24 de setembro de 2008

Omnisciência impotente

Não sei se esta história consegue mostrar a inconsistência que imagino que ela mostra. É mais um desafio aos leitores para caçarem o erro. Cá vai:

Imagine-se que deus encarna num vendedor de jornais e que está sentado pachorrentamente num quiosque, frente à casa do leitor. Esse vendedor de jornais será, em princípio, omnisciente e omnipotente, embora seja apenas um vendedor de jornais. Não se encontrando hoje com disposição para feitos de proporções cósmicas, apetece-lhe apenas ficar sentado no quiosque, divertindo-se a fazer previsões acerca de que jornais as pessoas vão comprar.

Supondo que tudo o que acontece no mundo é determinado pelos estados anteriores do mundo mais as leis da física, isto é, que o determinismo é verdadeiro, o nosso deus vendedor de jornais saberá exactamente que escolhas farão os seus clientes, pois sendo omnisciente, pode calcular todas as variáveis com uma precisão e velocidade inacessíveis ao melhor computador existente e mesmo a qualquer computador possível. Decide divertir-se a contar a cada pessoa que jornal esta irá comprar (suponhamos que ninguém na rua lhe tinha comprado jornais antes). Imagine-se agora que um dos clientes é um espírito de contradição incorrigível, e que tem a mania de contrariar todas as sugestões que lhe fazem. O nosso deus vendedor de jornais sabe perfeitamente disto e tem em conta esta variável quando faz o seu cálculo. Sabe que ao dizer ao homem que escolherá o Público o outro, só para o contrariar, vai pedir-lhe o JN. Pelo que o nosso deus vendedor de jornais diz o seguinte ao homem: «Olá, bom dia! Hoje o senhor vai querer o JN

Imediatamente, o homem fica contrariado e pega num exemplar da MaxMen.

O nosso vendedor de jornais omnisciente fica atordoado — Ora bolas! Mas este gajo atreve-se a contrariar a minha previsão? Aqui estou eu, um ser omnisciente num universo determinista... mas que treta! Parece que a partir do momento em que intervenho no mundo deixo de conseguir prever em absoluto o que pode acontecer. Se meto as mãos no mundo perco a omnisciência.

Então o deus vendedor de jornais decide servir-se da sua omnipotência para obrigar o próximo cliente a comprar o jornal de acordo com a previsão — vai impor o fatalismo, suspendendo as leis que regem o mundo físico. Fica assim satisfeito porque a sua previsão se cumpriu sem falhas. Mas então ocorre-lhe o seguinte:

— Ora bolas! Continuo a perder a minha omnisciência! Embora tenha obrigado este gajo a seguir a previsão que fiz, com base no meu conhecimento das leis que regem este mundo, impedindo-o de me surpreender, reagindo à nova variável introduzida pela minha intervenção, continuo sem saber o que raios poderia ele fazer se eu interviesse e lhe dissesse que ele ia comprar a Visão. Não tenho como saber se ele não pegaria na Playboy para me chatear. Parece que ou preservo a minha omnisciência, abstendo-me de intervir no mundo, abdicando assim da minha omnipotência, ou preservo a omnipotência, abstendo-me de exercer a omnisciência. Mas que seca!

Esta minha pequena história baseia-se numa nota que o Miguel Amen escreveu no blogue dele, sobre a distinção entre fatalismo e determinismo. Limitei-me a criar outro ambiente ficcional e a aplicar o raciocínio à filosofia da religião, para ver se isto não capta uma inconsistência na atribuição simultânea das propriedades da omnisciência e da omnipotência ao mesmo ser, além de distinguir o determinismo do fatalismo.

Quanto a esta distinção, vemos que ao exercer a sua omnipotência, o deus vendedor de jornais suspende as leis que regem o mundo físico e a acção de comprar o jornal de acordo com a previsão deixa de ser um acontecimento meramente determinado para ser predeterminado. Ora, quando o cliente anterior comprou a MaxMen, a sua acção não deixou de ser determinada pelas leis que regem o mundo determinista onde estão o cliente e o nosso deus vendedor de jornais. Simplesmente o último não foi capaz de prever a acção determinada do outro por ter intervido no mundo, ao dizer-lhe qual seria a sua escolha. De nada lhe serviu saber que o indivíduo tinha uma predisposição para contrariar as sugestões recebidas.

Ou o vendedor de jornais divino sabe o futuro porque o mundo é determinista e sendo omnisciente ele tem todas as variáveis que há para saber, ou sabe-o porque impõe o fatalismo, suspendendo as leis que regem o mundo, mas continua sem saber o que aconteceria caso se abstesse de intervir.

Suspeito que a possibilidade de mostrar que esta minha história não funciona como indício de inconsistência entre essas duas propriedades estará no modo como concebemos que um ser omnisciente e omnipotente é também eterno. Mas para ser franco, ainda não reflecti o suficiente nesta questão. Contudo, à partida não me parece que colocar o vendedor de jornais fora do tempo fosse resolver o dilema de o forçar a escolher entre a omnisciência ou a omnipotência.

7 comentários:

  1. Caro Vitor,

    Para ser franco, a história parece-me falaciosa.

    Se esse deus fosse de facto omnisciente, teria dito “JN” e ao mesmo tempo pensado “este gajo vai escolher o Público”. Logo, teria acertado.

    Penso que a falácia está no facto de a história tentar fazer passar que deus, ao crer numa coisa (e sendo omnisciente, as suas crenças são verdadeiras), vai alterar a ordem dos factos e, logo, essa coisa em que ele crê deixa de ser verdade e ele deixa de ser omnisciente.

    Temos algo como

    a) se deus crê em algo, esse algo é verdadeiro
    b) existe pelo menos um caso (o da história) em que o facto de deus crer em algo vai implicar o contrário desse algo
    c) logo deus não pode ser omnisciente

    A premissa b) não está correcta, uma vez que o que se passa na realidade (leia-se “na história”) é que não é o facto de deus crer em algo que vai implicar o contrário desse algo, é sim uma acção de deus que tem esse efeito. Mas deus pode muito bem tomar uma acção (dizer “tu queres o JN, não é?”) sabendo que o cliente vai escolher o contrário. Logo, a história não prova que deus não pode ser omnisciente e omnipotente ao mesmo tempo.

    Não sei bem se fui claro…

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  2. Vítor,

    Antes de mais acho estranho um deus omnisciente ficar espantado com o que quer que seja =)

    E acho que o argumento do jquintas é perfeitamente válido. Um deus omnisciente sabe que ao sugerir algo a uma pessoa (que vai contrariar a sugestão) vai provocar uma alteração da escolha inicial não manipulada. Inclusivamente vai saber qual é a escolha manipulada pela sugestão. Simplesmente para conseguir acertar na decisão não a pode anunciar.

    Não sei qual o nome deste cenário, mas é o equivalente a:

    Responde-me à seguinte pergunta com sim ou não sem mentir - a tua resposta a esta pergunta é não?

    Simplesmente não é solúvel. Não tem a ver com omnisciência ou omnipotência.

    Quanto à segunda situação, de usar a omnipotência, ele fica a saber à mesma o jornal que ele iria escolher se lhe anunciasse qual seria o que tencionava escolher. Simplesmente porque saberia à mesma qual o resultado de lhe anunciar a escolha (ou seja, a escolha alternativa). Porque era omnisciente =)

    Não sei se omnisciência e omnipotência são mutuamente esclusivas, mas esse argumento não serve.

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  3. A ideia é a de que só há duas maneiras de o comportamento do cliente se ajustar à previsão do deus:

    a) este não lhe comunica a previsão, e o comportamento do cliente é concordante com a previsão inicial, sem interferência (compra o Público).

    b) o deus comunica a previsão e obriga o cliente a comportar-se de acordo com a previsão (compra p JN). Assim, o acto de comprar o jornal deixa de ser apenas determinado (livre expressão das leis da física e do estado anterior do mundo) para ser predeterminado (fatalismo) — faça o cliente o que fizer ele, fatalmente, agirá segundo foi predestinado por deus.

    Dito isto, vou ter de rever completamente a experiência mental, porque há de facto a sensação de que algo está errado.

    Em todo o caso, a ideia é que colectivamente pudéssemos construir, se possível, a partir daqui, uma experiência mental que captasse esta inconsistência na atribuição simultanea das duas propriedades. Se não com a forma proposta, pelo menos com algumas alterações. Ou então pô-la completamente de lado.

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  4. Ok, vejamos:

    Ou o deus continua eternamente a dizer ao homem: você vem com intenção de comprar o DN, mas vai acabar por escolher o JN para me contrariar, mas se digo isto voce escolhe o (para abreviar: msdiveo) Publico, msdiveo Times, msdiveo Spiegel, etc....

    Ou pára num dado momento e anuncia a previsão e o cliente vai sempre fazer outra escolha para o contrariar. A única maneira que tem de introduzir uma previsão (profecia) no mundo e fazer que a profecia se cumpra, é impondo o fatalismo. De nada lhe adianta ter criado um universo determinista porque as previsões só funcionam na medida em que ele se abstenha de intervir no mundo. Se introduz a profecia, tem ao mesmo tempo de forçar a ocorrência do acontecimento (fatalismo).

    Bem, talvez isto não se aplique para mostrar que a omnisciência e a omnipotencia são incompatíveis... talvez apenas sirva para diferenciar determinismo de fatalismo. Nesse caso estarei enganado. Vou ter de ver isto outra vez.

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  5. Vitor,

    Não tenho dúvida que a Omnipotência e a Omnisciência, tal como tudo o que pretende ser "perfeito" ou "infinito", é dado a muitos paradoxos e incompatibilidades.

    Dito isto, e ainda no âmbito de uma reacção instintiva e pouco pensada, não me parece que haja incompatibilidade entre as duas. Não me parece que por um ser ser omnisciente não possa se omnipotente, e vice-versa.

    A omnisciencia é algo sobre o conhecimento, um acto íntimo e mental, que não tem impacto no mundo exterior a não ser que despolete uma acção.

    Parece-me que onde tu estás a chegar é a um dos clássicos paradoxos da omnipotência. Deus não pode intervir num mundo em que ele estabeleceu as regras que estão na base de todos os eventos (é isto o determinismo? atenção que sou leigo nisto, especialmente nas terminologias. Mas vou aprendendo...)sem quebrar essas regras, logo, isto é algo que deus não pode fazer, logo deus não é omnipotente.

    Mas este tipo de incomapibilidades "lógicas" da omnipotência fica resolvido quando definimos omnipotência como "capacidade de fazer tudo o que não seja logicamente impossível" (o clássico "fazer um círculo quadrado", etc).

    A omnipotência é de facto dada a incompatibilidades, mas penso que não o é com a omnisciência (por esta se tratar de um "acto" puramente íntimo e mental).

    O que é que te parece?

    Já agora, por vezes posso demorar uns dias a reagir aos comentários. Isso deve-se ao tempo disponível, não é um abandono da discussão a meio.

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  6. O Michael Martin tem o seguinte argumento, que não é sobre a inconsistencia entre a omnisciencia e a omnipotencia mas entre a omnisciencia e a imaterialidade de deus:

    Se um ser é omnisciente, nenhum ser inomnisciente pode saber coisa alguma que o ser omnisciente não saiba.

    Há 3 formas de conhecimento: proposicional, performativo e por contacto. Quando pensamos na omnisciencia de deus pensamos apenas no conhecimento proposicional. Mas por exemplo, "saber andar de bicicleta" é um conhecimento irredutível a conhecimento proposicional. "conhecer a luxúria" é um conhecimento diferente de ter proposições verdadeiras acerca da luxúria, "conhecer a pobreza" etc. Posso saber todos os factos acerca da pobreza sem nunca ter conhecido a pobreza, no sentido bíblico de "conhecer" (por contacto).

    Ora, sendo incorpóreo, deus não pode ter conhecimento performativo nem por contacto, apenas proposicional.

    Quanto à experiência: talvez tenhas razão. Acho que esta experiência capta mais um problema lógico da omnipotencia do que um conflito entre omnipotencia e omnisciencia, mas ainda tenho de a rever. Vamos tentar arranjar uma experiência que funcione melhor.

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