29 de outubro de 2008

Problemas com a regra de ouro

Uma das regras que os cosmopolitas defendem e invocam muitas vezes, é a regra de ouro. A regra de ouro tem uma versão positiva e outra negativa. A positiva diz que devemos fazer o mesmo bem aos outros que nos fizeram a nós e a negativa indica que não devemos fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos tenham feito. Muitas das vezes a base de muitas das regras em ética é simples. Pensar essas regras já é mais complicado. Vamos então pegar num caso: o leitor é médico e segue sempre a regra de ouro. Acontece que está a operar um doente testemunha de Jeová e este precisa de uma transfusão de sangue. Ora, se seguir a regra de ouro, deve ou não administrar-lhe a transfusão? A tendência mais intuitiva é dizer que deve administrar a transfusão já que está uma vida em causa. Mas siga a regra de ouro: imagine o leitor que além de médico é testemunha de Jeová. Quer o leitor receber o castigo do inferno por violar a palavra divina? Coloque-se no lugar do crente e avalie o problema.

12 comentários:

  1. Rolando

    Os médicos que são Testemunhas de Jeová escolhem especialidades não cirúrgicas para evitarem confrontar-se com dilemas éticos dessa natureza. Conheço um caso assim.

    Além disso a situação que indica está prevista no código deontológico dos médicos.

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  2. Olá Parente,
    Pois, uma solução é fugir ao problema. Se um indivíduo prometer a deus que não matará, como fazer perante um pedófilo que está a violar uma criança? Chama o 112? Em relação ao código deontológico: se ele estiver errado em alguns pontos pode ser revisto ou não?
    abraço

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  3. Rolando

    No caso concreto que apresenta, a minha posição é a seguinte:

    1) Constituiria um pecado grave para um católico se não impedisse um acto de violação de um menor;

    2)Para impedir esse acto, é necessário colocar o agressor na impossibilidade de fazer mal;

    3) Se durante os actos de defesa do menor, for provocada a morte do agressor de forma involuntária, esse acto não é considerado pecado; se houve a intenção de atingir esse fim - a morte do agressor - existindo a possibilidade de o dominar sem lhe provocar a morte, então é um pecado.

    Quanto ao código deontológico foi revisto no caso do aborto. Não por estar errado mas para se adaptar às leis civis.


    Já agora uma curiosidade: Gandhi defendia que em caso de violação sexual nos oferecessemos para sermos violados em vez da vítima...

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  4. A Regra de Outro equivale à 1ª fórmula do Imperativo categórico de Kant. Pode a máxima do médico (se me apetecer devo ajudar doentes que são testemunhas de jeová)ser universalizada sem contradição na concepção? Pode. Para todas os doentes que são testemunhas de jeová é perfeitamente concebível um mundo melhor do que este (um mundo em que é um dever perfeito ajudar os doentes que são testemunhas de jeová). O problema é que se pode aplicar o mesmo raciocínio para tornar permissíveis acções impermissíveis. Deste ponto de vista, a RO está sujeita às mesmas objecções da 1ª fórmula do IC.
    Abraço.
    Vítor João Oliveira

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  5. A regra de ouro não é quebrada:

    Segundo esta, fazemos ao paciente aquilo que nós no lugar dele gostaríamos que nos fizessem, caso estivéssemos bons da cabeça.

    Agora a sério: esse problema que colocas tem um reverso inaceitável - nao posso fazer ao bombista suicida aquilo que nao queria que me fizessem caso eu fosse um bombista suicida, ou seja, tenho de deixar o bombista matar em nome... nem sei bem de quê, mas pronto. Isto parece conduzir à inércia geral e transformar a regra de ouro numa anedota.

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  6. Caros,
    Eu quis expor uma fragilidade da regra de ouro. A regra de ouro só funciona se realmente tentarmos colocar-nos no lugar do outro. O pressuposto dessa regra é que temos de considerar os interesses dos outros. Não sei se estou a ver bem a coisa, mas parece-me que o Vitor Oliveira tem razão ao afirmar que a RO enfrenta as mesmas objecções que o imperativo de Kant (primeira regra), mas não sei se tem a mesma formulação. Tem?

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  7. A primeira formulação do IC identifica dois critérios para determinar o que é moralmente permissível e moralmente justificável. O primeiro é o critério da universabilidade: uma acção é moralmente permissível e justificável se e só se a máxima que lhe deu origem puder ser aplicável a todos os seres racionais, quer dizer, se a máxima puder ser universabilizada.
    O segundo critério é o da reversibilidade: uma acção é moralmente permissível e justificável se e só se a máxima que lhe deu origem for tal que qualquer ser racional esteja disposto a aceitá-la. Este critério é semelhante à Regra de Ouro, que diz: Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti. Para perceber melhor esta regra, devemos considerar o seguinte: para determinar se uma dada acção é moralmente permissível e justificável, devemos ser capazes de nos colocar no lugar dos outros e devemos ser capazes de decidir se desejariamos que nos fizessem a nós o mesmo que desejariamos fazer a alguém. Se a resposta for não, então não devemos realizar essa acção. A diferença entre o critério da reversibilidade e a Regra de Outro é que o critério da reversibilidade focaliza-se no princípio e não nas pessoas envolvidas. Em vez de considerar os aspectos particulares da situação, o critério da reversibilidade faz-nos considerar a possibilidade de aceitação do princípio envolvido. Quer dizer, se estivermos dispostos a aceitar que todos os seres racionais ajam com base num dado princípio, então esse princípio particular é reversível.
    Abraço.
    Vítor João Oliveira

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  8. Acrescento o seguinte: a ética kantiana tem como objectivo identificar um critério que permita saber se uma dada acção é certa ou errada. Kant considera que esse critério é o IC. Porquê? Segundo Kant, somos seres racionais e livres, que não se limitam a fazer coisas, mas que escolhem o que querem fazer. As nossas acções decorrem de princípios práticos que consideramos relevantes para as nossas vidas e que Kant designa de máximas. As máximas são princípios morais subjectivos, princípios válidos para nós. Será que Kant considera morais as acções realizadas de acordo com estes princípios? Não, porque Kant defende que uma acção é moral se e só se o princípio moral subjectivo (a máxima) puder ser aceite como princípio moral objectivo (a lei moral) por todos os seres racionais, isto é, se puder ser aceite e seguida por todos, sem que isso envolva qualquer tipo de contradição. O que significa isto? Para entender melhor esta ideia, Kant apresenta vários exemplos. Mas eu, para fazer os meus alunos entender isto, recorro à seguinte experiência mental:
    - Imagina que estás na fila da cantina e que começas a pensar se deves ou não passar à frente dos outros, uma vez que estás cheio de fome e que detestas esperar. Imagina que começavas a pensar no que aconteceria se todos pensassem como tu e começassem a passar à frente uns dos outros. Rapidamente perceberias que se instalaria o caos. Com efeito, se todos começassem a passar à frente um dos outros, deixaria de haver fila para passar à frente, o que seria contraditório. Portanto, se começasses a pensar em universalizar o teu princípio prático “Devemos passar à frente nas filas sempre que nos apetecer”, acabarias por entrar em contradição.
    Penso que é perceptível que a experiência mental funciona lindamente.
    Abraço.
    Vítor João Oliveira

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  9. "passa à frente dos outros sempre que os indícios de que eles não vão agir segundo máximas universalizáveis são fortes."

    he he

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  10. Como tinha já dito, uma das objecções mais populares refere-se ao facto de a 1ª fórmula do IC, assim como a Regra de Ouro, poder tornar permissíveis acções impermissíveis. Uma outra objecção habitual à 1ª fórmula do IC decorre do facto de qualquer acção poder ser descrita de inúmeras formas e de não haver, por isso, forma alguma de saber qual delas é a correcta.
    Abraço.

    Vítor João Oliveira

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  11. não concordando com os ideais das Testemunhas de Jeová, mas sendo cristã ( protestante) e seguindo uma ética coerente faria a transfusão de sangue claro!
    se o paciente morresse?
    não era a minha intenção ou a de qualquer médico matar o paciente e se pensar-mos que vamos parar ao inferno porque fizemos uma transfusão de sangue mal sucedida estaríamos a seguir uma ética que se baseia nas consequências e não na intenção!
    Mafalda Rodrigues

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  12. Eu adoro a Biblia por que ela tem a resposta certa pra tudo. O pouco que eu entendo sobre testemunhas de Jeová me dá a certeza de que eu posso falar com segurança de que se eles não crescem em Jesus, eles não nos incomodariam no domingo de manhã perguntando "O senhor teria um minuto para ouvir a palavra de Jesus Cristo?", então aqui está a resposta definitiva para o artigo:

    Mateus 12

    10 e estava ali um homem com uma das mãos atrofiada. Procurando um motivo para acusar Jesus, eles lhe perguntaram: "É permitido curar no sábado?"

    11 Ele lhes respondeu: "Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá?

    12 Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é permitido fazer o bem no sábado".

    13 Então ele disse ao homem: "Estenda a mão". Ele a estendeu, e ela foi restaurada, e ficou boa como a outra.


    Aí está a resposta de vocês.
    Somos seres humanos, nossa missão é fazer o bem, e não de seguir dogmas absurdos, mas é claro, a maioria dos dogmas é correta. A verdadeira religião não é a catolica, a evangelica, as testemunhas de Jeová, o espiritismo, a verdadeira religião é praticar a caridade, é fazer o bem, ta na biblia isso, só nao me lembr em qual parte, mas está la.

    Visitem meu site: lucrebem.com.br.

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