13 de outubro de 2008

A sacrossanta autoridade universitária


A propósito do meu post Filosofia e Humor houve um leitor que manifestou a sua opinião, dizendo que não só esse post, mas o próprio blog, não passam de um exercício de «botaabaixismo». Parte do post falava sobre a encenação de profundidade intelectual que pude observar enquanto passei pela universidade e que se reflecte em muitos do que passaram por lá e ficaram definitivamente marcados por isso.

Esta minha opinião vem pôr em causa a imagem algo acrítica e idílica do ambiente universitário português e, sobretudo, põe em causa a autoridade que a universidade representa. Aos olhos de muitos é como se estivesse a dizer que, aparte o seu valor formal, muitos de nós bem podíamos deitar os nossos diplomas de licenciatura ao lixo. Em rigor, não é bem isso que quero dizer. Mas se fosse? É impossível que isso tenha acontecido? Porquê? É bom exercer algum sentido crítico também em relação ao que nos diz respeito.

A verdade é que eu sou dos que têm em casa um desses diplomas e tenho de dizer que saí da faculdade quase ignorante, em termos filosóficos. Por que razão hei-de ter vergonha de dizê-lo? Não quero com isto dizer que não tenha tido um ou outro bom professor. E tive mesmo alguns professores que, não sendo brilhantes (nem tinham de o ser), eram honestos e esforçados no seu trabalho. Mas o resto (que foi muito) foi para esquecer.

Ora, dizer isto só parece escandaloso porque se está a pôr em causa a sacrossanta autoridade, à sombra da qual fomos muitas vezes adormecendo. Mas o mundo, incluindo as nossas universidades, estão cheias de falsas autoridades e é avisado pensar duas vezes antes de embarcar na conversa da autoridade.

Um tipo de comentário muito frequente entre estudantes de filosofia era que o professor X era um grande especialista no assunto Y. Dava a ideia que a faculdade estava cheia de especialistas em muitas coisas. Há tempos disse-me uma colega que o professor Pedro Paixão, da Universidade Nova, era um grande especialista em Wittgenstein. Eu, que não conheço Pedro Paixão a não ser dos seus romances, perguntei quais os livros que escreveu sobre Wittgenstein. E quais os artigos que publicou nas revistas especializadas? E que livros sobre Wittgenstein o citam? Na biografia de Ray Monk, por exemplo, nunca se refere Pedro Paixão, apesar de se referir tantos outros autores. E que outros especialistas em Wittgenstein referem Pedro Paixão? E em que colóquios e conferências internacionais sobre Wittgenstein Pedro Paixão tem participado? A colega não sabia responder a qualquer uma destas perguntas, mas acreditava que se tratava de um especialista em Wittgenstein. Tratava-se, portanto, de um especialista que ninguém da área conhecia e que nunca publicou algo relevante sobre o assunto.

Provavelmente, além de uma pessoa inteligente, Pedro Paixão é um excelente professor e é bastante bom a ensinar Wittgenstein. Mas está longe de ser especialista em Wittgenstein. Se Pedro Paixão é um especialista em Wittgenstein, por que razão não serei eu também especialista em Wittgenstein... na minha rua?

Isto faz-me lembrar uma piada que li nos últimos dias, precisamente no livro de Catchcart e Klein, que elogiei no meu último post. É sobre o recurso falacioso à autoridade e reza assim:
Um homem entra numa loja de animais e pede para ver os papagaios. O
proprietário mostra-lhe dois papagaios lindos que estão na loja.
- Este custa cinco mil dólares e o outro dez mil - diz.
- Uau! - exclama o homem. - Que faz o de cinco mil dólares?
- Este papagaio sabe cantar todas as árias de Mozart - diz o propietário da
loja.
- E o outro?
- Canta todo o ciclo de O Anel de Wagner. E tenho outro papagaio nas
traseiras que custa trinta mil dólares.
- Santo Deus! Que faz ele?
- Nada que eu tenha ouvido, mas os outros dois chamam-lhe «Maestro».

10 comentários:

  1. Aires,
    Dei uma resposta no teu post sobre o filosofia num bar, mas perdeu-se o raio do comentário e fiquei mesmo aborrecido! Paciência.
    Agora aproveito para fazer um esclarecimento. Fui aluno do Pedro Paixão em filosofia contemporânea. O tempo todo foi passado a ler o Ray Monk. Nunca discutimos os argumentos de Wittgenstein, nem o Pedro Paixão algum dia mostrou conhecer e discutir os argumentos de Wittgenstein. Limitou-se a contar a história pelo Ray Monk. As aulas do Pedro Paixão para um curso de filosofia foram completmente inuteis. Eu ia lá porque o homem é engraçado e mandava umas bocas giras e dava palavrões na sala de aula. Era um «streap tease erótico»(a expressão é de Savater)divertido, mas as aulas nunca demonstraram que o professor era especialista em Wittgenstein, nem por sombras. Mas também confesso que na altura divertiu-me ir às aulas daquele ser meio burguês e meio decadente, uma espécie de Adrian Mole em idade para ter mais juizinho, pois, pelo menos, ali ria-se um bom bom bocado, ao contrário do ar sisudo que falas da maior parte dos profundos do dasein.

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  2. Caro Aires,

    o link que colocou reporta-se ao meu comentário. Afirma que eu defendo que
    "não só esse post, mas o próprio blog, não passam de um exercício de «botaabaixismo»".

    é falso, porque eu não digo isso, mas sim que existem cada vez mais posts que, na minha opinião, reflectem essa atitude. Isto significa que parte considerável do blog não sofre deste mal.

    Acaba de fazer uma generalização abusiva, coisa da qual me acusou nos comentários do post, e que penso agora ser claro não o ter feito.

    E uma questão em relação a este post: Quando diz

    "Provavelmente, além de uma pessoa inteligente, Pedro Paixão é um excelente professor e é bastante bom a ensinar Wittgenstein. Mas está longe de ser especialista em Wittgenstein"

    significa que é melhor ser "especialista" do que ser excelente professor e bom a ensinar Wittgenstein? é o que o seu post leva a crer.

    É claro que digo isto na crença que ser "bom professor" inclua ser especialista naquilo que ensina.

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  3. Rolando,

    Eu não conheço o Pedro Paixão, como sublinhei. E, portanto, não o avalio nem sei avaliar como professor. O que eu disse não visa minimamente caracterizar o PP como professor. E até pode ser um excelente professor e ensinar de forma brilhante a discutir Wittgenstein.

    Só disse que não é especialista em Wittgenstein. Isso é algo que poderia afirmar sem precisa de ir às aulas dele.

    As nossas universidades estão a abarrotar de especialistas, génios e mentes brilhantes. É pena que que mais ninguém a não ser alguns dos seus alunos saibam disso. E admira como quase não há filósofos portugueses conhecidos internacionalmente. Não achas isto intrigante?

    Enfim, as nossas faculdades de filosofia são é grandes fábricas de mitos.

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  4. Eu tive a honra de ser aluno do Prof Pedro Paixão no último semestre incompleto que ele deu aulas antes de se reformar (Outubro a Natal de 2004), na cadeira de Experiência Estética e experimentação.

    O livro da cadeira era o «Aulas e Conversas» do dito Wittgenstein. Nunca tinha lido nada do senhor e fiquei fascinado.

    O estilo do Prof era o mesmo do livro. Andava de um lado para o outro dentro da sala a «provocar-nos» e a desenvolver raciocínios e estimular discussão.

    Conclusão: Não sei se o Prof Paixão era especialista em Wittgenstein, mas tinha muito jeito para emular o estilo dele enquanto professor.

    E tinha o mesmo jeito para nos cativar com problemas de toda a ordem, sem ser sisudo, autoritário ou dogmático. Era um tipo de professor que nos ensinava a pescar. E nos fazia ir por descoberta guiada. Não era qualquer um que o entendia. E isso para mim é ser um óptimo professor. Adorei aquelas aulas.

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  5. Caro Pedro Sargento,

    "Provavelmente, além de uma pessoa inteligente, Pedro Paixão é um excelente professor e é bastante bom a ensinar Wittgenstein. Mas está longe de ser especialista em Wittgenstein"

    «significa que é melhor ser "especialista" do que ser excelente professor e bom a ensinar Wittgenstein? é o que o seu post leva a crer.»

    Não, não significa nada disso e o meu post não leva a crer tal coisa.

    Dizer que A não é o mesmo que B não é o mesmo que dizer que A é melhor do que B ou vice-versa.

    Quanto ao número de posts botaabaixistas deste blog ser cada vez maior, lanço-lhe um desafio: diga-me quantos e quais os posts anteriores ao meu que são botaabaixistas. Não deve ser fácil e assim sempre pode justificar sua afirmação.

    O que está aqui em causa não é o Pedro botar-nos abaixo, mas ter razão no seu bota-abaixo.

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  6. Musicólogo,
    Realmente não devemos estar a falar do mesmo Pedro Paixão, mas é verdade que o assunto realmente não é questionar as qualidades do professor em causa. Mas no seu comentário há algo de curioso: como disse fui aluno de Pedro Paixão. Como disse também não o apreciei como professor de filosofia nem tenho ideia que 1) seja especialista em Wittgenstein e 2) que sequer discuta wittgenstein. O professor em causa estava o tempo todo a falar. Não tenho qualquer recordação de o observar a discutir com os alunos. Era uma pessoa excêntrica na linguagem e usava humor inteligente. E isso criava fascínio nos alunos, bem como a ilusão de que estavam a aprender a filosofar, quando tal não é verdade. Os alunos eram claramente passivos.Mas recordo que o Pedro Paixão sempre me pareceu ser boa pessoa e sem o pedantismo habitual dos academicos ou, pelo menos, o estatuto de escritor dáva-lhe o a vontade suficiente para exercitar o tal ar de Adrian Mole adulto. Não sabia que se tinha reformado. É ainda muito novo para se reformar, não? É, os universitários portugueses reformam-se muito cedo, em regra, a própria cátedra é uma reforma intelectual. E é pena, pois há muitos e bons especialistas em Wittgenstein que publicam livros sobre o filósofo, que dão aulas, conferências, etc. e que são mais velhos que o Pedro Paixão. O mito lusitano não dá mesmo para mais. A mim aborrece-me.

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  7. Eu fui aluna de Pedro Paixão e as aulas dele foram muito produtivas não em termos de "matéria" aprendida se com isso estivermos a falar de conteúdos. Foi muito produtiva no sentido em que me ensinou a "saber ler" e sobretudo pensar por mim, não me limitar a ouvir o professor e repetir de forma mais ou menos colada o que este disse. Por isso, concluo ser um bom professor.
    Em relação aos outros professores tive excelentes, bons, maus, péssimos. Tive professores que passam a aula inteira a sorrir, que estão constantemente a fazer uso da ironia. Não sei quando deixaram de ter aulas, não sei onde tiveram aulas, não sei os professores que tiveram, a minha experiência é que, por vezes, os professores apresentam um ar sisudo mas depois, quando estão a dar aulas, apesar de não apresentarem um sorriso digno de um anúncio de pasta para os dentes, estão constantemente a ironizar e a sorrir. Não podemos tomar a parte pelo todo.

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  8. Estive a reler o meu comentário e a última frase não está correcta, obviamente. O que eu queria dizer é: Não se pode tomar o todo pela parte. Ou seja, as generalizações são perigosas e enganosas.

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  9. Car(a)o Cfilosofia,
    Tem razão, as generalizações são enganosas. São-no sempre já que são induções que fazemos perante a realidade. mas podem ser mais ou menos fortes. A força duma generalização dá-se pelo número de casos apontados que podem ou não ser significativos.
    Mas há um aspecto que vale a pena clarificar: um professor para ser bom professor não precisa de ser especialista em coisa alguma, mas um especialista deve, em regra, ser bom na sua especialidade. O que o colega Aires colocou em causa não foi se o Pedro Paixão é bom professor, mas se o Pedro Paixão é especilista em Wittgenstein. E o Aires tem razão: então agora do pé para a mão eu digo que sou especilista em Husserll e a malta acredita em mim? Mas se eu for professor de universidade acredita mais facilmente, não? O que é que faz de um filósofo especilaista? Apresentar trabalho na sua especialidade. E isso foi o que o Aires perguntou à colega que lhe disse que o Pedro Paixão era especilista em W. A colega ficou sem resposta porque não existe resposta e porque é mentira que o Pedro Paixão seja especialista em W. Senão, quando tal, alguém me diz que é especialista em cardiologia mas nunca operou um coração e eu engulo somente porque esse alguém diz que é. Isto é infaltil e foi, penso, este tipo de comportamentos infantis que o Aires colocou em causa. E fê-lo muito bem já que este tipo de atitudes estupidifica o nosso trabalho como profissionais da filosofia. Para além disso, quando começei a ser professor de filosofia tive sempre um trabalho enorme para desmistificar a ideia que os da filosofia são todos um bando de tolos que ninguém os entende. Mas assisti, como assisto, a dezenas de histórias tristes de pseudo intelctuais formatados por professores como o Pedro Paixão. E isso é triste que aconteça.

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  10. Caro Rolando,

    Antes demais gostaria de pedir desculpa por não ter assinado, ficou por defeito o CFilosofia, o C vem de Carla.
    Depois deste breve esclarecimento deve dizer que concordo com o que diz. O que não falta são alunos (não, não me enganei) de filosofia que se dizem especialistas em... Não será de admirar que os professores se sintam com mais autoridade para o afirmarem. É um facto que proliferam pseudo intelectuais nos cursos de filosofia. Penso que todos temos a perder com isso. Infelizmente é essa a imagem que a maioria das pessoas tem de nós. E a culpa...

    Carla

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