23 de outubro de 2008

Física e Filosofia

Uma das relações mais interessantes da filosofia com outros saberes está entre a física e a filosofia. Apesar de complexa e de exigir algum domínio para uma possível resposta, quero lançar aqui mais um desafio aos nossos leitores propondo que possam dar uma explicação clara e objectiva dessa relação. Na Crítica estão disponíveis alguns textos de Lawrence Sklar retirados de philosophy of physics, uma obra mestra a expor esta relação. Em português a obra mais recente e mais aproximada ao problema foi publicada pela Gradiva na colecção Ciência Aberta e inclui um texto do Desidério. Chama-se Tempo e Ciência.

11 comentários:

  1. Vou disparar uma opinião talvez tola:

    Acho que aquilo que torna esta relação particularmente interessante será o facto de a área da filosofia que está imediatamente implicada ser a metafísica. É sobretudo à metafísica que interessa o tipo de investigação levado a cabo pelas ciências naturais, por razões óbvias: as ciências naturais procuram dizer-nos o modo como o mundo é e a metafísica está interessada nas questões mais gerais acerca da estrutura da realidade: por que há algo em vez de nada? Como existem os objectos ao longo do tempo? Perduram ou induram? O que é o tempo? etc. É a física a área exterior à filosofia que tem mais a dizer acerca destes assuntos e que portanto interessa sobremaneira à metafísica.

    Por exemplo, as questões mais interessantes em filosofia da música são questões de metafísica. A metafísica tem uma relação privilegiada com as outras áreas da filosofia e é esta relação que torna especialmente interessante a relação entre a física e a metafísica.

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  2. Concordo com você Vitor. A física sempre teve muito a dizer à metafísica e a física teórica recente torna isso mais evidente, pois a própria distinção entre ciência e filosofia se torna vaga em alguns casos: é quase como se os cientistas tivessem descoberto uma maneira de testar empiricamente questões filosóficas. Sobre essa vagueza entre as duas áreas basta pensar no modo como Eistein chegou a inúmeras descobertas importantes tomando como pontos de partida meros experimentos mentais, já que a física da época não permitia tais experimentos (por exep, ao afirmar que a velocidade da luz é constante)

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  3. Bem, penso que física e filosofia se tocam no limite. Mas o que a separa? Os resultados. A física ainda apresenta resultados, ao passo que a filosofia não. E quando a filosofia pode produzi-los, é essa a hora em que entrega os problemas aos físicos. que vos parece?

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  4. Oi Rolando

    discordo de você. A filosofia também produz resultados, mas seus resultados são em grande parte negativos e não possuem aplicação prática. Por exemplo, qualquer teoria ética que pretenda se basear nos mandamentos divinos terá que enfrentar, antes de mais nada, os argumentos apresentados por Platão no diálogo Eutífron. Do mesmo modo é muito difícil propor hoje em filosofia da matemática o logicismo, pois parece muito difícil fundamentar a matemática na lógica - senão mesmo impossível. No caso da lógica a filosofia tem oferecido muitos resultados, embora também sejam resultados da matemática. Por exemplo, a lógica clássica de Frege entre outros, representa um avanço considerável em relação à lógica aristotélica - qualquer filosofia que utilize essa lógica terá um grau de rigor muito superior ao que se podia esperar das lógicas anteriores. O mesmo se pode dizer da lógica modal, que permite um tratamento mais rigoroso de inúmeros problemas metafísicos. Aliás a teoria causal da referência de Kripke parece que veio pra ficar - ela pode ter seus próprios problemas, mas é de longe muito mais sólida que as teorias descritivistas.


    Eu vou dar uma olhada aqui em alguns problemas de física teórica não resolvidos pra ilustrar melhor o que eu queria dizer. Do modo como falei ficou meio vago mesmo. De qualquer modo não arriscaria a dizer que filosofia e física podem ser a mesma coisa. Digo apenas que em alguns casos as diferenças metodológicas entre as duas áreas parece pequena e a distinção fica um pouco vaga. Outro caso em que essa distinção se torna vaga é o debate sobre motivação moral em metaética: estamos lidando com psicologia ou filosofia? Mais uma vez, a distinção fica pouco clara. Fui, claro? Espero não ter dito uma besteira muito grande : p

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  5. Matheus,
    Refutação aceite :-) Vou tentar5 dar a volta por outro lado. A diferença é que a filosofia não se ocupa somente dos problemas formais, tal como a matemática, mas dá-se conta também dos problemas informais. Ao contrário da física, a filosofia trata dos problemas fundamentais. Se compararmos com a matemática por exemplo, esta ocupa-se de lidar com os números para a resolução de problemas formais, ao passo que a filosofia se questiona sobre o que é um número. é neste sentido que digo que a filosofia se ocupa dos problemas fundamentais. É que tens razão quando dizes que a filosofia produz resultados. Existem argumentos consensuais e apontar a falta de resultados à filosofia como uma limitação seria contraditório, já que nenhum resultado da ciência, por exemplo, é um resultado consumado e final, caso contrário, este eeepc onde escrevo seria a palavra final em termos de tecnologia. Bem, fica mais esta achega :-)

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  6. A metafísica apresenta resultados, ora essa. O que significa a viragem dos últimos 30 anos a favor do realismo e contra a atmosfera anti-essencialista que já foi dominante? Significa que há mudanças no modo como entendemos os problemas e a própria actividade da metafísica. Se mudamos o modo como pensamos há resultados, pois a filosofia propoe-se fazer isso, e não construir foguetões para ir à lua.

    Parece que essa noção de "resultados" está muito ligada à ideia da ciência aplicada e não à ciência em si. A física teórica também não dá "resultados", apenas hipóteses supostamente e desejavelmente melhores do que as concorrentes. Mas a discussão também não pára aí. É contínua, exactamente como na filosofia.

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  7. Numa discussão amigável por mail com um jovem físico, escreveram-me o seguinte:

    Não andamos à procura do princípio de tudo. Isso é para filosofos. A nossa realidade é bem comportada matematicamente. O resto é um quadro que pintamos para nos facilitar ideias intuitivas. A realidade é a sombra da alegoria da caverna de Platão.

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  8. É questionável que os filósofos procurem o princípio de tudo se por isso se entender "algo" que seja "o princípio de tudo". Mas se entendermos "o princípio de tudo" como a explicação da totalidade dos acontecimentos, então é evidente que a física quer isso. Não tenho ideia de os físicos dizerem: "queremos apenas a explicação para a classe x de acontecimentos físicos".
    Se entendermos "princípio de tudo" como a origem do universo, então é óbvio que os físicos, pelo menos os cosmólogos, procuram isso, ainda que estivéssemos fechados a quaisquer verdades sobre esse assunto.

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  9. A observação do Parente é bem interessante. Parece pacífica a noção de que os filósofos tratamde problemas fundamentais. Por estes entendemos os problemas que estruturam o saber. Talvez isso explique por que os matemáticos não se preocupem com questões como “o que é um número?” e os filósofos sim. O problema está em saber explicar qual a vantagem de colocar os problemas tal como os filósofos os colocam. E as vantagens podem ser mais claras se pensarmos que sem problemas fundamentais não existem sequer problemas 

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  10. Eu acho que a Física sobrepuja qualquer distinção de idéias criadas pelo homem,ela por si só existe independente de sua consciência dela ou não, ou seja; ela vem antes do pensamento da consciência e da percepção do ser humano e por isso sobrepuja a filosofia de maneira geral,ou seja pelo que sabemos,a historia do homem perante o universo é de apenas um micro segundo,e agora sabemos que o se o ser humano deixar de existir o universo continua existindo portanto ele é absoluto,então logo a física é absoluta.Física é a propria natureza dita.

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