17 de outubro de 2008

O paradoxo da ficção II


Prometi na caixa de comentários do meu último post apresentar algumas propostas para evitar o chamado «paradoxo da ficção». Apoio-me num texto do filósofo da arte americano, Jerrold Levinson, publicado numa colectânea intitulada Emotion and the Arts, organizada por Mette Hjort e Sue Laver. Levinson considera haver sete propostas em competição, que a seguir descrevo muito genericamente:

1. A solução não-intencionalista: as reacções emocionais à ficção não são, apesar das aparências, exemplos de verdadeiras emoções, mas de estados de espírito menos complexos, como o ânimo, ou reacções reflexivas, como o choque, os quais não têm o tipo de intencionalidade presente nas emoções. Isto significa que a proposição falsa é a 1, deixando assim de haver qualquer paradoxo.

2. A solução da suspensão da crença na não existência: assim que as pessoas se deixam envolver na trama ficcional, passam temporariamente a acreditar realmente nas personagens e situações ficcionais, o que torna possível ter emoções genuínas. Uma vez libertas da influência do universo ficcional, as pessoas voltam a deixar de acreditar na existência dessas personagens e nas situações descritas nas obras de ficção. A ficção tem o poder de nos envolver de tal modo, a ponto de suspendermos algumas das nossas descrenças. Sendo assim, há uma proposição falsa e essa proposição é a 3.

3. A solução da substituição do objecto: as reacções emocionais tomam como seus objectos reais não as personagens ou situações ficcionais, mas outros objectos em cuja existência realmente se acredita, nomeadamente certos conteúdos extra-ficcionais veiculados pela representação ficcional. Esses objectos ou conteúdos podem ser as contrapartes reais dos objectos ficcionais: pessoas ou acontecimentos reais de algum modo semelhantes aos descritos pela ficção, ou pessoas e experiências vividas que a ficção traz à mente dos leitores ou audiências. Assim, quando dizemos sentir pena de Ana Karenina estamos, de facto, a pensar nas mulheres reais que foram vítimas de um destino semelhante. A proposição 1 é, portanto, falsa.

4. A solução anti-judicativa: as reacções emocionais aos objectos são de tal modo rápidas e instintivas que não implicam grande aparato cognitivo, não envolvendo crenças acerca da existência desses objectos ou das suas características. Basta que haja outro tipo de elementos cognitivos mais ténues: uma certa perspectiva sobre as coisas e uma maneira de dirigir a nossa atenção para elas em função de valores e objectivos. A filósofa canadiana Jenefer Robinson defende esta solução, sublinhando que o nosso universo interior de pensamentos e fantasias está povoado de eventos, situações e pessoas que podem ou não existir na realidade, podendo nós reagir emocionalmente ao conteúdo dos nossos pensamentos e fantasias exactamente do mesmo modo como reagimos aos objectos da percepção. A experiência emocional que temos quando lemos um romance não implica a existência de crenças, pelo que quando reagimos emocionalmente a Ana Karenina, não temos necessariamente alguma crença acerca dela; simplesmente centramos a nossa atenção na sua situação e vemo-la de determinados pontos de vista. A proposição falsa é, portanto, a 2. Uma variante simplificada desta solução é apresentada por Peter Lamarque ao alegar que nos contextos ficcionais a crença é relegada para segundo plano pela vivacidade dos pensamentos, o que é suficiente para desencadear emoções genuínas.

5. A solução da substituição da crença: certas respostas emocionais às obras ficcionais, como a piedade, requerem não a crença de que as personagens ficcionais existem tout court, mas, em vez disso, a crença de que essas personagens existem na ficção e o facto de tal crença ser largamente partilhada por leitores (ou audiências) racionais. A crença de que tais personagens e situações existem na ficção é causalmente eficaz na produção da emoção. Esta solução rejeita a proposição 3.

6. A solução irracionalista: os consumidores de obras de ficção tornam-se irracionais quando se deixam envolver na trama do universo ficcional, na medida em que reagem emocionalmente a objectos que sabem não existir. Isto significa que 3 é uma proposição falsa. Esta solução, proposta pelo filósofo inglês Colin Radford, não deve ser confundida com a solução da suspensão da descrença, pois tal suspensão é suficiente para impedir qualquer possibilidade de contradição, o que não acontece aqui. Nesta perspectiva, a irracionalidade não consiste em os consumidores de obras de ficção acreditarem temporariamente na existência de algo em que antes não acreditavam, dado que aqui as crenças se mantêm as mesmas, mas em reagir emocionalmente a personagens e eventos de um modo que contradiz as suas crenças.

7. A solução faz-de-conta: as reacções emocionais aos objectos ficcionais não são, em rigor, exemplos de emoções, no sentido mais comum do termo. Apesar de as catalogarmos como emoções, essas reacções são, em vez disso, exemplos de emoções imaginárias ou faz-de-conta. Esta solução procura mostrar que 1 é uma proposição falsa. Kendal Walton, o seu principal proponente, alega que os leitores não sentem realmente pena de Ana Karenina, mas fazem de conta que sentem pena, pois as personagens dos romances são apenas adereços num sofisticado jogo de faz-de-conta que o leitor aceita jogar (o próprio Levinson defende uma versão ligeiramente diferente desta solução). Assim, o que os leitores sentem não é pena, mas quase-pena. Do mesmo modo, também não há genuína emoção, mas quase-emoção. Está lá o aspecto fenomenológico característico da emoção – o sentimento de pena – mas não o conteúdo cognitivo relevante – a crença de que Ana Karenina existe realmente e que tem determinadas características.

Vale a pena sublinhar, para terminar, que a concepção cognitivista da emoção - a concepção segundo a qual a natureza das emoções depende essencialmente dos estados intencionais envolvidos, como pensamentos, juízos ou avaliações, e não apenas do sentimento - é pressuposta pela maior parte das soluções sugeridas para o paradoxo da ficção. Mesmo as soluções 1 (a solução não-intencionalista, que fala apenas de reflexos e de estados de espírito) e 7 (a solução faz-de-conta, que fala de quase-emoções), apesar de concluírem que não há emoções genuínas, pressupõem uma concepção cognitivista da emoção. Apenas a solução 4 (a solução anti-judicativa) não parte de uma concepção cognitivista da emoção, ainda que a ideia de intencionalidade não seja abandonada.

Já agora, um dos mais recentes defensores desta última perspectiva da emoção - das chamadas teorias do sentimento ou feeling theories of emotion - é o luso-americano António Damásio.

1 comentário:

  1. Muito interessante toda a exposição.

    Parece haver 3 casos possíveis de emoção:

    1 - quando sabemos que o objecto da nossa emoção é real. Por exemplo, e pegando no caso proposto atrás pelo R.A., x vê y a afogar-se e reage.

    2 - quando partimos do princípio que o objecto da nossa emoção é real, mas não temos provas disso. Por exemplo, z diz a x que um seu (de z) amigo y está em coma profundo, e x ao ouvir este relato reage emocionalmente, embora não saiba se y realmente existe ou não.

    3 - quando sabemos que o objecto da nossa emoção não é real, mas ainda assim temos emoções relativamente a tal objecto. É isto que é gerado pelo chamado paradoxo da ficção. Continuo a achar - e a exposição do A.A. reforça isso - que não há contradição em x acreditar que y não existe e, ainda assim, ter emoções relativamente a y.

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