13 de outubro de 2008

Pergunta do dia

Será que a Arte da Fuga de J. S. Bach (ou qualquer outra composição musical) tem partes temporais? Haverá algum sentido em que a composição musical difere de qualquer outro objecto persistente, no que à pergunta anterior diz respeito?

Ao que parece, a composição musical não pode existir inteiramente em cada momento da sua execução. Há aqui a sensação de que o induracionismo não funciona, o que não parece tão claro no caso de outros objectos persistentes, como canetas ou pessoas. Ou não? Talvez a composição musical não seja o mesmo que a sua execução. Mas nesse caso, o que é?

6 comentários:

  1. A música flui no tempo, não acontece num instante, é absorvida pelos nossos sentido no continuum das horas. Por isso, só se objectiva no passado. A sua compreensão enquanto ente estrutural completo só se dá no tempo já ido, com recurso à memória.

    Alguém sem memória não poderia apreciar a música. Não como um todo. A cada momento, a cada segundo, vai-se construindo e desconstruindo o edifício nas nossas expectativas, nas repetições, nas aparições dos temas, dos timbres, dos ritmos. É um processo contínuo que sempre, sempre, remete para o passado, para o que já aconteceu. A cada segundo que absorvemos um som novo estamos a relacioná-lo com o que ouvimos segundos atrás.

    E só no final, quando a música já não é, quando o som já pereceu, é que ela toma verdadeiramente forma em nós.

    A música só se torna objectiva no passado. E só com a memória a podemos compreender e fruir.

    Mais uma ideia:

    DAHLHAUS, Carl, 1990, «Esthetics of Music», tr. William Austin, Cambridge University press, p. 11

    «Like a work of plastic art, music is also an esthetic object, a focus of esthetic contemplation. However, its objectivity is displayed not so much immediately as indirectly; not in the moment when it is sounding, but only if a listener, at the end of a movement or section, reverts to what has passed and recalls it into his present experience as a closed whole. At this point, music assumes a quasi-spatial form (Gestalt). What has been hear solidifies into something out there, an ‘objectivity existing on its own.’ And nothing would be farther from the truth than to see in the tendency to spatialization a distortion of music’s nature. Insofar as music is form, it attains its real existence, paradoxically expressed in the very moment when it is past. Still held firm in memory, it emerges into a condition that it never entered during its immediate presence; and at a distance it constitutes itself as a surveyable plastic form.»


    Assim, eu retiro que a música, o que chamamos uma "obra musical" é algo que existe apenas no reino das ideias e apenas se completa como forma no passado. Não é possível frui-la de "uma vez só" como se frui um quadro que está à nossa frente. Para alguém poder fruir uma obra musical no seu todo, tem de congelar uma das dimensões num ponto. E é isso que é a partitura.

    Tal como conseguimos congelar a terceira dimensão na segunda, quando fazemos um quadro, e temos uma espécie de "perspectiva", quando passamos uma música a partitura, na realidade estamos a condensar a sua dimensão temporal contínua num ponto linear do tempo.

    Perde-se algo. Sempre. Mas é melhor que nada. E essa espécie de representação o que é em relação ao original? O que é uma fotografia em relação a mim? Sou eu reduzido a duas dimensões. Continuo a ser reconhecível mas claramente não sou eu.

    Da mesma forma uma composição musical em partitura é reconhecível como sendo a obra musical despojada da sua dimensão temporal. Conseguimos reconhecê-la mas não é ela.

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  2. Caro Vítor,

    A ontologia da música é uma disciplina fascinante e trata-se de filosofia no seu melhor. Perguntar «Que tipo de coisa é a 5ª Sinfonia de Beethoven?» discutir ontologia. Só para estimular um pouco mais discussão, deixo duas respostas divergentes à pergunta anterior. A primeira pareceu-se ser a sugerida pelo musicólogo no comentário anterior: a 5ª Sinfonia é uma entidade ideal, em sentido platónico, que existe numa espécie de terceiro reino (como as formas ou ideias platónicas). Nese sentido, cada execução da 5ª Sinfonia é apenas a sua exemplificação e não a própria 5ª Sinfonia. Em suma, a 5ª Sinfonia é um universal exemplificado por muitos particulares (cada uma das suas execuções, que são sempre diferentes umas das outras). Assim, Beethoven, não criou a 5ª Sinfonia, pois ela já existia antes de Beethoven. Este apenas a descobriu. Chama-se a isto latonismo musical.

    Uma resposta que vai em sentido diferente é a do nominalista Nelson Goodman, que diz que a 5ª Sinfonia de Beethoven é a classe de todas as execuções concordantes com a partitura. Para Goodman, não há universais a sua posição ilustra bem o ponto de vista nominalista.

    Qualquer dests teorias enfrenta dificuldades. Mas deixemos isto para o resto dos leitores discutirem.

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  3. O comentário do musicólogo coloca uma questão importante: se retirarmos a dimensão epistemológica, a nossa apreensão da música, com que tipo de "objecto persistente" ficamos? Haverá uma obra musical no mundo objectivo, independente do conhecimento que temos dela? Isto pode influenciar o modo como vemos a sua existência no tempo.

    Dito isto, tenho de apontar ao musicólogo um detalhe: o induracionismo não diz respeito à fruição da obra num único momento ou de uma só vez, mas à existência do objecto no tempo. Claro que se a quinta sinfonia for uma ideia platónica talvez a intuição a favor do perduracionismo não seja tão forte. Ou não?

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  4. Se eu tivesse uma teoria inflexionada do tempo, responderia ao musicólogo que a apreensão da música não tem de a fixar no passado, pois a relação dos intervalos, dos acordes e das pausas seria como na expressão inflexionada "a batalha de aljubarrota é 533 anos anterior à batalha de La Lys" (em que o "é" é como em "2 + 2 é igual a 4", inflexionado), ou seja, para uma teroia inflexionada do tempo a expressão "passado" quando anexada a uma acontecimento nada descreve ou acrescenta ao acontecimento, o qual é exactamente o mesmo no passado, no presente ou no futuro. Aqui a treta é epistemológica: acontece que sabemos muito sobre o passado e nada ou quase nada sobre o futuro. Mas isto é um problema nosso e não do futuro em si. Para um teorizador-B (teoria inflexionada), o futuro e o passado têm tanta realidade como o presente.

    Agora vou recostar-me e tentar perceber o que acabo de escrever.

    Ah Ah

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  5. «Aqui a treta é epistemológica: acontece que sabemos muito sobre o passado e nada ou quase nada sobre o futuro. Mas isto é um problema nosso e não do futuro em si.»

    Sabemos do passado porque já aconteceu e já o apreendemos. O novo álbum do Pinho Vargas para mim é futuro. Ainda não o ouvi nem apreendi. Ele realmente existe?
    Se estou a falar dele provavelmente sim. E quem o ouviu já o tem "no passado". Então o problema é meu.

    É nosso defeito que não ouçamos uma música? Uma música existe antes de a ouvirmos?

    Se formos pelo raciocínio da ideia Platónica apresentada pelo Aires, existe. Já está lá, apenas ainda não foi descoberta por ninguém.

    E se formos por Goodman? Nesse caso a música parece não existir, visto que ainda ninguém sabe o que ela seja.

    Depois há ainda a dimensão do compositor que já compôs a partitura e "só ele conhece a música". A música existe por causa dele, e para mais ninguém.

    Ou ainda a reflexão do ideal: O novo single da Madonna de 2010.
    Este ainda ninguém o compôs. Mas já existe? Nós podemos pressupor a sua existência no futuro, mas ele ainda nem "idealizado" foi. Ou será que foi?

    Idealizar uma música é ter consciência que ela existe e vai ser descoberta/composta, ou isso dá-se no momento em que ela é "trauteada" na mente do compositor pela primeira vez?

    Ou ela só existe quando o compositor a fixa em partitura?

    Ou mais: ela só existe quando a partitura é executada pela primeira vez e realmente ela toma dimensão física (porque se converte em som audível)?

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  6. Creio que nem tudo será memória, pois se ouço as notas de uma fuga, em condições de compreender e distinguir o tema e o desenvolvimento do tema, mesmo que a ouça pela primeira vez, parte da compreensão que tenho da mesma assenta em expectativas que se geram na minha cabeça com base no que sei da teoria musical, da audição de outras peças, da minha sensibilidade, etc.

    Um exemplo simples é a antecipação que sentimos da tónica ao ouvir uma cadência perfeita. De certo modo, a tónica "já lá está", embora seja "futuro".

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