19 de setembro de 2008

O mercado universitário da filosofia

A tabela que se segue foi feita a partir dos números disponibilizados no Telegrapho de Hermes. Se os cursos superiores em Portugal fossem cotados numa espécie de bolsa dos valores académicos, qual seria o valor das acções de filosofia? A consulta desta tabela pode ajudar os corretores a tomar decisões. Dá a ideia que a cotação está a descer. Mas porquê, se nas grandes praças de todo o mundo a filosofia rende bem?
 

 

Vagas abertas

Colocados

Nota do último

2006

2007

2008

2006

2007

2008

2006

2007

2008

Universidade da Beira Interior

30

20

20

10

5

4

110,7

109,9

108,0

Universidade de Coimbra

35

35

30

22

14

10

105,5

104,0

112,0

Universidade de Évora

20

20

-

1

3

-

113,5

125,5

-

Universidade de Lisboa

70

60

65

37

59

21

100,5

103,0

108,5

Universidade Nova de Lisboa

20

25

25

20

25

16

139,0

125,0

116,0

Universidade do Minho

30

30

30

29

30

28

108,8

126,4

107,6

Universidade do Porto

70

60

65

70

70

56

126,0

114,6

105,8

Total

275

250

235

189

206

135

 

 

 


22 comentários:

  1. A situação da filosofia em Portugal é de fato ridícula. Só a Universidade de São Paulo, de que por acaso faço parte, oferta algo como 170 vagas por ano para cerca de 1.300 candidatos.

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  2. Há demasiadas vagas para o mercado de procura existente. Mas não é pecado único da filosofia, se bem que seja o caso mais gritante.

    Os cursos em geral da faculdade de letras estão "às moscas". Em Lisboa este ano 50 vagas nas clássica+nova chegariam para colmatar a procura. 90 parece um exagero. Évora como se viu já nem abriu. E entra quem quer porque nunca se preenchem as vagas. Qualquer pessoa com média de 95 poderia entrar.

    Será interessante também averiguar quantos destes que entraram são verdadeiros vocacionados para filosofia e quantos são refugos de outros cursos porque não entraram em mais lado nenhum, isto é: quantos é que entraram realmente em filosofia como 1ª opção? E aí descobrimos que os números descem assustadoramente mais.

    Consequências de um secundário desastroso? De uma mentalidade de divulgação da filosofia muito errada? Urge pensar...

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  3. Não podes cometer a falácia de comparar números brutos, mas sim relativamente a quantas pessoas há em cada um dos dois países.

    Dado que temos 10 milhões em Portugal e 186 milhões no Brasil, se uma universidade portuguesa oferecesse o equivalente às 170 vagas da USP, ofereceria apenas 9 vagas.

    Na verdade muitas universidades portuguesas recebem comparativamente mais alunos do que a USP. A Universidade do Minho, por exemplo, comparativamente à população brasileira, recebeu em 2008 o triplo dos estudantes da USP.

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  4. Desidério,

    preste atenção: comparei Portugal à cidade de São Paulo. Entendeu?

    A população de Portugal é um pouco menor que a da cidade de São Paulo, mas a comparação é viável. E vale lembrar que a USP não é a única universidade ou faculdade que oferece cursos de filosofia... na cidade de São Paulo.

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  5. Não, a comparação não é informativa, porque em Portugal os estudantes tem origem apenas nos 10 milhões de habitantes, ao passo que muitos estudantes que vão para a USP não devem ser nem do estado de S. Paulo, quanto mais da cidade.

    Terias de comparar o número total de colocações nos cursos de filosofia em todas as universidades deste imenso Brasil. Sabes se há números desses disponíveis algures, já agora?

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  6. Bem, não queria mesmo ser o primeiro a comentar, uma vez que esta deve ser das questões que mais tenho debatido no meu blog particular. Para já não acho que os números nos últimos 3 anos sejam preocupantes. Com estes números ainda não se consegue apurar se o número de alunos é estável ou está a diminuir, embora tudo aponte que está a diminuir. O que defendo é outra coisa, é que estes números podem e devem ser muito mais elevados. Como? Grosso modo a formação dada em filosofia nas universidades portuguesas tem pouca ou nenhuma aplicação em outras áreas. Um destes dias estive no banco e o gestor de serviço dizia-me, sem saber qual a minha formação, que a banca adora recrutar licenciados em filosofia. Acontece que a banca portuguesa segue a formação americana, mas os cursos de filosofia em portugal não seguem a formação americana. E, coma formação oferecida em portugal, vejo os lugares que deveriam ser para os filósofos serem ocupados pelos matemáticos, por exemplo. É o que acontece com a disciplina de pensamento crítico nos cursos de engenharia. Se formos ver, grande parte da bibliografia dos professores de pensamento crítico mais atentos e estudiosos, é de filósofos e são matemáticos que estão a ensinar. O nosso ensino formal e historicista não garante qualquer elasticidade ao recém formado em filosofia, nem a credibilidade pública é grande coisa. Pensa-se que o licenciado em filosofia é um tipo que leu muito (engano puro) porque consegue dizer umas coisas meias abstractas, mas que ninguém tem tempo para as dizer, mas que é engraçado ouvir num sábado à noite enquanto se bebe umas bejecas num bar. No meu tempo de estudante 90% dos meus colegas diziam que iam dedicar-se à investigação. Hoje, a maioria, são professores que talvez não tenham pegado mais em livros de filosofia. Como o mercado de ensino está cheio, não existem grandes razões para se optar pelo curso pois ninguém quer ser pobre e passar fome. O problema da falta de êxito nos cursos é da nossa inteira responsabilidade, os profissionais de filosofia. Claro que também há razões culturais e psicológicos no meio deste problema, que se notam na resistência à mudança, numa passividade muito grande dos professores do secundário e numa irresponsabilidade maior dos professores do ensino superior. É um pouco a mentalidade de quem está, está bem e não há razões para mudar. Mas é pena que assim seja e eu, como profissional da filosofia, lamento mesmo esta passividade, pois ela traduz-se na falta do que mais devíamos amar: a nossa liberdade de pensar e actuar autonomamente.
    No meu blog tenho compilados uma série de textos sobre a empregabilidade em filosofia. Se alguém quiser, poderei disponibilizar os links.

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  7. Caro Desidério,

    Não sei se existe a compilação dos números para o Brasil como um todo. Mas de qualquer maneira é realmente descabido comparar São Paulo com Portugal, uma mera cidade com um país inteiro. Só acho importante ressaltar duas coisas, (1) a maior parte dos alunos da filosofia da USP vem da Grande São Paulo ou do interior do Estado de São Paulo, (2) não deve ser possível que vários dos alunos do ensino superior em Portugal não venham de outros países da Europa ou principalmente dos países de língua portuguesa do além-mar.

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  8. (e, Rolando, eu queria saber qual é o endereço do seu blog.)

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  9. Caro Rolando,

    Poderá então divulgar sff os links?

    Obrigado :)

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  10. Caros,
    O endereço do Blog é:

    http://rolandoa.blogs.sapo.pt/

    dos textos sobre empregabilidade entre outros, destaco:

    http://rolandoa.blogs.sapo.pt/66583.html

    http://rolandoa.blogs.sapo.pt/67135.html

    http://rolandoa.blogs.sapo.pt/59424.html

    Tenho o problema abordado ainda noutros textos, já que recorrentemente falo dele.
    abraço

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  11. Adriano,
    Os números são dificeis para se compara já que estamos a falar de dimensões muito distintas. Sem establecer a distinção não consguimos compreender os números.
    abraço

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  12. Caro Rolando,

    a população da cidade de São Paulo é praticamente igual à de Portugal. Qual seria o problema de "dimensão"?

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  13. Adriano,
    Em qualquer lugar, qualquer pessoa sabe que não se comparam elementos como os que o Adriano quer comparar. Não lhe vou explicar o porquê porque o Desidério já explicou e considero a explicação dada suficiente. Na prática pode comparar como pode comparar um cão com uma galinha. Os resultados da comparação é que não lhe vão adiantar coisa alguma para compreender a realidade e vai distorcê-la com essas comparações.

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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  15. Pois é. Fazer filosofia deve ser isso aí mesmo. Fulano diz algo como "não sei a causa disso, mas alguém que eu admiro disse tal e qual, então está explicado o motivo e todo mundo sabe que é assim... trate de aceitar para não ser diferente de todo mundo".

    Vai muito bem mesmo a filosofia e a argumentação em geral em Portugal...

    Mas fora isso cabe lembrar que Desidério achou que eu comparava Brasil (190 milhões de pessoas) com Portugal (10 milhões)... mas não... eu comparava Portugal à cidade de São Paulo, que tem uma população próxima.

    Entendeu?

    Uma leitura ligeira das "Refutações Sofísticas" de Aristóteles seria suficiente para perceber que não é porque a maioria pensa de tal e qual maneira, que portanto o que eles pensam está certo...

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  16. Uma coisa interessante -- e a meu ver preocupante -- é a filosofia estar agora praticamente toda nas mãos no estado. Com tanta oferta estatal, não há espaço para a iniciativa privada. Será isto saudável para o avanço da filosofia em Portugal? Não me parece. (Que eu esteja a ver, neste momento resta uma licenciatura em filosofia -- a da Católica de Braga -- fora das universidades públicas.)

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  17. Caro Rolando,

    Por acaso não acho a comparação descabida. Talvez discordes das conclusões da comparação feita ou do facto de não se dispor de todos os dados relevantes, mas mesmo assim acho útil a comparação, supondo que o Estado de S. Paulo tem aproximadamente a população de Portugal (10 milhões).

    Quanto aos dados em si, temos de pensar no seguinte. A tabela que publiquei só tem os dados da 1ª fase. Ainda há uma 2ª fase, se bem que sejam muitíssimo menos os estudantes que entram. E ainda faltam as universidades privadas que oferecem o curso de filosofia, como as católicas (mas também não devem ser muitos os ingressos).

    Mas o que me surpreende mais são os números de S. Paulo, que os acho muito abaixo do que estava à espera, mesmo imaginando que há outras universidades no estado a oferecer o curso de filosofia.

    Isto porque o ensino da filosofia no Brasil tornou-se obrigatório no ensino médio, ao passo que em Portugal deixou de o ser (neste momento só já cerca de metade dos alunos do ensino secundário em Portugal têm Filosofia). Ora, o Brasil precisa muitíssimo de licenciados em Filosofia do que Portugal, dado que aqui a situação é a inversa (basta pensares que em Portugal não deve haver um único professor a leccionar a disciplina de Filosofia sem ser licenciado em filosofia, o que está longe de acontecer no Brasil)

    Isto explica por que não é de admirar que no Brasil haja proporcionalmente muito mais estudantes a procurar os cursos de filosofia. Admira é como não há mais.

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  18. Tanto quanto sei a generalidade dos professores de filosofia no ensino médio não tem formação em filosofia e os que agora a tiverem não vão desalojar os antigos. De modo que o imenso mercado de filosofia no ensino médio brasileiro pode não passar de uma imensa mentira.

    Pedro, concordo que é parcialmente preocupante toda a filosofia estar praticamente nas mãos do estado em Portugal, mas também o devem estar muitas outras graduações que não são comercialmente atraentes precisamente porque não há quase alunos a escolher tais cursos.

    Penso que a filosofia será sempre um curso muito minoritário, como outros cursos são minoritários. Mas penso que se pode e deve ensinar melhor filosofia e que se esta for bem ensinada muitas pessoas que hoje não vêem a relevância da disciplina vão passar a reconhecê-la. Se o ensino da filosofia fosse bom, uma pessoa com um curso de filosofia saberia pensar claramente, com rigor e precisão, saberia conceber respostas criativas para problemas complexos, saberia analisar com acuidade teorias e ideias e argumentos, e saberia defender ideias com imparcialidade e rigor. Estas são algumas das competências filosóficas centrais, quando a filosofia é correctamente ensinada.

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  19. Prezado Aires,

    só uma pequena correção: o Estado de São Paulo tem uma população de 40 milhões de pessoas; entre 10 e 20 milhões é a cidade de São Paulo.

    Mas só citei a USP, porque é o caso mais próximo. Não sei os números das faculdades particulares da cidade — faculdades essas que não são geralmente muito boas, apesar de termos uma PUC, que é razoável.

    Quanto à acusação de Desidério de que a inclusão de filosofia no Ensino Médio engendra uma farsa, ele tem razão.

    Pouca filosofia e muito petróleo os males do Brasil são.

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  20. Aires,
    Eu acho a comparação descabida por uma razão: parto do pressuposto os candidatos às universidades brasileiras são maioritariamnete brasileiros e os candidatos às universidades portuguesas são maioritariamente portugueses. Ora acontece que se o Brasil tem cento e não sei quantos milhões, que a universidade de S Paulo (cidade com o dobro da população portuguesa) ofereça somente cento e muitas vagas, não me parece realmente muito comparando com a universidade portuguesa. Por essa razão é que acho a comparação em bruto descabida. Mas posso estar a ver mal a coisa. Ou, então, a comparação só nos serve para mostrar que - comparativamente - a universidade de S Paulo está a oferecer poucas vagas. Se pensarmos que teve 3000 e tal candidatos então a oferta é mesmo baixa

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  21. O curso de filosofia é um dos que tem menos candidatos por vaga. Direito tem 1 vaga para 25 candidatos (são algo como 500 vagas no total).

    Quanto a isto:

    «Ora acontece que se o Brasil tem cento e não sei quantos milhões, que a universidade de S Paulo (cidade com o dobro da população portuguesa) ofereça somente cento e muitas vagas, não me parece realmente muito comparando com a universidade portuguesa.»

    Parece tratar-se apenas de um desconhecimento elementar da geografia brasileira. E do fato de que a USP, embora a mais importante, é apenas mais uma das várias universidades públicas brasileiras...

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  22. Olá a todos!

    Analisando o gráfico "postado", reparei em algumas curiosidades.

    Após o encerramento do curso de Filosofia em Évora, defendi que nos próximos anos se assistiria a um mesmo cenário nas universidades periféricas que criaram cursos de Filosofia no final dos anos 90. Refiro-me ao da UBI ou ao da Lusófona. O meu vatícinio, a julgar pelos números apresentados, não estava errado.

    Uma surpresa, para mim, foi verificar que a Universidade de Coimbra, que viveu durante anos da fama, que oferece um curso de filosofia demasiado, pelo que me consta, centrado das questões hermenêuticas e nos autores francófonos, está a perder alunos.

    Por outro lado, arrisco-me a acrescentar que não há crise no ensino de filosofia. Houve sim, nos anos noventa, uma atitude demasiado optimista em abrir cursos superiores de Filosofia de um modo apressado sem garantir aos estudantes condições que coloquem o trabalho filosófico ao nível do que é praticado nas melhores universidades europeias. É fundamental formar licenciados em filosofia com qualidade, sem olhar para esta como um bem luxuoso e refinado, pois se assim for, estudar filosofia assemelha-se a estudar línguas clássicas.

    Um abraço
    Valter

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