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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2008

Ideias perspicazes

A tradução de "insight" sempre me levantou muitas perplexidades. Tenho tentado várias alternativas e todas parecem falhar num ou noutro contexto, ainda que funcionem bem noutros. Finalmente, parece-me que a melhor alternativa é "ideia perspicaz". Isto funciona para contextos nos quais se diz algo como "A ideia perspicaz de Descartes foi...", mas também em contextos nos quais se fala de alguém ser perspicaz ("insightful"). Alguém tem ideias perspicazes sobre isto?

Nussbaum, Platão e a República

Acabei de ter conhecimento da edição brasileira de A República de Platão: A Boa Sociedade e a Formação do Desejo, de Martha Nussbaum. Tanto quanto sei, este é o primeiro livro em português (na verdade, é apenas um artigo longo) desta importante autora. Foi publicado em 2004 pela Bestiário Editora. De Nussbaum, temos na Crítica o artigo "Amor".

No Público de hoje

Quem abrir o jornal Público de hoje, ao ler a crónica do economista Luís Campos e Cunha, «O barulho das luzes», depara-se, a determinada altura, com este comentário:Uma terceira referência, no barulho das luzes e na confusão da crise: é sempre refrescante ler os artigos de Desidério Murcho, no P2 deste jornal. Têm o tamanho certo e levam-nos a pensar, o que é sempre útil, especialmente, neste mundo de sensações e de reacções. Um mundo de pouca ponderação e pouco pensamento e vivido mais pelo instinto do que pela razão. Aconselho a leitura e agradeço-lhe, mesmo sem o conhecer.É sempre bom saber do impacto de pensar outra vez, como defende o Desidério.

George Dickie: Introdução à Estética

Está já à venda em Portugal a Introdução à Estética, de George Dickie, o número 4 da colecção Filosoficamente, da Bizâncio. Clique aqui para comprar.

Problemas com a regra de ouro

Uma das regras que os cosmopolitas defendem e invocam muitas vezes, é a regra de ouro. A regra de ouro tem uma versão positiva e outra negativa. A positiva diz que devemos fazer o mesmo bem aos outros que nos fizeram a nós e a negativa indica que não devemos fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos tenham feito. Muitas das vezes a base de muitas das regras em ética é simples. Pensar essas regras já é mais complicado. Vamos então pegar num caso: o leitor é médico e segue sempre a regra de ouro. Acontece que está a operar um doente testemunha de Jeová e este precisa de uma transfusão de sangue. Ora, se seguir a regra de ouro, deve ou não administrar-lhe a transfusão? A tendência mais intuitiva é dizer que deve administrar a transfusão já que está uma vida em causa. Mas siga a regra de ouro: imagine o leitor que além de médico é testemunha de Jeová. Quer o leitor receber o castigo do inferno por violar a palavra divina? Coloque-se no lugar do crente e avalie o problema.

Realidade

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Será toda a realidade empírica?

Afirmar que toda a realidade é empírica não pode querer dizer que toda a realidade pode de facto ser percepcionada por nós, pois é óbvio que a maior parte da realidade não pode ser percepcionada por nós: não observamos nem nunca observaremos dinossauros vivos, nem o Big Bang, nem quarks — apenas inferimos a sua existência com base noutros indícios que podemos observar. Portanto, afirmar que toda a realidade é empírica tem de querer dizer apenas que toda a realidade pode ser inferida do que podemos observar.

Mas isto tem o resultado de podermos ser obrigados a admitir que nem toda a realidade é empírica, se por “empírico” queremos dizer que tem localização espácio-temporal. Por exemplo, se é real tudo o que podemos inferir com base no que podemos observar, o tempo e o espaço são reais apesar de apenas podermos observar os seus efeitos e não os próprios tempo e espaço. Mas como o tempo e o espaço não…

Sartre e o anti-semitismo, de George Orwell

O anti-semitismo é obviamente um assunto que precisa de ser seriamente estudado, mas parece improvável que o venha a ser nos próximos tempos. O problema é que enquanto o anti-semitismo for encarado simplesmente como uma aberração vergonhosa, quase um crime, qualquer pessoa suficientemente literata para ter ouvido a palavra irá obviamente declarar-se-lhe imune; e em resultado disso, livros sobre o anti-semitismo tendem a ser meros exercícios de tirar argueiros dos olhos dos outros. O livro de Monsieur Sartre [Portrait of the Anti-Semite, trad. ingl. de Erik de Mauny] não é excepção, e nada ganhou provavelmente por ter sido escrito em 1944, no período de embaraço, autodesculpabilização e caça às bruxas que se seguiu à Libertação. [Mais...]

Pedro Galvão sobre argumentação em bioética

Vale mesmo muito a pena ver o powerpoint com o essencial da comunicação de Pedro Galvão no 6º Encontro Nacional de Professores de Filosofia intitulada A Argumentação em Temas de Bioética. Do que conheço, ninguém em Portugal sabe como ele falar tão bem e tão claramente sobre o assunto.

Se correr até ao fundo esta página disponível no sítio da SPF, encontrará a ligação para o referido material. E encontrará ainda outras comunicações apresentadas no mesmo encontro.

Andam os filósofos nas nuvens?

Heidegger, Tales, Platão e Sara Raposo dão uma resposta interessante aqui.

Insight e cognição

Se há uma arte de pensar que quereríamos ensinar aos jovens, tem muito a ver com isto — mostrar como a mente se pode mover ao longo do espectro da informação, discriminando generalizações súbitas de pressentimentos, hipóteses de preconceitos irreflectidos. Para o nosso propósito, contudo, quero mover-me para o extremo do espectro, para o ponto limite em que os factos, cada vez mais rarefeitos, desaparecem por fim completamente. O que encontramos quando ultrapassamos tal ponto e entramos na zona em que os factos estão totalmente ausentes? [Mais...]

Manual de Filosofia Política, org. por João Cardoso Rosas

Via Pedro Galvão, soube do bem-vindo lançamento deste livro introdutório que promete: Manual de Filosofia Política, org. por João Cardoso Rosas (Universidade do Minho), edição Almedina, 304 pp.

A filosofia apresenta resultados?

A discussão gerada pelo postFilosofia e Física acabou por levar à questão de saber se a filosofia apresenta ou não resultados, por contraposição com o que se passa com a física e outras ciências. Acho que esta discussão acaba frequentemente numa mera discussão de palavras, pelo que é útil precavermo-nos disso. Isto porque parece que estamos muitas vezes apenas a discutir o significado que queremos dar à palavra «resultados», o que me faz lembrar uma pequena história contada por William James no início da 2ª conferência que faz parte do seu livro Pragmatismo. A história é contada na primeira pessoa e reza assim:
Há uns anos, estando num acampamento nas montanhas, regressei de um passeio solitário e encontrei toda a gente envolvida numa feroz disputa metafísica. O
corpus da disputa era um esquilo que se supunha estar agarrado a um lado de um tronco de árvore, enquanto no lado oposto da árvore se imaginava estar um homem.
Esta testemunha humana tenta vislumbrar o esquilo movendo-se rapidame…

Distribuição da riqueza

Um dos clássicos problemas de filosofia política é o da distribuição da riqueza. Apesar de clássico, como sabemos, ainda atormenta bastante o cidadão comum. Mas vamos tentar perceber um pouquinho do problema. Para tal distinguimos dois princípios, o da liberdade e o da diferença. A relação entre estes dois princípios, enunciados por John Rawls, é bastante simples: diferentes posses de riqueza correspondem a diferentes possibilidades de liberdade. Em termos redondos, um rico tem muito maiores possibilidades de ser livre do que um pobre e parece claro que é muito mais importante ser livre do que ser rico. A proposta de Rawls consiste numa distribuição equitativa de riqueza, tese que parece intuitivamente correcta para muitas pessoas. Mas será mesmo assim? Será que uma distribuição equitativa da riqueza produziria equilíbrio entre o princípio da liberdade e o princípio da diferença?

Física e Filosofia

Uma das relações mais interessantes da filosofia com outros saberes está entre a física e a filosofia. Apesar de complexa e de exigir algum domínio para uma possível resposta, quero lançar aqui mais um desafio aos nossos leitores propondo que possam dar uma explicação clara e objectiva dessa relação. Na Crítica estão disponíveis alguns textos de Lawrence Sklar retirados de philosophy of physics, uma obra mestra a expor esta relação. Em português a obra mais recente e mais aproximada ao problema foi publicada pela Gradiva na colecção Ciência Aberta e inclui um texto do Desidério. Chama-se Tempo e Ciência.

Introdução à Estética, de George Dickie

A Bizâncio acaba de anunciar o novo título da colecção Filosoficamente: Introdução à Estética, de George Dickie, com tradução de Vítor Guerreiro. É uma obra muito importante para quem quiser ter uma perspectiva histórica do desenvolvimento da estética e da filosofia da arte, de Platão aos nossos dias. A tradução de Vítor Guerreiro foi muito cuidada, e cuidadosamente revista por mim. 
Espero que o livro seja útil para estudantes e professores de filosofia, assim como para artistas e críticos de arte, e pessoas interessadas em arte. É uma obra ideal para preparar uma boa cadeira semestral numa universidade, podendo ser complementada com a bibliografia primária que Dickie discute ao longo do texto, de Platão a Goodman.

George Dickie

Acabei de receber esta novidade da Bizâncio na minha caixa de e-mail.

Título: Introdução à Estética
Autor: George Dickie
Colecção: Filosoficamente, 4
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«Quando ainda era estudante disseram-me que a Estética era a ‘enteada feia’ da Filosofia. Não sei quão exacto e difundido está este preconceito, mas sei que o livro de George Dickie, Introdução à Estética, nos proporciona uma perspectiva concisa, acessível e informativa. É Filosofia verdadeira e genuína teoria estética.»

Sarah Worth, Universidade de Furman

Introdução à Estética traça uma abordagem do percurso da Estética desde os primórdios, passando pelas transformações registadas nos séculos XVIII, XIX e primeira metade do século XX. A primeira metade do livro aborda a história de duas noções da estética — a teoria da beleza e a teoria da arte — e descreve as transformações sofridas desde a Grécia Antiga, até aos anos 50 do século XX. As respostas das teorias culturai…

Faith in a Hard Ground, de G.E.M. Anscombe

Na NDPR Alasdair MacIntyre acaba de publicar uma recensão de Faith in a Hard Ground, de G. E. M. Anscombe, que reune alguns dos seus ensaios dispersos sobre temas religiosos, tal como são vistos por uma filósofa católica.

Verdades relativas

Há tempos o Rolando lançou aqui a discussão sobre se a proposição expressa pela frase "Todas as verdades são relativas" é verdadeira ou falsa. A discussão esteve animada, até porque foram enviadas 34 mensagens para a caixa de comentários. Uma das intervenientes na discussão foi a Teresa Marques, que veio defender a ideia de que não era assim tão fácil descartar o relativismo. E referiu que iria disponibilizar na página da SPF o powerpoint com o essencial da comunicação que apresentou no 6º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, em Évora, precisamente sobre o assunto.
Nessa comunicação a Teresa esclareceu a noção de verdade relativa, caracterizou a motivação relativista e os diferentes tipos de relativismo, além de discutir o argumentos contra o relativismo e as possíveis respostas dos relativistas às críticas que lhes são apontadas. E tudo isso é feito de uma forma notavelmente clara. Não acreditam? Está aqui.

O caminho

Não sei como em Portugal se escreve o nome que em tempos se escrevia como “Lao Tsé”, que hoje em inglês se escreve “Laozi” e até recentemente se escrevia “Lao-tzu”. Também não sei como se escreve em Portugal o nome do livro que lhe é atribuído, que dantes se chamava Tao Te Ching, e hoje em inglês se chama Daodejing. Se alguns leitores portugueses ou brasileiros forem sinólogos, poderiam esclarecer estes aspectos. 
Em qualquer caso, saiu esta nova tradução de Edmund Ryden (Universidade de Fujen, Taiwan), na Oxford University Press, juntando-se à de Philip J. Ivanhoe (Hackett) nas traduções académicas recentes desta obra ímpar do pensamento chinês.
Laozi viveu no séc. VI a.C. e foi o fundador do taoismo, uma das mais influentes religiões chinesas. Este livro apresenta os princípios fundamentais do taoismo, sendo a ideia de harmonia natural uma das centrais, assim como o elogio do silêncio, algo de que precisamos urgentemente no mundo moderno. O tao é o caminho ou modo de fazer ou encarar …

O paradoxo da ficção II

Prometi na caixa de comentários do meu último post apresentar algumas propostas para evitar o chamado «paradoxo da ficção». Apoio-me num texto do filósofo da arte americano, Jerrold Levinson, publicado numa colectânea intitulada Emotion and the Arts, organizada por Mette Hjort e Sue Laver. Levinson considera haver sete propostas em competição, que a seguir descrevo muito genericamente:
1. A solução não-intencionalista: as reacções emocionais à ficção não são, apesar das aparências, exemplos de verdadeiras emoções, mas de estados de espírito menos complexos, como o ânimo, ou reacções reflexivas, como o choque, os quais não têm o tipo de intencionalidade presente nas emoções. Isto significa que a proposição falsa é a 1, deixando assim de haver qualquer paradoxo.

2. A solução da suspensão da crença na não existência: assim que as pessoas se deixam envolver na trama ficcional, passam temporariamente a acreditar realmente nas personagens e situações ficcionais, o que torna possível ter emoçõ…

Philosophy AS

Desde ontem que ando a vasculhar este manual acabadinho de chegar à caixa de correio. Trata-se de um extenso (cerca de 450 pp) manual de filosofia para os níveis AS ingleses, um equivalente do nosso secundário com a diferença que para os ingleses os exames ainda fazem todo o sentido. O manual não foge muito à regra de concepção de um bom manual de filosofia, ainda que os títulos das secções sejam um pouco diferentes do habitual. A preocupação em usar uma linguagem clara mas rigorosa é levada a sério. Os esquemas são muito simples e o manual está cheio de pequenas notas nas margens, sem qualquer contradição com o que se está a dizer no corpo do texto. Se quisesse estabelecer uma diferença geral entre este manual e a maioria dos manuais de filosofia do ensino secundário português, é que este não recorre uma só vez aos princípios do «eduquês» na busca de adereços extrafilosóficos para adornar a filosofia. A vantagem desta opção é que a filosofia fica apresentada de um modo incrivelmente …

Cosmopolitismo

Gosto dos desafios que estimulem o leitor. Já li várias vezes um exemplo apresentado também na recente edição de Cosmopolitismo de Kwame Anthony Appiah, um filósofo que tenho vindo a gostar. Faço aqui uma pequena adaptação do exemplo, deixando as considerações dos leitores para a caixa de comentários. Ao passar junto de um rio vejo uma criança a afogar-se. Devo atirar-me à água e tirá-la de lá. Ficar com a roupa enlameada é insignificante comparando a vida em risco de uma criança. Mas quando recebo na caixa de correio um envelope para doar 100€ para à UNICEF que pode salvar 10 crianças, deito o envelope no lixo. Será este gesto imoral?

O paradoxo da ficção

É frequente emocionarmos-nos quando lemos certos romances, vemos certos filmes ou peças de teatro. Por exemplo, sentimos pena de Ana Karenina, a personagem principal do célebre romance de Tolstoi, ao assistir ao seu destino trágico.
Mas isto é estranho, pois Ana Karenina não passa de uma personagem ficcional, e nós sabemos disso. Portanto, nada que justifique o nosso sentimento de pena aconteceu realmente. Sentir pena pelo destino trágico de Ana Karenina é mais ou menos o mesmo que chorar a morte de alguém que sabemos não ter morrido. Ora, isto tem algo de paradoxal. Os filósofos da arte chamam a isto o «paradoxo da ficção».
O paradoxo da ficção pode ser expresso nas seguintes três afirmações aparentemente verdadeiras do ponto de vista intuitivo:

1. Os leitores (ou as audiências) por vezes sentem emoções tais como medo, pena, desejo e admiração acerca de acontecimentos e personagens ficcionais.
2. Uma condição necessária para sentir tais emoções é as pessoas que as sentem acreditarem que…

Desidério Murcho: Incompletude, de Rebecca Goldstein

Gödel (1906-78) foi o mais importante lógico do séc. XX. O seu teorema da incompletude da aritmética pôs fim ao sonho empirista e formalista dos positivistas. Mas o verdadeiro alcance das suas ideias foi tranquilamente ignorado praticamente até hoje. Gödel demonstrou que a ideia de que a matemática é apenas um jogo de símbolos é falsa. E com este teorema refutou também a epistemologia positivista, que pretendia reduzir o conhecimento a priori ao conhecimento da linguagem. De uma só vez, Gödel abria as portas ao racionalismo e à ideia de que o conhecimento da matemática não é meramente um conhecimento linguístico; a razão humana, sussurra o teorema de Gödel, é fonte de conhecimento substancial. [Ler mais...]

Empregos e competências

Via Domingos Faria, acabo de ler este artigo no Guardian.

Fiona Czerniawska refere "a capacidade para ser muito analítico, para oferecer um pensamento claro e inovador, e para pôr em causa pressupostos" como algumas das habilidades que tornam os graduados em filosofia apetecíveis para os empregadores. 
Isto está muito longe do tipo de habilidades que me foram transmitidas enquanto estudante de Filosofia em Lisboa. As habilidades que me foram ensinadas sub-repticiamente incluiam a mentira erudita — fingir que se sabia o que não se sabia, que se tinha lido o que não se tinha lido e que se dominava as línguas que não se dominava, como grego e o alemão — o lodo gramatical e a inesgotável capacidade para dar voz aos mais tolos preconceitos do nosso tempo mas com uma léxico garrido e muitas citações de mortos. 
Evidentemente, isto não é nem intrinsecamente interessante, nem apetecível para os empregadores. Saber raciocinar com rigor, saber pôr em causa e discutir os preconceitos do n…

O que é a filosofia analítica?

Steven D. Hales publicou na NDPR uma boa recensão do livro What is Analytic Philosophy?, de Hans Johann-Glock. Entre as ideias erradas sobre a filosofia analítica que Hales denuncia está a estranha mania de dizer que os filósofos analíticos não prestam atenção à história da filosofia. Hales fornece vários contra-exemplos óbvios, como Russell ou Chisholm, mas falta acrescentar que em muitos dos chamados filósofos continentais não se encontra qualquer interesse na história da filosofia: é o caso de Derrida, Husserl ou Deleuze; apesar de terem escrito sobre filósofos do passado, quando escrevem a sua própria filosofia não estão propriamente o tempo todo a dar atenção à história da filosofia.

Reforma terminológica

Uma expressão é insultuosa desde que quem é classificado com essa expressão a sinta como um insulto. Este parece-me um bom princípio de civilidade. Acontece que muitos colegas sentem a expressão "filosofia continental" como insultuosa, mas não sentem que chamar-me a mim filósofo analítico, redutor e logicista, é insultuoso. De modo que para obviar a este problema de civilidade proponho uma reforma terminológica. Aos analíticos poderíamos passar a chamar anal-retentivos. E aos continentais poderíamos passar a chamar umbigo-diarrentos. Que tal?

Dicionários portáteis

Aproveito a ideia do Desidério para dar uma outra sugestão. Uma das dificuldades maiores no acesso a bons livros é a leitura em inglês. O método que usei para ler nessa língua provavelmente não é o melhor de todos, mas tem dado bons resultados. Por uma questão de economia de tempo e dinheiro para ler em inglês comecei por comprar uma boa gramática, mas rapidamente deixei de lado o estudo. O melhor mesmo foi comprar um ou dois livros bem referenciados em termos de escrita e começar a ler, muitas das vezes, sem perceber nada do que estava a ler. A dificuldade seguinte está em ler com um dicionário volumoso ao lado. Enquanto seguia o texto e recorria ao dicionário perdia o fio à meada e a tarefa parecia-me cada vez mais impossível. A solução apareceu com uma pen tradutora que me tem facilitado muito o trabalho. O que nos põe a ler a língua inglesa é o exercício aturado da leitura, mas a pen é um bom auxiliar. Funciona com um pequeno scanner na ponta, com um nível de eficácia muito elevad…

A sacrossanta autoridade universitária

A propósito do meu postFilosofia e Humor houve um leitor que manifestou a sua opinião, dizendo que não só esse post, mas o próprio blog, não passam de um exercício de «botaabaixismo». Parte do post falava sobre a encenação de profundidade intelectual que pude observar enquanto passei pela universidade e que se reflecte em muitos do que passaram por lá e ficaram definitivamente marcados por isso.

Esta minha opinião vem pôr em causa a imagem algo acrítica e idílica do ambiente universitário português e, sobretudo, põe em causa a autoridade que a universidade representa. Aos olhos de muitos é como se estivesse a dizer que, aparte o seu valor formal, muitos de nós bem podíamos deitar os nossos diplomas de licenciatura ao lixo. Em rigor, não é bem isso que quero dizer. Mas se fosse? É impossível que isso tenha acontecido? Porquê? É bom exercer algum sentido crítico também em relação ao que nos diz respeito.

A verdade é que eu sou dos que têm em casa um desses diplomas e tenho de dizer que sa…

Pergunta do dia

Será que a Arte da Fuga de J. S. Bach (ou qualquer outra composição musical) tem partes temporais? Haverá algum sentido em que a composição musical difere de qualquer outro objecto persistente, no que à pergunta anterior diz respeito?
Ao que parece, a composição musical não pode existir inteiramente em cada momento da sua execução. Há aqui a sensação de que o induracionismo não funciona, o que não parece tão claro no caso de outros objectos persistentes, como canetas ou pessoas. Ou não? Talvez a composição musical não seja o mesmo que a sua execução. Mas nesse caso, o que é?

Livros sentados

Não é fácil encontrar em Portugal ou no Brasil suportes permitam segurar os livros enquanto tiramos citações para o nosso trabalho ou enquanto traduzimos. Por isso resolvi divulgar este site, que vende suportes que em Londres se podem comprar em praticamente qualquer livraria. Eu tenho um em casa e outro na universidade, pois não passo sem eles. Tanto o mini como o médio são de bom tamanho para livros normais, até umas 500 páginas. Estes são os dois modelos que uso.

Entretanto, uma pesquisa na Internet mostra outros modelos que nunca usei, pelo que não sei se funcionam bem: BookGem e BookHug.

Eduardo Dayrell: A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas S. Kuhn

A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Samuel Kuhn (1922–1996), é uma das obras mais influentes em filosofia da ciência; menos pela solidez de seus argumentos do que pelo elevado número de divergências e debates que tem causado. Originalmente publicado em 1962 e traduzido para mais de vinte línguas, este livro constitui uma das principais fontes de argumentos para quem defende o relativismo epistêmico e científico. Opõe-se, principalmente, ao conjunto de crenças compartilhadas pelos filósofos do Círculo de Viena e seus sucessores. Sobretudo, o debate com Karl Popper (1902–1994) e Imre Lakatos (1922–1974) foi intenso. [Ler mais...]

Filosofia e humor

Uma das coisas que na primeira década do século passado Bertrand Russell discutiu no ensaio On Denoting foi a semântica de afirmações como «O actual rei de França é calvo». Será a afirmação verdadeira ou será falsa? Ficou célebre o seu comentário de que para os hegelianos, tão dados a sínteses dialécticas, o problema tinha uma solução óbvia: ele usava peruca.

Russell usava uma prosa simples, elegante e sem adornos desnecessários (nada que se pareça com a bolorenta tradução portuguesa de Problemas da Filosofia, de António Sérgio). E, quando se justificava, não evitava uma pitada de humor no que dizia e escrevia. Só descobri isto, com alguma surpresa, muito depois de terminar o meu curso de filosofia. Até parecia que não se tratava de um filósofo a sério!

Quando estudei filosofia na universidade, o humor era um sinal inequívoco de superficialidade filosófica. O verdadeiro candidato a filósofo tinha de ter um ar taciturno e devia estar permanentemente concentrado no problema do esqueciment…

Saídas profissionais

Um leitor pediu-me que publicássemos algo sobre o problema da empregabilidade, em Portugal, dos licenciados (bacharéis, no Brasil) em filosofia. Na verdade, temos na Crítica, desde há alguns anos, um artigo de António Paulo Costa que continua perfeitamente actual: "A Empregabilidade do Licenciado em Filosofia em Portugal".

A este artigo eu apenas acrescentaria o seguinte: a formação dada por algumas universidades portuguesas é por vezes inadequada porque se baseia numa concepção aristocrática da filosofia, segundo a qual esta consiste fundamentalmente numa espécie de cultura geral obnubilada para ocupar tempos livres de ricos. Consequentemente, nada se ensina que tenha qualquer tipo de aplicação excepto como ocupação de tempos livres de ricos — o que evidentemente não cativa empregadores. As competências normais da filosofia — capacidade argumentativa e de análise, resolução criativa de problemas difíceis, clareza e precisão de raciocínio — cativam empregadores noutras partes…

Dworkin em português, de Matheus Silva

Ronald Dworkin é um dos filósofos do direito mais importantes da atualidade. É conhecido principalmente por sua crítica à Jurisprudência Positivista, que trata o direito como um conjunto de regras passíveis de análise independentemente da moralidade. Dworkin argumenta que isto é um engano, pois a distinção entre fatos e valores no domínio legal, entre o que o direito é de fato e o que o direito deveria ser, é mais imprecisa do que a Jurisprudência Positivista supõe. Deste modo torna-se impossível determinar o que o direito é em casos particulares sem recorrer a considerações morais e políticas sobre o que deve ser. Além disso, Dworkin sustenta que as decisões jurídicas adequadas se baseiam na melhor interpretação moral possível das práticas em vigor em uma determinada comunidade. [Mais...]

Era melhor nunca ter sido

Um dos aspectos irritantes da filosofia é o facto de pôr em causa as nossas convicções mais arreigadas. Isto é de tal modo irritante que muitas pessoas pensam que a filosofia serve, ao invés, para sancionar as nossas convicções mais arreigadas através de um palavreado autoritário de suposta densidade teórica.

A OUP (Oxford University Press) publicou em Julho deste ano o livro Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence, de David Benatar (Universidade da Cidade do Cabo). Neste livro, o autor defende quatro teses inter-relacionadas e difíceis de engolir: Passar a existir é sempre um grande mal; É sempre errado ter filhos; É errado não abortar fetos o mais cedo possível; Seria melhor que a humanidade se extinguisse em resultado de não existirem mais crianças. Não sei se o autor consegue defender bem estas ideias, mas o simples facto de as defender é bom, pois obriga a pensar outra vez no preconceito de que a vida humana é intrinsecamente valiosa. Para que esta ideia deixe…

Camus e interdisciplinaridade

Camus, de David Sherman (Blackwell, 2008, 232 pp.) e Interdisciplinary Core Philosophy, org. por Ernest Sosa e Enrique Villanueva (Blackwell, 2008, 200 pp.) são as últimas duas novidades apetitosas que me chegaram desta editora.

Neil Levy

Se vamos desempenhar um papel no plano que Deus preparou para nós, e que Ele poderia levar a cabo sem a nossa ajuda, como dá isso sentido às nossas vidas? As vidas das crianças não ganham sentido quando desempenham um papel em projectos cuidadosamente pré-estabelecidos para eles pelos adultos.

Coisas do conhecimento e da metafísica

What is this Thing Called Knowledge?, de Duncan Pritchard. Routledge, 2006, 200 pp.
What is this Thing Called Metaphysics?, de Brian Garrett. Routledge, 2006, 192 pp.

Guia de estética

O Blackwell Guide to Aesthetics, org. por Peter Kivy, foi recentemente publicado pela Paulus no Brasil com o título Estética: Fundamentos e Questões de Filosofia da Arte (440 pp.). Trata-se de dezoito ensaios sobre diversos aspectos da estética e filosofia da arte contemporâneas, da autoria de alguns dos mais importantes filósofos da área: Paul Guyer escreve sobre a história da estética moderna, Dickie sobre a definição de arte, Thomasson sobre a ontologia da arte, Goldmann sobre a crítica de arte, Carroll sobre a relação entre o realismo em arte e na moral, Mothersill sobre a beleza, Lamarque e Olsen sobre a filosofia da literatura, Margolis sobre as belas-artes e Wolterstorff sobre as relações entre arte e religião. Outros autores abordam ainda a tragédia, o cinema, a música, a dança, etc. Trata-se de um excelente instrumento de trabalho para estudantes de graduação ou mestrado que se interessem pela área. Espero que a tradução seja boa.

Mestrado em estética e filosofia da arte

Estão abertas as inscrições para o Mestrado em Estética e Filosofia da Arte da UFOP, de 2 a 24 de Outubro de 2008. Para inscrever-se, os interessados devem comparecer no Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC) com o formulário preenchido, comprovante de pagamento da taxa de inscrição, certificado de conclusão de curso, histórico escolar, currículo, carteira de identidade, CPF e projeto de pesquisa. O endereço é Rua Coronel Alves, 55, Ouro Preto - MG. Mais informações por e-mail. Consulte o edital (PDF) e formulário de inscrição (PDF).

Raciocínio crítico

Critical Reasoning: A Practical Introduction, de Anne Thomson. Routledge, 3.ª edição, 2008, 240 pp.

Susan Wolf

Dado que habitamos, cada um de nós, um mundo cheio de valor independente dos nossos eus individuais, viver de maneira a conectarmo-nos inequivocamente e a proteger alguns valores que não são subjectivos harmoniza-se melhor com a nossa situação objectiva do que uma vida cujas ocupações principais só possam ser subjectivamente defendidas.

Os empiristas britânicos

The British Empiricists, de Stephen Priest. Routledge, 2007, 352 pp.

Filosofia já

Está já em circulação um novo número da revista de filosofia Philosophy Now. Neste número temos para ler um destaque sobre Simone de Beauvoir (trata-se do número 69 da revista) e a segunda parte da autobiografia de Daniel C. Dennett, entre outros artigos de interesse.

M. S. Lourenço

Encarar o ensino da Filosofia como um contrapeso que a cultura humanística apõe à formação chamada científica ou tecnológica é conferir-lhe um carácter ancilar, recaindo na concepção amadorista da Filosofia segundo a qual um engenheiro ou um farmacêutico devem compensar a estreiteza da sua formação desenvolvendo a capacidade de produzir juízos interessantes acerca de temas gerais como «concepções modernas do espaço e do tempo. A matéria. A vida», por exemplo. Um bom humanista ou um bom engenheiro não precisam de ser compensados de coisa nenhuma. Se, além de serem uma coisa ou outra, querem aprender Filosofia, essa atitude deverá resultar da sua curiosidade intelectual por outra disciplina, submetendo-se às exigências que a aprendizagem dessa disciplina implique. Portanto a ideia de que a Filosofia deve compensar a formação dos especialistas parece-me destituída de sentido.