1 de setembro de 2008

Uma experiência mental para a falibilidade

Horowitz senta-se ao piano e prepara-se para tocar uma mazurca de Chopin. Horowitz, apesar de ser um agente falível, conseguiu uma execução perfeita da mazurca. A sua execução foi gravada para ser mais tarde reproduzida. O facto de ter conseguido uma execução perfeita não fez que Horowitz deixasse de ser falível, obviamente.

Horowitz senta-se novamente ao piano. Desta vez vai executar a mesma mazurca mas o piano não tem cordas sequer. O que o público vai ouvir é uma reprodução da gravação anterior, da execução que sabemos ser perfeita. Claro que o leitor de áudio é falível e pode estragar tudo, mas vamos pressupor que isso não acontece. Horowitz sabe à partida que não vai falhar.

Isto significa que Horowitz nesse momento se tornou infalível? Obviamente que não. Continua a ser tão falível como antes. Do mesmo modo, não é por saber que vou proferir uma afirmação verdadeira que me torno omnisciente. Não somos omniscientes "às vezes", e outras não. Ou somos omniscientes ou não somos. Um ser podia durante toda a sua vida apenas proferir afirmações verdadeiras sem ser omnisciente. Do mesmo modo, pode ser falível mesmo que a maioria das suas execuções ou mesmo todas, fossem perfeitas. Embora isto nunca aconteça: os pianistas aprendem, como os outros seres humanos, a tocar. Erram e aprendem com os erros. Nunca perdem a capacidade de errar, de falhar, pelo facto de evoluírem.

Quando tenho uma certeza não deixo de ser um agente falível. A certeza de Horowitz em como não vai falhar no exemplo acima também pode frustrar-se se a reprodução falhar, criando a ilusão de que Horowitz cometeu um erro de execução. Pode ter a certeza de que fez uma execução perfeita quando na verdade apenas não reparou num erro que cometeu, que mais tarde lhe será apontado por outro pianista ou outro músico. Pode atribuir erroneamente um valor de verdade V à afirmação de que fez a execução perfeita. Mas se, fisicamente, fez a execução perfeita da mazurca, então a sua crença é verdadeira. Mas isto não o torna infalível, apenas faz que tenha uma crença verdadeira. Se Horowitz tiver certeza que fez a execução perfeita e se, ao mesmo tempo, é verdade que fez a execução perfeita, não é por isso que as suas crenças deixaram de ser falíveis. É a verdade de que a execução foi perfeita que dá consistência à sua crença de que o foi, e não o contrário. O facto de Horowitz ser falível apenas significa que pode fazer execuções imperfeitas e que se pode enganar nas suas crenças de que fez ou não uma execução perfeita.

9 comentários:

  1. Como saber se Horowitz acertou? Não só Horowitz, o executor, é falível, como o público auditor também.

    Isto sem contar que não há maneira certa de se tocar uma peça; há a maneira canônica de fazê-lo, há também a maneira inovadora.

    Mas, seja como for, em um mundo de enunciadores falíveis e em um mundo de enunciados falíveis, qual é o critério (falível) de verdade?

    Ou posto de outro mundo: num mundo falibilista, há o que seja infalível? E caso não haja: como é possível a certeza, tanto do enunciador, como a do enunciado?

    O que garante que dada execução foi perfeita ou acertada? Porque seja quem julgue, o julgamento sempre poderá estar errado, não? Então que é que estabelece o certo?

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  2. Extremamente bem argumentado e completado pela opinião acima de Adriano. Se tudo é falível, então a noção de perfeição é utópica e a perfeição não existe. Ou antes, mesmo que exista, há sempre a hipótese de ser considerada imperfeita por um julgamento falso.

    Cheers

    http://livrosemcriterio.eraumavezumrapaz.net/

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  3. Do mesmo modo que você, mesmo sendo falível, sabe quando acertou com a receita de um pudim. Poder enganar-se a respeito de o pudim estar bom ou de ser melhor do que outro não significa que não acerte com a receita. Como sabe que acertou? Quando tem indícios a favor dessa crença e nenhum indício contra. Não é por ter uma intuição própria de um ser omnisciente que saberá isso, claro. Não precisa de ser omnisciente para saber que o pudim está bom. Não precisa de ser infalível para saber isso. Pode enganar-se por ter pouca experiência e ter feito um pudim muito pior do que o de um mestre-cuca experiente. Pode enganar-se ao acreditar que, por saber bem, o seu pudim é o melhor do mundo. Não significa que não possa saber verdades acerca de pudins. Significa que não pode fechar os ouvidos à eventual revisão das suas crenças. Significa que tem de estar aberto a eventuais razões contra as suas melhores crenças.

    Quando falamos em "saber que Horowitz fez a execução perfeita" estamos a falar de quê? A resposta é a seguinte: quando não temos quaisquer razões para pensar que é imperfeita e muitas razões para pensar que é. Não estamos a emitir um parecer omnisciente acerca da interpretação de Horowitz. É nesse sentido que as nossas crenças são sempre falíveis (podem surgir razões para pensar o contrário, o que não significa que surjam). Podemos ter a certeza de que estamos perante a execução perfeita mas podemos errar ao atribuir verdade à afirmação de que estamos. Essa certeza pode ser frustrada, tal como a certeza de Horowitz na sua execução pode ser frustrada pelo ouvido penetrante de outro músico mais atento.

    Ninguém lhe garante a omnisciência, homem.

    Ninguém estabelece o que é a execução perfeita. É por isso que a discussão é permanente. Tudo o que temos são razões para acreditar que a execução foi perfeita contra razões para acreditar que não foi. Isto não tem a ver com a metafísica da execução, isto é, com o facto de ter sido ou não perfeita. É isso que significa não haver uma última palavra: não somos omniscientes. Mas podemos ter muitas razões fortes para pensar que x é verdade.

    Isto é uma experiência mental, estou a simplificar, reduzindo os critérios de avaliação. Suponho que pudesse haver mais do que uma interpretação perfeita. Não interessa para a ideia que quero transmitir.

    O problema aqui é confundir-se "saber" com "omnisciência".

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  4. Pode-se entender que uma execução é perfeita por ser inexcedível em todos os tempos e todos os lugares. Mas pode-se simplesmente pensar que uma execução musical perfeita é aquela que satisfaz todos os critérios que há para satisfazer a respeito de execuções musicais. Na verdade isto é tudo o que temos para nos basear quando exclamamos "perfeito!" ao ouvir uma interpretação. Mais uma vez, os leitores estão a dar uma carga quase teológica à noção de "perfeição". Porquanto os cristãos medievais tenham enveredado por aí não significa que tenhamos de usar a palavra "perfeição" no sentido de "interpretação maior do que a qual nada se pode conceber".

    Duas interpretações diferentes da mesma peça podem ter excelência e diferir em virtudes "extra" quer dizer, em detalhes que estão para lá dos critérios de exigência cuja satisfação torna a execução perfeita. (um rubato em que o próprio compositor não pensou, talvez?)

    O falibilismo não é a ideia de que TUDO é falível. É a ideia de que os agentes racionais são falíveis, que as suas crenças — o acto de atribuir valor de verdade a proposições — são falíveis.

    Pensem nisto: imaginemos que se refutou o falibilismo. O que significa isto? Que somos infalíveis? Que "às vezes" somos infalíveis? Mas isso é tão absurdo como dizer que somos omniscientes às vezes, quando acertamos numa verdade. Ser omniscientes é apenas um sinónimo de sermos "epistemologicamente infalíveis" e isto é patente que não o somos. Não falhar agora não significa que se é "infalível agora". Ou somos infalíveis ou não somos e não falhar agora não nos torna infalíveis.

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  5. Hm. Nessas alturas dá até vergonha de continuar replicando... não porque se creia que se esteja errado, mas porque, afinal, a etiqueta parece pedir que não prolonguemos discussões ad infinitum na casa dos outros...

    Exaurido, quase no fim, pergunto: é falível quem enuncia e o próprio enunciado em "um triângulo equivale a dois ângulos retos"? (resposta clichê: geometrias não-euclidianas e o inferno que o valha; lógicas paraconsistentes e o mais.)

    Porque acaso haja um enunciado infalível (irrefutável), não poderemos mais dizer que todo enunciado e enunciador sejam falíveis.

    De todo modo, digo já: nós não estamos discutindo o mesmo assunto, Vitor. Está claro para mim que você está defendendo um plano "coerencista", probabilista, enquanto eu opero em um plano meta-lógico, no qual a pergunta é a seguinte: como é possível o conhecimento apodíctico em um mundo de enunciadores e enunciados falíveis? DITO DE OUTRA MANEIRA, em um mundo em que tudo é meramente possível, nada é necessário. Mas como se pode afirmar, partindo de um mundo possibilista, que se está em um mundo possibilista? Essa é mais uma possibilidade, apenas.

    Parece-me que o falibilismo (ou falseabilismo) é um relativismo de pesos: ora, isto tem mais peso agora, isto parece dar conta do nosso problema por enquanto. A questão, repito-me sem parar, é: que ponto de partida de lugar nenhum é esse, onisciente, que pode afirmar sem contradizer-se que tudo é falível?

    Ou também: que comprovação empírica tem o método científico? Que ele prescreve a falseabilidade empírica é evidente, mas que falseabilidade empírica tem ele? Que funcione é condição suficiente para mantê-lo em pé?

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  6. Homem. Não é preciso por-se a falar em geometrias ineuclidianas. Você não compreende que está a confundir a justificação da crença com a verdade acerca de que a crença é.

    Claro que a pessoa que diz que um triângulo equilátero tem todos os lados iguais é falível, do mesmo modo que uma pessoa que conseguiu uma vez na vida ir a Madrid com um mapa continua a ser falível. Você está a confundir o modo como um agente justifica a sua crença de que chegou a Madrid com a verdade de ter chegado a Madrid. O que significa "saber" que chegámos a Madrid? Apenas isto: que temos todas as razões para pensar que chegámos e nenhum indício contra. Ser falível não é ser idiota, é estar aberto à possibilidade do erro, coño!

    Pense outra vez. Verá que o falibilismo é incompatível com o relativismo. Se sou relativista, significa que para mim a verdade é relativa, seja ao indivíduo, ao grupo social, à cultura, etc. Ou seja, para um relativista não há "boas" nem "más" interpretações. A interpretação genial de Horowitz vale tanto como a de um bronco que foi ao piano agredir as teclas.

    Agora diga-me como é que consegue compatibilizar esta crença com a tese falibilista: de que os agentes se podem enganar. Se não há verdade então não me posso enganar, acerto sempre. É o oposto do falibilismo.

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  7. “Você não compreende que está a confundir a justificação da crença com a verdade acerca de que a crença é.”

    E você [permita-me intrometer-me na discussão de vocês] não compreende que essa sua afirmação é apenas mais uma crença, que, segundo você mesmo, também é falível. Você não compreende que se é possível estar enganado acerca de tudo, também é possível estar enganado sobre a existência da verdade ou de verdades acerca de crenças e sobre a diferença entre estas e a justificação dessas crenças.


    “Claro que a pessoa que diz que um triângulo equilátero tem todos os lados iguais é falível, do mesmo modo que uma pessoa que conseguiu uma vez na vida ir a Madrid com um mapa continua a ser falível.”

    A questão não é se a pessoa é falível, mas se a crença na equilateralidade do triângulo eqüilátero é falível ou não. Eu sou falível, mas tenho certeza de que o triângulo eqüilátero tem três lados iguais, sempre teve e sempre terá, aqui e em qualquer lugar: não tenho a menor dúvida e não admito a menor possibilidade de estar enganado. Trata-se de uma evidência.

    Você não percebe que sempre pressupõe que as pessoas são falíveis. Ora, essa é ou não uma certeza sua que, como toda outra, também pode ser falsa? Mas se for falsa, todo o seu argumento perde o sentido.

    E sabe por que você tem certeza de que somos falíveis? Porque isso é evidente, e é evidente porque os princípios de identidade, de não-contradição e do terceiro excluído são necessários e universais. Você sabe que somos falíveis porque acredita que as proposições têm valor de verdade, que são ou verdadeiras ou falsas, e que, como eu penso que seja falso a proposição que você pensa ser verdadeira, um dos dois tem necessariamente de ter falhado em seu julgamento. Não é absolutamente possível, p.ex., eu e você estarmos simultaneamente certos acerca da tese falibilista tal como você a defende.

    Logo, você acredita firmemente nos princípios da lógica. E se esta crença for também falsa, então todo o seu discurso não faz sentido.


    “Você está a confundir o modo como um agente justifica a sua crença de que chegou a Madrid com a verdade de ter chegado a Madrid. O que significa "saber" que chegámos a Madrid? Apenas isto: que temos todas as razões para pensar que chegámos e nenhum indício contra. Ser falível não é ser idiota, é estar aberto à possibilidade do erro, coño!”

    Você fugiu ao ponto novamente: é claro que continuo sendo falível, mas a questão não é essa, a questão é se posso me enganar a respeito do caso específico de ter chegado a Madri. Você acredita que sim. Talvez eu até possa estar alucinando, e não ter chegado a Madri mas a Lisboa, mas, mesmo que esteja alucinando, não posso estar enganado acerca da equilateralidade do triângulo eqüilátero!

    O ponto não é a diferença trivial entre crença e verdade, ou entre “certeza” e verdade, mas a tese cético-epistemológica segundo a qual TODAS as nossas crenças e certezas podem ser falsas. Não podem.


    “Agora diga-me como é que consegue compatibilizar esta crença [relativista] com a tese falibilista: de que os agentes se podem enganar. Se não há verdade então não me posso enganar, acerto sempre. É o oposto do falibilismo.”

    Como pode saber que há verdade? E que podemos nos enganar? Essas são apenas outras crenças falíveis. Se você defende que pelo menos quanto a essas crenças não pode estar errado, então estamos de acordo, mas se continua a defender que inclusive acerca delas pode estar errado, então jamais poderei concordar com você: trata-se de uma crença sem sentido.


    Vou dar eu agora um exemplo: o 11/9. As torres gêmeas efetivamente caíram ou não? É possível estarmos todos enganados sobre esse fato? Essa é a primeira pergunta. A segunda é a seguinte: supondo que seja verdade que as torres tenham sido derrubadas por um bando de terroristas religiosos fundamentalistas, que acreditavam piamente que estavam fazendo a coisa mais certa e mais ética do mundo, e que pelo feito alcançariam a salvação e o paraíso etc., você considera a possibilidade de que os terroristas é que estejam certos e nós todos, que abominamos o atentado e as crenças que o motivaram, estejamos errados?

    Outro exemplo: você crê mesmo na possibilidade de a exterminação de judeus pelos nazistas alemães na 2aGG não ter acontecido de fato e/ou na possibilidade de estarmos todos errados quanto à imoralidade e criminalidade desse feito?

    Se você responder que sim, que esse tipo de engano já aconteceu na história, p.ex. relativamente ao escravismo, à humanidade dos selvagens etc., então eu lhe replicarei o seguinte: sim, podemos ter-nos enganado todos acerca disso e daquilo, mas agora estamos absolutamente certos quanto aos mesmos fatos! Não é mais possível estarmos errados quanto à crença na imoralidade da escravatura etc.

    Do fato de termos errado alguma vez não se segue que sempre poderemos estar errados sobre tudo.

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  8. "Não é mais possível estarmos errados quanto à crença na imoralidade da escravatura etc"

    Você dá-se conta que acabou de refutar a existência de racistas, isto é, de pessoas que estão enganadas quanto à moralidade da escravatura? (ou quanto à irrelevância moral de grupos de seres humanos, para ser mais abrangente).

    O falibilismo não é a tese de que podemos estar enganados a respeito de tudo, não é a tese de que as nossas crenças verdadeiras podem ser falsas. O falibilismo é a tese de que não temos garantias absolutas para a justificação de todas as nossas crenças, o que é muito diferente. Isto é perfeitamente compatível com a ideia de que temos crenças verdadeiras justificadas. O falibilismo não é cepticismo.

    Tente pensar um pouco. Imagine que o falibilismo está errado. Imagine que tem razão. O que significa isso? Que somos infalíveis? Você mesmo não parece acreditar nisso. Que somos infalíveis às vezes? Mas meu amigo, qual a diferença entre "ser infalível às vezes" e ser falível? O próprio significado de "falível" é esse: é possível que nos enganemos naquilo que consideramos que sabemos.

    Considere o exemplo do triângulo. O que você me pergunta — se pode estar enganado quando diz que um triângulo equilátero tem tres lados iguais — não é uma formulação coerente do falibilismo. Essa formulação seria a seguinte: podem as nossas crenças verdadeiras ser falsas? Isto não é falibilismo. Talvez haja formulações do falibilismo assim, mas se as há estão erradas.

    Imagine que chegou a Madrid e acredita que chegou a Madrid. A sua crença é verdadeira e não pode ser falsa, porque está efectivamente em Madrid. Agora imagine que a sua justificação para a crença de que está em Madrid se baseia em indícios equivocados. Os indícios que você pensa serem aqueles que tornam verdadeira a sua crença de que está em Madrid não são verdadeiramente indícios que lhe permitam dizer que está em Madrid. Nesse caso, você acredita que está em Madrid, tem uma crença verdadeira, não pode estar enganado e no entanto não sabe verdadeiramente que está em Madrid. Porque não basta ter uma crença verdadeira para se ter conhecimento. É preciso ter uma crença verdadeira justificada. Mas é precisamente por sermos falíveis que podemos cometer erros na justifcação, mas isso não signfica que cometemos, nem que somos incapazes de ver que cometemos. Significa apenas que não somos autosuficientes nem omniscientes e por isso é que a ciência se faz com discussão entre pares.

    Agora repare no detalhe: o cepticismo radical é a tese de que o conhecimento é falível. Isto é incoerente.

    O falibilismo é a tese de que não temos garantias absolutas de não ter cometido algum erro nas justificações que temos para as nossas melhores crenças. Isto não significa que não tenhamos garantias muito boas. No caso do triângulo temos uma garantia muito boa: é uma verdade semântica — equilátero é a propriedade de ter três lados iguais. Mas repare. Você está livre de cometer erros ao pensar que uma determinada verdade é uma verdade semântica? Não. Pode pensar erroneamente que "água é H2O" é uma verdade semântica e não é.

    Quanto ao relativismo, é irrelevante o que eu penso acerca da verdade. É incoerente ser-se relativista e falibilista ao mesmo tempo. Não pode defender que nos podemos enganar e ao mesmo tempo afirmar que não há verdade. Só me posso enganar se houver verdade. Ser relativista não é pensar que se está enganado, é pensar que nunca nos enganamos.

    Se tiver pachorra leia este artigo que escrevi hoje:

    http://vguerreiro.blogs.sapo.pt/18809.html

    O problema é que para si, nas suas palavras, a distinção entre crença e verdade é "trivial".

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  9. “"Não é mais possível estarmos errados quanto à crença na imoralidade da escravatura etc"
    Você dá-se conta que acabou de refutar a existência de racistas, isto é, de pessoas que estão enganadas quanto à moralidade da escravatura? (ou quanto à irrelevância moral de grupos de seres humanos, para ser mais abrangente).”

    Não, eu acabei de refutar a possibilidade de que os racistas estejam certos! Leia com atenção os meus comentários. Eu digo que se tenho a convicção de que o triângulo tem 4 lados, estou necessariamente errado – e com parafusos a menos. E que se tenho certeza de que o triângulo tem 3 lados, estou necessariamente certo – aqui e em qualquer mundo possível.


    “O falibilismo não é a tese de que podemos estar enganados a respeito de tudo, não é a tese de que as nossas crenças verdadeiras podem ser falsas. O falibilismo é a tese de que não temos garantias absolutas para a justificação de todas as nossas crenças, o que é muito diferente. Isto é perfeitamente compatível com a ideia de que temos crenças verdadeiras justificadas. O falibilismo não é cepticismo.”

    Muito bem, concordo com você – contra o Desidério. Veja o que ele afirma: “Mas ao pensar outra vez vê-se que a melhor motivação para defender a tolerância e rejeitar o dogmatismo é a convicção de que somos falíveis e portanto podemos estar errados quando pensamos seja o que for [...] É talvez difícil de compreender que não há uma última palavra, tal como não há um último número. Tudo o que eu disse até agora implica que tudo o que eu disse até agora pode ser falso, por mais que eu pense que é verdade. E é isto que algumas pessoas parecem ter dificuldade em aceitar: a nossa falibilidade. Querem certezas, dogmas, garantias, métodos mecânicos que garantam a verdade, receitas que possam aplicar com segurança. Lamento dar más notícias, mas não há nada disso e nem sabemos se é verdade que nada disso há. Tudo o que podemos fazer é pensar cuidadosamente, e depois pensar outra vez.”

    Ora, eu não preciso pensar outra vez sobre se o triângulo tem 3 lados, ou mesmo se o escravismo é imoral. E não é verdade que houve época em que não era possível conceber a imoralidade do escravismo. Se Aristóteles ou Locke acreditavam nisso, foi porque eles se deixaram levar por interesses e não pela razão. A crença ou “certeza” deles não baseava em conhecimento, mas em mera opinião.

    Note ainda que quando diz que “nem sabemos se é verdade que nada disso há”, o Desidério põe em dúvida o próprio falibilismo!


    “Tente pensar um pouco. Imagine que o falibilismo está errado. Imagine que tem razão. O que significa isso? Que somos infalíveis? Você mesmo não parece acreditar nisso.”

    Claro que não! Isso mostra que você não leu com atenção o que eu disse. Eu tenho absoluta certeza [perdoe-me o pleonasmo] de ser falível, e até expliquei por quê. Mas disso não se segue que sou falível, que posso falhar, sempre e sobre tudo, como afirma o Desidério explicitamente no trecho citado.


    “Que somos infalíveis às vezes? Mas meu amigo, qual a diferença entre "ser infalível às vezes" e ser falível? O próprio significado de "falível" é esse: é possível que nos enganemos naquilo que consideramos que sabemos.”

    Pois é, quando temos evidência, não é mais possível errar. Se erramos, não há evidência. A certeza objetiva se baseia em evidência.


    “Considere o exemplo do triângulo. O que você me pergunta — se pode estar enganado quando diz que um triângulo equilátero tem tres lados iguais — não é uma formulação coerente do falibilismo. Essa formulação seria a seguinte: podem as nossas crenças verdadeiras ser falsas? Isto não é falibilismo. Talvez haja formulações do falibilismo assim, mas se as há estão erradas.”

    O falibilismo desideriano – que, como disse, é mais que cético, é relativista – põe em dúvida todas as nossas crenças, inclusive as geométricas e lógicas. Ele até acha estranha a crença segundo a qual os princípios básicos da lógica são necessários e universais.

    Note ainda que você continua pensando ser possível sair de nossas crenças e falar de valor de verdade independente de crenças. Nisso concordo com o Desidério e com o Nagel: não é possível sair do pensamento e continuar pensando. Não temos acesso a uma realidade independente de pensamento.


    “Imagine que chegou a Madrid e acredita que chegou a Madrid. A sua crença é verdadeira e não pode ser falsa, porque está efectivamente em Madrid. Agora imagine que a sua justificação para a crença de que está em Madrid se baseia em indícios equivocados. Os indícios que você pensa serem aqueles que tornam verdadeira a sua crença de que está em Madrid não são verdadeiramente indícios que lhe permitam dizer que está em Madrid. Nesse caso, você acredita que está em Madrid, tem uma crença verdadeira, não pode estar enganado e no entanto não sabe verdadeiramente que está em Madrid. Porque não basta ter uma crença verdadeira para se ter conhecimento. É preciso ter uma crença verdadeira justificada. Mas é precisamente por sermos falíveis que podemos cometer erros na justifcação, mas isso não signfica que cometemos, nem que somos incapazes de ver que cometemos. Significa apenas que não somos autosuficientes nem omniscientes e por isso é que a ciência se faz com discussão entre pares.”

    Quanto ao principal, estou plenamente de acordo! Mas não é essa a tese do Desidério: leia o artigo dele com atenção. Só uma observação: não sei se se pode ter certeza sobre o valor de verdade de juízos a posteriori!


    “Agora repare no detalhe: o cepticismo radical é a tese de que o conhecimento é falível. Isto é incoerente.”

    Claro. Mas como é que você separa crença, “certeza”, de conhecimento? Como é que você pode saber que tem conhecimento genuíno em vez de opinião, de crença ou “certeza” falsa? Qual é o critério? Não existe um critério fora do conhecimento mesmo! O critério é, em última instância, a evidência.


    “O falibilismo é a tese de que não temos garantias absolutas de não ter cometido algum erro nas justificações que temos para as nossas melhores crenças. Isto não significa que não tenhamos garantias muito boas. No caso do triângulo temos uma garantia muito boa: é uma verdade semântica — equilátero é a propriedade de ter três lados iguais. Mas repare. Você está livre de cometer erros ao pensar que uma determinada verdade é uma verdade semântica? Não. Pode pensar erroneamente que "água é H2O" é uma verdade semântica e não é.”

    Pode, claro. O juízo sobre a água é a posteriori: para saber como a água é composta, eu tenho de recorrer à experiência. Mas quanto ao triângulo, não.


    “Quanto ao relativismo, é irrelevante o que eu penso acerca da verdade. É incoerente ser-se relativista e falibilista ao mesmo tempo. Não pode defender que nos podemos enganar e ao mesmo tempo afirmar que não há verdade. Só me posso enganar se houver verdade. Ser relativista não é pensar que se está enganado, é pensar que nunca nos enganamos.”

    A minha posição é a seguinte: eu só posso saber se há ou não a verdade ou proposições verdadeiras [alguns analíticos abominam essa história de “a” verdade], se eu re-conheci alguma e, portanto, tenho certeza de não poder estar errado quanto a ela. Caso contrário, eu não posso defender a tese da existência da verdade de modo coerente, racional.

    E é isso o que diz o Nagel, p.ex., mas não é isso o que diz o Desidério.

    Abraço e muito obrigado pela oportunidade de debater com você. Continue assim!

    edg

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