18 de setembro de 2008

Para pensar

A propósito de alguma discussão gerada em torno da citação de Appiah que aqui postei, lembrei-me de lançar um tópico muito simples, mas que exige uma discussão articulada e séria. O exercício proposto para os leitores é o seguinte: a proposição expressa pela frase "Todas as verdades são relativas" é falsa ou verdadeira? Deixem as vossas respostas na caixa de comentários. Obrigado.

38 comentários:

  1. A verdade da frase implica a sua falsidade. Se todas as verdades forem relativas, também a frase é uma verdade relativa; mas se é uma verdade relativa então para algumas pessoas a frase é falsa.

    Logo, se for verdade que todas as verdades são relativas, então para alguns em determinados contextos esta frase é falsa.

    Conclui-se que a verdade da frase implica a sua falsidade, é auto-refutante.

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  2. Caro António Parente, uma coisa é uma frase ser auto-refutante, outra é ser auto-referente.

    Se a frase "Todas as verdades são relativas" for verdadeira, então a sua verdade é também relativa, mas a verdade da frase não implica que algumas verdades não são relativas - isto sim, seria auto-refutante.

    No meu entender há a discutir é se uma verdade pode sequer ser relativa, mas isto só depois de serem apresentadas as definições que se estão a considerar, na questão colocada, de ambos os conceitos, verdade e relatividade.

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  3. Definamos verdade relativa assim: uma verdade é relativa se, e só se, é falsa de alguns pontos de vista. Note-se, isto é diferente de definir assim: uma verdade é relativa se, e só se, é VISTA como falsa de alguns pontos de vista. Esta segunda definição não é apropriada porque nenhum filósofo irrelativista a negaria.

    Com essa definição, raciocinemos, fazendo P ser a frase “Todas as verdades são relativas”. Se P for verdadeira, P é falsa de alguns pontos de vista. Se P for falsa de alguns pontos de vista, a sua negação é verdadeira de alguns pontos de vista. A negação de P é “Algumas verdades não são relativas”. Portanto, a verdade de P implica que algumas verdades não são relativas de alguns pontos de vista. O que por sua vez quer dizer que algumas verdades não são falsas de alguns pontos de vista. Mas isto é o contrário do que se pretendia provar, que era que todas as verdades são falsas de alguns pontos de vista. Logo, a afirmação P é auto-refutante.

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  4. Um defensordo relativismo radical deve, pelo menos, defender que todas as verdades são relativas. Ora, se for verdade que todas as verdades são relativas, há pelo menos uma verdade que não é relativa que é precisamente a que está na base: "todas as verdades são relativas", razão pela qual compreendemos que o relativismo, pelo menos na sua versão mais radical não se aguenta racionalmente.

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  6. "Definamos verdade relativa assim: uma verdade é relativa se, e só se, é falsa de alguns pontos de vista. Note-se, isto é diferente de definir assim: uma verdade é relativa se, e só se, é VISTA como falsa de alguns pontos de vista."

    Você que dizer que há pontos de vista sobre a verdade, desde os quais ela não é vista? O que é uma verdade não-vsta? O que é um ponto de vista a partir do qual não se vê?

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  7. Caro Edson,
    Creio que está a fazer algumas confusões com as palavras desnecessárias e pouco vantajosas para a compreensão do problema que coloquei no post. Se tivermos que decifrar palavra a palavra qual o ponto a que chegamos? Até porque é muito simples: se admitirmos que a verdade depende dos pontos de vista, é admissível que existe verdade não vista por alguns pontos de vista. Isso não tem nada de especial.

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  8. Ora, se partindo da premissa que a frase é verdadeira chego a uma auto-refutação...

    E se eu partir da premissa contrária e disser que a frase é falsa?

    Nesse caso, então todas as verdades são não-relativas, isto é, são absolutas, isto é, as verdades são verdades para toda a gente.

    Mas nesse caso se uma verdade é verdade para toda a gente, deveria ser evidente e consensual. Para que é necessário sequer se pôr a questão?

    Porque é que sendo as verdades absolutas não as alcançamos?

    Ou será que afinal é uma verdade absoluta que todas as verdades são absolutas?

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  9. A negação da frase não nos diz que só existem verdades absolutas. Diz-nos apenas que existem verdades absolutas, mas que podem co-existir com verdades relativas.

    Há alguma razão para podermos descartar esta co-existência?

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  10. Musicólogo,
    Coloca uma questão interessante e que é comum nas pessoas quando se questionam e estão intrigadas:
    "Porque é que sendo as verdades absolutas não as alcançamos?"
    Curiosamente existem verdades absolutas e que são alcançadas e outras que são motivo de discussão. Por exemplo, é uma verdade absoluta que o musicólogo escreveu um comentário a fazer aquela pergunta. E é uma verdade absoluta que eu tenho um PC à minha frente. Num outro sentido, em regra, os filósofos estão mais preocupados com a discussão e o caminho para a verdade, do que propriamente com o alcançe da mesma. E ainda num outro sentido, é um facto que as pessoas querem saber verdades e não falsidades, pelo que é natural que a procurem - a verdade.
    abraço

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  11. Na sequência do raciocínio do Desidério penso que só falta mostrar que a tese contraditória da inicial,

    (1) algumas verdades não são falsas de alguns pontos de vista

    é equivalente a

    (2)de alguns pontos de vista, algumas verdades não são falsas de alguns pontos de vista.

    Isto porque na sequência do raciocínio apresentado parece que chegamos a (2) e não a (1).
    Nomeadamente, quando se diz que "a verdade de P implica que algumas verdades não são relativas de alguns pontos de vista", pela definição de verdade relativa, isto é equivalente a dizer que a verdade de P implica que algumas verdades não são falsas de alguns pontos de vista, de alguns pontos de vista [ou, se isto assim parecer mau português, coloque-se a expressão 'de alguns pontos de vista' no ínicio da frase, como em (2)].

    Será, contudo, que há aqui apenas uma aparente predicação de 2ª ordem? Pode o relativista contra-argumentar por aqui, se a predicação não for redutível?

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  12. É preciso não fazer algumas confusões. A tese relativista consiste em relativizar a verdade aos agentes cognitivos, às pessoas e ao que elas pensam. A tese relativista não é a ideia trivial de que muitas vezes pensamos coisas falsas pensando que eram verdadeiras. A tese relativista é incompatível com o erro porque identifica a verdade com o que as pessoas pensam que é verdade. O apelo do relativismo, a razão pela qual tantas pessoas desavisadas tomam o relativismo como óbvio é porque não distinguem as seguintes duas afirmações:

    1) As verdades são relativas.
    2) O que as pessoas pensam que é verdade é relativo.

    2 é uma trivialidade que qualquer pessoa aceita, mas 1 é parecida com 2 quando não nos damos ao incómodo de tentar pensar com cuidado. Daí que tanta gente defenda o indefensável, e até ache estranho que haja quem os conteste: é que defendem sem se aperceber 1, mas têm de facto em mente 2.

    Do facto de uma verdade ser “absoluta” (este termo é muito mau) não se segue que é auto-evidente. Dizer que uma verdade é irrelativa (um termo melhor) é apenas dizer que o que faz um pensamento ser verdadeiro ou falso é a realidade e não o próprio pensamento das pessoas. Aliás, é por isso mesmo que as verdades raramente são auto-evidentes; se as verdades fossem relativas ao que pensamos seriam auto-evidentes, porque para um pensamento ser verdadeiro bastaria que eu o considerasse verdadeiro, nada mais. Pensemos por exemplo na seguinte frase: “A besta do Desidério escreveu este comentário”. Isto é verdade ou falso, independentemente do que as pessoas pensarem, mas daqui não se segue que é auto-evidente: um esquimó não tem maneira de saber se isto é verdade ou falso, quanto mais saber de maneira auto-evidente que é verdade!

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  13. Desidério, não é a primeira vez que você defende esse conceito de relativismo. Você poderia dar algum exemplo de filósofo relativista nesse seu sentido? Eu não consigo pensar em nenhum. Há várias formas de relativismo, mas não conheço nenhum que seja incompatível com o erro.

    Além disso, você fala com a maior naturalidade de uma realidade não-proposicional ou extra-mental, que é o que faria verdadeiros ou falsos os nossos pensamentos, como se o realismo fosse ele mesmo uma verdade absoluta ou "irrelativa".

    Aliás, por que irrelativa é um termo melhor que absoluto? Relativo é um termo ruim porque, para ser empregado com sentido, é necessário indicar os relatos, ou seja, os termos da relação: relativo a x. Mas absoluta significa justamente a irrelatividade total, a independência completa relativamente ao que quer que seja.

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  14. Gonçalo:

    "A negação da frase não nos diz que só existem verdades absolutas. Diz-nos apenas que existem verdades absolutas, mas que podem co-existir com verdades relativas.

    Há alguma razão para podermos descartar esta co-existência?"

    A negação da frase diz que algumas verdades não são relativas. Mas isto é precisamente o que aceita o anti-relativista, e o que o relativista não pode aceitar.

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  15. Musicólogo, só agora vi isto:

    "E se eu partir da premissa contrária e disser que a frase é falsa? Nesse caso, então todas as verdades são não-relativas, isto é, são absolutas, isto é, as verdades são verdades para toda a gente."

    Não. A negação de "Todas as verdades são relativas" não é "Nenhuma verdade é relativa", mas sim "Algumas verdades não são relativas". Afinal, a negação de "Todos os homens são louros" não é "Nenhum homem é louro" mas sim "Alguns homens não são louros".

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  16. Desidério,

    "A negação da frase diz que algumas verdades não são relativas. Mas isto é precisamente o que aceita o anti-relativista, e o que o relativista não pode aceitar."

    Percebo e concordo. A conclusão a que podemos chegar até agora é: existem de certeza verdades absolutas e existem possivelmente verdades relativas. O que eu perguntava era, será que podemos dizer "não existem verdades relativas"?

    E já agora, se a resposta for negativa, existe algum exemplo simples duma verdade relativa?

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  17. Eu não conheço um só exemplo de uma verdade relativa. O conceito de verdade relativa é uma confusão. Tudo o que as pessoas têm em mente é ideias que umas pessoas consideram verdadeiras e outras falsas. Nada mais.

    O mais próximo que há de verdade relativa é o tipo de anti-realismo de Dummett, mas está muito longe disso. Consiste apenas em dizer que certas afirmações não têm valor de verdade porque o mundo não está adequadamente estruturado para as tornar verdadeiras ou falsas.

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  18. Não pretendi afirmar que havendo verdades irrelativas (mesmo que raras) estas sejam auto-evidentes.De modo mais claro, o que quis perguntar foi: existindo uma única verdade irrelativa esta atinge o falibilismo?

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  19. Não atinge o falibilismo. Dizer que nenhuma verdade é relativa não é dizer que todas as verdades são conhecidas. Nem é dizer que sempre que pensamos que conhecemos algo, o conhecemos de facto. O falibilismo apenas afirma que sempre que pensamos que conhecemos algo não podemos ter garantias de que não estamos enganados.

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  20. "[S]empre que pensamos que conhecemos algo não podemos ter garantias de que não estamos enganados."

    Aplicando essa tese sobre ela mesma, tem-se que:

    Sempre que se pensa que sempre que se pensa que se conhece algo não se pode ter garantia de que não se está enganado.

    Mas se você não tem garantia de que esteja certo quanto à própria tese falibilista, por que devemos lhe dar ouvidos?

    Você não tem garantia de que A = A?

    Se você responder que uma coisa é a verdade [necessária?, irrelativa?] A = A e outra é o seu conhecimento [provável?, contingente?, injustificado?, relativo?] dessa verdade, então pergunto: como pode saber da existência de verdades absolutas, objetivas, se nunca tem garantia de nada?

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  21. Olá,
    brevemente. O conceito de verdade relativa não é incoerente nem uma trapalhada, de tal forma que muitos filósofos discutem várias formas de desenvolver teorias semânticas que tratem a relatividade da verdade. O sentido mais evidente e acessivel é de verdade relativa a um mundo possível, em que o mundo possível pertence às circustancias com respeito às quais a verdade de uma proposição é avaliada. Outros, para começar com Kaplan, consideram alargar os parâmetros a tempos, indíviduos, etc. Nada disto é contencioso, nem implica nenhuma forma de posição radical. Recentemente, fiósofos como Max Kölbel, Peter Lasersohn, François Recanati, defendem várias formas de relativismo, alargando os parâmetros admissíveis a padrões de gosto, a informação disponível para determinados agentes, etc. John MacFarlane defende a forma mais radical de relativismo, relativizando a verdade a, por falta de melhor tradução, perspectivas de avaliadores. MacFarlane tem uma teoria semântica séria, bem desenvolvida e coerente.
    De qualquer forma, a rfutação que o desidério dava para a tese generalizada de relativismo não colhe. Essa é o argumento socrático de Platão contra Protágoras, e só sucede sob o pressuposto de que o relativista pretende que a sua afirmação de que tudo é relativo seja absolutamente verdadeira. Se ele admite que essa mesma afirmação é relativamente verdadeira, não se auto-refuta. Sendo assim, o argumento socrático não pode acusar o relativista de se contradizer, sem incorrer em petição de princípio, assumindo uma noção de verdade absoluta, que é precisamente o que estava em causa. pode haver outras razões para duvidar do relativismo, mas infelizmente não é por incoerência que falha.

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  22. Caro Desidério, quando afirmo que todos os planetas possuem um satélite por conta de ter observado milhares de planetas, isso não faz de minha afirmação uma proposição infalível. Há uma possibilidade lógica de encontrar ainda planetas sem satélites, e isso torna uma afirmativa qualquer acerca do mundo falseável, por maior que seja a minha convicção de que ela seja verdadeira, visto que é possível imaginar um falseador potencial. Mas quanto às afirmações da lógica e da matemática, o que as tornam falíveis? Que circunstâncias as falseariam?

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  23. Todas as proposições são infalíveis. Porque se uma proposição é verdadeira, é verdadeira. E mesmo que pudesse ter sido falsa por ser uma verdade contingente, isso não faz da verdade falível. É apenas contingente.

    A falibilidade é uma propriedade de agentes cognitivos que se enganam. O engano é o que acontece quando pensamos que algo é verdade e não o é, ou quando pensamos que algo é falso e não o é, ou quando pensamos que algo é verdadeiro ou falso e o é mas não temos maneira de garantir que não estamos enganados. É com certeza menos provável que estejamos enganados quando pensamos que dois mais dois são quatro do que quando pensamos que Marte tem 9 luas. Mas é menos provável que estejamos enganados quando pensamos que estamos a ver neve à nossa frente do que quando pensamos que a aritmética não pode reduzir-se à lógica. Temos tantas mais probabilidades de nos enganarmos quanto mais complexos forem os raciocínios necessários. Haverá alguma circunstância na qual possamos ter a garantia de não estarmos enganados? Repare que isto é muito diferente de perguntar se há alguma circunstância em que não estamos enganados. Esta última é banal: claro que sim. Mesmo que acreditemos numa verdade por mera sorte, não podemos num certo sentido estar enganados. Mas como poderão seres falíveis ter uma garantia absoluta de que não estão enganados numa qualquer ocasião particular? Só porque temos a certeza? Mas temos muitas vezes a certeza de coisas que depois acreditamos serem falsas. Só porque são imediatas e simples? Mas muitas vezes nos enganamos mesmo nos casos mais simples, como quando estamos a sonhar e pensamos que estamos na praia ao sol quando estamos na cama às escuras.

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  24. Caro Desidério,
    E se formos por uma terceira via - A afirmação é "Todas as verdades são relativas". E a isto eu respondo que a frase é... relativa! Porque no fundo parece ser este o pensamento da pessoa que fez tal acepção, caso contrário ela estaria a mentir se não reconhecesse tal possibilidade. E aí destruímos o paradoxo... ou não?

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  25. Não, Teresa. Em nenhum momento do meu argumento pressuponho que a verdade é absoluta. O relativista terá de dizer que passo do meu argumento está errado. Não basta dizer em geral que eu estou a pressupor a verdade irrelativa para o refutar a ele. Eu tive precisamente o cuidado de procurar não cair nesse erro.

    E é claro que há vários sentidos de relativo em que algumas verdades ou todas são relativas. Por exemplo, todas as verdades contingentes são relativas ao mundo actual, no sentido em que seriam falsas se o mundo actual fosse diferente do que é. Mas isto é trivial.

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  26. Se dissermos que P é relativa, então P é falsa de alguns pontos de vista. Dado que P é a tese relativista, ele teria de admitir que a sua posição é falsa de alguns pontos de vista. Mas isso é em parte o que o irrelativista defende: que a posição do relativista é falsa do ponto de vista do irrelativista.

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  27. Eis uma verdade que não é relativa (ou, se se preferir, uma verdade absoluta):

    O actual primeiro ministro de Portugal tem hoje (20-9-2008)trinta anos de idade ou não tem trinta anos de idade.

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  28. Cara Teresa,
    Fiquei ainda com algumas reservas ao ler o seu comentário.
    Se todas as verdades são relativas for verdade, então há incoerência, já que pelo menos esta verdade não pode ser relativa. Como sair deste impasse?
    Ainda fiquei com outra dúvida ao ler a parte final do seu texto: se o relativista ao afirmar que tudo é relativo é uma verdade relativa, qual o interesse dessa afirmação? É que nesse caso eu posso sempre afirmar que “nada é relativo” é uma verdade absoluta que bate a verdade relativa de que “tudo é relativo”. Isto só nos conduz ao silêncio, não?
    Isto parece realmente denunciar uma incoerência racional.

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  29. Bom, recapitulemos então.
    O relativista diz que todas as verdades são relativas. Interpretemos isto como defendendo que sempre que vemos 'verdade' devemos ler 'verdade-para-x'. Interpretemos assim isto como 'para qualquer P, P é verdade- para-x'. Como eu disse, o argumento que o desidério apresenta colhe se o relativista quer que 'para qualquer P, P é verdade-para-x' é (absolutamente) verdadeira, ou nós achamos que colhe porque nós assumimos que é isso que ele quer dizer. Mas e se não é? E se a sua própria afirmação for verdadeira-para-x? Segue-se que será falsa-para-y? Se for verdadeira-para-x e falsa-para-y, continua a não se auto-refutar. Afinal, o que ele dizia era que para qualquer P, P é verdade-para-x, o que é compatível com que seja falsa-para-y.
    Existem contudo problemas com falar de relativismo assim em geral, sem ter em atenção os casos que se alegam apoiar o relativismo, e sem ter atenção a formas sofisticadas de o fazer. O que significa 'ser relativo'? A Maria Baghramian tem um livro sobre o relativismo (Relativism, Routledge), que não entra exactamente no debate contemporâneo mais sofisticado, mas que é bastante iluminador e percorre toda a história da filosofia. Ela faz a distinção entre várias formas de ser relativista, no início. A mim parece-me que uma delas é redundante, pelo que vos aponto apenas três: nem todas as verdades são universais, nem todas as verdades são objectivas, nem todas as verdades são absolutas. A primeira significa que algumas verdades não reunem consenso universal; a segunda que algumas coisas só são verdadeiras com respeito a perspectivas subjectivas e que não faz sentido sequer considerá-las como verdadeiras independentemente de qualquer perspectiva humana. A última, bom, que nem todas as verdades o são absolutamente, que podem ser num momento mas não noutro, ou algo assim. Os três sentidos relacionam-se. As verdades universais são aquelas que *deveriam* reunir consenso. O que justifica isso é que sejam absolutas, parece-me. Mas pode haver verdades que reunam consenso sem serem objectivas. Comparem com as cores. Um objecto é vermelho, parece-nos, objectivamente. Mas na realidade, só tem a cor que tem quando percepcionado por um certo organismo em estado normal boas condições de iluminação. Um organismo com um sistema perceptivo distinto não verá o objecto como vermelho. Portanto, 'x é vermelho´pode não ser objectivamente verdadeira, no sentido em que qdo pensamos nisso vemos que é verdade com relação a um tipo de organismos com certas características, mas é universalmente verdadeira, na medida em que é verdade que, para qualquer organismo..., x será percebido como vermelha. Há propriedades que não são absolutas, e isso não nos preocupa de todo: agora são as 10:48 min. Bom, são estas horas no fuso horário europeu. Noutro fuso horário, não são as 10:48 min. Fora de qualquer fuso horário, a questão não faz sentido, tal como não faz sentido falar da hora em todos os fusos horários. O que as pessoas que incluem mais parâmetros nas circunstâncias de avaliação de proposições fazem é considerar casos de afirmações que não parece fazer sentido dizerem que são absolutamente verdadeiras, ou universalmente verdadeiras, ou objectivamente verdadeiras. Porque sim, mesmo que o argumento contra o relativista generalizado colhesse, nñao se seguia que não há verdades relativas. E se há, o que é interessante é ter um método para distinguir *quais* são, e de que maneira o são, e relativas com respeito a quê. Lamento não poder participar muito mais nesta discussão. de qualquer forma, estive há pouco tempo no mesmo encontro de professores onde o Aires esteve, e fiz uma apresentaação precisamente sobre estes problemas. Penso que sairá o texto em português em algum sítio em breve, para os curiosos.

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  30. "O que as pessoas que incluem mais parâmetros nas circunstâncias de avaliação de proposições fazem é considerar casos de afirmações que não parece fazer sentido dizerem que são absolutamente verdadeiras, ou universalmente verdadeiras, ou objectivamente verdadeiras."

    Não sei se estamos de acordo, mas ao ler isto penso que os casos que aparentam ser verdades relativas, pelo menos no sentido de não serem absolutas, podem ser parafraseados de modo a incluirem o conteúdo que estando omisso dá a tal aparência de relatividade.

    E isto, penso, sem que se possa dizer que as paráfrases exprimam proposições distintas das frases originais.

    No exemplo das horas, 'agora são 10:48', se alguma proposição estiver a ser expressa, incluirá a relação ao fuso horário em questão, o que tornaria a frase 'agora são 10:48' numa espécie de abreviatura de 'agora são 10:48 GTM + 1:00'. Esta última frase (ou uma outra versão mais sofisticada), contudo, já não aparenta ser relativa e será sim uma verdade absoluta (se deixarmos de lado as questões de filosofia da linguagem provocadas pelo uso do 'agora').

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  31. "[DESIDÉRIO:] Haverá alguma circunstância na qual possamos ter a garantia de não estarmos enganados?"

    Sim, há, como demonstraram Agostinho e Descartes: eu não posso duvidar de que estou duvidando agora.

    "Repare que isto é muito diferente de perguntar se há alguma circunstância em que não estamos enganados. Esta última é banal: claro que sim. Mesmo que acreditemos numa verdade por mera sorte, não podemos num certo sentido estar enganados."

    Então vamos torcer para que você esteja com sorte ao fazer essa afirmação! Sim, pois você poderia: 1) estar enganado pensando estar enganado [o que não é o caso, pois tudo indica que pensa estar certo]; 2) estar enganado pensando estar certo; 3) estar certo pensando estar enganado [o que também não é o caso], e, por um simples golpe de sorte, 4) estar certo pensando estar certo.


    "Mas como poderão seres falíveis ter uma garantia absoluta de que não estão enganados numa qualquer ocasião particular?"

    Os homens somos falíveis, claro, uma vez que entre nós não há consenso sobre quase nada e que mudamos de idéia até sobre o que nos parecia certo. Mas disso não se segue a impossibilidade de, em algum caso particular, conhecermos a verdade, ou seja, de se estarmos certo e saber disso.

    Se a verdade é incognoscível [nesse sentido], então a sua dúvida é ociosa, pois ela se funda numa crença subjetiva cujo valor de verdade depende do acaso.

    O falibilismo que você defende é claramente uma forma de relativismo: existe a verdade, mas o nosso "conhecimento" da verdade é relativo à nossa condição de seres falíveis.

    O verdadeiro falibilismo cognitivo não defende essa tese relativista, mas afirma que todos os pontos de vista falíveis são relativos à razão, ou, em outras palavras, que há um ponto de vista infalível: o da razão.

    A afirmação de uma verdade a-racional, da qual não podemos ter um conhecimento absolutamente fundado, garantido, infalível, é autocontraditória.

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  32. Teresa,
    Vamos supor que aceito a explicação que a Teresa deu. Se assim for, tenho a liberdade de deambular por uma série de argumentos sem ponto fixo a que me agarrar, como um peixe dentro de água. Claro que a questão do relativismo nos remete para reflexões metafísicas do que é que é a verdade. Mas isso acontece em qualquer área do conhecimento com a filosofia à cabeça. Mas há um aspecto fundamental quando pensamos que é saber exactamente donde partimos, caso contrário entramos em regressão infinita. Tenho muita dificuldade em racionalmente aceitar essa circunstância e procuro aceitar o que racionalmente nos é possível conceber. Qualquer tese é passível de revisão, mas estou convencido que os mundos possíveis são uma ferramenta útil, mas muito discutível.
    Bem, não sei se fui muito claro, mas estou a fazer o exercício de aproveitar os seus comentários para tentar compreender melhor o ponto da discussão. Outra coisa: sei que a Teresa usou a referência bibliográfica para tentar mostrar um ponto da discussão, mas isso vale tanto como o que a Teresa explicou, pois o livro pode estar errado 
    obrigado

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  33. Tens razão, Teresa. Se P for apenas verdade para o relativista mas não para mim, a posição não é estritamente auto-refutante, mas torna-se irrelevante porque não faria sentido da minha parte pretender que P é falsa para ele, pois eu sei que ele considera P verdadeira e não tenho razões para pensar que está a mentir. O que conta é que nesse caso a posição relativista não desaloja a minha posição; pelo contrário, implica-a: implica que para algumas pessoas P é falsa. Para mim, por exemplo.

    Há maneiras sofisticadas de desenvolver uma teoria relativista da verdade? Sim. Funcionam? Não me parece. Porquê? Porque se baseiam em duas confusões, uma mais elementar e outra mais sofisticada, mas que se relacionam entre si. A elementar é confundir 1) “alguém pensa que P é verdadeira e tem boas razões para isso” com 2) “o que faz P ser verdadeira é alguém pensar que P ser verdadeira”. A outra é argumentar a partir de uma consideração parcial do que faz P ser verdadeira para depois dizer que P é relativa a algo. Este é o exemplo típico da cor. A cor não é uma propriedade intrínseca, mas sim relacional. Segue-se que evidentemente mudando os relata mudas o valor de verdade. Daqui segue-se que a cor dos objectos é relativa em algum sentido interessante? Não. Segue-se apenas que a cor dos objectos é relativa aos agentes cognitivos, mas isso é tão trivial como dizer que a propriedade de ser irmão é relativa aos irmãos que estão na relação: se eu tiver um irmão mais velho a relação é de uma maneira, se eu tiver um mais novo é de outra. Sempre que consideramos erradamente o que faz uma verdade ser verdadeira e depois somos forçados a ver que é outra coisa que a faz ser verdadeira ficamos com a impressão de que relativizámos a verdade de uma maneira relativista, mas isto é ilusão. A única maneira relativista de relativizar a verdade é relativizar todas as verdades ao que os agentes cognitivos pensam que é verdade. Relativizar a verdade a fatias maiores da realidade (agentes mais emissões de luz, no caso da cor) é algo perfeitamente conciliável com versões sofisticadas de realismo.

    Mas aguardemos o teu artigo para passar a discussão para outro nível.

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