25 de outubro de 2008

A filosofia apresenta resultados?


A discussão gerada pelo post Filosofia e Física acabou por levar à questão de saber se a filosofia apresenta ou não resultados, por contraposição com o que se passa com a física e outras ciências. Acho que esta discussão acaba frequentemente numa mera discussão de palavras, pelo que é útil precavermo-nos disso. Isto porque parece que estamos muitas vezes apenas a discutir o significado que queremos dar à palavra «resultados», o que me faz lembrar uma pequena história contada por William James no início da 2ª conferência que faz parte do seu livro Pragmatismo. A história é contada na primeira pessoa e reza assim:
Há uns anos, estando num acampamento nas montanhas, regressei de um passeio solitário e encontrei toda a gente envolvida numa feroz disputa metafísica. O
corpus da disputa era um esquilo que se supunha estar agarrado a um lado de um tronco de árvore, enquanto no lado oposto da árvore se imaginava estar um homem.
Esta testemunha humana tenta vislumbrar o esquilo movendo-se rapidamente em
volta da árvore; mas, por muito depressa que o faça, o esquilo move-se
igualmente depressa na direcção oposta, deixando sempre a árvore entre si e o
homem, de tal forma que nunca se deixa ver nem de relance. O problema metafísico
resultante é este: o homem anda à volta do esquilo ou não? Não há
dúvida de que anda à volta da árvore, e de que o esquilo está na árvore; mas
será que anda à volta o esquilo? Na ilimitada ociosidade do campo, a discussão
estava esgotada. Cada pessoa tomara o seu partido, inapelavelmente; e ambos os
partidos estavam empatados quanto ao número de adeptos. Portanto, quando eu
apareci, fui solicitado por ambos os lados para ficarem em maioria. Compenetrado
do adágio escolástico de que sempre que se encontra uma contradição se deve
fazer uma distinção, procurei imediatamente e encontrei uma, como segue: «Saber
qual o partido que tem razão», disse eu, «depende do que querem dizer na
prática
por 'andar à volta' do esquilo. Se querem dizer passar do norte do
esquilo para leste, depois para sul, depois para oeste, e outra vez para o norte
dele, obviamente o esquilo anda à volta dele, porque ocupa essas posições
sucessivas. Mas se, pelo contrário, querem dizer estar primeiro em frente do
esquilo, depois à sua direita, depois atrás, depois à esquerda, e finalmente em
frente dele outra vez, é bastante óbvio que o homem não consegue andar à sua
volta, pois com os seus movimentos compensadores o esquilo conserva sempre o
ventre virado para o homem e o dorso para o lado contrário. Façam esta distinção
e deixará de haver razão para mais disputas. Vocês estão ambos certos e ambos
errados conforme conceberam a expressão 'andar à volta' numa ou noutra forma
prática.»

Tal como na história de James, o que se passa é que quando se fala de resultados uns entendem isso de forma diferente de outros. Claro que se quando falamos de resultados estivermos a pensar em verdades empiricamente testadas, a filosofia não apresenta resultados, dado que nos referimos a resultados científicos e a filosofia não é uma ciência. Mas se falamos de resultados no sentido de progresso ou de maior compreensão das questões em causa, parece-me óbvio que a filosofia apresenta resultados: há uma maior compreensão de alguns problemas, há novos argumentos a ter em conta, há erros que deixaram de se cometer. É por isso que praticamente nenhum filósofo defende hoje a teoria da arte como imitação da mesma maneira que Platão ou Aristóteles o faziam; ou que as teorias contratualistas actuais são mais refinadas e conseguem evitar muitas das dificuldades das teorias contratualistas clássicas; que o chamado problema da mente-corpo não é discutido exactamente nos mesmos termos de Descartes; que se encontram actualmente problemas com as teorias descritivistas dos nomes próprios que Russell ou Frege não foram capazes de detectar; que o problema do estatuto moral dos animais não era sequer rigorosamente formulado e muito menos discutido, etc.

E parece-me também claro que a filosofia proporciona, ainda que indirectamente, resultados práticos. Basta pensar que a organização política de muitos estados e o seu ordenamento jurídico são a aplicação prática de certas teorias filosóficas. A vida quotidiana de cerca de um terço da população mundial nos anos setenta do século passado era fortemente condicionada pela teoria do materialismo dialéctico de Marx e a constituição americana foi muito devedora da filosofia política de Locke e outros filósofos. E até os sistemas educativos da maior parte dos países são o resultado da aplicação de concepções filosóficas acerca da natureza humana. Isto para dar só alguns exemplos.

De resto, a actividade filosófica seria demasiado ociosa e uma actividade pouco racional caso não se esperasse dela quaisquer resultados.

2 comentários:

  1. Por acaso eu, como aprendiz de filósofo, digo que a filosofia não apresenta resultados mas o seu texto vai obrigar-me a reflectir sobre o tema.

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  2. Aires,

    colocou muito bem a questão. Tinha dito no post sobre "física e filosofia" que esta última não tinha resultados práticos, mas o que você disse é mais correto: ela oferece resultados práticos indiretamente. Se o filósofo investiga a estrtura conceitual a partir da qual vemos o mundo as conclusões filosóficas farão diferenças no mundo como vemos as coisas.

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