15 de setembro de 2008

Pode um ateu ser fundamentalista?



Ao ler o livro de 2007 de A. C. Grayling, Against all gods, Six polemics on Religion and an Essay on Kindness, lembrei-me de colocar aqui um interessante problema levantado num dos capítulos do livro e que gostaria de deixar à consideração dos leitores: Pode um ateu ser um fundamentalista? Escrevam as vossas teses devidamente argumentadas na caixa de comentários.

13 comentários:

  1. Em primeiro lugar, precisamos de uma definição explícita de "fundamentalismo". À falta de uma melhor, proponho esta — "recusa de rever os fundamentos ou as crenças mais básicas". Digamos que o fundamentalismo é um anti-revisionismo por princípio. Quem está habituado às macaquices da política sabe que normalmente se abomina o revisionista não em função de as suas ideias serem melhores ou piores mas pelo simples facto de estar a rever alguma crença fundamental.

    Dito isto, podemos reformular assim a pergunta original: "pode um ateu ser o género de pessoa que recusa rever as suas crenças fundamentais?"

    Agora precisamos de uma definição explícita de "ateu". O que é um ateu? À falta de melhor, fiquemos com isto — "um ateu é alguém que crê na inexistência de deuses pessoais ou entidades sobrenaturais de qualquer género, pessoais ou impessoais".

    A resposta parece ser "sim". Os ateus são como os chapéus: há muitos! Um ateu fundamentalista é alguém que, como qualquer outro fundamentalista, acredita na verdade de certas proposições, independentemente dos argumentos que as sustentam ou refutam. Para qualquer crença, é possível ter essa crença com base em argumentos (não interessa aqui a força dos argumentos nem a verdade da crença) ou com base na fé.

    Ser ateu, infelizmente, não é estar vacinado contra a ideologia e os modos ideológicos de aceitar e defender coisas.

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  2. Pode, sim. E pegando na definição do V.G. de fundamentalista como "recusa de rever os fundamentos ou as crenças mais básicas", penso que é inevitável chegarmos a essa conclusão. E contra mim falo, pois assumo-me claramente como ateu. E nas duas vertentes que o V.G. também avançou: sou ateu pela força dos argumentos (acho que os melhores argumentos estão do lado de quem defende a não-existência de Deus) e pela força da fé (não acredito na existência de Deus). Se pela primeira posso não ser fundamentalista, pela segunda sou-o de certeza.

    Porém, o que me apetece lançar aqui é: será todo o fundamentalismo, visto por esse prima, mau? Alguém que tenha com crença básica o "não matar" e que se recuse a rever esse crença pode ser apelidado de fundamentalista, mas isso será mau?

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  3. Há que ter cuidado, vamos lá ver:

    Acreditar não é o mesmo que ter fé. A fé é apenas um modo de acreditar nas coisas. Como o entendo, a fé é necessariamente fundamentalista, pois ter fé é precisamente adoptar a atitude de que em relação a doutrina x, não se pode rever o fundamental. Nesse sentido a fé não é só religiosa. Ter fé é ter a convicção de que sabemos algo quando na verdade não sabemos, é apenas um modo impejorativo de fazer isto, procurando evitar as justificadas objecções.

    Se você adopta o fundamentalismo então recusa sujeitar as suas crenças mais básicas à argumentação. Mas se não aceita isto, como pode saber que dada crença ou acção é boa ou má? No fundamentalismo essa questão nem sequer se coloca, alguém simplesmente lhe repete até o emprenhar pelos ouvidos, com maiúsculas e pontos de exclamação duplos, que é ÓBVIO QUE É BOM, etc.

    Que um fundamentalismo tenha consequências agradáveis nada altera a imoralidade do fundamentalismo. Um excelente exemplo disto é o armador de Clifford. Mesmo que o seu navio não naufragasse, como acontece no exemplo, o armador não seria menos culpado por ter confiado cegamente no bom estado do seu navio, em vez de o inspeccionar.

    Agora outra experiencia mental:

    Imagine que a única maneira de impedir o assassinato de várias pessoas é matar um agente de qualquer serviço secreto, não importa. Ainda tem dúvidas de que pode ser mau ser fundamentalista do "não matarás"? Quanto a mim, a vida de um torcionário vale menos do que uma vida inocente... mas isto talvez porque sou um sacana consequencialista.

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  4. Para evitar desde logo digressões ociosas acerca do consequencialismo e a minha afirmação de que as consequências agradáveis do fundamentalismo não alteram a sua imoralidade... vamos clarificar isto:

    A consequência agradável no caso do armador de Clifford não decorre das crenças fundamentalistas do armador. Não foi a sua fé que deu lugar à viagem segura. Mas no caso em que o navio naufraga, isso decorre obviamente da crença cega do armador. A viagem segura foi um mero acidente — podia ter naufragado e, à luz de um raciocínio consequencialista, era de esperar que naufragasse.

    O exemplo do armador não é perfeito, pois no texto de Clifford o armador ainda se debate com a consciência, pelo que não será um caso de fundamentalismo puro. Tão-pouco o bom estado dos navios é um objecto corrente de fundamentalismos. Estes tendem a ser acerca de coisas mais intangíveis do que navios — o regime político perfeito ou o caminho para a salvação, etc.

    Bem, o interesse da nota era o seguinte: A ideia de que o facto de as consequências agradáveis não alterarem a imoralidade do fundamentalismo não é uma ideia deontológica, pois não se está a defender que a crença cega é imoral em si mesma. O que torna o fundamentalismo imoral continua a ser um raciocínio consequencialista. Se os fundamentalismos fossem sempre inócuos nem valia a pena discutir os fundamentalismos: a cada um o seu veneno. O problema é que o fundamentalismo é um veneno que não destrói apenas os que o engolem de bom grado.

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  5. Caro V.G.:

    Sobre a sua última experiência de pensamento: se formos kantianos em vez de consequencialistas, será tão mau matar o torcionário quanto os inocentes. E o consequencialismo padece de vários problemas, porque não é assim tão líquido avaliar se as consequências de uma acção (neste caso, matar o torcionário para salvar os inocentes) são boas ou más. Vamos supor que esses inocentes que salvámos se tornarão, no futuro, também eles torcionários. Aí, a consequência da nossa acção, que até a um certo tempo x era tida como boa, tornou-se má.

    Ou seja, o consequencialismo também se baseia num fundamentalismo: o de que a nossa acção é boa se as consequências dessa mesma acção forem boas. Mas esta segunda parte da argumentação consequencialista baseia-se também ela na fé, porque duvido que possamos dizer com propriedade QUANDO é que as consequências de uma acção são - incontestavelmente - boas, visto faltar-nos o quadro completo. Portanto, até um consequencialista pode ser fundamentalista: acredita na tese de que a consequência da acção x é boa, quando na verdade pode não o ser. Mas isto é - volto a perguntá-lo - mau?

    Não sei se fui completamente claro nesta minha alegação. O que o V.G. acha?

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  6. Continuo a pensar que você confunde "acreditar em x" com "ter uma crença fundamentalista de que x".

    Não é preciso ter um "quadro completo" para se ser consequencialista. Basta ter um quadro razoável. Talvez o meu filho se torne um Hitler, mas não tenho como prever essas coisas. O melhor que posso fazer é dar-lhe a melhor educação que consiga. Seja o que for que esses inocentes tornados torcionários façam enquanto torcionários, isso não foi causado pela minha acção de os proteger. Caso contrário teríamos de dizer que a foda que deu origem a Hitler foi um acto imoral, o que é ridículo. Provavelmente, no momento em que esse acontecimento se deu, a opção de o fazer aumentava a quantidade de felicidade no mundo, ao contrário de não o fazer — mais um orgasmo. Não lhe podemos imputar as acções do Adolfo já crescido.

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  7. Imaginemos que os inocentes salvos se tornam torcionários: parece que o raciocínio kantiano é melhor? Mas ele aqui só parece melhor com base noutro raciocínio consequencialista — aqueles gajos vão ser torcionários. O que é autoderrotante. Podemos coloca outra pergunta mais interessante: é moral ser-se kantiano quando ser-se kantiano tem consequências excessivamente más?

    É igualmente provável que os inocentes salvos se tornassem prémio nobel ou que descobrissem a cura para o cancro. Nesse caso o kantiano seria o espécime mais execrável no momento em que recusou matar o torcionário original.

    Mas a questão aqui não tem a ver com estas previsões fantásticas. O raciocínio consequencialista prende-se apenas, naquela circunstância, com o facto de as vidas dos inocentes serem importantes. O facto de serem potencialmente torcionários é irrelevante confrontado com o facto de o torcionário ser efectivamente um torcionário.

    Potencialmente, sou um oboísta, mas um oboísta efectivo continua a tocar melhor do que eu, que nada toco. Um torcionário efectivo é uma má presença no mundo, muito pior do que qualquer torcionário potencial. Um mundo sem torcionários efectivos continuaria a ser um mundo cheio de potenciais torcionários mas seria ainda assim um mundo melhor.

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  8. Caro V.G.:

    Mesmo que não seja preciso ter o quadro completo, como alega, decerto concorda que há uma certa vagueza na acção consequencialista. O que eu quis dizer com o meu comentário anterior foi que até a acção consequencialista se baseia na fé (e creio que fundamentalista): fazemos uma acção x porque cremos que a acção x trará consequências boas. Porém, é muito difícil avaliar racionalmente se a acção x trará efectivamente boas consequências - daí a minha opinião de a fé desempenhar um papel importante no processo. Pegando no exemplo do Hitler que deu, o V.G. não acha que, se os pais do Hitler soubessem que a queca que mandaram traria consequências más, não a teriam dado? (se o soubessem e ainda assim a dessem, aí estaríamos claramente perante uma má acção) Mas, como é óbvio, não há maneira de saberem isso, portanto acreditavam que a queca traria boas - ou, pelo menos, não traria más - consequências. E duvido que estivessem com disposição para rever essa crença (o que nos leva para a definição de fundamentalismo dada por si no primeiro comentário).

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  9. Há vários ateus fundamentalistas famosos. Lembro de dois agora: Nietzche e Richard Dawkins. É comum encontrar pessoas desse tipo em fóruns de sites como Sociedade da Terra Redonda e Ateus.net. Geralmente o ateu fundamentalista tem um modo dogmático de exprimir a sua descrença além de simplificar demais as coisas com a lógica do "eles ou nós":

    religião é veneno, nós somos a cura

    pessoas religiosas não pensam, nós sim

    todos os religiosos são desonestos, nós não

    e aí por diante. O problema dessa lógica burra é que muitos cientistas e filósofos brilhantes foram religiosos.

    Sobre a distinção fé e crença: são duas coisas completamente diferentes.

    Sobre a discussão consequencialismo x kantismo: o consequencialismo tem seus problemas, mas pelo menos nos oferece respostas em situações de decisão moral que o kantismo e as éticas deontológicas de um modo geral simplesmente se calam. Além disso oferece uma possibilidade de explicar porque uma ação é boa ou não em termos compreenssíveis. Afinal, que cargas d água quer dizer que uma ação é boa ou errada em si mesma???

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  10. Caro V.G.: pelo seu último comentário, pareceu-me ter depreendido que estou a optar pelo kantianismo em detrimento do consequencialismo.

    Isso não é verdade! Pessoalmente, considero o consequencialismo uma teoria ética mais completa do que o kantianismo. O que eu quis dizer é que a primeira não está isenta de problemas. E que também tem uma certa base fundamentalista, pois só leva em conta a consequência da acção num dado tempo x. Mas, como venho alegando desde o princípio, não creio que isso seja necessariamente mau.

    Isto faz-me lembrar do problema da indução. Nós cremos que o Sol nascerá amanhã - e não colocamos essa crença em causa. Isto é mau? Não creio que o seja. Da mesma forma, e voltando ao assunto que começámos por debater, não creio que todas as crenças básicas que não aceitamos rever sejam necessariamente prejudiciais. Era isto que eu tentava explicar, aparentemente de uma forma incorrecta, com o desenvolvimento do exemplo do torcionário. Se um consequencialista prefere matar o torcionário porque crê que ao fazê-lo, a sua acção trará boas consequências, ou pelo menos melhores consequências do que a acção oposta - mesmo que isso não ocorra de facto - não vejo o que há de errado nessa crença.

    Bem sei que estou aqui a misturar intencionalismo com consequencialismo, mas não vejo como isto pode ser um obstáculo ao exemplo dado atrás.

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  11. Não percebo por que o consequencialismo teria de ser fundamentalista pelo facto de restringirmos o cálculo das consequências aos limites do razoável. Isso parece implicar que só um ser omnisciente (que teria o quadro completo) poderia ser consequencialista sem ser fundamentalista. O que é estranho.

    Eu posso perfeitamente acreditar na inexistência de deuses porque considero os argumentos a favor da existência de deuses insuficientes ou maus e porque os indícios me parecem sugerir o contrário. Ser fundamentalista é estar convencido de que não há rigorosamente quaisquer circunstâncias que refutariam a nossa doutrina preferida, e continuar a acreditar renitentemente mesmo quando confrontados com a evidência.

    Fundamentalismo é, por exemplo, defender um regime autoritário acusando os crimes dos regimes adversários mas recusando reconhecer a existência dos crimes cometidos pelo regime querido, falando apenas com eufemismos acerca disso — "problemas", "afastamento entre a base e o topo da sociedade" etc — quando se está fartinho de saber que poucas vergonhas ocorrem nesses regimes, mas continuamos a tapar o sol com a peneira.

    Essa será a melhor imagem para um fundamentalista: um tolo de pé, com um peneira apontada para o sol.

    Agora, o mero facto de acreditar em algo não me torna fundamentalista. Basta eu estar disposto a rever as minhas crenças quando confrontado com um argumento cogente. A ingenuidade das pessoas muitas vezes é confundir a determinação em pensar com o fundamentalismo e é comum chamar-se fundamentalista a uma pessoa simplesmente por ela não aceitar sem mais qualquer crença que alguém enuncie.

    Eu acredito que não há deus, simplesmente porque nenhum dos argumentos a favor me convence racionalmente. Ser fundamentalista é acreditar em x ao mesmo tempo que se recusa a discutir os fundamentos de x ou pôr x em causa. Ora, é óbvio que se pode acreditar em deus sem fazer isto, e pode-se acreditar na inexistência de deus sem cair nisto também.

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  12. A subtileza é esta: não é preciso deixar de ser falibilista para ser consequencialista ou outra coisa qualquer. Os consequencialistas sabem que as suas escolhas estão sujeitas ao erro. Mas para ser moral, no consequencialismo, não é preciso ser infalível, basta que tenhamos optado o melhor possível com os indícios disponíveis, dentro de um limite razoável. Se toda a gente fizesse isto já era uma grande coisa.

    Mas uma coisa é certa: a probabilidade de as nossas acções terem boas consequências aumenta quando somos consequencialistas, porque nos esforçamos por ter a melhor compreensão possível das consequências das nossas acções. Convém que a moral sirva para fazer bem (e mal, quando é preciso) a pessoas de carne e osso como nós, caso contrário é redundante e tanto faz chamar-lhe moral como outra coisa qualquer. Por exemplo, se transformarmos a moralidade num mero sintoma da racionalidade, que nem sequer nos compele a fazer as melhores escolhas possíveis.

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  13. Caro V.G.:

    Mais do que separar "acreditar" de "ter fé" (aquilo de que me tem acusado, talvez com razão), penso ser importante refinar a sua definição de fundamentalismo. Há pouco, definiu este como "recusa de rever os fundamentos ou as crenças mais básicas". Isto pode ser precisado, e os seus últimos dois comentários parecem avançar nesse sentido. O que eu proponho é:

    a)fundamentalismo fraco: recusa de rever os fundamentos ou as crenças mais básicas SALVO quando confrontado com informação suficiente e relevante (nas suas palavras, um argumento cogente). Eu sou ateu fundamentalista neste aspecto: creio fervorosamente na não-existência de Deus, e não aceito que coloquem esta mesma crença em causa, SALVO se algum dia me apresentarem uma demonstração inegável da existência de Deus. Sou fundamentalista (fraco) porque continuarei a possuir esta crença, que é básica e íntima, e não estou disposto a revê-la. Valendo-me agora de uma analogia parva: X pode crer na vitória do Sporting hoje sobre o Barcelona, mesmo que o Barça jogue em casa, tenha uma equipa mais forte, etc. Não há uma razão cabal que contrarie aquela crença, embora realisticamente possamos pensar que o Sporting tem poucas hipóteses de realmente vencer. Mas tem algumas, e X não pode ser criticado por crer fervorosamente na vitória do seu Sporting. É neste aspecto que eu argumentei ser fundamentalista (ateu e sportinguista) :), e aleguei simultaneamente que isto não é necessariamente mau. Afinal, creio eu, todos nós temos alguns fundamentalismos - até o consequencialista que acredita que a sua acção será boa porque crê que as consequências serão boas.

    O caso do ateísmo é bom porque não há nada que prove a não-existência de Deus, assim como não há nada que prove a sua existência. Daí que quem crê, seja numa coisa ou noutra, está sempre sujeito ao falibilismo - mas isso não o impede de crer, honesta e fervorosamente. "X crê que Deus não existe e não aceita que essa crença seja posta em causa", tal como "X crê que Deus existe e não aceita que essa crença seja posta em causa" são semelhantes em termos de fundamentalismo (no sentido da definição do V.G.); é preciso é saber se esse fundamentalismo é fraco ou forte, e este é o que passarei a explicar.

    b)fundamentalismo forte: recusa de rever os fundamentos ou as crenças mais básicas MESMO quando confrontado com informação suficiente relevante/argumento cogente. Haverá certamente crentes e ateus que são fundamentalistas desta maneira. Se for provado Deus não existir, um crente fundamentalista forte continuará a alegar que existe; mutatis mutandis para o ateu. Este é um tipo de fundamentalismo nocivo, parece-me, tal como o sportinguista ferrenho que continuaria a crer na vitória do Sporting sobre o Barcelona mesmo no final do jogo, que teria como resultado 2X0 para os catalães.

    Na realidade - e na minha opinião - todos nós temos crenças que não admitimos pôr em causa, principalmente porque desconhecemos a informação que a contrarie. Todos nós somos fundamentalistas no sentido fraco; alguns são-no também no sentido forte. Este último é que é problemático.

    Peço desculpa por me ter alongado, mas penso que esta distinção forte/fraco não é gratuita. O que acha o V.G.?

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