15 de outubro de 2008

O paradoxo da ficção


É frequente emocionarmos-nos quando lemos certos romances, vemos certos filmes ou peças de teatro. Por exemplo, sentimos pena de Ana Karenina, a personagem principal do célebre romance de Tolstoi, ao assistir ao seu destino trágico.

Mas isto é estranho, pois Ana Karenina não passa de uma personagem ficcional, e nós sabemos disso. Portanto, nada que justifique o nosso sentimento de pena aconteceu realmente. Sentir pena pelo destino trágico de Ana Karenina é mais ou menos o mesmo que chorar a morte de alguém que sabemos não ter morrido. Ora, isto tem algo de paradoxal. Os filósofos da arte chamam a isto o «paradoxo da ficção».

O paradoxo da ficção pode ser expresso nas seguintes três afirmações aparentemente verdadeiras do ponto de vista intuitivo:


1. Os leitores (ou as audiências) por vezes sentem emoções tais como medo, pena, desejo e admiração acerca de acontecimentos e personagens ficcionais.

2. Uma condição necessária para sentir tais emoções é as pessoas que as sentem acreditarem que os objectos das suas emoções existem.

3. Os leitores (ou as audiências) que sabem que esses objectos são ficcionais não acreditam que tais objectos existem.

Mas sucede que estas proposições são inconsistentes, o que significa que não podem ser todas verdadeiras. Como podemos, de facto, sentir pena pelo destino de alguém, quando temos consciência de que esse alguém não passa de uma personagem ficcional e que, por isso mesmo, não existe realmente?

Têm sido propostas várias estratégias para evitar este paradoxo. Qual é a sua ideia?

9 comentários:

  1. Humm.... Sabemos que aquele personagem que vemos não existe, mas podemos pensar que existem pessoas reais na mesma situação ou muito semelhantes. Podemos encontrar um processo de identificação com situações que sabemos reais. E então temos emoções por simpatia. (tal como na música, os instrumentos em que cordas vibram por simpatia sem sequer serem tocadas!).

    Outra hipótese:
    Eu acredito que a Anna Kareninna não existe. Mas penso "E se existisse?" e tenho uma resposta emocional perante o "se". Posso criar uma espécie de realidade alternativa durante uns momentos. Acreditar que ela existe durante aquele momento apenas. E comportar-me como tal.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Como disse o joedson, a afirmação 2 é questionável. Eu diria que é falsa. Daí o (falso) paradoxo.

    Acho que será mais algo como:

    2 - Uma condição necessária para sentir tais emoções é as pessoas que as sentem conseguirem criar um modelo mental da situação real que provoca essas emoções.

    A propósito, necessária mas não suficiente. Dois factores também necessários são abstracção e empatia.

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  4. Basta contestarmos a segunda premissa.

    Já agora, informo que o livro de Peter Cave, Can a Robot Be Human?, possui um interessantíssimo capítulo sobre este paradoxo.

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  5. Caros,

    Prometo voltar ao assunto num outro post, apresentando algumas respostas que, de resto, vocês já esboçaram. Mas há outras além das vossas e que consideram a afirmação 2 verdadeira.

    Já agora, Peter of Pan, não se trata de premissas, mas de afirmações inconsistentes. As três afirmações não constituem um argumento.

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  6. Caro A.A.: obrigado pelo esclarecimento e pela correcção.

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  7. Outra questão para o A.A.: pode dar um exemplo de uma dessas respostas que assuma 2 como verdadeira?

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  8. Vou já responder ao seu pedido num outro post, Peter of Pan.

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  9. A emoção é proporcional à capacidade do leitor de suspender a descrença e à identificação deste mesmo leitor com o personagem. Um ser-humano real é 100% real. Supondo que um personagem tenha para você 80% de realidade (R) e que você tenha 95% de identificação (I) com a situação sofrida por ele, então, supondo que a fórmula da emoção (E) sentida seja o produto R x I = E (0,80 * 0,95 = 0,76), e que o limiar para o choro (L) seja 0,70, então, neste caso, o leitor irá chorar. Agora, o trabalho seria medir R e I e ajustar qual a fórmula mais se adéqua à realidade. PS: Duvido muito que apenas R x I descreva a 'realidade' em questão.

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