de uma doutrina ou modo de ver a filosofia. Acha que vou confrontar cada frase do desidério para ver se coincidem com as minhas? Acha que não tenho coisas melhores que fazer à vida?

    O meu conselho é que se preocupe menos com "pleonásticas certezas", que perca menos tempo a escolher palavras e alusões, esqueça as "competições" e talvez um pouco mais de "mocking" e umas gargalhadas não lhe faça mal à saúde. Eu antes de aprender a rir de mim mesmo também perdia muito tempo a citar palonços alemães e franceses. Mas só fazia isso porque na maior parte do tempo não pensava realmente nas questões. Depois aprendi o prazer da filosofia.

    adriano:

    você pensa que a justificação não é importante porque a diferença entre nós nesta discussão é a seguinte: a mim interessa-me saber como as coisas são, interessa-me saber se o falibilismo descreve adequadamente alguma coisa. Não quero que o falibilismo seja verdadeiro por ser a "minha" teoria de estimação. O problema é que eu não posso estar aqui eternamente a patinar no mesmo, a reformular de trás para a frente os meus argumentos, e a constatar que tanto você como o edson simplesmente estão a fazer sopa de letras.

    PS: parabéns ó edson, por ter arranjado maneira de encaixar a palavra "atitude proposicional" num sítio onde ela não fazia lá falta. Já ficámos todos a saber que você domina o léxico. Agora preocupe-se menos com essas tretas e... pense outra vez.

    ResponderEliminar
  18. "Porém está sendo desonesto ao fazê-lo, por um simples motivo: a justificação não tem papel algum na nossa discussão, é completamente irrelevante para a questão."

    "homem, ninguém lhe chamou desonesto nem ignorante... apenas disse que você é confuso e não parece saber o que quer. Mas se é por isso, também eu me confundo, nem sempre sei o que quero e ignoro mais do que gostaria de saber."

    Sem comentários.

    Não é o Desidério ou o Nagel etc. que está em causa, mas o fabilismo absoluto. Você ora parece defendê-lo ora não. Daí a minha pergunta.


    "O meu conselho é que se preocupe menos com "pleonásticas certezas", que perca menos tempo a escolher palavras e alusões, esqueça as "competições" e talvez um pouco mais de "mocking" e umas gargalhadas não lhe faça mal à saúde. Eu antes de aprender a rir de mim mesmo também perdia muito tempo a citar palonços alemães e franceses. Mas só fazia isso porque na maior parte do tempo não pensava realmente nas questões. Depois aprendi o prazer da filosofia."

    Meu caro, a expressão completa é "pleonástica certeza absoluta". Se você não fosse tão sério, eu teria acrescentado um hehehe em seguida. Aliás só dá conselhos quem se leva muito a sério, hehe.

    Abraço,
    edg

    ResponderEliminar
  19. Vitor,

    perceba que não será aqui que você poderá saber como as coisas são. Sugiro fazer como eu, que humildemente quero saber apenas se ao enunciar uma defesa do falibilismo se está a cair em auto-contradição. Sugiro que não reformule suas palavras. Sugiro que não subestime seus interlocutores. E, por fim, sugiro que não mude de assunto ao recorrer à idéia de justificação: pois, afinal, ela não está em jogo neste momento.

    Como eu disse, cumpre saber, se a adesão ao falibilismo é falível — e não falha ou inválida de per si, como você insiste em repetir que eu afirme; porque se a adesão ao falibilismo é falível também, qual é a garantia de que em qualquer momento se possa estar certo?

    Às vezes parece que você não entende essa última questão. Ela não se responde dizendo que aqui e ali acertamos em fazer um bolo, em fazer um café, etc. A questão, para ficar nos termos piegas, é saber qual é a garantia de que afinal se foi bem sucedido ao fazer o bolo ou o café, quando (entenda bem isso) se põe em dúvida a tudo, que pode ser falível e, pois, estar certo ou errado. Qual é o critério para distinguir o erro do acerto no falibilismo se sempre há a possibilidade de estarmos errados?

    Agora, se tudo que você acha que tem a dizer é uma repetição de tudo o que já disse, é porque você não entendeu a questão.

    ResponderEliminar
  20. Meu caro, não sou responsável pelo que outros leitores afirmam. Você está a citar um comentário do adriano dirigido a mim e não a si.

    Sem comentários.

    Você percebeu o que eu quis dizer ao referir o "pleonástico".

    ResponderEliminar
  21. Ele se enganou, vitor, afinal também ele é falível e se engana às vezes, não só você ou eu. Ele só não estará mais enganado quando perceber que estará certo de que se enganou: é falível mas pode ter certezas infalíveis depois de uma correção do entendimento, entende?

    ResponderEliminar
  22. Adriano:

    Tente não misturar o que é falível com o que é duvidoso. Uma crença falível não tem de ser duvidosa. Um agente falível não é por isso duvidoso. Horowitz era um agente falível e no entanto o seu virtuosismo nada tinha de duvidoso.

    Você não diz da acção de ganhar um jogo de xadrez que já perdeu que é "falível" nem "duvidosa". Diz que é impossível. A crença de que pode ganhar um jogo de xadrez já perdido é infalivelmente errada não por causa de si própria mas por causa das circunstâncias que tornam impossível sequer pretender ganhar. Claro que não pode falhar quando nem sequer está em questão falhar ou não.

    Respondi a outro comentário seu num post mais recente onde desenvolvo isto.

    ResponderEliminar
  23. Adriano,

    Os melhores pianistas também são falíveis, no entanto o que faz que sejam bons pianistas? Esforçam-se por tocar o melhor possível. Neste caso, o nosso amigo apesar de ser falível, podia ter evitado esta argolada se não estivesse sofregamente a querer "caçar" a mediocridade alheia, sem sequer parar para pensar no que está a fazer. Queixava-se o nosso amigo de que eu não o lia com atenção... Bem, não importa.

    Adriano, o falibilismo não pode ser falível, mas a crença no falibilismo pode porque o agente pode ter crenças equivoadas acerca do que o falibilismo é. As verdades passíveis de certeza não são falíveis, mas a certeza, porque é um estado mental, não importa quão "forte" seja, é falível porque qualquer pessoa se pode enganar acerca daquilo que lhe parece evidente. Como o Edson acabou de nos demonstrar com a citação que fez de si. Quer uma demonstração melhor do falibilismo?

    Tente perceber como isto é uma brincadeira de palavras: antes de se ter apercebido que estava errado, o agente tinha "certeza" de que estava certo. Mas agora que percebeu estar errado afnal vê que só tinha "convicção". É sempre o mundo que determina se falhámos ou não, nunca as nossas certezas, por muitos nomes que lhes chamemos.

    ResponderEliminar
  24. Mas repare: o falibilismo não pode ser "falível" no mesmo sentido em que o vegetarianismo não pode ser vegetariano — porque é uma raio de uma tese e as teses não têm dieta!

    Já o relativismo: de onde lhe vem o carácter autoderrotante? É que o relativismo implica a relatividade da sua tese central, e a relatividade da sua tese central implica a falsidade da tese. Mas nada disto acontece com o falibilismo a não ser por causa da sonoridade das palavras. Quando as pessoas passam menos tempo a associar palavras pomposas e mais tempo a pensar com cuidado, captam melhor estas coisas.

    ResponderEliminar
  25. Pois é, Vitor, eu só percebi depois de clicar... desculpe-me pela confusão. É isso que dá responder com pressa. -- Mas aproveito para peguntar uma coisa pertinente: o que é desonestidade intelectual? Trata-se de uma propriedade psicológica [de caráter], moral, ou apenas formal, metodológica, acadêmica? É possível ser desonesto intelectualmente sem ser desoneste simplesmente? O que vocês acham?

    ResponderEliminar
  26. "É que o relativismo implica a relatividade da sua tese central, e a relatividade da sua tese central implica a falsidade da tese. Mas nada disto acontece com o falibilismo"

    Acontece sim, meu caro: segundo o falibilismo absoluto, o próprio falibilismo tem necessariamente de ser falível. Claro que disso não se segue que seja necessariamente falso, mas se segue que possivelmente o seja. Mas a mera possibilidade de ser falso basta para anular o falibilismo.

    "a não ser por causa da sonoridade das palavras. Quando as pessoas passam menos tempo a associar palavras pomposas e mais tempo a pensar com cuidado, captam melhor estas coisas."

    Por que será que vocês fazem tanta questão de defender o indefensáel? Não, não vou cair no mesmo erro de vocês e tentar explicar os motivos dos outros com base em teses psicologistas. O meu negócio é filosofia e não psicologia.

    ResponderEliminar
  27. Muito bem, Vitor, como disse, estamos perto da concordância.

    Só há um pequeno detalhe a considerar, sobre isso: «o falibilismo não pode ser falível, mas a crença no falibilismo pode porque o agente pode ter crenças equivoadas acerca do que o falibilismo é.»

    O agente pode ter crenças equivocadas acerca do que o falibilismo seja. Concordo absolutamente.

    Mas o agente pode ter uma crença equivocada de que o falibilismo seja verdadeiro?

    ResponderEliminar
  28. Email, pauloluiz41@hotmail.com



    Reflexões sobre o comportamento humano.

    Nós seres humanos temos vários defeitos, os quais são, foram e sempre serão incorrigíveis, salvo as raras e honrosas exceções.
    A nossa desonestidade é tão intensa que é preciso ter leis para reprimi-las, e fiscalização intensa para que as mesmas sejam cumpridas. Se fossemos todos honestos não precisaríamos ter leis nem regras para a convivência humana, bastaria todos seguirem o preceito (amar o seu próximo como a ti mesmo) assim tudo estaria resolvido, mas na prática isso não acontece, pois a quase dois mil anos esta frase foi ensinada por Jesus Cristo, mas até hoje não conseguiram aprender nem colocá-la em prática mesmo freqüentando os templos religiosos semanalmente e alguns mais fanáticos até diariamente.
    É fácil fiscalizar nossa conduta? Não, é extremamente impossível porque somos essencialmente desonestos. Usando como parâmetro, observe uma partida de futebol, a mesma tem regras próprias chamadas de regulamento a qual da direitos iguais para cada time, como são aplicadas estas regras, para isso usamos um juiz dois bandeirinhas para fiscalizarem vinte e dois jogadores e ainda um estádio lotado e mais milhares de telespectadores para fiscalizarem as ações do juiz e bandeirinhas, mesmo assim com todo este aparato ainda acontece algumas falhas nas regras do futebol.
    Já pensaram na dificuldade de fiscalizar o cumprimento das leis em um pais com quase duzentos milhões de habitantes, fiscalização esta feita por fiscais que não tem ninguém a fiscalizá-los, acham vocês que é possível fazer com que cumpram as leis ao pé da letra? Outro fato agravante na humanidade são as leis morais, estas não dependem de fiscalização somente externas depende mais da fiscalização da nossa própria consciência, ai entra a dificuldade mais premente que é lutar contra o egoísmo, individualismo, arrogância, maledicência e muitos outros defeitos inerentes a todos nós seres humanos. Finalizando, todos nós sabemos que a humanidade caminha a passos largos por uma trilha perigosa e irreversível, a qual não temos nenhuma noção de onde irá parar. Se continuarmos seguindo este caminho que é orientado pelo individualismo e um consumismo desenfreado o mesmo fatalmente está, sempre esteve e sempre estará nos levando a uma falsa felicidade.
    Paulo Luiz Mendonça.

    ResponderEliminar