12 de outubro de 2008

Saídas profissionais

Um leitor pediu-me que publicássemos algo sobre o problema da empregabilidade, em Portugal, dos licenciados (bacharéis, no Brasil) em filosofia. Na verdade, temos na Crítica, desde há alguns anos, um artigo de António Paulo Costa que continua perfeitamente actual: "A Empregabilidade do Licenciado em Filosofia em Portugal".

A este artigo eu apenas acrescentaria o seguinte: a formação dada por algumas universidades portuguesas é por vezes inadequada porque se baseia numa concepção aristocrática da filosofia, segundo a qual esta consiste fundamentalmente numa espécie de cultura geral obnubilada para ocupar tempos livres de ricos. Consequentemente, nada se ensina que tenha qualquer tipo de aplicação excepto como ocupação de tempos livres de ricos — o que evidentemente não cativa empregadores. As competências normais da filosofia — capacidade argumentativa e de análise, resolução criativa de problemas difíceis, clareza e precisão de raciocínio — cativam empregadores noutras partes do mundo, mas em Portugal são por vezes vistas como redutoras. E são: reduzem a filosofia ao que ela sempre foi historicamente, e afastam-na da concepção aristocrática que as classes sociais endinheiradas têm dela.

5 comentários:

  1. Acrescento ainda que em relação a este problema tenho dois textos publicados em: http://rolandoa.blogs.sapo.pt/search?q=empregabilidade&Submit=OK
    abraço

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  2. Será possível colocar o artigo "A Empregabilidade do Licenciado em Filosofia em Portugal" disponível para todos?

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  3. Domingos: sou tradutor da crítica e passo boas horas do meu tempo livre a escrever e a traduzir para a mesma. É algo que dá trabalho e exige dedicação, para não nos limitarmos à simples masturbação aristocrática do universitário púbere, armado em clandestino revolucionário, mas a textos com pés e cabeça. Isso consome horas e portanto, consome a riqueza de quem os produz.

    Se ao pagar o raio da bica ou do croissant na cafetaria da esquina não nos parece "opressivo" pagar o suficiente para que o vendedor também pague à empregada da limpeza, que merece o seu, por que razão hão-de os trabalhadores da crítica partir pedra a troco de nada, quando temos milhares de leitores dos artigos livres e apenas meia dúzia de subscritores? As pessoas que consomem uma média de 5 bicas por dia não podem pagar o mesmo que 8 bicas mensais por um produto que consideram mais valioso que um café, ao ponto de o querer ler? Paga-se mais pelo jornal diário, que tem mais publicidade e conversa oca do que outra coisa.

    Atenciosamente

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  4. Com alguns meses de atraso, deparo-me com esta sequência bloguiana. Enquanto licenciada ( em filosofia, curiosamente) e detentora do dito texto, que imprimi, faz anos, acho deplorável e francamente patético, que o sr tradutor, que afinal de contas, nao cansa assim muito a cabeça, porque o que faz, faz sobre a cabeça dos outros, nao tenha tido a delicadeza natural de responder como deveria, a um potencial leitor da revista.
    È triste e ao mesmo tempo, faz rir, que aos senhores que se consideram tão grandemente graduados, a leitura nao sirva de muito.

    Valeu a elegante e inteligente resposta do Domingos.

    Atentamente,

    Ana Amaro

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