31 de outubro de 2008

Ideias perspicazes


A tradução de "insight" sempre me levantou muitas perplexidades. Tenho tentado várias alternativas e todas parecem falhar num ou noutro contexto, ainda que funcionem bem noutros. Finalmente, parece-me que a melhor alternativa é "ideia perspicaz". Isto funciona para contextos nos quais se diz algo como "A ideia perspicaz de Descartes foi...", mas também em contextos nos quais se fala de alguém ser perspicaz ("insightful"). Alguém tem ideias perspicazes sobre isto?

24 comentários:

  1. Por que não "intuição intelectiva" ou, simplesmente, "intelecção"?! Ou "descernimento", ou "visão compreensiva" ou ainda, mais literalmente, "visão interior"?

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  3. João: porque se escolher "intelecção", o que dizer de quem é insightful? Que tem intelecções? E as outras opções também me parecem desadequadas: dizer que Descartes teve um discernimento? Ou que teve uma visão interior?

    Não basta pensar na palavra isoladamente. É preciso usá-la nos diversos contextos em que pode surgir "insight", para ver se é adequada.

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  4. Joedson, não é para mim assim tão óbvio que 1) as pessoas compreendam bem o termo inglês, ainda que o repitam, e 2) que mesmo aceitando que o compreendem que não devemos procurar uma expressão vernácula.

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  5. "sagaz" é a minha sugestão. Usa-se muito pouco e é um sinónimo de perspicaz.

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  6. Vão dizer que não, etc. e tal, mas para mim a melhor tradução é simplesmente "intuição".

    O "insight" de Descartes, é a intuição dele. O sujeito "insightful" é o sujeito intuitivo, e por aí vamos.

    Provavelmente intuir, no latim, significa "ver de dentro", assim como "insight" significaria literalmente "visão a partir de dentro".

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  7. Parente, "sagaz" é excelente e faz o mesmo trabalho: permite falar da sagacidade.

    Adriano, "intuição" é outro conceito importante em filosofia. Falamos das nossas intuições pré-teóricas, por exemplo, que são as nossas concepções comuns das coisas, mas isso não são insights. E em inglês há também uma marcada diferença entre intuition e insight.

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  8. Acho uma óptima tradução. Sempre pensei em insight como "concepção" (como em, recuperando o exemplo do Desidério, "A concepção de Descartes foi..."), mas faltava-me uma tradução para insightful. Perspicaz ou sagaz dão conta do que se quer dizer, e ideia perspicaz ou sagaz também fazem o mesmo com insight.

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  9. Podemos fazer uma experiência, substituindo o termo "insight" em um texto técnico (quem sabe a tradução do texto de Theodore Roszak publicado aqui no blog da Crítica), e assim veremos se a sugestão "sagaz" funciona.

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  10. Que tal "invento" e "inventivo" para "insight" e "insightful"?

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  11. Tenho dúvidas de que as ideias possam ser perspicazes. Os indivíduos, sim; e, como tal, poderão ser dotados de perspicácia.

    Existe um termo, que não sei se será adequado em todos os contextos, que me parece reflectir o que se procura: pertinente.

    Pertinência, qualidade do que é necessário e simultaneamente útil, talvez seja o termo pertinente procurado.

    JMC.

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  12. Corrigindo o último parágrafo:

    Pertinência, qualidade do que é necessário e, simultaneamente, útil e oportuno, talvez seja o termo pertinente procurado".

    JMC.

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  13. O problema das "intuições" é que nem todas as intuições são "insightful", como o desiderio por vezes chama a atençaõ. A proposta do parente é boa mas temos um problema: em inglês também há a palavra "sagacious". Mas mesmo que ambas coincidissem exactamente, "sagaz" dá conta de "insightful" mas parece não dar conta de "insight" - "tive um sagaz" ou "tive uma sagacidade"? não me soa.

    Contudo, gostaria que conseguíssemos faze-lo com "sagaz", porque até agora é a que mais de perto toca no "insight".

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  14. Embora "sagaz" refira a posse da sagacidade e as ideias em si não tÊm sagacidade, elas são o fruto de agentes racionais sagazes... bolas!

    Mas por outro lado, se "ideia perspicaz" funciona, "ideia sagaz" também tem de funcionar... como chamamos mesmo a isto? metonímia? algo assim.. falamos no agente ao falar na ideia...

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  15. JMC: as ideias são sagazes por derivação de sentido. Claro que quem é primariamente sagaz é quem tem a sagacidade: as pessoas. Mas esta hipótese parece-me muito melhor do que "pertinência". Ter um insight não é meramente ter uma ideia pertinente, mas uma ideia que além de pertinente está bem vista, é subtil, não se vê à primeira. Para uma ideia ser pertinente basta não se desviar do assunto, mas pode ser a mais estafada banalidade. Não lhe parece?

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  16. Desidério.

    A questão que colocou prende-se com a insuficiência dos termos portugueses para representar ideias luminosas, inspiradas. O que está em causa são qualidades das ideias e, depois, dos indivíduos que as têm. As ideias não são sagazes, porque não têm sagacidade. Derivar as qualidades dos indivíduos da qualidade das ideias que têm poderá ser mais adequado.
    Sugeri o termo pertinência como sinónimo de simultaneidade das qualidades de útil e de oportuno, para cuja ocorrência não conheço um termo mais adequado. O significado que lhe dou – útil e oportuno – não coincide com o significado tradicional fixado pelos dicionaristas, mas aproxima-se do significado que foi adquirindo, e é corrente, e precisa-o. Com o tempo, os vocábulos vão adquirindo outros significados, distintos dos originais, em função do uso que os falantes lhes vão dando. Para o significado original deste termo, temos em português um outro que o exprime bem: pertença, pertencente. Pertinência e pertinente parecem-me adequados para exprimir o sentido que lhes atribuo, e disponível para o assumirem sem confusão.
    Utilizo termo pertinente com este significado em vários estudos meus, porque é a esta conjunção de qualidades que determina o valor que atribuímos a muitas coisas. Não me parece que algo pertinente, por ser útil e oportuno, seja banal. Mas admito que possa não representar fielmente o significado de ideia luminosa ou inspirada que procura para o termo inglês.
    JMC.

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  17. A mim parece-me que não se deve arranjar uma fórmula para traduzir da mesma maneira um determinado vocábulo. No meu fraco entender, insight pode ser traduzido por: inteligência, intelecção, percepção ou mesmo ideia perspicaz. Conforme o contexto, pois as palavras não têm exactamente o mesmo significado quando traduzidas à letra, como se sabe!
    Existe uma obra de Bernard Lonergan (um dos filósofos mais importantes do séc.XX,mas que, penso eu, ainda é pouco conhecido) com esse título, este explica bem o que é a intelecção.

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  18. Porque «insight» não é propriamente a conclusão de um raciocínio válido, talvez sugerisse, na esteira de um filósofo, «ideia reveladora», de
    ideia, revelação, intuição, certeza.

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  19. Conceitos evoluem no tempo.
    Muito já se passou, e muito já amadurecemos desde Descartes.
    Me satisfaz traduzir Insight como:

    1)Percepção, qdo se encontra um caminho inusitado na solução na solução de um problema, com profunda compreensão do problema e solução encontrada.

    2)Inspiração, quando se cria algo ou uma perspectiva original e interessante de alguma coisa.

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  20. Bastante tempo já se passou desde que este post foi publicado, e relendo-o, incluindo os comentários, incomoda-me a não naturalidade de expressões como "ideias perspicazes". Talvez em Portugal faça sentido, mas do meu ponto de vista tal tradução não tem a menor naturalidade em língua portuguesa. Sugeri à época traduzir "insight" como "intuir" porque a etimologia para as duas palavras parece indicar a mesma ideia: "visão de dentro". Porém o Desidério disse que há uma marcada distinção entre "insight" e "intuition" na língua inglesa. Por acaso, resolvi recorrer ao Merriam-Webster e achei curiosa a primeira definição para "intuition": "quick and ready insight" (« https://www.merriam-webster.com/dictionary/intuition »).

    Além do mais, intuição não se refere somente a "intuições pré-teóricas", como quer Desidério. É curioso que ele tome este caso como apenas um exemplo e então tenha concluído genericamente pela ideia de que isto não é "insight".

    É interessante acrescentar também o que o Wiktionary tem a dizer a respeito da etimologia de "intuition" (« https://en.wiktionary.org/wiki/intuition#English »):

    *From Middle French intuition, from Medieval Latin intuitio ‎(“a looking at, immediate cognition”), from Latin intueri ‎(“to look at, consider”), from in ‎(“in, on”) + tueri ‎(“to look, watch, guard, see, observe”).*

    A segunda definição lá oferecida é "[a] perceptive insight gained by the use of this faculty" e a primeira, "[i]mmediate cognition without the use of conscious rational processes".

    Curiosamente, portanto, a tal da distinção marcada entre "insight" e "intuition" a que Desidério alude não parece ser o caso.

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