11 de outubro de 2008

Era melhor nunca ter sido



Um dos aspectos irritantes da filosofia é o facto de pôr em causa as nossas convicções mais arreigadas. Isto é de tal modo irritante que muitas pessoas pensam que a filosofia serve, ao invés, para sancionar as nossas convicções mais arreigadas através de um palavreado autoritário de suposta densidade teórica.

A OUP (Oxford University Press) publicou em Julho deste ano o livro Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence, de David Benatar (Universidade da Cidade do Cabo). Neste livro, o autor defende quatro teses inter-relacionadas e difíceis de engolir:
  1. Passar a existir é sempre um grande mal;
  2. É sempre errado ter filhos;
  3. É errado não abortar fetos o mais cedo possível;
  4. Seria melhor que a humanidade se extinguisse em resultado de não existirem mais crianças.
Não sei se o autor consegue defender bem estas ideias, mas o simples facto de as defender é bom, pois obriga a pensar outra vez no preconceito de que a vida humana é intrinsecamente valiosa. Para que esta ideia deixe de ser um preconceito, é preciso justificá-la com argumentos cogentes, mas se não formos obrigados a fazer isso por causa de livros como este, nunca o faremos. E, se não formos capazes de o fazer, mais vale aceitar que a vida humana não tem mesmo valor intrínseco em vez de fingir que o tem só porque queremos antropocentricamente defender o nosso valor.

5 comentários:

  1. Enquanto as pessoas não compreenderem por que temos de fazer isto, enquanto não superarem as reacções epidérmicas do "ai que horror", não conseguem libertar-se dessa imagem dogmática da filosofia como uma espécie de justificação erudita das crenças mais queridas. O outro perigo é o dos idiotas viciados na heterodoxia: as crenças queridas têm de ser falsas só por serem queridas, porque ser heterodoxo é um bem em si. Mas não reparam que a crítica filosófica abate-se sobre eles com tanta força quanta sobre todas as outras crenças.

    Temos de perguntar "que mal tem ser conservado?" com tanto vigor como perguntamos "que mal tem ser inconservador?"

    As pessoas pensam que há crenças filosóficas mas isso não existe. Se eu digo "o perdurantismo é verdadeiro" isso não passa de uma crença exactamente como "existem bolas de berlim". O que é filosófico, e isto é o que as pessoas NAO metem na cabeça, é a JUSTIFICAÇAO. E nesta não há decretos nem ultimatos nem pontos finais. É um processo em aberto que compromete a inteligência e exclui de todo a superstição, seja ela ortodoxa ou heterodoxa.

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  2. Já estou imaginando aquelas objeções ingênuas: "Se Benatar acredita mesmo nisso porque não se mata?" Essa objeção é ingênua porque o que importa aqui são as justificativas para viver ou não. Se o autor do livro sustenta isso com argumentos, mas não põe isso em prática (não se mata) é irrelevante. Aliás, tem tanta gente que se mata e não sustenta isso com argumentos.

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  3. Sobre esse mesmo assunto, vale consultar o livro "Projeto de Ética Negativa" do prof. Julio Cabrera (UnB)

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  4. O livro fala sobre o assunto como se fosse algo novo. Ele não faz referência, ao menos não na introdução, ao bom e velho Sileno citado por Nietzsche em A origem da tragédia:
    Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, semconseguir capturá-lo, o sábio Sileno, o companheiro de Dionísio. Quando, por fim, eleveio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre as coisas era a melhor e a maispreferível para o homem. Obstinado e imóvel, o demônio calava-se; até que, forçadopelo rei, prorrompeu finalmente, por um riso amarelo, nestas palavras: - Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o queseria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível:não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.
    Outra coisa que o autor parece não perceber, que, aliás, também foi observada por Nietzsche, é que o cristianismo e o budismo, se não todas as religiões, nascem justamente com negação do mundo e da vida. Todo o exercício é de livramento da vida, não pela morte, digamos biológica, mas pela espiritual, ou da consciência. O budismo deixa isso muito claro tendo como ascetismo máximo o nirvana, estado em que o budista conseguiria o máximo desprendimento da vida, ou seja, a máxima aniquilação da vida.Vale lembrar também, ao menos com relação ao catolicismo, que a vida ascética do monge, do padre, exige dele abstenção de sexo, ou seja, aniquilação de qualquer descendência. Mesmo a ciência em sua tentativa de eliminar todas as dores, todos os males da vida, corrobora o argumento do autor: há dores, há males em se viver, por isso precisamos extirpá-los até eliminarmos tudo que há de dor em se viver.

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  5. É natural que não se fale de Nietzsche na introdução do livro, nem jamais, porque neste tipo de livros trata-se de reflectir e não de pregar; trata-se de escrever filosofia, e não panfletos anti-religiosos. Trata-se, portato, de argumentar, e não de usar uma linguagem religiosa para seduzir o leitor, ao mesmo tempo que o impedimos de pensar.

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