27 de outubro de 2008

Sartre e o anti-semitismo, de George Orwell

O anti-semitismo é obviamente um assunto que precisa de ser seriamente estudado, mas parece improvável que o venha a ser nos próximos tempos. O problema é que enquanto o anti-semitismo for encarado simplesmente como uma aberração vergonhosa, quase um crime, qualquer pessoa suficientemente literata para ter ouvido a palavra irá obviamente declarar-se-lhe imune; e em resultado disso, livros sobre o anti-semitismo tendem a ser meros exercícios de tirar argueiros dos olhos dos outros. O livro de Monsieur Sartre [Portrait of the Anti-Semite, trad. ingl. de Erik de Mauny] não é excepção, e nada ganhou provavelmente por ter sido escrito em 1944, no período de embaraço, autodesculpabilização e caça às bruxas que se seguiu à Libertação. [Mais...]

4 comentários:

  1. Orwell era de uma lucidez incomum. Faz-nos falta hoje o seu amor à precisão e a sua luta contra a mentira -- incluindo a mentira que vive da linguagem vaga e dos lugares-comuns. Este texto mostra-nos Orwell no seu melhor, sem se inibir de desconstruir as ideias de Sartre, coisa que ainda hoje quase ninguém se atreve a fazer entre nós. Outra coisa é saber se as críticas de Orwell são justas. Isso eu não posso saber porque não li o livro de Sartre que ele refere.

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  2. Curiosa tendência que na academia se tem para transformar os textos dos autores numa de duas coisas: ou textos sagrados ou textos execrados.

    Assim, toda a gente abomina o anti-semitismo mas não o discute realmente, o que só pode resultar no enfraquecimento das posições que contrariam o anti-semitismo ou o racismo em geral. Contudo, todos veneram autores obscuros, apesar de terem sido anti-semitas e quando não ignoram este facto, ou aplicam-lhe doses cavalares de hermenêutica eufemística, que impedem mais uma vez a discussão do anti-semitismo, ou tentam separar simplesmente a "política" da "filosofia", como no caso Heidegger. E quem procura pensar qualquer destas coisas com clareza é olhado de soslaio e denominado "redutor" ou "ingénuo".

    ... O que nunca aparece são razões a sustentar afirmações. Só esgares...

    Agora outra coisa:

    lembro-me de uma aula na universidade em que um professor falava de Descartes e a propósito de não sei que batata, falou em Pedro Calderón de la Barca, dramaturgo renascentista espanhol. Acompanhou a sua referência a "la vida es sueño" com estas palavras: "que todos seguramente leram."

    Meditem neste "seguramente", é aqui que se concentra, em germe, toda a merda que está a poluir a vida universitária neste nabal de país.

    Já agora: EU AINDA NÃO LI O CALDERON DE LA BARCA (como de resto praticamente ninguém naquela aula). E entre as coisas que lamento na minha vida universitária foi não ter reagido em momentos como este com o escárnio que semelhante pose merece. Soubesse eu o que sei hoje, mesmo sem ter lido todos os clássicos que há para ler. Mas o problema é que naqueles tempos eu não só não era melhor como imitava aquela cultura de merda até à quinta casa do enfastiamento...

    Quando nos libertamos desta atmosfera pá? Quando é que esta merda acaba?

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  3. Link actualizado: http://criticanarede.com/ed_123x.html

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