4 de setembro de 2008

A verdade implica certeza?

Um dos equívocos que rodeia a apreensão correcta do falibilismo é a suposta diferença entre "certeza objectiva" e "certeza subjectiva". Vamos examinar essa ideia.

"Certeza objectiva" seria o estado mental em que alguém tem uma crença verdadeira justificada e além disso tem certeza de que a sua crença é verdadeira.

"Certeza subjectiva" seria o estado mental em que alguém tem uma crença, verdadeira ou falsa, e além disso tem certeza de que a sua crença é verdadeira.

Isto é, no mínimo, um desperdício de vocabulário, pois não há, em si, qualquer diferença relevante entre os dois conceitos, dado que não é do facto de chamarmos "certeza objectiva" à certeza que retiramos a justificação da crença. A certeza é um efeito da justificação, não a sua causa, e como somos falíveis, não estamos livres de cometer algum erro na justificação, isto é, na actividade de tentar compreender como é que o mundo torna ou não verdadeiras algumas das nossas crenças. Se cometemos um erro na justificação sem o saber, vamos ter a certeza de que temos a certeza objectiva quando de facto não a temos. Por aqui se vê que isto não passa de uma brincadeira com as palavras.

Há outra distinção importante a fazer: ter uma crença verdadeira justificada não é o mesmo que ter uma crença verdadeira exaustivamente justificada. É esse o núcleo do falibilismo na formulação que pretendo defender. Algumas das nossas melhores crenças levaram séculos a justificar. Toda a gente tem certeza de que "a água é H2O" é verdade. Mas quantos de nós dominam todos os aspectos relacionados com a justificação dessa crença? Nem os especialistas o fazem, por isso é que a ciência é trabalho de inúmeras pessoas que exercem controlo de qualidade no trabalho umas das outras — porque são falíveis. Se não fosse possível ter conhecimento sem certeza então seria impossível a inexistência de consensos em filosofia e em ciência.

Contudo, são precisamente as pessoas mais habilitadas para falar de cosmologia física, de teoria musical ou seja lá do que for, que menos certezas têm acerca das principais teses da sua área de conhecimento. Quem são as pessoas que mais têm este tipo de "certezas" (que pensam ter a "certeza objectiva")? São, invariavelmente, as pessoas que menos sabem destes assuntos. Faz parte do nosso atavismo simiesco: quanto menos sabemos mais vaidosos e orgulhosos somos.

10 comentários:

  1. Concordo plenamente com o artigo.

    De fato, o que seria uma "certeza objetiva"? Não pode existir isso.

    Creio que a dificuldade surge no momento em que se queira diferenciar a certeza que um enunciador tenha de algo que enuncie em contraposição àquilo que Aristóteles chamava de apodíctico.

    Um enunciado apodíctico, segundo Aristóteles, seria aquele que atingiu a episteme, e então diz-se certo e necessário. Percebe? "Certo" parece implicar certeza, mas no fim das contas é difícil pensar a certeza em um campo não subjetivo. Então tratar-se-ia simplesmente de um enunciado... certo e necessário.

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  2. Voltamos ao mesmo: a noção de certeza é epistemológica, a noção de proposição necessária é metafísica. Uma proposição necessária é uma proposição necessária independentemente das minhas certezas.

    Como sei que a minha certeza é acerca de uma proposição necessária? Seguramente que não o faço inspeccionando a minha certeza. Tenho de inspeccionar o mundo com os recursos da metafísica.

    Apodictico é o que admite certeza para além de qualquer dúvida. O que pode ser objecto para além de qualquer dúvida. Mas mais uma vez, voltamos à distinção estafada: o falibilismo não é a doutrina de que as proposições são falíveis. As proposições não podem ser falíveis porque não são agentes. As proposições ou são verdadeiras ou falsas, como as execuções pianísticas não são falíveis. Não faz sentido dizer "esta interpretação de Chopin é falível". Ela foi bem ou mal executada. Falível é o pianista. As crenças por sua vez são "falíveis" apenas na medida em que são pretensões à verdade, são a actividade do agente e esta é falível na medida em que o agente o é. Mas não se pode confundir proposições com crenças. As proposições são o objecto das crenças.

    As pessoas deixam-se levar pelas palavras: é tão relevante que o falibilismo seja "infalível" (como vimos isto é uma imprecisão, porque uma tese não é um agente racional) como o fisicismo ser fisicista, o vegetarianismo ser vegetariano ou o romantismo ser romantico. Só parece que é muito relevante por causa da "sonoridade" de "falível" e da associação com "falso". Mas até essa associação é arbitrária pois o que é falível é o que pode falhar, como o que é factível é o que pode ser feito. O que pode ser falsificado é o falsificável.

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  3. Na verdade, se reparar bem, você só chama "infalível" àquilo que "não falhou". Uma execução impecável de uma peça musical, por exemplo. Mesmo aceitando o uso grosseiro de "falível" aplicado à interpretação, que não é um agente nem uma crença (pretensão do agente ao virtuosismo, neste caso), o que se pretende dizer com esse uso? Que a interpretação "não falhou". Ora, não faz sentido dizer que é infalível porque a questão de falhar não se coloca. Já foi executada brilhantemente. Mas ser falível, evidentemente, é poder tentar uma execução brilhante e falhar. Não é falhar necessariamente.

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  4. O vegetarianismo, por exemplo, não é ele próprio vegetariano. Será que isto implica que é autoderrotante ser-se vegetariano?

    Para ser autoderrotante, uma tese tem de implicar a sua falsidade. E como estamos fartos de ver, a falibilidade não implica a falsidade. Implica a possibilidade de falhar quando acreditamos em algo.

    Imagine que vai jogar à roleta. Você pode perder. Isso significa que perde? Não. Se ganhar uma vez você tornou-se invencível? Não. Em que sentido é que diz que é invencível? Apenas no sentido de que, se já ganhou aquela jogada não a pode perder. Ora bolas. Claro que num jogo de xadrez onde já sofri cheque-mate não posso ganhar. E depois? Isso não faz que ganhar um jogo de xadrez onde se sofreu xeque-mate seja falível, faz que seja impossível. São coisas distintas. Agora imagine que diz que ao ganhar um jogo é infalível no momento em que ganha. Isso é a mesmíssima coisa que dizer que é falível. Pode perder o jogo seguinte.

    Repare na subtileza: quando dizemos que um jogo de xadrez já ganho é infalível, não estamos já a falar do agente mas das circunstâncias que tornam impossível perder. Estamos a falar do mundo e não já do agente. O mesmo acontece com as proposições como verdades semânticas. O que é falível é a acção de acreditar numa verdade semântica: como a acção de aceitar um pagamento em dinheiro — podemos enganar-nos e aceitar dinheiro falso. Claro que se o dinheiro for genuíno não nos podemos enganar, mas isso não é por causa das nossas crenças nem por causa de nós e sim por causa do dinheiro ser genuíno. Nós continuamos a poder enganar-nos e aceitar uma nota falsa quando parece genuína. E nunca temos garantia absoluta de não estar perante uma falsificação brilhante. Precisamos de outros seres humanos, munidos de ferramentas e com outras crenças.

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  5. Acho que afinal estamos perto de concordar. Não concordo com um detalhe ou outro, mas principalmente não aceito que você trate os outros "as if you were lecturing them".

    Não concordo também com que você tome por pressuposto que eu disse uma coisa quando eu nunca a disse. E também não concordo quando você cria um espantalho para bater no que eu disse, quando passa você mesmo a defender aqui e ali o que eu na verdade defendi desde o início.

    É claro que uma sentença não é falível no sentido em que um agente o é. Uma sentença não pode ela mesma ter certeza, só homens têm certeza ou não: mas ocorre que sentenças podem ser certas ou não, e se são certas podemos ter certeza delas.

    Que você assuma a existência de enunciados apodícticos implica já um meta-falibilismo.

    E por mais que enunciados não possam ter certeza, porque não são pessoas, ainda assim podem ser falíveis ou não. E por falível não vá entender falho — não me acuse de criar uma confusão que não existe em minha mente, nem nunca existiu.

    Há uma diferença abissal entre o "falho" e o que "pode ser falho". Se alguém não entendeu a "voltagem" (de que eu falei desde meus primeiros comentários), sem dúvida alguma essa pessoa não é a minha.

    Mas enunciados podem ser falíveis quando não sejam apodícticos. A ciência histórica, por exemplo, é cheia de enunciados falíveis, que podem estar errados — mas de que possam estar errados, nós sabemos, caro, não implica estarem errados.

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  6. O que seria um metafalibilismo? Um discurso falibilista de segunda ordem? Não percebo bem.

    "apodíctico" é apenas uma maneira grega de falar nas mesmas coisas que temos discutido e faz tanta diferença usá-la como chamar nomes à certeza, na esperança de que ela produza a verdade.

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  7. Metafalibilismo seria uma salvaguarda, uma espécie de meta-lógica onde se pode explicitar princípios sem que esses contradigam a idéia explicitada por esses mesmos princípios.

    Apodíctico é a mesma coisa que "chamar nomes à certeza"? O quê?!

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  8. "Faz parte do nosso atavismo simiesco: quanto menos sabemos mais vaidosos e orgulhosos somos."

    O físico Manuel Paiva observa que poucas pessoas são capazes de resolver uma equação diferencial de primeira ordem mas, mesmo assim, a maior parte das pessoas tem convicções sobre a existência de vida extra-terrestre...

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  9. Vitor, desculpe-me, mas eu não tenho certeza de que a água seja H2O. Este seu artigo não refuta a minha tese, pois passa longe dela. Não afirmei em momento algum que fosse possível ter certeza objetiva acerca do valor de verdade de proposições empíricas. Eu sempre me referi a princípios a priori da cognição, em especial da matemática e da lógica.

    "Faz parte do nosso atavismo simiesco: quanto menos sabemos mais vaidosos e orgulhosos somos." Esse tipo de explicação psico-evolucionista na verdade não explica coisa alguma. E a sua é apenas uma opinião infundada de um não-especialista. Ou seja: a sua crítica é autodestrutiva, pois, no ato de criticar, você mesmo se torna objeto da crítica, uma vez que não é especialista em psicologia evolutiva ou etologia.

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  10. Sem contar que falar em "atavismo simiesco" é recorrer a um ataque grosseiro contra quem discorde de si; isto ao mesmo tempo em que se parece estar defendendo certa humildade...

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