28 de Outubro de 2008

Realidade


Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Será toda a realidade empírica?

Afirmar que toda a realidade é empírica não pode querer dizer que toda a realidade pode de facto ser percepcionada por nós, pois é óbvio que a maior parte da realidade não pode ser percepcionada por nós: não observamos nem nunca observaremos dinossauros vivos, nem o Big Bang, nem quarks — apenas inferimos a sua existência com base noutros indícios que podemos observar. Portanto, afirmar que toda a realidade é empírica tem de querer dizer apenas que toda a realidade pode ser inferida do que podemos observar.

Mas isto tem o resultado de podermos ser obrigados a admitir que nem toda a realidade é empírica, se por “empírico” queremos dizer que tem localização espácio-temporal. Por exemplo, se é real tudo o que podemos inferir com base no que podemos observar, o tempo e o espaço são reais apesar de apenas podermos observar os seus efeitos e não os próprios tempo e espaço. Mas como o tempo e o espaço não podem ter localização espácio-temporal, não podemos afirmar que toda a realidade tem localização espácio-temporal.

Consequentemente, afirmar que toda a realidade é empírica quer apenas dizer que só devemos admitir como real o que temos boas razões para pensar que é real, independentemente de ser ou não observável em princípio. Mas isso é uma vacuidade e já se sabia desde o início. O que está e sempre esteve em causa e é precisamente saber se há boas razões para pensar que nem toda a realidade é empírica em qualquer sentido relevante do termo.

Bertrand Russell (1871–1970) defendia que nem toda a realidade era empírica. Em Os Problemas da Filosofia (1912), Russell argumenta contra a teoria da abstracção dos empiristas. A posição dos empiristas, como John Locke (1632–1704) e David Hume (1711–1776), era que só há coisas brancas particulares, mas não o universal da brancura. Tradicionalmente, o universal da brancura é a propriedade de ser branco, que está como que espalhada por todas as coisas brancas, mas não se confunde com elas. A brancura em si não parece ter localização espácio-temporal. A ideia foi pela primeira vez explorada por Platão (428–348 a.C.), mas não precisamos de aceitar o seu misticismo, mais tarde cristianizado, para aceitar universais.

A teoria empirista da abstracção visa eliminar os universais recorrendo à abstracção: as coisas brancas particulares seriam então semelhantes entre si quanto ao que por abstracção chamamos “brancura”, mas a brancura não teria qualquer tipo de existência. A objecção de Russell é que esta saída não funciona porque seremos obrigados a dizer que todas as coisas brancas são semelhantes, para que delas possamos extrair a ideia abstracta de brancura — mas a própria relação de semelhança é um universal precisamente como a brancura, sem localização espácio-temporal, pelo que ficámos na mesma.

Terá Russell razão? O debate sobre os universais prossegue, sem prestar atenção às notícias exageradas da Morte da Filosofia. A filosofia não morre desde que se insista em pensar outra vez.

4 comentários:

  1. Declarar que uma determinada ideia "morreu" é apenas uma maneira algo aristocrata de exclamar "isso não é fixe". É o que procuro explicar às pessoas quando ouço a expressão "o platonismo morreu", que em tempos também eu repeti mecanicamente porque estava mais interessado em ter pensamentos "fixes" do que em pensar alguma coisa de jeito. Acontece que para um determinado grupo de pessoas é "fixe" declarar a morte do platonismo. Sendo o Platão uma espécie de símbolo de tudo o que se abomina quando se é um irreverente materialista com laivos de pós-modernismo.

    Declarar a morte do platonismo é dizer que é inaceitável acreditar na verdade das teses platónicas e que é um disparate discutir os argumentos de Platão. Mas isto é em si tão absurdo como declarar que o tempo parou só porque tivemos um orgasmo de ideologia no momento t.

    É preciso um certo enquadramento mental para nos deixarmos levar por estas asneiras, e esse enquadramento é o seguinte: focar-se nas crenças, no conteúdo das afirmações, e não no teste permanente, no desafio constante, das afirmações. Na inferência, no raciocínio. Só uma cultura em que se afirma coisas por afirmar e cada um afirma o disparate que lhe dá mais tesão e vai à guerra com os outros é que pode abrigar este tipo de discurso, como o da morte do platonismo.

    É pensar que só aprendemos com um autor quando ele profere verdades invioláveis. Por isso é um pecado tão grande deixar os estudantes criticar os santos-filósofos à vontade. Que horror, não querem lá ver! Tem de se lhes meter na cabeça que as coisas não são assim tão "simples".

    Desculpem lá não conter a asneirada quando penso nestas bestas.

    ResponderEliminar
  2. Indo na mesma onda do Vítor, deixo um link para um post que fiz sobre o assunto. Não tão específico como o comentário do Vítor, mas mais abrangente.

    http://mindmakers.wordpress.com/2008/06/26/disfuncoesv/

    ResponderEliminar
  3. Desidério,
    Para existir dinheiro, propriedade ou casamento deve existir também agentes humanos conscientes. Isto pelo fato de que estes fenômenos não são independentes das mentes. Não é isso o que ocorre com os universais? Eles não existem de modo independente da mente, como ocorre com átomos, montanhas e mesas, mas isso não significa pura e simplesmente que eles não existem.

    ResponderEliminar
  4. Essa é uma das teorias: os universais seriam apenas o resultado da nossa abstracção. O realista como Russell argumenta que antes de haver seres humanos já havia certamente árvores da mesma altura, por exemplo, e isso parece só ser possível se houver uma relação entre as árvores -- e as relações são universais.

    ResponderEliminar