15 de setembro de 2008

semper claritas

 Ao contrário do que é letra comum, o pior inimigo de uma boa escrita é a nossa subjectividade. Já Orwell chamava a atenção para que a boa escrita é como um vidro: para fazermos qualquer coisa legível, temos de combater constantemente a intromissão da subjectividade e dos seus "quirks" que, contrariamente ao que supõe o provincianismo intelectual, é como as calças de ganga: pensamos ser aquilo que mais nos distingue quando é precisamente o que nos torna indistintos da mediania. Toda a gente, sem pensar muito nisso, segue mais ou menos os mesmos "quirks" supostamente muito individualistas: sacrificar a clareza de uma frase só para lá inserir uma palavra preferida — "segmento" é uma delas, mas há uma imensidade de "palavras mágicas" que podemos detectar num mediano trabalho redigido por um aluno de letras (a mim basta ler os meus antigos trabalhos para ver esta miséria franciscana) — ou então procurar a formulação mais bizantina possível para dizer exactamente o mesmo que diríamos, com maior elegância, numa frase curta e simples.

 

Um exemplo desta merdificação da escrita está num tique que se tornou quase norma linguística: usar o adjectivo "problemática" como substantivo: "toda a problemática de..."

 

A motivação para usar este tipo de truques, a meu ver, segundo o recordo do tempo em que redigia trabalhos de 20 páginas sem fazer a mínima ideia do que escrevia, é a seguinte: quando escrevemos "o problema de x", ficamos comprometidos a tornar explícito, com toda a clareza possível, que problema é esse. Quando escrevemos "problemática" estamos a sugerir na mente no leitor uma rede confusa de questões que se interligam magicamente, e esta sugestão como que o desarma e desencoraja de pensar... uma espécie de ataque preventivo que nos impede de ser encurralados e responder a perguntas incómodas, raio de perguntas incómodas, a estragar o lustro do ornamento imbecil de 20 páginas que tanto nos orgulha.

 

A sugestão que deixo, para que não percam o mesmo tempo que eu perdi até perceber o ridículo destas coisas, é que sejam tão claros como possível. Esqueçam as "problemáticas", digam "o problema" e identifiquem-no. Se não conseguem, então pensem outra vez. Esqueçam os truques linguísticos, esqueçam a vossa subjectividade vaidosa, esqueçam os floreados. Dediquem-se ao que realmente interessa: as ideias, a procura pelo conhecimento, pela compreensão real das coisas. A melhor coisa que podemos fazer, ao contrário das pancadas pseudo-rebeldes, que transformam a filosofia numa atitude de desprezo aristocrático pela "utilidade", é ser úteis aos outros, ajudá-los a combater os tiques da subjectividade e descobrir o verdadeiro prazer da descentração, da entrega a uma actividade que faz sentido e não precisa de ademanes e peneiras para simular um sentido que o aristocrata finge desprezar precisamente porque no fundo sabe que não o tem e isso perturba-o.

 

Há imensa coisa útil e fascinante na filosofia, além das "problemáticas" e das falsas questões e da arrogância subjectiva, quando somos suficientemente autónomos e livres para ver além de tudo isto.

 

Não escrevam "problemática" para sugerir uma nuvem de "coisas interligadas". Sejam explícitos. Não sacrifiquem a clareza de uma frase só para lá inserirem as palavras que pensam ser muito inteligentes — normalmente não o são. Não escrevam "dispositivos linguísticos", escrevam "palavras"... Não escrevam "segmento" como quem enche uma árvore de natal com enfeites... Não se deixem fascinar por palavras mágicas. Nada disso é interessante nem útil. E quanto mais cedo o percebemos maior prazer retiramos de qualquer actividade teórica como a filosofia, porque ela passa a ter sentido, em vez de servir apenas para criar separações imaginárias e dar corda à nossa subjectividade. Ser filósofo também é saber  não ser escravo da própria subjectividade, é perguntar: gosto disto, mas por que razão gosto disto? Por que razão me parece bem e não o contrário? Os quirks subjectivos não libertam nem individualizam — massificam. Porque calças de ganga todos vestem.

39 comentários:

  1. Escrever é uma arte. A tentativa de subjulgar esta ação ao credo do objetivo perturba a relação de construção do conhecimento que prezamos no pós-moderno. Sua proposição é interessante para um homem do século XIX. Ser este que tinha todas as certezas do avanço infindo do progresso humano, sob a ótica do europeu, rumo ao objetivo perfeitamente calculável. Agora, voltemos a contemporaneidade, onde o homem perdeu o senso de certezas. Surgem as dúvidas, e dessas as respostas? NÃO! Dessas mais dúvidas.
    A forma como escrevo deve se adequar aqueles com os quais me comunico e, sobretudo, a forma pela qual minha subjetividade elevou-se do caos. Dessa forma, respeito meu ser e o alheio mostrando-lhe que o que falo é "intra" com todas suas conseqüências e não minto ao pregar que aquilo que digo é exterior a mim, que é verdade ou então que é divino.

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  2. Caro Ávila,

    Quer dizer então que quando temos dúvidas convém escrever obscuramente?

    Você contradiz-se: por um lado não gosta da objectividade e da clareza, por outro lado diz que devemos adequar o discurso ao público. Ora, adequar o discurso ao público não é senão evitar expressões bizantinas que as pessoas não compreendam. Decida-se.

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  4. Não entendi se o comentário é irônico ou não, na dúvida, vou pelo não:

    1 - "Escrever é uma arte."
    Para os escritores pode até ser, agora o resto dos mortais poderia aceitar utilizá-la como a ótima ferramenta que é. Ferramentas têm funções, e se a da escrita é expressar e fazer compreender, precisa ser acessível ao leitor, e não uma representação da "subjetividade [que] elevou-se do caos". Caos por definição não é compreensível, não é a ele que a linguagem serve.

    2 - Se "a forma como escrevo deve se adequar aqueles com os quais me comunico" ela deve querer transpor o subjetivo e buscar o comum, a referência acessível a ambos, e não apenas a quem comunica. e "a forma pela qual minha subjetividade eleva-se do caos", supondo que isso signifique algo como "pensamento particular", é o exato contrário do acessível a ambos.

    3 - Honestidade e respeito não são implicados pela forma da linguagem, esta possibilita que se expresse um conteúdo, que será honesto e respeitoso (ou não) conforme a circunstância. Jogar palavras aleatórias para o ar não diz nada para ninguém, exceto que, talvez, eu esteja confuso.

    4 - Pretender afirmar qualquer coisa do mundo, inclusive que não se pode afirmar nada, pressupõe que algo objetivo pode ser dito e compreendido.

    5 - Dúvidas e mais dúvidas: Tenho impressão que isso é mais antigo que o pobre e desamparado ser humano pós-moderno. Sócrates, talvez?

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  5. Olá Elvis,

    Creio que o importante é perceber isto: a escrita clara é perfeitamente compatível com a ausência de certezas. Nada impede que se exprima claramente uma dúvida. Por exemplo: "será que todas as escalas diatónicas têm dois intervalos de meio tom?" (as menores têm três) — é uma dúvida clara. O desconhecimento em si não implica obscuridade. Mesmo quem não sabe música apenas precisa ver o significado dos termos e compreende o que foi dito.

    Estranho seria procurar a obscuridade sempre que não há conhecimento: isso impedir-nos-ia de conhecer coisa alguma. Claro que depois não admiraria que só houvesse dúvidas.

    Mas há um detalhe pior: quem se instala na obscuridade por uma questão de princípio, nem sequer pode ter dúvidas. Só posso ter dúvidas se aceito que há verdades num mundo objectivo. Se tudo é em si obscuro, nunca me engano nem posso ter dúvidas. Os meus quirks linguísticos confundem-se com a realidade. Claro que se tomarmos isto como ponto de partida não podemos ficar surpreendidos: se tudo são credos, o credo subjectivista não pode ser melhor do que o credo realista, pois a existência desse critério seria autoderrotante para o relativista.

    Claro que se não aceitarmos acriticamente o dogma de que tudo são credos, então é possíve que o realismo seja melhor com base em razões, que descobrimos pensando no assunto... com clareza, claro!

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  6. Vitor,

    eu me referia ao comentário do Avila, mas expressaste mais claramente o que eu queria dizer.

    só acrescentei que incertezas há desde que se pensa (em oposição ao "pós-moderno sem respostas"), o que nunca impediu a expressão clara nem o surgimento de respostas.

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  7. Não tento ser irônico. Apenas estou expressando minha contraposição ao que foi exposto. Com o devido crédito ao estudo e ao discurso alheio.

    Caro Vitor,

    A questão não é tornar-se obscuro quando o assunto em questão provoca dúvidas ao escritor. Quando digo que "devemos adequar o discurso ao leitor" não tange que esse deve ser destinado e inteligível a qualquer leitor. Exemplo: Quando você produz um texto, esse tem um destinatário, geralmente formado por seus próprios pares. Jamais um texto será objetivo a ponto de ser entendido por qualquer humano. A linguagem não é "uma" ferramenta que utilizamos para no expressarmos. Ela é a ÚNICA ferramenta que nos permite compreender o mundo. Essa carga enciclopédica de significantes torna-se mais rica quando os leitores compartilham de seu cabedal.
    Expressões bizantinas são aquelas que o leitor não compreende pois não compartilha de seu "mundo" discursivo. Logo, simplificar significa necessariamente empobrecer o arranjo linguístico que permitirá o entendimento da argumentação. Pois essa está ligada ao que você leu(noção ampla - leitura de mundo).

    Caro Elvis,

    1 - Como já disse acima a linguagem, conforme minha compreensão alcança, é a única forma pela qual construo/compreendo conhecimento. E se tu me definiu o caos logo ele é alcançável pela linguagem.

    3 - Quando menciono desrespeitoso viso atingir diretamente a questão de que tento iludir meu leitor ao assumir que tenho um discurso objetivo e que ascende minha subjetividade. Como construí esse conhecimento, se não pelas minha próprias experiências pessoais, portanto subjetivas.

    4 - A realidade objetiva não é passível de apreensão pelo ser humano. É só perceber as inúmeras formas pela qual o homem concebe sua realidade em diferentes eras e culturas. Se existe o objetivo e se este é passível de apreensão então somente uma forma de se ver o mundo está correta(uma pena). O discurso, com ou sem nossa permissão, está atravessado pela nossa subjetividade e pela visão de mundo que nos foi ensinada.Não há como escapar disso. Assim, afirmar que tudo não passa de discurso é mais um discurso, que quem sabe, percebeu nas diferentes linguagens e culturas um ponto em comum, a de que tudo é uma construção do humano, nada é dado. Não é AQUELA tão sonhada realidade única e objetiva que por muito tempo sonharam.

    5- As certezas não passam de crenças;

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  8. Olá, Avila,

    Ser claro não é necessariamente ser claro para todo leitor possível. Mas percebes que dentro de um mesmo público, por exemplo, nós aqui, o teu segundo comentário foi mais claro que o primeiro? e que o parágrafo do vitor sobre a dúvida foi mais claro que o meu? Isso que estamos sendo bem econômicos em expressões rebuscadas e bizantinas.

    O ponto de intersecção da linguagem entre escritor e leitor, ou falante/ouvinte, não precisa ser o ponto comum entre todos os possíveis leitores/ouvintes. Por isso me referi ao "acessível a ambos" e não ao "acessível a todos". Mas mesmo nesse público restrito o uso deslocado de expressões, a grande maioria apenas para causar um efeito, uma aparência de significação que não está clara (muitas vezes nem para quem escreve), não serve a ninguém nessa relação. Vou tentar formular um exemplo.

    Se os dois lados tem absolutamente todas as expressões a ser utilizadas em comum, todas as mesmas leituras, como colocaste, e um deles inventa uma nova palavra, vai precisar explicá-la, defini-la, para que o outro consiga apreender perfeitamente o significado do que está dizendo. Me apresente duas pessoas que tenham a mesma exata carga de leituras e eu aceito que um pode escrever da forma que bem entender para o outro.

    O complicador é que no uso e aprendizado corrente da linguagem não temos tanto em comum. Aprendemos os significados de acordo com os contextos, grande parte deles fora/antes das leituras, e é provável que isso seja a causa de muitos desacordos sobre o que significam e representam determinadas palavras, expressões ou até textos inteiros.

    Agora, só porque o aprendizado da língua é assim, não quer dizer que tenhamos que reproduzir isso quando não precisamos. Nos momentos raros onde se pode usar uma palavra com um significado claro para quem lê, porque usar uma cujo significado é problemático? Esse era, me parece, o ponto do post principal.

    Entendo que não queiras iludir o leitor de que tens verdades absolutas, mas isso se faz deixando claro o que pensas a tal ponto que ele entenda e possa questionar se falas com acerto e honestidade ou se estás a zombar e mentir. Assumir uma postura é o que de mais honesto se pode fazer. O que não se pode é esconder o discurso em palavras vagas e alegar que isso é culpa da falta de objetividade da linguagem em relação ao mundo.

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  9. Caro d. avila,
    Deixe-me somente dar umas dicas à conversa:
    “Jamais um texto será objetivo a ponto de ser entendido por qualquer humano.”
    É obvio que se um indivíduo nem sequer sabe ler, não tem qualquer acesso ao texto. Quando falamos de objectividade, não falamos do ferreiro e do filósofo poderem ambos entender um texto de filosofia ao mesmo nível. Pode-se ser objectivo quer pensando num auditório geral ou num auditório particular.
    “A linguagem não é "uma" ferramenta que utilizamos para no expressarmos. Ela é a ÚNICA ferramenta que nos permite compreender o mundo.”
    Esta afirmação é muito simples. Nós seres humanos compreendemos o mundo com os olhos, com a linguagem escrita e falada (o discurso) e com os batimentos cardíacos. De resto ainda existem muitas zonas cinzentas para saber se a linguagem é a única forma de compreender o mundo. E, por outro lado, a linguagem também pode distorcer o mundo, pelo que, quando assim acontece, quase podíamos afirmar que a linguagem é a ÚNICA maneira de distorcer o mundo. No entanto, parece mais pacífica a ideia que a linguagem é uma ferramenta privilegiada para compreender o mundo.
    “Essa carga enciclopédica de significantes torna-se mais rica quando os leitores compartilham de seu cabedal.”
    Sem dúvida, desde que não falamos ostentação vazia.
    “Expressões bizantinas são aquelas que o leitor não compreende pois não compartilha de seu "mundo" discursivo. Logo, simplificar significa necessariamente empobrecer o arranjo linguístico que permitirá o entendimento da argumentação. Pois essa está ligada ao que você leu(noção ampla - leitura de mundo).”
    Pois, esta ideia é que me parece muito mais discutível do que supõe. Como sabe que não existe mundo para além do discurso? Imagine lá um planeta desconhecido no qual existe uma espécie de aparelhos que servem para executar umas tarefas que não faz ideia o que sejam? Será que esta realidade não é possível para além do discurso? Se algum dia for descoberta será que depende do discurso para existir? E só quem vai a esse planeta é que pode discursar sobre ele?
    Pense lá nestas questões.
    Espero ter ajudado a clarfificar

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  10. Se é uma pena ou não que existam verdades e falsidades, particularmente não acho uma pena que o Bush esteja errado, pelo contrário. Me parece mais razoável que minhas crenças (certezas ou não) possam ser verdadeiras ou falsas de acordo com um mundo objetivo e apreensível (ainda que muitas delas não sejam tão fáceis de averiguar), do que aceitar que está correta uma visão de mundo que permite que se mutilem mulheres em determinadas culturas ou sacrifiquem crianças em outras, para ter um exemplo real, sob a alegação de que não existe uma visão de mundo correta e outras equivocadas.

    Também não vejo como uma pena que as várias concepções de mundo dêem lugar a outras. Fazem isso não porque cansaram do discurso, mas porque as antigas continham erros ou não conseguiam mais explicar o mundo. Isso é difícil de generalizar (ninguém disse que seria fácil), mas pensa na astrologia, ou na medicina. É uma pena que as várias compreensões do funcionamento delas estavam errados? Pelo contrário, me parece uma pena se a atual estiver totalmente certa, porque assim não temos mais para onde avançar.

    Se tudo é construção do humano, algumas estão erradas e outras certas.

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  11. Bem Ronaldo,

    Texto- o termo foi apropriado por mim como algo amplo. Não se resume ao escrito.

    Olhos e coração não compreendem nada.
    Continuo afirmando que a linguagem é a ÚNICA ferramenta que nos permite compreender o mundo. E digo mais, pode-se sim afirmar que ela é a "única ferramenta que distorce o mundo".Começando pelo básico, a linguagem só é possível graças as generalizações. EX.:
    O Conceito que você tem sobre um objeto é o objeto em si? Pense em árvore, isso é uma idéia distorcida pois esse seu pensamento não atingiu todas árvores possíveis, mesmo se fosse de uma espécie específica. É uma idéia geral de árvore. Mesmo ao olhar a árvore você não está apreendendo ela em si, mas sim como um objeto que te remete a milhares de experiências e sentimentos/conceitos.

    Concerteza existe mundo além do discurso. Entretanto, esse mundo é passível de ser apreendido por nós?
    Só posso imaginar esse suposto planeta com as experiências que tenho neste. O dia que for descoberto será o dia em que daremos um significado discursivo acerca dos itens. Os primeiros a tocarem nesse planeta utilizarão sua idéia de mundo como ferramenta para compreender esse. Dessa forma mais generalizações e comparações surgirão. Essa nova produção discursiva possibilitará uma explicação para aqueles que ainda lá não foram.

    Espero ter sido claro. Abraços.

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  12. Oi D. avila

    em que se baseia para afirmar que escrever claramente era apropriado para um homem do séc XIX, mas que não é apropriado hoje? Porque estamos numa era pós-moderna? Mas esse diagnóstico cultural é absurdamente controverso, pra não dizer simplesmente falso.

    "Agora, voltemos a contemporaneidade, onde o homem perdeu o senso de certezas. Surgem as dúvidas, e dessas as respostas? NÃO! Dessas mais dúvidas"

    Pois, o homem não perdeu nada disso. E sua afirmação é demasiado taxativa para quem alguém que nega a existência da objetividade. Em suma, parece-me que você defende várias idéias que são auto-refutantes: afirma categoricamente (como se fosse líquido e objetivo) que não há objetividade

    afirma com toda certeza que estamos numa época de incertezas

    e, parece-me, que pressupõe o desconstrucionismo como a verdade absoluta e última das coisas sem perceber que essa pressuposição é dificilmente defensável. Numa palavra: o seu relativismo epistêmico é auto-refutante, porque pressupõe aquilo que quer refutar e retira sua base de sustentação.

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  13. ávila:

    se a linguagem fosse a nossa única ferramenta para saber coisas acerca do mundo, a investigação científica seria redundante. Para saber qualquer coisa bastaria consultar um dicionário ou perguntar a um lexicógrafo ou a um filólogo. Mas as coisas não são assim. O facto de toda a música ser feita com notas não significa que a música seja só notas. Há muito que se lhe diga na música e da ciência acerca da música, que não apenas o uso que os musicólogos fazem da linguagem nem só a notação musical.

    Como parece preocupar-se com o carácter artístico da escrita (mas eu também: é por me preocupar com a arte da escrita que escrevi o post), permita-me que lhe aponte a inexistência de "concerteza". Isso estaria para "concerto" como "correnteza" está para "corrente" ou "certeza" para "certo".

    Se a linguagem distorcesse o mundo para lá de toda a capacidade que as pessoas têm de discernir verdades objectivas, como é que os pós-modernos seriam capazes de diagnosticar essa mesma distorção? Afinal, eles nasceram na terra e não em krypton. Como é que a mesma linguagem que condena todo o mundo às trevas relativistas é a mesma linguagem que permitiria aos pós-modernos fazer os seus diagnósticos?

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  14. Bem Matheus,

    Então você acredita que estamos atualmente vivendo o mesmo processo histórico que o homem do século XIX viveu? Ou que esse processo é "progresso" daquele? Reluto em crer nisso, pois, como historiador, noto que o homem constrói todos aspectos de sua própria realidade e que esta varia conforme seu âmbito cultural que está inserido em uma realidade própria. Aquele progresso que tanto foi amado e vendido como caminhada do ser humano rumo a perfeição faleceu quando milhares de pessoas foram mortas em campos de concentração e quando o homem destruiu duas cidades com bombas que poderiam aniquilar totalmente a humanidade. A sociedade atual vira-se agora para o fragmentário. Pois é isso que somos. Foge-se do unilateral. Não verás bons historiadores escrevendo a história da humanidade. Pois essa jamais abarcará tamanha infinitude.

    Afirmar com convicção que a objetividade não existe, como esse ser externo a nós, onipotente, um Deus científico do qual temos a possibilidade de descobrir não é ser autorefutante. É apenas notar que dentro do processo histórico realidade/objetividade/verdade são termos construídos de acordo com o discurso vigente. Um discurso que também rege aquilo que falo.

    Vitor Guerreiro,

    Linguagem nessa discussão não se resume escrito. Música também não deixa de ser linguagem, pois nos transmite idéia/sentimento de alguma coisa. Um dicionário é algo estático e morto e tem por função aprisionar um conceito enquanto a linguagem é viva:
    Exemplo:
    Procure a terminologia cachorro no dicionário; agora note como aquilo que está escrito não tange os limites que esse conceito em constante expansão alcança.
    Cachorro pode significar o animal, ou um atributo que em uma dada cultura a este ser foi dado.

    Agora como os pós-modernos verificam uma distorção da realidade por parte dos seres humanos? Notadamente no processo histórico das diferentes culturas existentes que atribuem significados completamente diferentes e discrepantes correlação a diferentes aspectos da vivência. Um sociedade monoteísta regida pela teocracia na mesopotâmia antes de cristo não terá nossa visão de mundo. Então deveremos "esclarecer" que esse tipo de sociedade distorce a realidade enquanto a nossa não? Somos o ápice do entendimento humano? É esse tipo de questionamento que move meu pensamento. Quando taxamos, aí sim, uma sociedade de atrasada e ideologicamente afetada em comparação com a nossa. Pois nesse discurso nós somos o ápice da humanidade porque simplesmente estamos de acordo com a verdade e os outros devem compreender isso

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  15. Não precisamos ser o ápice da evolução humana nem modelos insuperáveis de moralidade para ver e denunciar, com razão, práticas absurdas e erradas, sejam elas o envio de cientistas ou artistas para o gulag ou o exílio, seja o apedrejamento de pessoas ou a imposição aos outros dos nossos preconceitos particulares. Não precisamos de ser modelos isentos de erro para perceber que as culturas onde este tipo de coisa predomina são inferiores e simiescas quando comparadas com culturas imperfeitas mas onde não predomina este tipo de coisa.

    No que diz respeito aos hábitos linguísticos, por exemplo, a cultura inglesa é de longe superior às macacadas portuguesas. Não porque haja algo na nossa natureza que nos impeça de fazer coisas de jeito nem porque não o façamos de facto, mas porque o peso estatístico da macacada é sufocante, por comparação.

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  16. Na minha profissão, chamamos a esses vícios linguísticos "bengalas". São tantas, tantas, tantas que o léxico jornalístico se tornou «novilíngua» há muito tempo... Toquem sinos a rebate. Isto é alarmante! Penso eu. Jornalistas? Bah!

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  17. d.avila

    que não vivemos exatamente o mesmo processo histórico do homem do séc. XIX é uma trivialidade que ninguém nega. O que é controverso é fazer afirmações categóricas de mudanças radicais sobre o homem, a verdade, a moral e todo o resto com base nessa trivialidade. A noção de progresso, seja ele científico ou moral, não é abandonada ou simplesmente deixa de existir por causa disso, assim como a verdade objetiva, etc. Aliás, também é duvidoso que a verdade objetiva seja uma característica apenas do homem moderno. Além disso é possível criticar até mesmo essa noção vaga de modernidade, que é usada como saco de pancada pelos filósofos pós-modernos. Afirmar que a sociedade atual se volta para o fragmentário por causa do nazismo é cometer uma falácia não se segue.Eu não sou um adepto do fragmentário, ou seja lá o que isso quer dizer, assim como muitos filósofos não são adeptos disso e não está claro como a sociedade seria adepta disso.

    Sobre essa questão da objetividade vamos cortar a conversa mole e ir direto ao ponto: você pretende que o diagnóstico pós-moderno e seu relativismo epistêmico sejam a descrição verdadeira das coisas ao mesmo tempo que nega que exista uma descrição objetiva das coisas. Você afirma que é uma verdade objetiva que não há verdades objetivas, o que exclui o que você tenta defender. Posso ficar aqui o dia todo apontando como você se insere num quadro objetivista para refutar o objetivista. E caso você não tenha nenhuma pretensão de objetividade a discussão não tem valor nenhum, pois você nem acreditaria no que está dizendo e os objetivistas também não. Ficar falando de tempo moderno, pós-moderno, o que é aceito em um não é em outro, etc é um blablabla que tenta impedir as pessoas de pensar melhor no que estão dizendo.

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  18. Um exercício prático a propósito do post:

    O que estamos a tentar dizer com "o homem no processo histórico do século XIX" que não consigamos dizer com o simples "o homem no século XIX"?

    Não será isto apenas um tique, como o dos políticos em prostituir as palavras "efectivamente" e "histórico" e "mais-valia" até enjoar?

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  19. ... e não me digam que é para salientar a processualidade processual do processo temporal no tempo, na historicidade histórica do devir deveniente...

    por favor, quatro anos de universidade já me provocaram danos cerebrais que cheguem, com esses discursos mágicos e vácuos.

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  20. Não Vitor

    tu não entendes a compreensão esclarecedora da apreensão dessa reflexão sobre o pensar que se faz na ação do significante enquanto signo, isto é, do queremos significar em um texto aberto. Afinal de contas, tu pretendes ignorar as descobertas importantes da semiótica e as críticas devastadoras de Deleuze que a tradição teve que engolir a duras penas? Todo texto é aberto e passível de desconstrução nessas instâncias múltiplas da linguagem fragmentária.

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  21. Hehehehe, o que me diz? Já estou obscuro o bastante pra conseguir um doutorado na área?

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  22. O que posso dizer? O pós-modernismo é um corpo-sem-cérebro... como é que vamos processualizar isto?

    E ainda nos esquecemos da processação, que é o lado activo do processo, expresso pela processualidade processuante. Há o processo e a processualidade, que são passivos, e há a processação, que é o acto-acção do processo, que sem esta última é apenas acto-inércia.

    ... Os mortais não atingem estas subtilezas ó Matheus. Isto é preciso um cabedal linguístico que até a barraca abana.

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  23. por isso meu primeiro comentário aventava a hipótese da pura e simples ironia, hehhe

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  24. a propósito, sobre como é divertido escrever textos obscuros:

    http://buarque.wordpress.com/

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  25. Eis o ponto caro Matheus. A semiótica fundamentada muito bem por Pierce, que muito tem de obscuro, um autor que segundo algumas de minhas leitura é realmente bem difícil de se entender. Sinceramente prefiro Humberto Ecco que escreve muito bem e se faz compreender de forma sutil. Suas teorias de interpretação e superinterpretação são magníficas e desbancam muitos teóricos da área.
    Agora voltando a discussão:
    - Concordo que o pós-modernismo não é em nada algo fechado e acabado como muitas teorias se dizem ser. Entretanto, na minha área de estudo, que é a história, essa nova forma de pensar possibilitou que esse olhar fragmentado visse o que antes não era visto. Seres humanos que apesar de não ter seus nomes nos grandes escritos participavam do processo histórico, assim como você e eu. Saem de cena as grandes figuras e a história política dos "GRANDES HOMENS". Entram as sociedades e o relacionamento entre estas. Não se acredita mais que é possível olhar para o passado e prever o futuro. Pois o futuro é incerto e não objetivamente calculável, desculpe-me COMTE! Viva os presentistas que começaram, desde Croce, a observar porque nossa visão de história muda tanto com o passar do tempo. Já tivemos muitas idéias sobre os gregos, e a que existe hoje provavelmente será mais uma delas. E seria assim só porque descobrem-se novas fontes de pesquisa? A resposta é não, é assim porque na história há uma eterno diálogo entre passado e presente e que este passado nada mais é que um discurso montado nesse presente em constante mutação(não intencionalmente)e não algo que se descobriu! Um dia acreditou-se em uma história linear que rumava para algum lugar, melhor! Hoje nem sequer ideologia temos para seguir! Quem é novo como eu está politicamente desamparado. Um desamparo que surgiu da queda de um MURO! Eles tinham certezas... e nós o que temos agora?

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  26. Avila,

    já ouviste falar que "antes só do que mal acompanhado"

    Se as ideologias pré-queda do muro eram o que tínhamos para seguir, TENHO CERTEZA que estamos melhor que antes.

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  27. Vitor, quanto ao seu exemplo, "problemática", o HOUAISS não concorda com você:

    problemática
    {verbete}
    Acepções
    ■ substantivo feminino
    1 conjunto de problemas da mesma natureza ou de um mesmo campo de atuação, ou concernentes a um mesmo objeto
    Ex.: a p. do desemprego em massa
    2 o conjunto das questões que se podem levantar em relação aos meios, pontos de vista ou objetos de estudo de uma ciência ou um sistema filosófico
    Ex.: a p. da ética, da filosofia etc.
    3 incerteza ou dificuldade inerentes a um plano, contexto, situação etc.
    4 possibilidade teórica de um problema filosófico
    5 série de problemas que deve ser corretamente proposta na perspectiva filosófica em que se colocou um pensador, um ensaísta, um filósofo etc.


    Etimologia
    fem.substv. de problemático; ver problem(at)-

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  28. Que culpa tenho eu de que os lexicógrafos registem qualquer palermice de que alguém se tenha lembrado?

    O meu dicionário de português também regista "bué" mas não tem a palavra "functor". Não é delicioso?

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  29. Problemática é uma palavra bem formada, e não é sinônimo de problema. Então qual é o problema?

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  30. O problema é o pedantismo vazio, oco e verborreico de quem não gosta de dizer "problema" e diz "problemática" mesmo que a circunstância exija "problema" e a concomitante explicitação daquilo que se quer dizer.

    O problema é o mesmo de quando se evita escrever "vantagem" para escrever "mais-valia", só porque dá um ar mais profundo ou mais proficiente do que aquilo que realmente é.

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  31. Invocar uma "constelação" de coisas em vez de referir directamente a própria coisa, mesmo quando se fala apenas numa unica coisa, é uma escapatória excelente para encher chouriços e gastar mais umas linhas com prosa vazia, desencorajando o leitor de pensar, convidando-o a aderir por causa da musicalidade das palavras.

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  32. Problema não é sinônimo de problemática, assim como tema não o é de temática --ambas, aliás, já existiam no grego. Para dizer a mesma coisa que se diz por meio da palavra problemática, tem-se de usar mais palavras, uma locução ou expressão, como "conjunto de problemas inter-relacionados [articulados]" ou coisa parecida. O fato de a palavra problemática ser usada erroneamente, como sinônimo de problema, não significa que se trate de uma palavra ruim, mal construída, muito menos justifica a sua eliminação pura e simples.

    Mais-valia, plus-valia ou valor a mais não é a mesma coisa que vantagem, palavra com sentido muito mais amplo e vago. Mais-valia pode ser uma construção infeliz, mas, como termo técnico, não pode ser substituída por vantagem.

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  33. Mas eu não quero eliminar o termo técnico "mais valia" hombre, eu estou é a criticar o uso de "mais valia" quando o contexto exige "vantagem".

    O que se passa não é os economistas a deixarem de usar o termo técnico para usar "vantagem". O que se passa é as pessoas em geral, atiçadas pela palermice linguística dos políticos, a usarem termos técnicos alegremente e ao desbarato, a propósito de batatas. É precisamente o contrário.

    Estou a discutir as motivações implícitas em certos tiques linguísticos e não a querer eliminar arbitrariamente palavras. As pessoas têm o direito de escrever como bem lhes apetece, e eu tenho o direito de criticar o que bem me apetece. Se tenho ou não razão, o leitor que decida e opte nos seus usos linguísticos consoante acha que sim ou não.

    Estou a criticar tiques linguísticos, não estou a dizer que as pessoas não têm o direito a ter tiques linguísticos, são coisas diferentes. Eu tento convencer as pessoas do que me parece estar bem, dando argumentos. Se elas concordarem tudo bem, se não concordam, tudo bem. Por minha parte continuo a atacar os pedantismos.

    Quer uma boa solução? Escreva-se "problemas" no plural e identifique-se cada um. Isto já permitia obviar ao disparate e ao pretenciosismo linguístico, sem deixar de falar na pluralidade das questões.

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  34. Oi Vitor,

    Também estou de acordo que o uso deslocado de palavras é um desserviço ao leitor e à língua em geral, mas vou me dar o luxo de relativizar ou pouco a questão:

    Pegando o mesmo exemplo, imagine um grupo cada vez maior de pessoas que passa a usar "problemática" onde poderia (ou deveria) usar "problema". Em pouco tempo, os próprios dicionários vão incorporar o novo uso, que passa a compor a gama de significados da palavra junto com os significados anteriores.

    Me parece que no fim das contas, não faz diferença qual palavra usar, ainda mais se quem escreve tem em mente essa dinâmica da língua, quero dizer, atribui deliberadamente um significado novo a uma palavra. Se o público efetivamente entende o que está dito é algo que pode ser medido com um grau razoável de credibilidade, e o conhecimento desse público pode autorizar o uso de uma linguagem mais ou menos arraigada aos significados correntes.

    É assim que a propaganda opera há bastante tempo, atribuindo pela força do uso novos significados a termos novos ou antigos.

    Assim me parece que a clareza de um texto está bastante ligada à capacidade de se fazer entender de quem emite a mensagem, não necessariamente à relação entre as partes de uma frase ou de suas palavras isoladas.

    O problema que não consigo resolver é: qual o ponto de corte?

    Até que ponto a intenção do autor de distorcer significados é autorizável? Qual o ponto de equilíbrio entre comunicar com clareza uma mensagem e inovar na linguagem (quando for o caso, não acho que seja sempre, aliás acho que são poucos e bastante restritos)?

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  35. A sua luta é vã, Vitor, pois toda palavra pode ser objeto de tique lingüístico. Problemática, repito, é uma palavra bem formada, pois segue as regras de derivação do português. Já a expressão "as pessoas em geral", p.ex., essa sim se parece mais com um tique lingüístico, pois nada significa: quantas pessoas?, quais?, onde?, quando?... Penso (com Bacon e Berkeley entre outros) que a generalização é algo mais pernicioso que meras manias lingüísticas. Aliás, não entendo como você pode ver tanto mau numa palavra-ônibus gramaticalmente justificada como problemática e, ao mesmo tempo, fazer generalizações baseadas exclusivamente em intuições e experiências pessoais.

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  36. "As pessoas em geral" significa que se trata de algo que é muito comum observarmos, excessivamente comum para que não possamos fazer uma generalização. Como quer fazer generalizações acerca do comportamento das pessoas sem ser pela experiência que tem de ouvir as pessoas? É certo que não estou a invocar estatísticas, mas não é preciso invocar estatísticas quando falamos de tiques generalizados. Para ouvir o uso alegre de "mais-valia" você só tem de sair de casa.

    Qual o problema?

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  37. Elvis:

    Eu não escrevo para convencer os autores que abusam de "problemática" ou de quaisquer tiques linguísticos a deixarem de escrever. Eu escrevo para as pessoas que estão na mesma situação em que eu estava há alguns anos, pessoas interessadas na filosofia mas que não conhecem alternativas ao que há na universidade portuguesa: místicos bacocos e pós-modernóides armados em "marginais". Por mim toda essa malta pode continuar a fazer o que faz, eu só procuro introduzir alguma dissonância cognitiva, que é sempre saudável, no meio deste cenário. Para que as pessoas não aceitem coisas apenas por causa da musicalidade das palavras ou de textos vazios mas hipnóticos.

    O mundo não fica pior por haver mais um pós-moderno a escrever "ontologias radicais" ou não-se-quê da "margem" ou "problemática" do ser-do-ente. Mas fica pior quando um estudante curioso acaba por deixar a filosofia por falta de alternativas e por não saber o que fazer a tanto corpo-sem-órgãos e tantos órgãos desorganizados.

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  38. D.Avila disse

    “Eis o ponto caro Matheus. A semiótica fundamentada muito bem por Pierce, que muito tem de obscuro, um autor que segundo algumas de minhas leitura é realmente bem difícil de se entender. Sinceramente prefiro Humberto Ecco que escreve muito bem e se faz compreender de forma sutil. Suas teorias de interpretação e superinterpretação são magníficas e desbancam muitos teóricos da área.”

    Caro D.Avila

    Não vou entrar em detalhes sobre a relevância da semiótica como campo de estudo, pois iria me alongar demais em uma questão que não me interessa e não deu origem às discussões deste post. Mas de qualquer modo, não estaria tão certo da magnificência de Humberto Ecco. Você pode encontrar no Critica na Rede uma resenha bastante crítica do Desidério sobre o livro “Kant e o ornitorrinco”. Outra resenha sobre este livro, que é quase um pequeno livro, dado seu tamanho, é da autoria de Simon Blackburn. De modo semelhante às críticas de Sokal à intelectuais conhecidos como Deleuze, Blackburn apresenta críticas duras ao livro de Ecco, mostrando como este não é lá tão genial e tem mais nome e prestígio do que idéias interessantes. Entre as acusações de Blackburn está a de que Ecco faz confusões elementares com questões básicas de filosofia da linguagem, usa expressões pomposas e obscuras com o objetivo de intimidar o leitor, etc. Sinceramente não vou perder meu tempo discutindo isso, mas já que você gosta desse autor poderia ir lá dar uma olhada.




    “Não se acredita mais que é possível olhar para o passado e prever o futuro. Pois o futuro é incerto e não objetivamente calculável, desculpe-me COMTE! Viva os presentistas que começaram, desde Croce, a observar porque nossa visão de história muda tanto com o passar do tempo. Já tivemos muitas idéias sobre os gregos, e a que existe hoje provavelmente será mais uma delas. E seria assim só porque descobrem-se novas fontes de pesquisa? A resposta é não, é assim porque na história há uma eterno diálogo entre passado e presente e que este passado nada mais é que um discurso montado nesse presente em constante mutação(não intencionalmente)e não algo que se descobriu! Um dia acreditou-se em uma história linear que rumava para algum lugar, melhor! Hoje nem sequer ideologia temos para seguir! Quem é novo como eu está politicamente desamparado. Um desamparo que surgiu da queda de um MURO! Eles tinham certezas... e nós o que temos agora?”

    Que não podemos prever o futuro da história com base no passado me parece uma idéia muito plausível e completamente independente de teses pós-modernas. A idéia de que o passado é uma construção nossa é incoerente. Quer dizer então que as pirâmides do Egito que foram descobertas a poucos séculos não existiam antes disso? Mas neste caso fomos os inventores daquelas coisas incríveis quando as “descobrimos”? Mas se não descobrimos que essas pirâmides existiam, então elas vieram do nada? E o seu passado particular? Foi uma invenção sua? Seus pais, sua família, seu nascimento foi tudo uma invenção sua? Mas neste caso foi inventou-se a si mesmo quando resolveu nascer? Isto me parece uma gritante redução ao absurdo dessa idéia de que o passado é uma construção social do presente.

    Sobre essa história de que a queda do muro (acho que se refere à queda do muro de Berlim) nos retirou às certezas, bem novamente você faz uma inferência completamente arbitrária. Perdemos certeza em que, mais precisamente? No comunismo? Talvez, embora alguns comunistas mais ortodoxos possam negar isso. Perdeu a possibilidade de fazer qualquer escolha política? Claro que não. (veja o texto de Peter Singer sobre a esquerda darwinista no Critica). E repare que a idéia de que o progresso é possível não tem qualquer relação com uma concepção teleológica da história, como você parece deixar implícito no seu comentário.

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  39. Há aqui um detalhe que convém não esquecer:

    Não está nem esteve em causa a má formação do adjectivo "problemática" mas a motivação para o seu uso como substantivo. Claro que os lexicógrafos registam este uso uma vez disseminado. Daí a afirmação de que estas coisas acabam por se tornar norma linguística. Mas tornar-se norma linguística e ser uma boa prática são coisas diferentes.

    Dizemos que uma dada ideia x é "problemática" mas se queremos referir um conjunto de problemas então o melhor será o simples plural "problemas de..." pois evita as tretas associadas ao uso do adjectivo como substantivo.

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