15 de outubro de 2008

Empregos e competências

Via Domingos Faria, acabo de ler este artigo no Guardian.

Fiona Czerniawska refere "a capacidade para ser muito analítico, para oferecer um pensamento claro e inovador, e para pôr em causa pressupostos" como algumas das habilidades que tornam os graduados em filosofia apetecíveis para os empregadores. 

Isto está muito longe do tipo de habilidades que me foram transmitidas enquanto estudante de Filosofia em Lisboa. As habilidades que me foram ensinadas sub-repticiamente incluiam a mentira erudita — fingir que se sabia o que não se sabia, que se tinha lido o que não se tinha lido e que se dominava as línguas que não se dominava, como grego e o alemão — o lodo gramatical e a inesgotável capacidade para dar voz aos mais tolos preconceitos do nosso tempo mas com uma léxico garrido e muitas citações de mortos. 

Evidentemente, isto não é nem intrinsecamente interessante, nem apetecível para os empregadores. Saber raciocinar com rigor, saber pôr em causa e discutir os preconceitos do nosso tempo ("tudo é relativo", "a verdade é uma construção", "não se pode saber se existe Deus", "a ciência baseia-se na verificação", etc.) é muito importante não apenas por ser apetecível para os empregadores, mas porque é importante, sem mais.

5 comentários:

  1. Agora vê uma consequência desse tipo de ensino: se eu concordo com o que dizes - e concordo já que a minha lixenciatura não passou do que dizes - vou ser acusado de seguidismo do Desidério. Ora por que razão é que isto é estúpido? Eu não concordo por seguidismo, mas por razões, mas a nossa formação foi feita de acordos cegos com os grandes nomes da filosofia e por veneração imbecil a outros (como Heidegger e Ricoeur). Esta malta nunca fez mais nada senão seguidismo, pelo que, em consequência, não verão no meu acordo mais que seguidismo :-)

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  2. Mas o verdadeiro problema está no facto de muitos alunos de filosofia possuírem essa capacidade analítica e terem de a, perdoe-se-me o termo, "castrar" sob pena de não terminarem o curso. E até que não fazem mal, pois acabam por entrar num mercado de trabalho onde pôr em causa o que quer que seja também é mal visto. É um círculo vicioso, que revela quão diferente é o nosso (mais uma vez, perdoe-se-me o termo) "sistema" do dos países civilizados e realmente cultos.

    O nosso ensino é seguidista, como diagnosticou o R.A., porque a nossa sociedade é-o também. Não estou a dizer que isto serve de desculpa, não é de todo o caso. Estou sim a dizer que aquelas capacidades que reconhecemos como boas (clareza, rigor, criticismo) dificilmente dão emprego a alguém neste país, sobretudo se formado em Filosofia.

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  3. Penso que é necessário não só repensar o paradigma vigente nas universidades que leccionam filosofia, mas também é necessário uma sensibilização na sociedade em geral. Pelo que percepciono, o senso comum e a maioria das pessoas ainda não se consciencializaram da relevância da filosofia. E surgem aquelas perguntas famosas: "então és de filosofia... e para que serve isso?"
    Talvez seja necessário que os filósofos saiam dos seus gabinetes e não tenham medo de enfrentar o mundo... pelo menos este espaço já é um pequeno sinal disso!

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  4. Domingos,
    De acordo quanto ao que dizes sobre a percepção que o senso comum tem da filosofia. Eu defendo a culpa é nossa, dos profissionais da filosofia que muitas das vezes passamos uma ideia errada do que ela é e da sua importância no mundo.
    abraço

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  5. O que é curioso na pergunta "para que serve", quando é proferida com óbvio cinismo e indisponibilidade para lhe reconhecer algum sentido, é que pode ser dirigida a quase tudo o que fazemos. Passo a explicar.

    Seria surpreendente a quantidade de coisas de que poderíamos prescindir e ainda assim sobreviver. De todas elas podíamos perguntar "para que serve", com tom cínico. Afinal, podíamos viver em cavernas e usar pedras lascadas... e ainda assim sobreviver. Para quê sinfonias e quadros e investigação em cosmologia física? Para quê arte, para quê ornamentos? Para quê roupas que não sejam o mínimo indispensável a nao morrer de frio? Para quê coisas belas? Para quê descobrir verdades que não se convertem imediatamente em farinha para digerir e defecar?

    Para quê estar vivo se morremos um dia?

    Dito isto, é preciso admitir que a filosofia é uma perda de tempo. Assim como tantas outras actividades sem as quais sobreviveríamos mas das quais não estamos dispostos a abdicar.

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